Trono De Sangue
1 Capítulo 1 PRÓLOGO

O cometa cortava os céus deixando um rastro vermelho. Os Sacerdotes brancos de Gyðja, os Acólitos do sombrio deus Dauði, assim como todos aqueles que, embora não professassem nenhuma fé, possuíam o praesensio, a capacidade de prever acontecimentos, viam, no astro brilhante, a confirmação dos antigos augúrios...
“Uma criança nascerá com o dom da paz e com o poder de conduzir os homens. No entanto, em um dia inesperado, a escuridão cairá sobre as presas do leão e, seu trono de luz se tornará um trono de sangue!”
Shion o conselheiro sábio do clã, acompanhara o parto e Aioros veio ao mundo envolto em expectativas e alegria. O primeiro choro ecoou pelo aposento amplo da fortaleza de pedra negra e os ventos outonais de Dwiefer levaram o som por toda Darneheim.
Houve uma longa e alegre comemoração pelo nascimento do Grande Soberano em todos os clãs e a parte sombria das previsões foi relegada ao esquecimento e à memória dos sábios.
Regulus acolheu com reverência os presságios que aumentavam o poder de seu clã. Exultante e cheio de orgulho, anunciou a todos o seu filho, o primogênito de sua Casa, o predestinado.
— Ele será chamado Aioros, o herdeiro da sabedoria dos deuses, um soberano forte e amado capaz de unir e proteger todos os reinos!- disse com voz alta, enquanto mostrava a criança para a multidão. – O rugido do nosso clã será ouvido em todos os cantos e sua marca será deixada em cada coração.
O clã Iljun cujo poder do leão e a sabedoria do centauro se encontravam em uma bandeira dourada, negra e vermelha, iniciava sua escalada aos patamares mais elevados. Nos ombros de seu pequeno soberano recaía a tarefa de unificar e proteger Darneheim. Assim, no mesmo instante em que o ar entrava em seus pulmões, Aioros já reinava no coração de todos.
Passaram-se sóis e luas. Dias, meses e anos. Estações vieram e passaram até que o outono, a estação predominante em Dwiefer, retornar e sua canção fustigar as folhas pintando-as de marrom e vermelho, fazendo descer sobre a terra, o esplendor do dever cumprido.
A juventude de Aioros não o impediu de adquirir sabedoria e liderança. Como fora previsto, ao assumir a liderança quando completou 14 anos, uma era de paz e progresso espalhou-se por Darneheim. Cidades foram construídas, as colheitas, melhor aproveitadas e os guerreiros treinados para servir a vida e proteger os clãs.
Todos eram livres para professar suas crenças, embora o Senhor das Almas e a Senhora Zelosa de Muitas Faces, deuses protetores do clã Iljun, fossem acolhidos em quase todos os clãs.
A vida em Dwiefer transcorria normalmente, com seus campos férteis e dourados, prontos para serem colhidos como uma amante oferecendo-se ao amado. As festividades da colheita e da homenagem ao grande Soberano estavam sendo preparadas, incansavelmente e com grande entusiasmo. Tendas de seda eram elevadas para as comemorações. Tudo convergindo para mais um ano de abundância e bênçãos...
Então, no calar da madrugada, um pouco antes do amanhecer, um grito de pavor cortou o ar e o magnífico hall de pedra da fortaleza do leão tornou-se o caminho para a tragédia.
Shion ergueu os olhos dos seus livros e estremeceu, apesar, do clima estar ameno e aconchegante dentro da grande biblioteca. Fechou o pesado livro e correu, sentindo um aperto na garganta. A lanterna que carregava nas mãos pouco iluminava os corredores, porém sua luz bruxuleava fantasmagórica de um jeito que fazia um homem sentir-se solitário e temeroso.
Continuou correndo, apesar de ter as pernas doloridas por permanecer muito tempo sentado. Não era um homem de dormir muito e passava as madrugadas lendo e aprendendo. Levava à sério seu trabalho como Conselheiro guardião e nunca deixava de consultar e estudar os livros antigos, escritos muito antes do desabrochar dos reis.
Oh, Senhor das Almas, tenha piedade! Repetia para si mesmo, enquanto ouvia o som dos próprios pés e do coração disparado.
A luz da madrugada já se esgueirava pelas janelas altas e logo o sol entraria majestoso como sempre. Shion correu mais depressa e já via a movimentação desesperada onde o grande hall se abria como uma porta de labirinto e revelava o trono do grande Soberano.
Uma criada se encontrava aos pés do trono em prantos e, aos poucos, os outros foram se aproximando com horror em suas expressões.
Ali, sentado com os olhos abertos, como se estivesse tendo uma visão mística, estava Aioros, nu, imóvel, braços caídos ao lado do corpo, os lábios entreabertos como se fosse falar. A pele bronzeada não parecia ter sido tocada pela lividez da morte e os cabelos castanhos revoltos ainda lhe conferiam um frescor juvenil. O pescoço exibia sinais arroxeados de aperto feito por uma só mão, grande o suficiente para asfixiá-lo.
Por uma coincidência macabra, era o dia do retorno do sol de nascimento do jovem Aioros, o dia em que completaria vinte e um anos e uma grande festa seria dada, marcando os quatro anos de bênçãos que culminavam com mais um ano de vida de seu soberano.
Shion levou a mão aos lábios e seus olhos arregalaram-se em uma mistura de compaixão e dor. A profecia que ele tanto temera e que, desafiando o conceito de fatalidade, esforçava-se para estudar um meio de quebrá-la, se cumprira.
Aproximando-se do jovem, Shion fechou-lhe os olhos e disse com voz contrita:
— Avisem os Senhores que seu filho... foi assassinado.
Quando o corpo de Aioros foi levado até a Torre dos Mortos para receber os ritos fúnebres, seu pai chamou Shion.
— Preciso dos seus conselhos. – disse Regulus, com o rosto endurecido pela dor.
— Deixemos essa conversa para mais tarde, senhor. Agora devo ajudar no preparo do corpo do Grande Soberano, para que adentre o paraíso sem as máculas e dores desta passagem violenta.
— Meu filho está morto! Assassinado! Quem faria uma coisa dessas Shion? Quem?
— A profecia... ela...
— Ao inferno com a profecia! Bem sabe que nunca acreditei nessas sandices de magos, profetas ou demônios! Aioros era o primogênito da minha linhagem, a linhagem do leão! Seu nascimento confirmou a tradição do nascimento de homens dignos e poderosos em nossa família e ele governou, apaziguou e construiu! E agora, alguém o matou! Pelo deus Louco eu quero o assassino do meu filho! – gritou Regulus com o rosto vermelho e cuspindo saliva.
— Estou ao vosso serviço, senhor. Mas, agora, devo me juntar às Irmãs do Suplício e preparar o corpo do jovem Aioros. Sugiro que fique ao lado da vossa esposa. Ela também perdeu um filho e precisa do vosso apoio.
Regulus levou a mão aos olhos, controlando a vontade de bater em Shion e em qualquer um que lhe passasse pela frente. Quando um leão cai, as feras menores sentem o cheiro do sangue e avançam, tentando conquistar seu lugar no festim... A voz martelava-lhe a mente, enquanto as lágrimas retidas se recusavam a cair. Ele saiu a passos largos e foi ter com sua mulher.
Dentro da Torre dos Mortos, a fumaça dos archotes iluminava o belo corpo de Aioros. As Irmãs do Suplício já o haviam banhado e antes que o perfumassem com óleo e introduzissem um líquido que conservaria as vísceras intactas por sete dias, Shion examinou o corpo.
Fora as marcas de estrangulamento, havia um pequeno ponto abaixo do mamilo esquerdo que parecia uma picada de inseto. Aproximando-se mais, o Conselheiro sentiu um leve e quase imperceptível cheiro de Ardrax uma especiaria venenosa e rara que, em doses pequenas causava euforia e em doses maiores era capaz de paralisar o corpo e fazer parar o coração. E também, encontrou em meio aos cabelos revoltos uma minúscula folhinha seca de carvalho dourado.
Franzindo o cenho, Shion observou o estranho conjunto de sinais ali colocados. Quem tinha matado o Grande Soberano criara uma cena, um complexo jogo que mais parecia um quebra-cabeça doentio com um recado dirigido a todos os clãs. Que intenções teria o assassino com isso?
As marcas de estrangulamento feitas por uma só mão poderiam ser de um assassino do clã vindo de Akkwarju, cujas histórias referendavam os feitos destes homens. Homens que confraternizavam com os lobos, tinham a mesma força destes animais e rezava a lenda que matavam somente, com uma das mãos.
O Ardrax, encontrado na picada podia ter vindo de Berkehell, o lar do clã Skorpjun peritos na arte do veneno e das especiarias raras e, por vezes mortais.
E por fim, a minúscula folha de carvalho dourado que só podia ser encontrada nas florestas de Irmied onde o misterioso clã Vergni construíra uma sociedade pacífica, diziam que, sob a liderança de um homem que viera das estrelas.
Entretanto, nada indicava alguém do próprio clã do soberano, a não ser a familiaridade com o ambiente, a forma sorrateira e fácil como o assassino chegara ao soberano...
A luz da manhã já entrava na Torre dos Mortos, projetando-se em diagonal através das janelas altas e pintava com sua luz, barras douradas sobre o corpo, agora vestido e perfumado, de Aioros. Ele parecia dormir, a expressão era serena e Shion permitiu-se acariciar a testa de seu Soberano, pela última vez.
As Irmãs do Suplício murmuravam um cântico de morte e os incensórios dançavam lentamente ao som das vozes baixas e roucas espalhando o aroma de mirra, carvalho e freixo...
— Durma em paz, meu Soberano... Embora sua partida tenha sido violenta e repentina, rogo ao Senhor das Almas e à Senhora Zelosa de Muitas Faces que o acolham no Lugar Além e permita que participe do banquete eterno em sua mesa farta. Quanto a nós, faremos tudo para encontrar e punir quem o assassinou. Tem a minha palavra e a minha vida empenhada nesta busca. – disse Shion e deixou que as Irmãs do Suplício iniciassem o ritual de conservação do corpo.
Aioros permaneceu em um esquife de vidro que agora era banhado por uma luz multicolorida que vinha de todas as janelas e seus vitrais em vermelho e dourado. Fora levado ao Templo das Lágrimas, onde os monges silenciosos faziam sua vigília e oravam ao Senhor das Almas, pelo Soberano morto. Ali, o corpo repousaria durante sete dias e sete noites para receber as homenagens do povo e dos Senhores dos outros clãs.
Regulus e sua esposa permaneceram ao lado do filho morto, enquanto um jovem, extremamente semelhante à Aioros subia as escadas com os olhos vermelhos e a face pálida. Ele ajoelhou-se diante do esquife trabalhado em ouro, cercado de cabeças de leões que pareciam rugir de tão perfeitas que eram. Suas lágrimas escorreram, enquanto ele se debruçava sobre o vidro que o separava do corpo do irmão.
— Aioros! – gritou Aiolia em prantos e foi agarrado pelo pulso com violência pelo pai.
— Ore em silêncio! Agora, você será o novo Soberano e um leão não se curva ao sofrimento! – disse Regulus sacudindo-o.
Aiolia sufocou o choro e procurou alguém conhecido, alguém que pudesse entendê-lo e encontrou o olhar firme de Shion.
— Irmão Elián, renda-me nos atos de adoração, por favor. – pediu Shion num tom penetrante e foi colocar-se ao lado do jovem Aiolia.
— Por favor, acompanhe-me Aiolia. – Shion levou o jovem para fora, onde o ar frio balançava os galhos desfolhados e uma chuva fina caía sobre a terra, como lágrimas de pesar.
As tendas brancas foram retiradas e o negro cobriu a terra voluptuosa, junto às folhas mortas que formavam um tapete irregular de formas e cores. Aiolia focou nelas, seu coração oprimido...
Meu irmão se foi como uma história que se perde sem que termine como deve ser. É como um sonho que é destruído no auge de seu poder. Uma verdade que parte deixando a todos nós, órfãos!
— Eu nunca serei como ele, Shion! Eu não sou... especial! Não suportarei sentar no lugar dele! Eu o amava tanto... ele era o único que... via em mim, algo de bom.
— Vós sois o sucessor do clã Iljun e um leão pode suportar qualquer coisa se tiver de ser! O reino precisa de um líder e a tradição recaiu sobre a vossa Casa. Honre o amor do vosso irmão continuando as obras que ele empreendeu.
— Não só as obras, mas também justiça! A partir de agora, todos os clãs devem enviar seus primogênitos para serem tutelados pelo nosso clã, até que o assassino de Aioros seja encontrado, esquartejado e enforcado! Aquele que não concordar será considerado um traidor e declarado inimigo de Dwiefer! – disse Regulus indo ao encontro dos dois.
Aiolia, assim como Shion olharam surpresos para Regulus , cujas narinas dilataram-se, enquanto ele falava. Havia dor, ira e outro brilho inexplicável nos olhos azuis, antes francos e calorosos.
— Mas, pai... se fizermos isso, haverá revolta!
— Pois que seja! Alguém ousou invadir nossa casa e matar meu filho. Encontrarei o assassino nem que tenha que estripar cada clã e revirar as suas entranhas!
— Se me permite, senhor... Essa ordem não honrará a memória do vosso filho. Iljun nunca escravizou ou tomou algo à força. Obrigar os senhores a entregar seus primogênitos como se fossem reféns trará a guerra e ela não punirá, somente, o assassino, mas toda Darneheim. Existem outros meios. Vossa cabeça está cheia de ira e vosso coração, de dor. Eu sugiro que o grande Círculo de Honra se reúna e trace uma estratégia na busca pelo assassino. – disse Shion.
— Meu filho trouxe paz e prosperidade e não foi o suficiente! Agora, quem fez isso a ele vai tremer e chorar lágrimas de sangue! Enquanto meu filho era preparado para adentrar a eternidade, enviei um tomo aos clãs e também às cidades Sem Fronteiras. Todo o homem que não for vassalo de nenhum senhor e juramentar-se ao nosso clã será recompensado ao manter a ordem e o cumprimento das novas leis. Eu descobrirei este assassino nem que seja no inferno! – respondeu Regulus ignorando os protestos de Shion e Aiolia e voltando para dentro do templo.
Em pé, junto ao esquife, estava Shura, o fiel comandante da força guerreira de Iljun. Seu rosto estava tenso pelo esforço que fazia em não entregar-se à dor. Aioros estava morto. Seu senhor e amante jazia frio e belo, à sua frente, uma consequência de sua falha em protegê-lo. Um erro do qual jamais se perdoaria.
Sua mão tremia, desejosa de tocar aqueles cabelos uma última vez. Sua boca estava seca e, por segundos, sentiu os lábios de Aioros nos seus, a língua cálida buscando a sua...
Fechou os olhos com força. As lágrimas que tentava conter pareciam esmurrar seus olhos na tentativa de serem libertadas, mas mesmo assim, ele permaneceu firme como era esperado de um homem na sua posição.
— Shura. Venha ter comigo na biblioteca esta noite. Precisamos conversar. – disse Shion aproximando-se dele, silenciosamente.
—Sim, senhor Conselheiro. – respondeu baixo.
As orações continuaram, assim como o pranto daqueles que foram despedir-se de seu soberano mais amado. O lento e constante bater de tambores cortava o ar, demarcando os passos do morto em direção ao paraíso, como rezava a tradição, dando-lhe o ritmo do coração para que não se perdesse no caminho...
As tendas negras, agora, estavam ornadas com milhares de velas e o povo de Dwiefer, em meio às lágrimas, orava por Aioros, desde o mais humilde ao mais nobre dos homens. Dali a pouco, todos deixariam o templo e somente Shura e dois guardas ficariam com o corpo do soberano numa longa e triste vigília.
O tempo pareceu estancar e depois, voou como se tivesse as mais velozes asas. Sem que percebesse, o comandante das armas viu a noite baixar soturna e escura. O único som vinha do lado de fora, os murmúrios, as canções, o pranto...
Então, sozinho, na imensidão lúgubre daquelas paredes, Shura ordenou que os guardas saíssem, abriu o caixão e abraçou-se ao corpo do amado. Só então chorou, permitindo que os soluços escapassem de seu peito e sacudissem o seu corpo.
—Aioros... meu amor...perdoe-me! Não devia tê-lo deixado...
Quando subiu as largas escadas de pedra que o levaria até a biblioteca, Shura rezou para que Shion lhe desse uma prova qualquer que pudesse levá-lo ao assassino de Aioros. Sua cabeça latejava, seu corpo estava tenso e dolorido, mas mesmo assim, não descansaria até encontrar as respostas que sua mente e seu coração ansiavam.
Bateu na imensa e grossa porta de carvalho que se abriu como se uma mão invisível a tivesse puxado. Ao lado de um braseiro, Shion lançava folhas secas e retorcidas nas brasas fumegantes e o ar enchia-se de um odor forte e penetrante.
— Aproxime-se, comandante. – disse Shion ainda de costas para a porta.
— Vim como me pediu e rogo para que tenha algo... algo que me leve ao assassino do Grande Soberano. – disse Shura com os olhos vermelhos.
— Havia algo no corpo dele, deixado ali, propositalmente. Elementos que existem no ambiente dos clãs mais elevados. Quem o matou criou um cenário como se quisesse nos dizer algo. Como se quisesse... – Shion interrompeu sua fala vislumbrando a solução de parte daquele enigma.
— Induzir-nos a fazer algo, levantando suspeitas uns dos outros. – disse Shura, acompanhando o raciocínio do conselheiro.
— E assim trazer a discórdia e findar a tradição do clã Iljun em gerar os soberanos que governam Darneheim. — completou Shion.
— O assassino deseja destruir a paz entre os clãs e Regulus lhe dará este desejo em uma bandeja de ouro com a nova lei. Quem fez isso o conhece muito bem. – disse Shion enquanto lançava mais folhas ao braseiro.
Shion e Shura olharam-se de imediato. Uma compreensão muda os uniu.
— Precisamos impedir que isto aconteça. Aioros... jamais descansará se Darneheim for banhada de sangue. – falou Shura com dor na voz.
— Temo dizer, comandante, que nada podemos fazer, além de encontrarmos o quanto antes o autor desta ignomínia. Regulus fará todos os primogênitos seus tutelados até que o assassino seja descoberto. Ele já enviou o tomo e não há como voltar atrás. Os clãs não aceitarão, tenho certeza. Um ou outro se curvará, mas essa ordem soará como uma desonra, uma afronta ao pacto de fidelidade existente desde os tempos imemoriais.
— Talvez se enviarmos embaixadores habilidosos, eles possam amenizar esta ordem e manter a paz. – disse Shura.
— Nenhum pai entrega seu filho primogênito sem lutar. Essa é a lei primordial de todos os clãs. Nossa única esperança é contar com o apoio de um clã reconhecido por sua força. Se Saga conseguir trazer Dégel para a nossa causa, talvez os outros também nos apoiem. Vou falar com Regulus. Enquanto isso prepare-se, sei o quanto isso está sendo difícil para você.
— Eu o amava... – disse Shura com um aperto na garganta.
— Eu sei. – respondeu Shion tocando-lhe o ombro. – E ele correspondia ao vosso amor. Se servir de consolo, mesmo amando nas sombras, Aioros foi feliz tendo-o como amante.
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Na manhã em que seu vestido negro havia ficado pronto, as criadas encheram a banheira de Pandora com água quente e fumegante e a banharam com pétalas de jasmim e hibiscos. Os cabelos longos e escuros afundaram na água perfumada e, enquanto sua pele era esfregada e suas unhas eram polidas, a expressão de seu rosto era de quem estava muito longe dali.
— Senhora, um mensageiro trouxe a notícia que... seu irmão, o grande Soberano foi assassinado. – disse a criada com o rosto pálido.
— Eu sei... minhas visões me mostraram seu rosto lívido e em paz... – respondeu a jovem imersa na água.
— Mando preparar a carruagem? – perguntou a criada que temia olhar para sua senhora.
— Não. Ele virá buscar-me.
— Quem, senhora? – ousou perguntar.
— Meu pai. Ele virá a mim e preciso estar preparada.
— Mas... o mensageiro disse que todos estão sendo avisados para prestar sua última homenagem ao Grande Soberano e...o senhor Regulus permanecerá ao lado do filho no Templo das Lágrimas.
— Ele virá. – repetiu Pandora, com segurança, enquanto deixava a água e sentia o vapor desprendendo-se de seu corpo junto com os pingos escorrendo por entre os seios pequenos.
Após ser secada e penteada, a jovem vestiu o longo e justo vestido de seda negra. A maciez do tecido parecia acariciá-la, doce e deliciosamente.
— O manto. – ordenou, e as criadas trouxeram um longo manto de veludo negro carregado de pérolas.
Ele virá com sua dor e eu o consolarei. Pensou ela levando a mão à garganta. De imediato, uma das criadas colocou-lhe um colar de pérolas negras que emitiam um estranho brilho e também um par de brincos que ornou as orelhas bem desenhadas.
Um sorriso triste revelou dentes pequenos e alinhados, enquanto ela caminhava pelo chão de mármore escuro com um séquito seguindo-lhe os passos. Sinto que ele se aproxima. Seu coração está destroçado... Como um dia eu previ que estaria.
Sua fortaleza não era tão majestosa quanto a de outros nobres de linhagem superior. Não, a sua era menor e mais discreta como era o costume. Mas, ainda assim, ela vivia no mais absoluto conforto, tendo para si fartura, joias, livros e criados. Bastava desejar algo e lá estava à sua disposição. Ele não lhe negava nada. Tinha tudo. Menos aquilo que ela sempre quis com a força do seu coração: uma família, um lar, um nome.
Era uma mulher solitária assim como fora uma criança solitária. Não havia como mudar esta realidade. Havia?
Um piado de coruja soou na distância lançando-a no labirinto de suas recordações.
Um pequeno pássaro negro e feio adentrou a fortaleza causando um alvoroço momentâneo. As criadas tentavam espantá-lo e ela dava gritinhos de alegria enquanto o perseguia. Seu irmão tinha vindo visitá-la e ficara observando-a até que o pássaro chocou-se contra o vidro da imensa janela.
Aioros mandou as criadas saírem e disse a ela que se sentasse para aprender uma lição.
— Quando vem o caos e as pessoas correm e gritam, você minha pequena irmã, deve deter o caos com calma. Não ceda à primeira reação que lhe vier à cabeça. Não corra com a multidão. Sente-se e observe. Veja como a fortaleza é imensa para nós, porém minúscula e limitadora para o pássaro. E por quê? Porque ele precisa ser protegido por quem tem a visão maior. A visão do todo. Veja como ele luta para se libertar, mas não tem a visão completa, então vai cansar-se e desistir.
Aioros levantou-se e foi até o pássaro que, ofegante, escondera-se atrás de alguns livros. Ele o pegou com todo o cuidado.
— Aqui está ele, Pandora. Está morto de medo, mas você não. Então pode ajudá-lo.
A ave não pesava nada em sua mão, aos sete anos de idade. O feio pássaro negro, quando olhou mais de perto, tinha vários tons de roxo e, ao segurar seu corpinho trêmulo, pôde sentir pulsar, em suas mãos pequenas, o batimento de seu pequenino e disparado coração.
Levou-o para o jardim e soltou-o. Ele voou como uma flecha e sumiu na imensidão azul.
Aioros sorriu e pegou-a no colo, girando-a no ar e fazendo-a sorrir. Aquele dia ficou gravado em sua memória infantil. Foi a única vez que o teve perto de si. Após aquele dia, ele vestiu o manto púrpura, digno do seu nome e ela... permaneceu em seu lugar, o território dos filhos esquecidos, daqueles cujos sonhos eram sepultados sob a ilegitimidade.
Pandora podia sentir a pulsação de seu próprio coração, enquanto andava. A imagem do pássaro estampada em sua mente se metamorfoseando na dele...
Uma pintura sua adornava a parede central do salão permeado de mobílias escuras e suntuosas. Sua imagem, ao lado de um leão cuja juba resplandecia em meio ao fundo escuro do quadro, refletia a expressão solene e triste do dia do seu retorno do sol de nascimento. Não havia mais ninguém ao seu lado. Nem mãe, pai ou irmão. Apenas o leão. Grande, feroz, solitário e cruel.
Quando ela chegou ao centro do salão, a alta e gigantesca porta se abriu, de forma violenta. Um homem belo e maduro, com os olhos injetados de desespero entrou, dispensando a guarda e as criadas que se ajoelhavam e baixavam a cabeça.
— Pandora... – disse Regulus aproximando-se com passos largos e um tanto trôpegos.
A jovem abriu os braços, permanecendo no mesmo lugar.
— Venha, senhor meu pai. Venha consolar-se nos braços da sua bastarda.
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