Trono De Sangue
11 Capítulo 11 O PRÍNCIPE DOS LOBOS!
Notas iniciais
As terras de Irġielkiesaħ já se mostravam cobertas pela neve que mais parecia um grande tapete branco. O vento soprava as folhas que ainda resistiam nas árvores altas e o ar entrava pelas narinas, gélido e com os aromas naturais de musgo e folhas já em decomposição.
Kamus cavalgava com Hyoga ao seu lado, verificando as fronteiras e cercas que divisavam as terras de seu clã. De vez em quando, viam os lobos caçando e aves de rapina planando no céu limpo. Os dois tinham uma sintonia com aquele lugar frio e o mais jovem sempre aceitava passear com seu irmão para conversar e trocar ideias. Porém, nesse momento em especial, ele tinha uma intenção, em especial, sua mãe lhe havia aparecido em sonho e enviado uma mensagem para Kamus.
Mesmo tendo intimidade com o irmão, Hyoga temia o julgamento de Kamus, já que desde pequeno, tinha sonhos, visões e exibia uma saúde frágil. Agora, aos catorze anos já era um rapaz e evitava comentar suas viagens ao mundo inexplicável de seus sonhos e visões, fingindo que elas estavam relegadas à sua infância. Entretanto, não poderia deixar de passar a mensagem que lhe fora pedida.
– Kamus, eu ... tenho uma mensagem para você. – disse por fim.
– Mensagem? – perguntou o jovem senhor franzindo o cenho.
– É, uma mensagem da minha mãe. Eu sei que nunca mais tinha falado sobre isso, mas... eu continuo sonhando com ela. Ela me mostra coisas e... bem, neste último sonho ela pediu que eu lhe dissesse algo.
– E o que ela pediu para me dizer?
– Disse que para vencer sua prova, você deve ver “com olhos de lobo” e não com olhos humanos. Ela falou: “A mente, mente. O coração sente. E os olhos da alma se abrem para além do visível.”
– Ela disse isso? – perguntou Kamus, perplexo.
– Disse. E também pediu que eu lhe desse isso.
– O que é? – perguntou Kamus vendo que Hyoga lhe estendia uma pequena bolsa.
– Trufas brancas, também conhecidas como “Mhéarna Sióg”.
– Você está me dando uma trufa que é usada como uma droga? – falou Kamus estreitando os olhos.
– Na dose certa e com um propósito, a Mhéarna Sióg ajuda a expandir a mente. Minha mãe disse que homens muito racionais e fechados, emocionalmente, tem dificuldade de aceitar o que não podem ver ou controlar. Ela vai ajudá-lo a ver com outros sentidos que não apenas com os olhos. Você saberá como um lobo vê o mundo.
– Posso não ser expansivo, emocionalmente, mas sei como os lobos enxergam. Esquece que, desde criança, tenho um lobo como amigo? Creio que Raio me entende mais que os da minha espécie.
– Você acha que sabe. Sua mente analisa o comportamento, a forma como ele rosna ou uiva. Mas, compreende o que se passa aqui dentro? – perguntou Hyoga levando a mão ao peito na altura do coração. – Minha mãe disse que todos os senhores do clã usaram-na, a primeira vez. É um ritual de iniciação. Nosso pai aceitou quando ela deu a trufa a ele. Foi a partir daí que, abrindo a sua percepção sobre a realidade ele compreendeu que nenhuma religião é capaz de ensinar ou abranger a grandeza do universo.
Kamus olhou firmemente para o irmão. Hyoga em nada lembrava a criança emotiva que chorava por falta da mãe e andava sonâmbulo pela fortaleza. Havia nele uma segurança e uma altivez, admiráveis. O jeito como falava, parecia um ancião e não um garoto.
Os olhos azuis estavam fixos em si e Kamus aceitou a oferta. Podia ser estranho, mas acreditava no rapaz. Hyoga não convivera com Dégel o suficiente para saber tantos detalhes sobre a personalidade do pai e, mesmo assim, falava como se o tivesse conhecido intimamente.
– Muito bem, e quanto devo comer desta trufa? – perguntou por fim.
– Apenas um pequeno pedaço. Faça-o uma hora antes de entrar na Floresta Negra.
– Farei isso como prova de confiança em você, irmão. Espero não me arrepender!
Hyoga sorriu. – Não tenha medo, irmão. Fará bem a você abrir mão do controle, pelo menos uma vez.
– Você fala isso como se fosse algo terrível, mas não é. Se não fosse o controle que tenho, estaríamos sujeito a toda sorte de privações e imprevistos.
– Eu sei. Mas, em algum momento, você precisa vivenciar a experiência de apenas existir, independente de ter de fazer a coisa certa. Acredite, você vai gostar.
0000****0000****0000
Milo acordou com um uivo de lobo. Longe, do outro lado da fortaleza, ouviu um sino repicar e levou a mão aos cabelos, esfregando os olhos sonolentos. Desde quando havia lobos em Berkehell? É claro que tinha sido um sonho! Um sonho onde olhos vermelhos espreitavam como duas brasas ardentes e isso o deixava excitado... Loucura! Devia ser efeito do vinho que tinha bebido, antes de se deitar!
– Bom dia, meu senhor! – disse Halona entrando nos aposentos de seu senhor com uma bandeja contendo uma ânfora com água fresca e uma toalha de linho.
– Bom dia, Halona. Meus irmãos já estão de pé?
– Desde muito cedo, meu senhor. O senhor Shun tossiu um bocado esta noite, mas mesmo assim levantou-se antes do alvorecer para praticar com a espada.
– Shun está doente?
– Creio que seja friagem. Ele se esforça, em segredo, para agradar o senhor Ikki.
– Mande que ele venha aqui, por favor! – disse Milo levantando-se da cama.
– Sim, meu senhor. – respondeu Halona, contendo um suspiro ao notar o corpo seminu do jovem senhor.
Shun estava no pátio, lutando contra um inimigo imaginário quando Halona o chamou. De imediato, ele foi até Milo, encontrando-o já vestido e pronto para o desjejum.
– O que foi irmão? – perguntou o rapaz enxugando a testa suada com a manga da camisa.
– Halona disse que você tossiu muito à noite e acordou quando ainda estava escuro. Por que exige tanto de si mesmo?
– Ikki é muito bom com a espada. Na verdade, ele é o melhor. Até Kanon diz isso. Não quero ser um fardo, o caçula inútil que precisa ser protegido. Preciso, ao menos, ser razoável e para isso preciso treinar.
– Entendo. Mas, não force demais ou acabará doente. Eu não sei manejar a espada, mas sou bom com o arco. Quem sabe possa me ensinar uns golpes básicos?
O olhar de Shun se iluminou e ele sorriu. – Claro! Quer começar hoje?
– Sim. – respondeu Milo. – Mas, antes, vamos comer alguma coisa.
O jovem assentiu e Milo o abraçou, andando em direção às escadas. Quando chegaram ao grande salão, Ikki já os esperava à mesa, junto com Kanon e Saga. Havia pão quente, mingau de aveia, creme, queijo, carne seca e mel. Todos comeram em silêncio, até Saga agradecer a hospitalidade e depois se pronunciar.
– Senhor Milo, creio que agora já podemos falar em planejar estratégias para combater Hades. Precisamos de aliados e, assim como o senhor se tornou líder, aqui em Berkehell, em Irġielkiesaħ, Kamus Roux Larc também assumiu seu clã. Os senhores devem ter a mesma idade e eu creio que uma aliança entre vocês seria apropriada e muito frutífera.
– O filho de Dégel? Se for como o pai, vai querer ficar bem quietinho com o rabo entre as pernas ou então rastejar como um cão obediente aos pés de Hades! – disse Milo com desdém, mordendo um pão com mel.
– Dégel era um homem honrado, Milo. Não o julgue precipitadamente. – falou Saga.
– Pois o que eu sei é que, enquanto meu pai erguia a voz contra a tirania, ele dobrava o joelho e se mudava para a corte de Regulus. – rebateu Milo.
– Saga tem razão, Milo. Cada um age segundo suas crenças e Dégel tentou à sua maneira. Porém, no fim, também retirou seu apoio ao tirano. O clã Akkwarju é reconhecido pela sua coragem e força. Não é à toa que seu símbolo é o lobo. Uma aliança com eles se faz indispensável na luta contra Hades. Você poderia tentar, pelo menos. – falou Kanon.
Milo lembrou-se do uivo que ouvira e ficou pensando. Será que era um sinal? Talvez o deus Sombrio estivesse querendo dizer-lhe algo...
Agora, era um senhor e ser um líder exigia dele a difícil arte da diplomacia. Ele era franco demais e pouco cuidava o que dizia. Mas, até que seria divertido conhecer o clã que, segundo as histórias que ouvira quando criança, tinha homens capazes de correr com os lobos e matar, apenas com as mãos...
– Muito bem, então. Vamos conhecer esse tal... Kamus!
0000****0000****0000
Kamus compreendeu, instintivamente, no momento em que entrou na floresta Negra o que era ter “olhos de lobo”.
Todos os seus sentidos experimentaram uma conexão intensa e primitiva com tudo ao seu redor. O uivo estridente do vento em seu ouvido e o frio cortante tocando o seu corpo parecia uma carícia selvagem da floresta, algo que em seu íntimo, sempre tivera aquela conotação, mas agora, não era um pensamento ou conceito e sim uma realidade física que se espalhava por toda a sua pele...
Raio saltitava ao seu lado por entre os flocos finos de neve e sua respiração deixava um rastro de névoa brumosa no ar. Porém, quando ele chegou à entrada fechada e densa, onde devia se aprofundar, o lobo estancou e olhou-o com firmeza, apoiando-o de forma silenciosa e confiante como se fosse um de seus irmãos... E ele era.
Kamus não diferenciava mais Raio de Hyoga e Fenrir, assim como não via mais a si mesmo como homem. Não havia limite entre ele e o lobo. Sua percepção dos cheiros, da aura da floresta, dos movimentos incessantes de insetos e animais pequenos, tudo estava envolto em uma sensação visceral e viva que sobrepujava a sua mente, deixando-a aprisionada em algum lugar, onde ela dançava por entre labirintos solitários, em tons de cinza...
As árvores pareciam ter uma aura de calor avermelhado, mesmo com todo aquele branco cobrindo tudo. Cada coisa tinha um aroma que lhe impregnava as narinas e se transformavam em gosto dentro da boca...
Então, ele surgiu. O grande lobo negro emergiu das profundezas da floresta, sondando-o com olhos rubros e cintilantes. A noite já substituíra o dia e Kamus sentia-se pleno e à vontade na escuridão, mesmo que seus olhos humanos não pudessem enxergar no escuro. Parecia que um outro tipo de visão tinha sido aberta e o tornava parceiro das sombras noturnas, fazendo-o fixar-se nas orbes do lobo gigantesco que rosnava, como que questionando as intenções que o tinham levado até ele.
Os dois se estudaram, sem nunca desviar os olhos um do outro. Os outros lobos se moviam a volta deles, rosnando baixo, enquanto o líder apenas olhava.
Kamus enxergou a si dentro daqueles olhos, uma parte primitiva e selvagem que pedia passagem, lenta e ferozmente...
A neve caía e ele estava nu, sem roupas ou proteção. Sangue quente escorria pelo punhal em suas mãos e manchava seu corpo vigoroso. Ele não sabia racionalmente em que parte de sua jornada fizera aquilo, nem tinha lembranças humanas de como abatera o alce que agora estava morto aos seus pés.
Havia o gosto de sangue, a textura da carne rija e latejante ao aprofundar-se do punhal e a sensação de ser um com o animal abatido. O coração disparado, o vigor do cervídeo correndo junto em suas veias, a morte que se seguiu, após a luta acirrada. Tudo era claro e simples, a teia da vida se entrelaçando entre predador e presa...
O cheiro da morte era quente e denso, mas diferente do odor da vida, ia perdendo, aos poucos, a energia que fazia parte de tudo, da planta, da terra, da pedra, dos animais e se dissipava em meio ao frio e à neve macia...
O lobo negro se aproximou cheirando a oferenda, os olhos fixos no homem a sua frente. Os outros se mantinham à espreita, esperando... Kamus estava agachado, o corpo em postura semelhante a do lobo que o estudava.
Então, o líder abocanhou a carne oferecida, rasgando com os dentes um grande pedaço, sacudindo o corpo inerte do animal. A seguir, os outros se aproximaram e a eles foi permitida uma parte da oferenda de Kamus. Ruídos de dentes, prazer e igualdade ecoaram pela floresta fria. O lobo negro ainda permitiu uma parte ao caçador e Kamus mordeu a carne quente e sangrenta que lhe pareceu inebriante, suculenta e plena de sabor...
O senhor do clã Akkwarju ficou entre eles, aprendendo, escutando, tornando-se irmão dos animais que agora o tinham como igual...
Ao final de seu tempo de lobo, Kamus deixou a alcateia e retornou para o convívio dos homens. Era estranho sentir-se homem, novamente. O contato com as roupas, antes abandonadas, a visão das coisas sem os matizes intensos misturados ao gosto e ao cheiro sem limites e, ao mesmo tempo, distintos em cada porção experimentada.
Ele se lembrava de tudo, mesmo que agora sua mente assumisse o controle e o colocasse, novamente, na realidade de seu papel como líder. Havia aprendido sobre os rigores e prazeres, sobre a vida e a morte. Os lobos eram fiéis, companheiros e guerreiros admiráveis. Sabiam confiar em si mesmos, mas também na força do grupo.
Seu corpo estava cansado e havia cortes na pele alva, o vento fustigava seu rosto, bagunçando os cabelos vermelhos já em desalinho. Mas ali estava ele, sentindo uma inteireza única e, pela primeira vez, compreendendo que o homem, apesar de achar-se supremo em sua inteligência, tinha muito a aprender...
0000****0000****0000
Um sopro frio chicoteou o rosto de Milo que tinha Ikki e Shun ao seu lado. Aceitando a sugestão de Saga e Kanon, ele estava dirigindo-se à Irġielkiesaħ para uma visita. Em um primeiro momento, cogitara levar Kanon, mas, assim como ele próprio ficara tanto tempo afastado dos irmãos, deixaria seu comandante usufruir mais da companhia de Saga, já que logo, ele, empreenderia mais uma viagem para unir os clãs menores em prol da causa que se tornara prioridade: depor Hades e trazer a paz à Darneheim.
Ikki olhava em volta com o cenho fechado. Parecia que já tinham passado por aquelas árvores e as montanhas pareciam tão distantes quanto antes. Shun ria junto com Milo e os dois bafejavam simulando estarem fumando. Na verdade, atento ao caminho, havia somente ele, Ikki, e como já estava ficando tarde, sua preocupação se acentuou.
– Milo! Acho que estamos andando em círculos! Já devíamos, ao menos, enxergar a floresta. – disse Ikki.
Milo olhou em volta, estreitando os olhos. Tinha se distraído tanto com Shun que perdera a atenção. Mas, como sempre, Kanon lhe dera um mapa, então era só olhar de novo e retornar ao caminho certo.
Três horas depois, encontraram a trilha que levava a uma das florestas que protegia Irġielkiesaħ deixando-a escondida no vale profundo em que tinha sido construída. A primeira floresta, também conhecida como Brúðarskýlan era composta de pinheiros brancos, por isso o nome que significava “Véu de noiva“. Irġielkiesaħ vinha logo a seguir e depois dela, começava a Floresta negra, uma extensão fechada e densa onde a entrada era permitida, apenas aos senhores do clã e guerreiros.
– Logo vai anoitecer e, pelo mapa, ainda tem um bom chão pela frente. Vamos ter que acampar aqui. – disse Ikki, ainda preocupado.
– É, eu não devia ter me distraído. Esse frio é foda! Pelo deus Sombrio, como conseguem viver nesse gelo! — disse Milo desmontando do cavalo.
Shun começou a tossir, tentando conter-se, mas seu corpo logo foi sacudido, intensamente.
– Shun, desde quando está com essa tosse? – perguntou Ikki franzindo o cenho.
– N-Não é nada, Ikki! Que coisa! Parece que eu sou feito de cristal! – respondeu Shun virando o rosto.
Ikki bufou, mas não falou mais nada. Afastou-se, irritado e foi procurar gravetos e lenha para acender uma fogueira. Ninguém sabia, mas ele conhecera uma jovem e se apaixonara por ela. Os dois, apenas, trocavam olhares, quando ela surgia na janela de sua casa. Um dia, ele a viu tossir e ela sorriu, desculpando-se pelo resfriado. Eles nem puderam conversar e ele a deixou, prometendo voltar na semana seguinte. Quando ele voltou, recebeu a notícia que ela tinha morrido vítima de uma doença fulminante dos pulmões. Ele jamais compartilhara essa dor, mas agora, vendo seu irmão tossir daquele jeito, a memória do fato saltou rápido em sua mente.
Shun o viu afastar-se e sentiu-se culpado. Não devia ter sido rude com o irmão, mas também já estava com catorze anos e queria ser tratado com menos cuidado.
– Eu não queria magoar o Ikki, Milo... eu só quero que ele se dê conta que eu cresci e não sou mais um menino. – disse Shun, ainda vermelho pelo ataque de tosse.
– Ikki cresceu rápido. Dê um desconto a ele por querer protegê-lo. Eu fiquei fora por muito tempo... É natural que ele assuma este papel. De nós três, o Ikki, de longe, sempre foi o mais certinho e o mais enfezado. – disse Milo. – Mas, em uma coisa ele tem razão, essa sua tosse tá feia, Shun.
– É só um resfriado.
– Mesmo assim, toma, se enrola nesse cobertor que eu vou preparar um vinho quente com canela, assim que acendermos a fogueira.
Nem bem Milo se preparara para tirar as coisas da bolsa de couro, viu Ikki correndo em sua direção gritando:
– Lobos!
– Hã? – Milo estancou quando viu uma matilha de lobos enormes correndo atrás de seu irmão.
– São muitos, Milo! – disse Shun com os olhos arregalados.
– Merda! Shun venha aqui! – disse Milo olhando para o pinheiro branco e alto.
– O que vamos fazer?
– Vou ajudá-lo a subir! Venha rápido!
O jovem obedeceu e Milo impulsionou-o para que ele se segurasse em um galho e pudesse subir. Depois, Milo pegou seu arco e apontou. Seu olhar astuto mirou naquele que parecia o líder da matilha, embora ele fosse destoante dos demais. Um gigantesco lobo negro! Pelo deus Sombrio, o que era aquele animal? Pensou enquanto retesava a corda do arco.
Ikki tropeçou na neve espessa e caiu. Milo não pensou duas vezes e disparou. O lobo, inacreditavelmente, desviou, mas ainda assim a flecha raspou em seu flanco e ele ganiu. Os outros lobos se posicionaram em semicírculo rosnando até que uma voz grave e profunda se fez ouvir:
– Noite!
O lobo firmou-se com sangue nos pelos negros e um homem com cabelos repicados e olhar feroz aproximou-se, enquanto os lobos se mantinham em posição de ataque. Milo olhou-o, baixando o arco e ia dizer algo quando Fenrir saltou em sua direção pegando-o pelo pescoço com tanta violência que Milo ofegou.
– Quem são vocês e como ousam atacar os lobos do nosso clã?
– E-Ei... e-espere...D-Dá prá parar de apertar o meu pescoço? – falou Milo tentando evitar o estrangulamento.
Ikki atirou-se sobre as costas de Fenrir e Shun desceu da árvore para ajudar, quando os lobos rosnaram, principalmente o enorme lobo negro que, mesmo ferido avançava na direção dos três engalfinhados .
– Solte o meu irmão! – disse Ikki preso às costas de Fenrir, enquanto Shun corria em direção ao lobo negro.
O lobo fixou os olhos dourados e ferozes nos verdes de Shun e algo estranho aconteceu. Ao invés de rosnar, ele estancou, em profundo silêncio, parecendo uma escultura viva. Sem nem pensar, Shun levou a palma da mão na direção da cabeça do lobo e ele recuou um pouco, mas não rosnou. O garoto murmurou algo e o lobo fez um som semelhante a um ganido estrangulado que fez Fenrir desviar a atenção de Milo para o seu lobo.
– Não ouse tocar nele! – gritou Fenrir.
Shun ajoelhou-se e abaixou a mão. De imediato, o lobo gigantesco lambeu-o no rosto. A língua áspera deixando um rastro de saliva na bochecha do garoto que riu, sentindo cócegas.
Furioso, Fenrir soltou Milo e livrou-se de Ikki com uma manobra ágil que o atirou no chão.
– A mim, Noite! E vocês, vêm comigo. Meu irmão já deve ter voltado e decidirá o que fazer com vocês!
– Por acaso, seu irmão é Kamus? – perguntou Milo passando a mão no pescoço que ficara com as marcas das mãos de Fenrir.
– Sim e já vou avisando que invadir e ferir um lobo é crime, aqui em Irġielkiesaħ.
– Não somos invasores! Viemos falar com seu irmão. Eu sou Milo, senhor do clã Skorpjun e viemos em paz!
– Ah é? Isso é o que veremos!
– Como vamos nos deslocar à noite? – perguntou Ikki.
Fenrir sorriu. Os caninos brancos e salientes se revelando em uma incrível harmonia com a sua expressão lupina.
– Este é o meu lar, invasor. Posso percorrer quilômetros de olhos fechados. Agora vamos, não quero perder a volta de meu irmão.
– Ele estava viajando? – perguntou Milo.
– Não interessa. Não quero conversa com vocês. Agradeçam por não ter matado meu lobo. Se o fizessem eu teria destroçado os três e atirado os pedaços ao resto da matilha! – disse Fenrir montando no cavalo que deixara atrás dos pinheiros.
Milo franziu o cenho e olhou para Ikki e Shun. Com aquelas mãos grandes e fortes, aquele rapaz não parecia muito sociável e tinha algo de primitivo nele que o fazia parecer-se com os lobos que agora haviam se embrenhado na floresta e sumido das vistas de todos.
Ikki permanecia em silêncio, observando tudo quando Shun aproximou-se de seu cavalo.
– Ikki, desculpa o que eu disse. Eu não quis magoá-lo.
– Eu sei, Shun. – disse o moreno rápido e seco.
– Você ainda está magoado, dá prá sentir no modo como está falando comigo.
– Não estou magoado, apenas quero observar tudo o que posso. Se precisarmos fugir, tenho que ter uma ideia do lugar onde estamos. – disse o moreno.
– Fugir? Por quê? Quando Milo falar com Kamus tudo vai se esclarecer e vamos ficar bem. – disse Shun sentindo que mais um acesso de tosse estava vindo.
– Você e Milo são confiantes demais. Esse Fenrir parece um animal andando sobre duas patas. Sabe-se lá como serão os outros e esse tal Kamus.
Em meio à tosse, Shun sorriu. Ikki era sempre desconfiado de tudo, enquanto ele e Milo estavam sempre abertos...
– Ah, irmão... viu como aquele lobo foi carinhoso comigo?
– Vi. Mas, foi só com você.
– Ele gostou de mim. Então, eu presumo que as pessoas também gostem se eu não lhes fizer mal.
– Isso é clichê e totalmente ingênuo. Nós viemos a um lugar estranho e já desrespeitamos um dos costumes locais. Não creio que sejamos bem-vindos. – respondeu Ikki.
Milo ouviu o que Ikki dissera e seu peito apertou. Era o senhor do seu clã e, suas ações, agora, desencadeavam consequências que podiam ser boas ou ruins. Ikki tinha razão, ele não podia ser ingênuo e acreditar ser recebido de braços abertos. Então, era hora de pensar em um plano de emergência, caso algo desse errado...
0000****0000****0000
Kamus retornara a Irġielkiesaħ e fora recebido por Hilda e Hyoga que já esperavam-no, ansiosos. Quando ele adentrou o grande salão, houve um instante de silêncio, os cabelos vermelhos estavam emaranhados, a barba cerrada, mas a expressão era de um poder extremo e, densamente, masculino e viril. Os criados correram a preparar-lhe um banho e Hilda fez-lhe a barba.
Saori que ficara longe, apenas espiando, sentira um arrepio no ventre e um formigamento entre as pernas. Kamus parecia tão animalesco, mas isso a excitava. As “brincadeiras” que fazia com Seiya quando iam até a floresta deixavam-na molhada e imaginando se seria assim com Kamus.
Embora fosse mais jovem, Seiya a beijava e tocava com maestria. O lento deslizar da língua dele para o interior de sua boca e depois em seus seios era maravilhoso e, há muito custo, ela conseguia interromper as carícias para que permanecesse donzela. A vez em que ele levara os dedos até sua intimidade e a tocara até que ela estremecesse, enquanto roçava a ereção em suas coxas quase fora a sua perdição. Porém, ela era forte. Não sabia até quando... Pois, precisava desse diferencial, precisava ir virgem para a cama do senhor de Irġielkiesaħ e ser aquela que receberia a sua semente e lhe daria um filho.
Penteado, barbeado e vestindo uma túnica de lã verde musgo e uma calça de lã negra justa, Kamus adentrou o banquete em sua homenagem. Saori suspirou e metade do salão, também. Ele estava sério, magnífico e mantinha aquela aura de poder que parecia emanar de todo o seu corpo. Hyoga abraçou-o e ele buscou ver Fenrir, em algum lugar do salão. Quando ia perguntar ao irmão mais novo, eis que surge ele, acompanhado de três estranhos. O olhar de Kamus recaiu, direto, sobre o loiro de tez bronzeada, cujos olhos azuis pareciam duas safiras cintilantes e poderosas.
– Irmão! Eu sabia que venceria! Sinto estragar este banquete com más notícias, mas peguei estes três invadindo e o loiro, aqui, atirou no Noite. Sorte que meu lobo é tão esperto e rápido quanto eu e desviou. – disse Fenrir olhando torto para Milo.
Milo conteve um sorriso. O que aconteceria se eu atirasse um graveto para ele ir buscar? Ele se acha muito esperto! Só se for em sonho...Agora, o irmão dele tem uma coisa...Aqueles olhos são os mesmos que eu vi em meus sonhos! E pelo deus Sombrio, ao vivo, o efeito dele em mim é ainda mais forte... Disse o escorpião para si mesmo, enquanto se posicionava com o corpo ereto e uma expressão confiante.
– Seu irmão está, um pouco, enganado. Não somos invasores, apenas nos perdemos e chegamos ao entardecer. Quanto ao lobo, bem, ele nos atacou com a alcateia inteira. Eu tive que disparar ou ele abocanharia meu irmão. Eu me chamo Milo Alethea e sou líder do clã Skorpjun.
Kamus franziu o cenho, perscrutando Milo de cima a abaixo. Mas, quando se pronunciou, seu tom de voz era grave e sereno.
– Então, senhor Milo... o que o traz a Irġielkiesaħ?
– Bem, eu vim conversar. Somos os novos líderes e creio que podemos fazer uma aliança contra o governo de Hades. – falou Milo indo direto ao assunto.
– Uma aliança? E... porque acredita que eu me aliaria ao senhor, um homem que, pelo que vejo, não está nem preparado para chegar em um momento adequado?
– Minha chegada foi um tanto desastrosa, eu admito. Mas isso não significa que eu não esteja preparado para enfrentar um usurpador. Se formos analisar, friamente os detalhes, eu diria que meu clã sempre esteve preparado, enquanto o seu preferiu curvar-se! – falou Milo com olhar desafiador.
Quando Milo falou, Ikki fechou os olhos pensando “Oh! Não!” e Shun arregalou os seus. Após a fala de Milo, Fenrir colocou-se ao lado de Kamus e gritou:
– Veja, além de invasor, está desrespeitando o nosso clã! Quem ele pensa que é?
– Acalme-se, Fenrir. – disse Kamus sem se alterar. – O senhor Milo tem razão. Meu pai fez uma escolha que implicou em múltiplas interpretações e uma delas foi... que ele o fez por covardia. Entretanto, eu, mais do que ninguém sei que ele fez isso para proteger-nos e para tentar uma saída sem derramamento de sangue. Não espero que o filho de Kardia entenda isso, ainda mais que seu pai foi considerado um herói. Porém, agora eu pergunto, senhor Milo... conservaria seu orgulho se aqueles que ama fossem ameaçados?
– O que pretende dizer, exatamente, com isso? – rebateu Milo.
– Está em minhas terras, feriu o lobo de meu irmão e pronunciou-se de forma arrogante e desrespeitosa sobre este clã. Creio que tenho todo o direito de fazer o que manda a lei aqui em Irġielkiesaħ. Por ser a causa da ação de ferir um lobo, seu irmão será açoitado cinquenta vezes! Pela acusação de invasão e por ter ferido um lobo, você será açoitado cem vezes e ainda cumprirá serviços variados durante um mês. E, finalmente, o mais jovem fará o serviço de limpeza da fortaleza e onde for requisitado.
– O quê? Você está dizendo que vai nos punir a todos desse jeito, somente, porque cheguei em uma hora inoportuna e feri um lobo gigante que atacou o meu irmão? Isso é injusto! Se quer punir alguém, esse alguém sou eu! – gritou Milo.
– Então... agora o meu clã, além de covarde é injusto?
– Não foi isso que eu quis dizer! Eu sou o responsável, meus irmãos vieram comigo, apenas para ficarmos juntos, já que estive muito tempo fora. Eu sinto muito se o ofendi, mas não falei aqui o que não tenha sido comentado em toda Darneheim! Se quiser que eu me curve, eu o farei, mas não faça jogo sujo comigo, envolvendo meus irmãos.
Kamus olhou-o bem dentro dos olhos, depois sorriu, friamente. E quando o fez, todos os que estavam no salão sentiram algo no ar, como se de repente, tudo ficasse um tanto denso. O senhor do clã Akkwarju não costumava sorrir...
Como se estivesse comemorando algo muito particular e prazeroso, ele ergueu sua taça para ser preenchida com vinho. Imediatamente, um criado adiantou-se para enchê-la e, após o ato, Kamus bebeu um gole longo e silencioso. No mesmo instante, os lobos uivaram em coro e o som, um tanto ensurdecedor, foi ouvido em todos os recantos do lugar. Quando eles cessaram, Kamus falou:
– Eu não jogo, senhor Milo. Apenas aplico a lei de meu clã e ela é clara ao punir quem falta com as suas responsabilidades ou age de maneira inadequada. Nosso totem é o lobo e, em sua sabedoria, ele ensina com rigor e eficiência. Como um líder, o senhor deve entender meu ponto de vista, não é mesmo? Veja como se ofereceu para salvar os seus... Nessa hora, o orgulho e a arrogância desaparecem num piscar de olhos!
Milo sentiu o sangue ferver sentindo que Kamus argumentava de forma a fazer com que se sentisse humilhado. Ele estava revidando!
Ikki percebeu que Milo estava no limite e antes que seu irmão piorasse as coisas, aproximou-se dele tentando não chamar muito a atenção. .
– Milo, controle-se... ele está no território dele e tem as suas razões. Vamos nos mostrar firmes e sem medo. Eu posso aguentar e você também. Pelo menos ele não falou em açoitar o Shun. – cochichou Ikki.
Milo assentiu com a cabeça, mas sua mente dava voltas. Parecia que tudo o que fazia dava errado. Maldita hora em que aceitara procurar aquele demônio de cabelos cor de fogo!
– Kamus, essa noite é de celebração. Você passou pela prova que confirma seu poder de liderança. Tenho certeza que os nossos visitantes não fizeram por mal. Em nome da hospitalidade que nosso pai sempre enfatizou, vamos relevar essas coisas, por favor! – disse Hyoga tendo coragem de falar o que sentia.
– Nem morto! Ele quase matou Noite! – gritou Fenrir.
– Mas eu soube que Noite deixou que o mais jovem se aproximasse e o lambeu! Seu próprio lobo já perdoou, irmão. Porque não faz o mesmo? – devolveu Hyoga.
– Como você soube disso? – indagou Fenrir, surpreso, já que Hyoga não estava lá e ele não tinha contado o fato.
– Simplesmente, eu sei. – respondeu Hyoga, calmamente.
– Seu esquisito! – sussurrou Fenrir, zangado por não ter mais argumentos.
– Também te amo, irmão! – sussurrou Hyoga de volta.
– Pois bem, vamos deixar para outro momento essa conversa. – disse Kamus.
– Você não vai nos punir? – perguntou Milo, franzindo o cenho.
– Não disse isso. Apenas vou pensar em algo menos rigoroso. Vocês serão levados aos seus aposentos e lá permanecerão. Amanhã, continuaremos esta conversa. – falou Kamus, sério.
Shun olhou para Hyoga e sorriu em agradecimento. Recebeu um discreto sorriso de volta e sentiu o rosto quente, aliado a uma vontade repentina de tossir. Levou a mão aos lábios e tossiu violentamente. Quando a retirou, havia sangue vivo entre seus dedos e ele sentiu uma fisgada forte nas costas junto com uma forte vertigem. Em segundos, desmaiou sob o olhar aflito de seus irmãos...
Notas finais
MEL DARK,CHAKAL_MALDITO, VANESSA,PERSEFONE_SAN, KASSIMINHA, SION NEBLINA, JSCOSTA, VICTTORIA, CIÇADF, WITH e quem mais chegar!!! Vocês são as pérolas do meu colar! Amo vocês!!
VOCABULÁRIO DA FIC:
Mhéar na Sióg" quer dizer toque de Fada em islandês.
Fale com o autor