Trono De Sangue
2 Capítulo 2 O ADEUS DA INFÂNCIA...
A floresta cinzenta e dolorosamente fria compunha uma paisagem desolada cujo único som vinha dos uivos dos lobos. O ocaso já espalhava seu manto, uivos começavam a ser ouvidos, mas mesmo assim Kamus Roux Larc, o primogênito do clã Akkwarju, continuou a embrenhar-se entre as árvores milenares com aquele que era seu amigo mais fiel: Raio!
O grande lobo azul elevou o focinho, reconhecendo o chamado da matilha, mas suas patas gigantescas permaneciam firmes e fundas na neve, junto do garoto ruivo que ofegava e sorria ao ver seu hálito quente evaporar no ar frio.
— Vamos, Raio! Papai vai ficar orgulhoso quando pegarmos aquele urso. – disse o garoto com um arco nas mãos.
As pegadas na neve espessa eram profundas e cada vez mais, Kamus se infiltrava na floresta com o destemor próprio dos jovens e dos... tolos.
Quando a imensa massa negra desceu sobre si, Kamus só teve tempo de desviar o corpo alguns centímetros, mas mesmo assim, as garras afiadas deslizaram por seu corpo atingindo-o de raspão na face abrindo um sulco que o fez enxergar tudo vermelho.
O lobo rosnou e lançou-se sobre o urso negro, enquanto Kamus cambaleava tentando encontrar o arco que lhe escapara das mãos. O sangue vertia, abundante e a dor era terrivelmente ardida como se as garras do animal fossem de fogo.
Tomado pela excitação do corpo que acontece quando é preciso lutar pela própria vida, Kamus desistiu do arco e sacou o punhal que trazia junto à cintura. Com ferocidade, golpeou às cegas, enquanto Raio mordia a perna do animal gigantesco com suas presas descomunais e arrancava pedaços de carne e pelos.
Os pelos azulados do lobo ondulavam ao vento frio e foram tingidos de vermelho quando Kamus, por fim, lançou-se na direção dos olhos do urso, golpeando-o em cheio no olho direito. O animal urrou quando o aço estelar penetrou até atingi-lo no cérebro e caiu para trás, pesadamente, manchando a neve branca com seu sangue escuro e quente.
Estonteado, o garoto afundou o rosto na neve, numa tentativa de estancar o sangue que ainda escorria do corte. O frio rivalizou com o latejar em sua face, porém ele abriu um grande sorriso ao ver o urso morto. Raio aproximou-se dele e tocou-lhe o rosto com o focinho.
— Estou bem, Raio! Apesar de tudo, conseguimos! Meu pai vai ficar muito, mas muito orgulhoso! – disse o garoto com o sangue colado à pele, assim como os abundantes cabelos ruivos que emolduravam sua face.
O pátio ressoava com o som das carroças trazendo peles e com a canção do aço das espadas. Kamus chegou correndo tendo Raio ao seu lado. O lobo azul e gigantesco abria caminho para o seu jovem dono, com imponência e orgulho a ondular nos pelos espessos.
Sob a lã negra e a camisa de couro, o suor corria gelado pelo peito de Kamus misturado ao sangue de seu ferimento. Mesmo com o olho quase fechado, viu seu meio-irmão Fenrir observando uma aula de combate. Correu na direção dele e viu-o sorrir, daquele seu jeito, que mais parecia um rosnado.
— Então, agora você também tem uma. – disse ele apontando para o rosto de Kamus.
Fenrir tinha uma cicatriz profunda no braço, resultado de uma queda nas rochas. O menino era filho de uma pastora das montanhas e, desde cedo, aprendera a escalar com facilidade.
Um dia, porém, ele subira alto demais e um falcão selvagem descera sobre ele, tornando-o uma presa. Uma pedra solta o fez escorregar ao desviar-se da ave. Quase perdera o braço, mas a Healer conseguiu salvá-lo e deixar o braço quase perfeito a não ser pela cicatriz enorme que mais parecia o leito de um pequeno rio na carne alva...
— Essa foi feita por um urso, veja, eu mesmo tirei a pele dele com minha faca. – falou Kamus sentindo-se quase um rei.
— Vai fazer o quê com ela?
— Presentear o pai. O que acha?
— Acho que ele vai olhar você com aquela cara e dizer: “Tem que ter mais cuidado Kamus, afinal você é o primogênito. Se você morrer, o clã terá que ser entregue ao seu irmão selvagem!”
Os dois riram.
Kamus gostava de Fenrir, embora, grande parte dos que trabalhavam na fortaleza, o achassem um garoto irrequieto, brigão e “selvagem demais”. Ele vivia escalando e correndo pela floresta como se fosse um lobo e fora ele quem, no dia em que ambos ganharam um novo irmãozinho, encontrara uma loba morta e, ao lado dela, três filhotes de cores diferentes: um azul, um branco e um negro.
De imediato, o lobinho negro se aconchegara nos braços de Fenrir e o lobo azul farejara Kamus e deitara sobre ele os grandes olhos vermelhos que combinavam com os seus. O filhote branco que era o menor deles e ainda não tinha aberto os olhos, fora reservado a Hyoga, o bebê que viera completar a hegemonia masculina no clã Akkwarju.
— Vem comigo? – perguntou Kamus.
— Não. Vou deixá-lo colher as glórias de seu feito. Ainda tenho que treinar com a espada. Verei se mestre “Deba” vai permitir que eu use uma espada de verdade e não essas espadas sem graça de madeira.
— Você não tem doze anos ainda.
— Tenho dez anos, oito meses e dois dias. E já é o suficiente.
— Mesmo assim, mestre Aldebaran exige que tenhamos a idade certa. Disse que manejar uma espada exige responsabilidade e temperamento. – falou Kamus, enfatizando o nome do mestre de armas, de forma respeitosa, para que Fenrir percebesse os seus limites.
— Bobagem! Uma espada serve para matar os inimigos e só. Não se precisa ter responsabilidade para isso e sim um braço forte.
— Por isso é que eu exijo idade! – disse uma voz grave e soturna, seguida de um cascudo na cabeça de Fenris. – Crianças indisciplinadas não combinam com o aço.
— Ai! – gritou o menino, mostrando os dentes caninos acentuados.
— E você Kamus, apresente-se ao seu pai, cuide deste ferimento e depois venha treinar. Tenho uma surpresa para você, hoje. – disse o homem gigantesco chamado Aldebaran.
— Sim, senhor! – disse Kamus entusiasmado.
O menino correu através dos salões e, de vez em quando, recebia um olhar enviesado daqueles que trabalhavam nos afazeres domésticos. Mas, ele era o primogênito, o príncipe dos lobos como diziam alguns, por sempre estar acompanhado do lobo gigante e um tanto assustador que ele batizara com o nome de Raio.
E, em Irġiel kiesaħ os homens tinham de ser duros, enfrentar a morte de cabeça erguida e colecionar cicatrizes de batalhas. Portanto, ver o menino sangrando com uma pele de urso em suas mãos não era algo tão incomum, mesmo sendo ele de extrema importância para a continuação do clã.
A lareira enorme aquecia o salão e exalava um odor discreto, porém quente e aconchegante. Sentado em sua larga cadeira de carvalho, Dégel analisava o tomo aberto sobre a mesa. Uma taça de prata cheia de vinho jazia ao lado do documento e a expressão do líder do clã Akkwarju era grave, assim como a do homem que estava, em pé, ao seu lado, parecendo esperar uma resposta que Dégel não se apressava em dar.
— O Grande Soberano... foi assassinado. Regulus exige que todos os primogênitos sejam tutelados por ele até que o assassino seja pego. – disse o líder do clã.
— E ele espera que aceitemos esse... disparate? – perguntou o homem que era o comandante das forças de Akkwarju.
— Ele é o soberano, até que seu segundo filho assuma. E... pede meu apoio.
— Isso é loucura, Dégel! Ele nos pede que tornemos o herdeiro de Akkwarju, um refém!
— Regulus é quase um irmão. Ele é meu amigo, Manigoldo, e sei o que deve estar sofrendo agora. Este assassino pode estar em qualquer lugar e é nosso dever ajudar a encontrá-lo.
— À custa dos filhos dos outros e do seu filho.
— Não, tentarei outra permuta, eu ficarei no lugar de Kamus.
Kamus entrou no momento exato em que seu pai terminava a frase.
— Ficar no meu lugar? – disse ele franzindo o cenho e sentindo o rosto doer.
Dégel fechou a mão com força e olhou o rosto ensanguentado do filho. Kamus recém fizera doze anos e mantinha a impetuosidade da infância, embora também fosse disciplinado e obediente. Seus olhos rubros e seus cabelos cor de fogo lembravam a ferocidade e o fogo da mulher que tomara como Companheira de pele. E ali, parado com aquele corte na face, ele parecia ter recebido a benção do fogo e do sangue...
Em toda Darneheim, era comum o senhor de um clã tomar várias mulheres como companheiras. O primeiro filho que nascesse, seria o sucessor do pai, porém todos os filhos posteriores teriam a assistência e a proteção do clã. A única exceção à bigamia era feita ao soberano. Ele teria de escolher somente uma companheira e esperar dela um herdeiro. Caso ela fosse estéril, então sim poderia unir-se a outra mulher e, novamente, esperar.
Kamus havia nascido exatamente nove meses depois que ele possuíra Violate de Behemoth, uma guerreira irascível das florestas negras. Não eram apaixonados e amaram-se no campo de batalha, após lutarem entre si. Ele a vencera e uma espécie de paixão violenta apossara-se de ambos, ato que resultou em uma gravidez e uma vida, juntos, durante um tempo. Quando Kamus nasceu, Violate o entregou para que ele desfrutasse do seu destino e voltou para o território sombrio de seu clã.
Dégel deu-se conta que amava aquele menino, assim como amava Fenris, seu filho com uma pastora selvagem e passional das montanhas elevadas e o pequeno Hyoga, fruto de sua união com a bela e frágil dama das águas, Natássia... Seus filhos eram a razão de sua vida. Jamais imaginara amar crianças tão diferentes entre si e, ao mesmo tempo, saber que precisava prepará-las para a vida, para honrar o sangue de sua linhagem...
— O que aconteceu com você? – perguntou-lhe de forma pausada e calma.
— Entrei na floresta e enfrentei um urso! Veja, ele me atacou, mas agora eu possuo uma marca! Uma marca de guerreiro! – respondeu Kamus com entusiasmo na voz.
— Aproxime-se, filho. Temos guerreiros muito valentes em nosso clã. A força e a coragem nos identificam, porém, você será o próximo líder, o senhor de Akkwarju. Um senhor não deve ser apenas forte e destemido, mas também sábio. A inteligência é superior à força. Ser herói é colocar-se à serviço dos que precisam e não de si mesmo. O ego, Kamus, é a principal queda do homem! Que “esta cicatriz lhe lembre disso”. Vá para o seu quarto e aguarde a Healer. Ela tratará do seu rosto. Amanhã teremos uma séria conversa sobre heroísmo e egocentrismo.
Kamus enfrentou o olhar firme do pai, mesmo sentindo uma decepção diretamente proporcional à dor que, agora, parecia bem maior que antes. Fez uma saudação com a cabeça e entregou a pele negra ao pai. Ouviu o agradecimento e retirou-se, esquecendo a frase que ouvira, quando adentrara o salão.
Quando chegou aos seus aposentos, Raio estava lá, deitado aos pés de sua cama, esperando-o com aqueles olhos vermelhos na penumbra. Abraçou o animal com força e recebeu a língua úmida e áspera em sua face, bem onde as garras do urso haviam rasgado. Kamus fez uma careta de dor, mas, estranhamente, seu rosto parou de arder e ele fechou os olhos...
Ele não ligou para o que nós conquistamos, Raio. Estou cansado, muito cansado... Ouviu-se dizer, enquanto adormecia aconchegado na pele quente do lobo.
No salão, Dégel tomou em suas mãos um grande tabuleiro. Distribuiu as peças e olhou para o comandante de suas forças. Manigold elevou a sobrancelha grossa e seu olhar recaiu sobre as pedras que seu senhor arrumava, pacientemente.
— Jogue comigo, comandante. Preciso clarear meus pensamentos.- disse Dégel.
— Jogando skák?
— Sim, meu amigo. Nada como ver-se de fora do problema para então traçar uma estratégia isenta da turbulência das emoções.
— Não sou parceiro para este tipo de jogo. – respondeu Manigold. – Prefiro os gemidos do aço cortando o inimigo.
— Pois terá que aprender comandante. Principalmente, porque deverá orientar Kamus e ensiná-lo a refrear seus impulsos.
— Eu?!
— Sim, você. Amanhã parto para Dwiefer e confio meu filho aos seus cuidados. É um homem duro, Manigoldo. Mas, também um guerreiro honrado e destemido. Faça de Kamus um líder de igual valor. Já ordenei a Aldebaran que o inicie na espada. Assim que ele a merecer, leve-o até as Florestas negras e dê-lhe a minha espada. Diga-lhe que eu a nomeei Em nome da honra e que ele deve empunhá-la com o espírito deste nome.
— Não pretende voltar? Acha que Regulus o afastará para sempre?
— Espero que Regulus seja o homem que eu acredito que seja. E não o déspota que parece ter se tornado neste momento doloroso. Se for para manter a paz, eu serei o exemplo e me colocarei sob a tutela de nosso soberano até que o assassino seja encontrado e levado a julgamento. Eu serei o primeiro senhor a curvar-me e preciso que meu filho e meu clã entendam o quanto me custa tal sacrifício.
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No outro extremo de Darneheim, o sol ardente de Berkehell despedia-se, pintando de laranja e dourado o céu até então azul e límpido.
Kardia olhava a paisagem, através da janela de sua fortaleza, ouvindo o murmúrio que vinha das tendas e do mercado, no centro da cidade. O aroma das especiarias enchia o ar e o vento quente tornava-se uma brisa suave que, à noite, trazia alívio ao calor característico de Berkehell.
Apesar de tudo parecer perfeito e agradável, sua expressão era grave e um tanto irritada. Obstáculos haviam sido anunciados, tirando-o de sua confortável posição como senhor do clã Skorpjun.
Entretanto, ele era um homem de decisão e posicionamento. Considerado arrogante por alguns, duro e destemido por outros, não se importava com nenhum dos títulos que lhe eram atribuídos e sim com os resultados.
Vencer e nunca render-se, era sua principal estratégia e era isso que tentava passar aos seus filhos, mesmo nos tempos de paz.
Tinha espiões por toda Darneheim e, por isso, já sabia do conteúdo de certo tomo, antes mesmo de recebê-lo.
Aioros estava morto e Regulus, como era próprio do clã dos leões, não deixaria de farejar o próprio sangue e de dominar seus súditos, impedindo-os de se banquetearem na desgraça. Ele ousava exigir a tutela de todos os primogênitos dos maiores clãs. Uma ousadia que ele, Kardia, não iria tolerar!
— Mande chamar meus filhos. – disse ele gesticulando para seu comandante.
O jovem e garboso general assentiu com a cabeça e foi ter com os filhos de seu senhor. Ainda com o céu claro, a lua cheia já despontava como uma imensa esfera amarelada e iluminava o pátio que levava aos aposentos dos jovens.
Um som surdo de espadas feitas de madeira mostrava que o filho do meio e o caçula de seu Senhor estavam treinando. Os dois eram inseparáveis e muito leais ao primogênito.
Aliás, esse era o problema...
Milo tinha apenas doze anos, mas era idolatrado pelos irmãos e amigos. Tinha uma personalidade expansiva, era precoce e curioso, principalmente no que se referia às necessidades de seu corpo. Belo e desenvolvido, era a atração das garotas que sempre achavam um jeito de fazer certas brincadeiras com o filho do Senhor do clã.
— Boa noite, rapazes! Viram Milo? – perguntou Kanon interrompendo a luta com espadas.
— Boa noite, comandante. Não, não vimos! Não é Shun? – disse Ikki.
— Ele estava conosco ainda agora, mas... acho que deve ter ido se deitar. – respondeu o mais novo sorrindo com inocência.
Kanon franziu o cenho. Milo dormindo? Àquela hora? Isto era tão provável quanto os mares de Berkehell se transformarem em leite! Certamente estava aprontando e, como sempre, seus irmãos não diriam nada sobre o assunto.
— Obrigado. Seu pai mandou chamá-los e os aguarda no salão principal. Vou procurar Milo. – disse ele empurrando o portão e subindo os degraus que levavam à torre leste da fortaleza.
Enquanto subia, Kanon apurava sua audição. Estava um tanto escuro e os archotes ainda não estavam todos acesos. O corredor estava na penumbra e uma porta que dava para uma despensa estava entreaberta. Ouviu risinhos e ofegos, antes mesmo de chegar a ver o que estava acontecendo.
— Toque-me, meu príncipe... – murmurava uma voz feminina ao ouvido de Milo.
O garoto deslizou a mão ao longo do ventre arredondado e foi enfiar-se por entre os pelos espessos, até chegar a um lugar úmido e quente entre as pernas da criada.
— Sim... aí...é aí que deve tocar uma mulher antes de fazer amor com ela. – sussurrou ela de olhos fechados, enquanto Milo explorava-a com curiosidade e buscava os lábios grossos para beijar.
— Senhor Milo! – disse Kanon alto, abrindo a porta com violência e interrompendo o idílio dos dois.
A jovem arregalou os olhos e baixou a saia, enquanto Milo revirava os olhos e limpava os dedos na roupa.
— Seu pai deseja falar-lhe, senhor Milo. E você, Cersi, vá cuidar de seus afazeres e achar um homem de verdade para apagar esse seu fogo!
— S-Sim, senhor Kanon. – disse a jovem com a face corada que saiu correndo sem olhar para trás.
Milo olhou para Kanon com uma intensidade que quase o fez rir, se não precisasse manter uma postura séria, própria de sua condição. Aquele garoto era de uma sensualidade marcante e prematura. Além disso, não costumava recuar perante a nenhum desafio. E, o pior de tudo, era que, mesmo sendo uma criança, chamava a atenção tanto das mulheres, quanto dos homens e parecia muito à vontade com isso.
— Se não tivesse me interrompido, eu teria dado prazer a ela! – rosnou Milo encarando Kanon.
— É muito jovem. Terá tempo para isso. Além disso, o que sabe sobre os prazeres sensuais?
— Tenho pau e já me dei prazer. Sei como é!
Kanon soltou uma gargalhada. Aquele menino era mesmo muito atrevido!
— Qual o motivo da graça? Eu já vi animais fazendo sexo e uma vez espiei quando ouvi Cersi gemer nos estábulos. Eu era muito idiota. Na hora, pensei que ela e o guarda estavam lutando corpo a corpo. Bem, eu tinha apenas cinco anos. Mas, agora já sou quase um homem e sinto vontade de fazer certas coisas. Não sei para que tanto mistério sobre como foder uma mulher ou um homem. – disse Milo dando de ombros.
— Sente atração pelos dois? – perguntou Kanon com uma expressão divertida.
— Sinto. Aliás, quando me toco, penso em suas mãos no meu corpo, comandante. Gostaria de aprender com o senhor sobre esses... prazeres que tanto fala e que acha que desconheço. – respondeu Milo encarando Kanon com um sorriso malicioso e um olhar penetrante.
Kanon não desviou o olhar. Milo tinha de ser enfrentado ou sempre ultrapassaria seus limites. Inferno, ele era apenas um garoto! E um garoto capaz de despertar pensamentos indesejáveis e obscuros.
— Já disse que é jovem demais. E, arrogante, também. Ponha-se no seu devido lugar e amadureça, antes de adentrar um mundo que não conhece. Agora ande em silêncio. Não estou com paciência para ouvir bobagens!
Kanon tocou o cabo de sua espada e tirou seus olhos de Milo, andando tão rápido que o garoto tinha de correr para alcançar-lhe os passos. Caminharam em silêncio, até porque Milo não era tolo e sabia quando devia recuar com suas provocações.
Entretanto, em se falando de Kanon, não era, totalmente, mentira o que tinha falado. Admirava o comandante das forças de seu pai, achava-o belo e tinha vontade de beijar aquela boca séria e carnuda. Às vezes, quando se tocava, imaginava Kanon nu e aquela angústia que se fixava em seu baixo-ventre, logo explodia em prazer e ele ficava com a barriga molhada e o rosto suado.
— Aqui está ele. – disse Kanon empurrando Milo, após passarem pela porta oval do salão principal.
— Onde estava, Milo? Já faz um tempo que eu e seus irmãos estamos aqui. – disse Kardia recostando-se na ampla cadeira de pedra, enquanto uma criada trazia mais vinho e enchia a sua taça.
— Bem, eu... estava tendo umas lições. – respondeu o garoto.
— Lições? – perguntou Kardia elevando uma sobrancelha.
Milo coçou a cabeça e Ikki olhou-o, soltando uma risadinha abafada.
— Acho que Milo estava tendo lições de anatomia com a mestra Cersi ou Halona. – sussurrou o menino moreno para o irmão mais novo.
Shun tapou a boca para não rir junto e Kardia focou seus olhos penetrantes no filho mais velho.
— Tem ideia de seu papel neste clã, Milo? Com certeza não é para foder com criadas, quando ainda nem sabe manejar uma espada! Aliás, esse seu membro, por enquanto, só serve para urinar e mais nada!
— Está errado, pai! Eu já sei...
— Cale-se! Quer tanto ser homem, pois vou fazer sua vontade. Vai servir na Torre negra. Ficará lá e será um Acólito das Sombras até completar dezoito anos. Vai aprender a controlar essa luxúria, antes que ela o controle.
— Eu... um... Acólito? Mas, pai...
— Já está decidido. Amanhã, Kanon o levará e o apresentará ao Presturinn. Hakurei de Altar irá orientá-lo bem.
— Pai, não... não me obrigue a isso. – disse Milo quase chorando.
— Não estou obrigando. Pode escolher entre ser um Acólito até os dezoito anos e ter a oportunidade de deixar o manto negro antes de realizar os votos perpétuos ou ficar e ser castrado, tornando-se o primeiro eunuco a ser o senhor de um clã!
Os lábios de Milo tremeram e lágrimas lhe vieram aos olhos. Apertou as unhas nas mãos e conteve-se. Não sabia o porquê daquele castigo terrível, porém sabia que seu pai não tolerava fraquezas ou insubordinação. O que fizera de tão errado para merecer algo tão drástico? Porque foder era algo tão proibido?
Ikki e Shun olharam para Kardia e se olharam com uma expressão de terror. Depois foram para junto do irmão, abraçando-o solidários. Não havia mais risos e sim um silêncio tenso, onde Shun deixava escapar as lágrimas que os dois irmãos não ousavam permitir em si.
Em pé, na porta, Kanon viu os três meninos formarem um círculo de braços e corpos e apiedou-se deles. Sabia que seu senhor estava protegendo-os, principalmente Milo. Ao fazê-lo tornar-se um Acólito, o deixaria fora das garras e vistas do leão. Kardia jamais entregaria seu primogênito. E também tinha que fazer com que tudo fosse concluído antes do tomo chegar a Berkehell com a ordem do soberano.
— Pai... podemos ir com Milo? – perguntou Ikki.
— Não, Ikki. Milo irá, somente, com Kanon, assim como eu deverei ir até Dwiefer prestar minha homenagem póstuma ao grande Soberano. Houve uma grande tragédia em Darneheim. Não há mais lugar para vacilos ou brincadeiras para homens como nós. A vida adulta tem o seu preço. Agora vão e aproveitem estes momentos juntos. – disse Kardia com um tom de voz firme, mas que ao fundo possuía uma nota de grande pesar.
Milo olhou para seu pai com uma mistura de mágoa e ódio nos olhos azuis. Kardia sustentou a conexão vendo muito de si naquele garoto arrogante e precoce. Ele mesmo possuíra a mãe de Milo com apenas 15 anos e a engravidara na primeira relação.
Agora ali estava o fruto de sua carne, odiando-o. Entretanto, também por experiência própria, sabia que o ódio tornava os homens mais fortes e menos ingênuos. Despediu-se do filho sem nenhum contato físico. Seu rosto estava sombrio, mas se manteve ereto e firme.
Somente quando os três deixaram o salão, acompanhados por Kanon, ele se permitiu desabar na imensa cadeira de pedra e colocar o rosto entre as mãos. Espero que um dia, você entenda o que eu fiz, Milo. E, quando o fizer, ficarei feliz em saber que será capaz de terminar o que eu iniciarei agora.
Quando a alvorada chegou, Milo despediu-se de Ikki e Shun com o estômago doendo e os olhos vermelhos. Chorara boa parte da noite, até adormecer de cansaço. Entretanto, não demonstrou fraqueza na frente de seu pai.
Como era costume, o senhor de um clã podia ter filhos com várias mulheres. Não fora diferente com Kardia. Ele amara Yuzuriha, uma corsária que afundara muitos navios mercantes de Berkehell, antes dele encontrá-la e travarem uma batalha que quase os matou, mas que acabou levando-os para a cama. Milo puxara a mãe, ela era bela, voluntariosa e de sangue quente.
Já Ikki fora fruto de sua relação com uma mestra de armas, a instigante e dura Marin, enquanto o caçula, Shun, fora gerado de um único encontro com Shaina, a dançarina dos véus de Lion...
Agora via seu filho mais velho montar seu cavalo sem dizer uma única palavra. Aproximou-se dele e tocou-lhe o ombro, sentindo que ele retesava o corpo.
— Seja forte e torne-se o homem que o clã Skorpjun precisa.
Milo nada disse. Apenas assentiu com a cabeça e sorriu fraco para os irmãos. Pegou as rédeas do cavalo e posicionou-se ao lado de Kanon. Bateu com os pés na barriga do garanhão negro, iniciando sua jornada. Não olhou nenhuma vez para trás.
A estrada levou-os a atravessar um riacho e depois seguir por uma trilha sulcada através de um bosque de carvalhos e olmos. Milo permanecia calado, parecendo não se importar com o calor do sol que começava a fazê-los suar, nem com os insistentes insetos que sobrevoavam sobre as suas cabeças. Também nada disse quando acamparam à noite e não havia lua no céu.
Depois de um tempo, quando já haviam cavalgado durante quatro dias, Kanon resolveu cortar aquele silêncio.
— Seis anos passam rápido. Logo estará de volta. – disse o jovem comandante.
— Diz isso porque não é você que vai apodrecer em uma torre escura junto com um bando de monges esquisitos que proíbem tudo. Se vacilar não nos deixam nem urinar em paz, com medo que agarremos o pau para fazer coisas obscenas! – respondeu Milo com raiva.
Kanon sorriu. Aquele sim era Milo e não o garoto taciturno e silencioso de dias e horas atrás.
— Aprenderá muito com os acólitos. Dizem que são peritos na arte de produzir venenos mortais, limpos e indolores. Também são exímios no uso do arco.
— Meu pai me odeia! Será que ele esperava que eu fosse inocente que nem o Shun ou mais responsável como o Ikki? O que tem demais em sentir vontade de... Ah, esquece!
— É justamente aí que se engana, Milo. Seu pai fez isso, porque o ama. Um dia, você entenderá o sacrifício que ele fez.
— Sacrifício? Que sacrifício?
— No seu devido tempo, você saberá. Agora mantenha a postura ereta e aceite seu destino com a força e o caráter que eu sei que possui. Chegamos à Torre Negra. – disse Kanon apontando para frente.
Milo estremeceu ao ver a torre alta e encimada por dragões e outro animal mitológico que ele não soube identificar. Ela projetava-se por cima do denso emaranhado de árvores retorcidas e nuas. Era escura e temível, fazendo jus ao nome que possuía. Não parece ter vida aí dentro, disse Milo a si mesmo.
Um disco de metal polido ergueu-se enorme à sua frente. Estava apoiado em uma estrutura de madeira e quando era tocado, soava como um trovão abafado.
Homens vestidos de negro, dos pés à cabeça, portando lanças e arcos vieram recebê-los, quando Kanon se aproximou do imenso portão dizendo uma frase esquisita e recebendo uma resposta igualmente estranha.
Um homem com cabelos prateados e roupas claras, que destoavam daquele cenário surgiu de dentro do grupo de homens de negro. Seus passos eram firmes como os de um Senhor e possuía um olhar sereno e franco.
Sorrindo e estendendo a mão na sua direção, o homem foi dizendo com uma voz profunda e grave:
— Seja bem-vindo, Milo do clã Skorpjun. Eu sou Hakurei de Altar. Esqueça tudo o que deixou para trás e prepare-se para uma nova vida. Sorria, pequeno escorpião, porque sua vida começa agora.
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Em algum lugar no grande labirinto de árvores centenárias, um lobo uivou. O som pairou no ar sobre a fortaleza, enquanto Dégel desafiava Kamus em uma partida de skák. O garoto estava com uma pasta de ervas no ferimento em seu rosto. A primeira coisa que pedira à Healer fora para deixar a cicatriz. Queria que ela permanecesse como uma espécie de prêmio para si mesmo. Mesmo que seu pai não tivesse dado importância ao seu ato, para ele tinha sido.
Raio permanecia ao seu lado, atento e protetor como sempre e, de vez em quando, Kamus afagava sua cabeça e dirigia-lhe um olhar cúmplice, como se o lobo pudesse compartilhar as estratégias que tecia em sua mente.
Após uma hora de jogadas feitas com as peças que reproduziam guerreiros, homens comuns e reis, Kamus fez o movimento que o levou à vitória e, para sua surpresa, viu seu pai sorrir e tocá-lo com afetividade.
Um jogo idiota de tabuleiro o faz sorrir, enquanto um ato de bravura o faz criticar-me. Pensou o garoto, porém manteve o rosto impassível. Após a decepção com o descaso de seu pai pela sua coragem, aprendera a esconder seus sentimentos.
Dégel pareceu ler os pensamentos do filho, então o convidou para ir até a janela onde se podiam ver grandes extensões de gelo. Uma visão mais detalhada mostrava as alcateias de lobos correndo em busca de alimento. Alguns eram enormes, não tanto quanto Raio e os outros que Fenrir tinha encontrado, mas mesmo assim eram enormes e tinham um aspecto selvagem e feroz.
— Olhe Kamus e diga-me o que consegue ver. – disse Dégel apontando para os lobos.
— Uma alcateia.
— E o que mais?
O garoto estreitou os olhos como que procurando algo diferente para relatar. Observou o movimento, a organização, o número de lobos, a cor de sua pelagem e, também, a forma de comunicação entre eles. Para Kamus, não era difícil analisar as coisas, era tudo tão...óbvio. Queria lutar, ser um guerreiro hábil, isso sim seria a sua glória!
— Vejo que aquele lobo branco fica parado enquanto os outros saltitam em torno do cervo. – disse ele com certo tédio.
— E porque acha que ele faz isso? Porque ele também não saltita junto?
— Porque...ele é o líder.
— Exato. E porque o líder se mantém como observador, antes de agir?
— Porque precisa estar atento a qualquer falha dos outros.
— Correto. E se alguém falhar, o que ele faz?
— Age para colocar tudo nos eixos.
— Orgulho-me de você, Kamus. Essa percepção que demonstrou agora é a visão que um líder deve ter. Isso... – disse Dégel tocando no centro de sua testa. – Isso é a arma mais eficiente, assim como o controle do impulso e das emoções. Uma espada pode derrotar vários inimigos, porém a inteligência pode conquistar um reino.
Dégel sorriu, mais uma vez, e olhou bem fundo nos olhos de Kamus.
— Tem o fogo de sua mãe nesses seus olhos, mas também é meu filho e minha herança é a paciência para ver a semente germinar... fincar suas raízes com profundidade e produzir frutos. Sei que não é algo que um jovem como você deva apreciar. Mas, um dia, esta sabedoria será sua e eu espero que a use para o bem do nosso clã.
Ditas as palavras, Dégel abraçou Kamus, afagou a cabeça do lobo e deixou-os. De repente, o grande salão tornou-se um lugar solitário com profundas sombras decorando as paredes frias. Um archote se apagou e o garoto sentiu um arrepio na espinha, enquanto seu pai caminhava ereto e digno como o Senhor do clã. Raio emitiu um som baixo, semelhante a um ganido, permanecendo ao lado do menino.
Depois disso, Kamus não viu mais o pai. A fortaleza tornou-se um lugar de silêncios, murmúrios e pessoas movendo-se como as sombras que reinavam nas paredes depois que a luz fenecia. A resposta que recebeu de Manigold, quando o questionou foi:
— Seu pai foi ao encontro de seu destino, assim como um dia, você irá atrás do seu. Esqueça as perguntas e concentre-se no aprendizado que terá daqui para frente.
— Não entendo porque meu pai deixou a fortaleza. Eu ouço comentários que ele foi para Dwiefer porque o grande Soberano morreu. Mas, por que ele não se despediu e porque todos dizem que ele... ele não vai voltar?
— Para um garoto inteligente, você insiste em perguntar e não em achar a resposta em si mesmo. Pense Kamus, porque um homem poderoso e honrado se entrega aos leões ao invés de lutar com eles? Medo? Covardia?
Kamus franziu o cenho. Algo se contorceu em seu estômago e o olhar duro e frio de Manigold fixou-se no seu. Um mal-estar tomou conta da sua pele e ossos e ele sentiu tanto frio que seus dentes começaram a bater uns nos outros.
Então, a resposta a todas as suas indagações caiu sobre ele como uma violenta nevasca. Sentiu vontade de chorar, porém seus olhos estavam, estranhamente, secos. As imagens do sorriso e do toque em seu ombro surgiram em sua mente e seus lábios sussurraram a frase com uma profunda tristeza:
— Fez isso para proteger-me...
E, nos segundos que se seguiram à ela, Kamus sentiu as lágrimas, finalmente escorrerem pelo seu rosto, levando consigo o que lhe restara da infância...
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— Fez isso para proteger-me?
A pergunta de Milo ecoou pelas paredes escuras, três dias após sua chegada, quando Hakurei de Altar, confidenciou-lhe que Kardia havia enviado um falcão com uma mensagem horas depois do pronunciamento oficial da morte do Grande Soberano com um pedido para aceitá-lo.
— Sim, seu pai descobriu as intenções de Regulus, mesmo antes do tomo chegar à vossa fortaleza. Nele, está escrito que todos os primogênitos dos clãs devem ser levados até Dwiefer e lá permanecer sob a tutela do clã Iljun até que o assassino seja encontrado.
— O que isso significa?
— Significa que todos os Senhores terão de submeter-se às leis e costumes de Iljun. Não haverá mais autonomia e sim supremacia de um clã sobre os demais. A liberdade será retirada. Entende a extensão disso, Milo?
— Eu pensei que meu pai estava me castigando, porque eu...
— Por quê? — Hakurei continuou a fitar Milo diretamente nos olhos, a expressão de quem consegue desnudar os pensamentos, as intenções, a alma...
— Bem, eu...é...quer dizer... o senhor sabe, coisas de homem.
— Seu corpo está mudando e as mudanças trazem uma grande carga de desejo. É natural que queira sentir prazer, mas se deixar-se dominar por seus instintos, tornar-se-á um Senhor fraco, sujeito a abusar e ser abusado por outros.
— Mas, se eu me tornar um Acólito terei que esquecer que tenho certas vontades. Os outros noviços disseram que eu não posso nem falar em foder. Que esta palavra é proibida. – disse Milo desviando o olhar.
Hakurei sorriu, compreensivo, mas tornou-se, novamente sério, ao olhar para Milo.
— Precisa compreender que nada é por acaso e não existem coincidências. O universo nos coloca em xeque, cada vez que um desafio põe por terra tudo o que tínhamos como certo em nossas vidas. Sexo, dor, vida, prazer, morte... São todos aspectos da vida de um homem, mas não são a essência do homem!
Milo franziu o cenho. Embora fosse inteligente e metido, aquelas palavras soaram adultas demais para um garoto que ansiava em descobrir a vida. Hakurei tocou-o no ombro e levou a mão até um pesado anel de ferro em forma de escorpião incrustado na madeira de uma imensa porta que ficava no final do corredor.
A porta rangeu quando se abriu, parecendo um lamento de alguém doente ou às portas da morte. Não havia nenhuma luz, nenhuma vela ou archote. O garoto tentou adaptar sua visão e agitou os dedos na frente do rosto, mas ainda continuava cego diante daquele breu.
Atento ao ambiente e à sensação estranha de estar ali, Milo não percebeu quando Hakurei saiu e fechou a porta. Então, totalmente envolvido pela escuridão, ele percebeu... Ele deixou-me aqui sozinho!
Os dedos de Milo roçaram as pedras ásperas e úmidas à procura da porta, porém, achou apenas uma grande extensão de paredes feitas de pedras irregulares. Algumas pareciam ter uma inscrição, outras eram tão lisas quanto o mármore polido. Será que ele vai deixar-me aqui até eu parar de sentir desejo? Merda! Vou apodrecer aqui!
Avançando, Milo decidiu que não teria medo, até ouvir ruídos de algo que rastejava pelas paredes. O que é isso? Pelo Senhor das Almas... que não seja o que eu penso que é!
Algo subia pelas suas botas, vindo da escuridão, se arrastando e fazendo um som agudo e metálico. Não vou gritar! Juro que não vou!
Milo não gritou, apenas recuou segurando a respiração e sentindo o coração disparar. Suas costas bateram de encontro a uma parede gélida e pegajosa e algo picou sua mão, fazendo-a arder como se tivesse sido queimado pelo fogo. Sobressaltado, começou a debater-se com o terror atingindo seus ossos e a dor espalhando-se por dentro das suas veias.
Tentou respirar fundo, mas não conseguia. Então, tudo pareceu sair do eixo. A escuridão ganhou vida e Milo sentiu seu corpo tornar-se leve, como se pudesse flutuar. Uma sensação de paz o invadiu e ele deixou-se escorregar pela parede. Não mais se debateu, apenas esperou, a voz morrendo na garganta...
Fechou os olhos e imaginou-se em casa com seus irmãos, depois com as criadas... Não vou gritar como um bebezinho. Sou um homem. Sou um homem e não devo ter medo!
Aos poucos, o torpor foi gelando o corpo de Milo, levando-o mais além e pareceu que ele podia enxergar na escuridão, fundir-se a ela, moldá-la em suas mãos... Seus olhos foram ficando pesados, mas ele ainda viu um archote, seguido de Hakurei e aquele seu olhar que ora era duro, ora era piedoso.
— Muito bem, acólito. Foste batizado com o beijo de um de nossos mestres... Ele o escolheu para partilhar do seu poder.
Milo não conseguia falar, mas ainda assim, sorriu orgulhoso de si mesmo. Não gritei...
Ainda estava na escuridão, mas isso não importava. Podia ver a si mesmo ali, sentado no chão cercado de criaturas negras e rastejantes cujos ferrões agora não mais o feriam. Estou voando... Estou vendo a mim mesmo ali embaixo...
Quando Hakurei entrou na sala, horas depois, Milo estava sentado no chão cercado pelos escorpiões negros. Um deles o havia picado na mão esquerda, sinal que o deus Sombrio resolvera partilhar seu poder com o menino. A peçonha tornaria seu sangue imune a todos os venenos conhecidos, mas para isso, Milo teria que morrer...
Foram três dias e três noites de febre intensa, sofrimento e delírios. A noite caía, os dedos pálidos da luz agarravam o sol, fazendo surgir o dia, e Milo permanecia em uma cela isolada, seu corpo contorcendo-se de dor para assimilar o veneno mortal do escorpião.
Quando Hakurei trancara-o na câmara do renascimento, não havia nenhum escorpião ali, ele tinha certeza. Sua intenção era ver até onde ia a coragem e a fé do menino. Era uma morte simbólica.
Mais tarde, ele introduziria pequenas quantidades de veneno no sangue de Milo, como era feito com todos os acólitos, até que o organismo dele fosse assimilando, tornando-se imune.
Entretanto, o deus Sombrio tinha planos para aquele noviço, então mandou seus servos invadirem a câmara e prepará-lo para a transformação. Quando Milo acordasse, renascido, não seria mais um menino, mas um arauto do deus, a prova viva que nada neste mundo existe ou acontece por acaso...
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