Tronix - O Protegido Protetor
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Cheguei em casa um tanto tarde porque me perdi com Natsu... Não sabíamos voltar pra casa. Não consegui parar de pensar sobre a pergunta certeira de Lucy; algo nela passou a me incomodar.
Desci das costas de Natsu e o mandei diminuir. Quando ele já estava pendurado em meu ombro, bati na porta de casa e em seguida entrei visto que a mesma estava aberta. Minha mãe estava sentada a mesa com a maior cara de preocupada, porém estava sendo adulada pelo novo namorado. Aquele que age legal com todo mundo, mas pra mim isso é falsidade.
–Oi –falei segurando a alça da bolsa e observando aqueles dois.
Minha mãe veio até mim com uma cara horrorizada, seus olhos estavam arregalados e suas sobrancelhas franzidas.
–Por onde andou?! Você sabe o quanto me deixou preocupada??? Já para o quarto!
–Me desculpe.
–No momento não aceitarei tais desculpas, são apenas da boca pra fora! Já para cama.
–Mas eu...!
–Oliver Puriel Finn Tau! –ela tremeu a voz. Quando isso acontece ou o nome quase todo é citado é porque ela realmente está zangada.
–“Tau”?
Tau é o namorado de minha mãe. Renan Tau. Mas esse não é meu pai; prefiro muito ser Finn Roci do que Finn Tau! Minha mãe não respondeu, o olhar dela estava severo como se quisesse arrancar meus cabelos ou fazer qualquer outra coisa cruel. Suspirei. Dei as costas para as únicas figuras na sala e caminhei devagar para as escadas, mas antes de subi-la por completo disse em tom frio, com um sorriso e olhos cerrados:
–Espero que tenham uma boa noite.
O rosto de minha mãe não era piedoso, ela com certeza descontaria em mim. Faz um bom tempo que ela está noiva de Renan Tau e isso me perturba. Meu pai era muito melhor que esse cara! Fui para o quarto e joguei-me na cama. Estava cedo pra dormir. O protegido admirava meu quarto naquela forma pequena. Ele admirava o trenzinho por cima das pistas e parecia querer entrar lá dentro. Dava vontade de rir da cara de boboca daquele animal.
Cruzei o quarto e pairei na frente do espelho sem enfeites que descia até o chão. Minha imagem refletia no mesmo; os cabelos pretos estavam grandes e bagunçados, desciam lisos até perto do pescoço e a franja havia crescido bastante. Os olhos azuis em tons safira estavam mais escuros. Meu corpo continuava o mesmo; como se eu não estivesse crescendo mais nenhum centímetro; continuava pequenino... Quer dizer, eu sou mais alto que Aira -minha irmã- e que algumas pessoas da minha escola, porém continuo baixinho...
–O que foi? –ouvi a voz do protegido ecoar em minha mente e quando virei para observá-lo, ele continuava pequeno, porém com os olhos quase pregados em mim.
No mesmo momento que iria respondê-lo, minha irmã adentrou o quarto com o maior sorriso do mundo. Ela pulava de alegria colocando os cabelos castanhos ondulados e longos em movimento enquanto seus olhos castanhos quase dourados brilhavam. Ela me abraçou naquele pique e parecia bem animada, eu só não sabia o motivo.
–Você trouxe o protegido? –ela quase gritou.
Apontei para a figura amarela que agora encarava a pequena. Ela se aproximou dele finalmente me largando e começou a encará-lo. Ele não dirigiu uma só palavra pra ela; continuava de cara fechada apenas encarando-a.
–Gostei dele! Este ano posso cuidar dele como fiz com os outros?
–Não pode, você vai. Ande, tire-o daqui, enfeite-o com o que quiser.
–Ei! Ninguém vai me enfeitar! –o bicho disse com uma voz fina e estranha.
–Ele fala!!! Qual seu nome?
–Natsucorue, mas pode me chamar de Natsu.
Aira Naoki é minha irmã mais nova; tem cinco anos e é bem sorridente... Diferente de Kal-El, meu irmão mais velho, irritante pra caramba. Tem 16 anos e só por ser mais velho acha que pode mandar em tudo.
Aira abraçou o animal apertando-o e logo em seguida sorriu para o mesmo fazendo-o ruborizar. Deitei na cama novamente e em seguida suspirei fechando os olhos. Estava de olhos fechados, mas percebia muitas coisas... A porta do quarto aberta, Aira girando Natsu, minha franja sobre metade do olho esquerdo e passos na sala. Instantaneamente o barulho de passos parou e Aira também parou de girar o animal. Franzi as sobrancelhas e apertei as pálpebras nos olhos quando senti ela se aproximar e começar:
–Ei, ei, você sabia que o papai vai casar com a mamãe? –sua voz fina saiu mostrando um tique de alegria.
–O papai e a mamãe são separados, Aira.
–Não! Não estou falando do papai Leonan! Quem vai se casar é a mamãe e o papai Renan. Parece que vai ser daqui a alguns dias só. Aí eles vão viajar e a gente vai ter que ir pra casa do outro papai... Mas eu não quero ficar com a tia Sally... Ela tenta parecer com a mamãe e isso é chato...
Malditos.
Não me falaram nada.
Impossível descrever minha raiva no momento.
–Pelo menos a Sally te dá brinquedos, Jô não dá. –Falei me referindo a nossa madrasta. –E lá tem a Poliana pra brincar com você.
–Mas aqui eu tenho o Natsu pra brincar comigo.
–Quando eles disseram que iriam se casar?
–Faz alguns dias, eu acho... Oliver, o Natsu come alguma coisa?
–Doces.
–Eh?? E se não tiver doces? Porque você o programou para comer doces?
–Não sei. Se ele precisar de doces, Jô vai comprar e se ela comprar, eu posso aproveitar pra pegar alguns.
Os passos lá em baixo voltaram. Colei mais o ouvido contra os cobertores azuis e consegui ouvir mais ruídos. Levantei da cama e desci as escadas o mais rápido que pude. Jô se despedia de Tau com um sorriso bobo o que me deixou irritado. Esperei que ela notasse minha presença e quando isso aconteceu, passei a encará-la. Ela me encarou e sorriu estreitando os olhos e em seguida perguntou por que eu havia saído do quarto. Logo e sem demoras começamos uma discussão. Ela perguntando por que não poderia dar um novo pai para nós e eu sem aceitar tal pergunta severa para mim. Disse que não aceitava um casamento tão cedo e ela retrucava que poderia fazer o que queria; era maior de idade, não era ordenada pelos pais e muito menos pelos filhos. A briga passou a ser mais severa, descontei minha raiva inteiramente nela e ela fez o mesmo. Os argumentos dela eram fortes, eu estava desistindo de lutar pelo o que queria e acabei soltando “quero ir morar com meu pai e com Sally”. A voz de Jô tremeu quando ela foi responder isto e logo depois vi poucas lágrimas duras escorregarem de seus olhos. “A porta está aberta para você ir e vir a hora que quiser”, ela disse calma. Aquilo acabou com o que restava de vida em mim. Não me permitiria chorar na frente dela, agi duro dizendo obrigado com um sorriso mentiroso. Cruzei a sala de cabeça baixa, o que me fez bater no sofá, mas logo me recuperei e subi as escadas correndo.
Aira ainda tava no quarto, mas agora com uma expressão preocupada. Com certeza ela havia escutado tudo. Expulsei-a do quarto por mais que ela quisesse ficar e tranquei a porta. Se eu fosse cair, não cairia na frente de outros. Cairia para mim mesmo. Joguei-me na cama virando o rosto para o lado da parede e passei a chorar sozinho. Apertando o rosto contra o travesseiro para que ninguém mais pudesse ouvir meus soluços ou gritos. Não sabia decifrar entre raiva ou tristeza.
–Mestre? –ouvi uma voz fina. Natsu.
–O que faz aqui? –tentei dizer sem tremer a voz, mas não deu certo, acabou revelando minha voz de quem estava chorando. Limpei a garganta e continuei: -Você deveria estar com Aira! Saia já daqui!
–Não.
–O que?
–Não sairei. Você é meu mestre, devo obedecê-lo, mas claro, isso não estava em meus termos de uso. O que se passa?
–Não é da sua conta! Você é um mero inútil protegido que veio com defeito! Você não deveria falar e deveria apenas me obedecer! Saia daqui, agora!
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