Trina

9 Capítulo 9 - Destino predefinido


Apenas com uma centelha de luz, Damra conseguiu levantar, apoiando-se em algo que ela não sabia ao certo o que era.

Tentou caminhar de volta até a porta, mas tropeçava em objetos invisíveis pelo no chão, e a missão parecia ser impossível.

Mais um barulho.

Damra estacou no lugar.

Com o coração batendo fortemente em seu peito, tinha a impressão de estar sendo vigiada, mas não sabia dizer por quem. Demorou um pouco até que o escuro se descortinasse a medida que seus olhos iam se acostumando com a falta de luz.

Aos poucos começou a discernir as formas de alguns vasos enormes no canto oposto, de pás, sacos de terra, placas de madeira, plantas, e até mesmo alguns sapos e duendes feitos em argila em umas prateleiras próximas.

A medida que foi se acalmando, tudo começou a parecer menos assustador. Olhou para a porta mais uma vez e estava indo em sua direção, quando um barulho suave de água chamou sua atenção.

A fonte de concreto, que não era muito grande, ficava bem no meio da sala, e assim que seus olhos pousaram sobre ela, Damra sentiu uma estranha energia emanando dela, que era difícil de explicar.

A passos lentos, ela se aproximou da fonte, quase que hipnotizada. Se a perguntassem, ela juraria estar ouvindo a água cochichar, embora quanto mais tentasse discernir aquela voz líquida, menos conseguisse.

Não saberia dizer quanto tempo ficou naquele transe até que sua atenção fosse atraída por uma movimentação próxima a seus pés. Olhou rapidamente para baixo, mas não viu nada. Recuou de costas, com o olhar vasculhando todos os cantos. Nada.

Estava prestes a achar que estava louca, quando sentiu algo esbarrar em seu ombro e não conteve o grito.

Seu corpo projetou para a frente com o susto, e seu pé enganchou em alguma coisa áspera e rígida, fazendo-a perder o equilíbrio.

— Aaaai! Cuidado com isso aí, mocinha! Não é um brinquedo! – Uma voz rouca ecoou pelo ambiente.

— Quem está aí?! – Ela perguntou aflita.

— Eu que deveria perguntar. Afinal, eu não invadi a sua casa para chutar suas raízes, invadi?

O susto deu passagem a vergonha.

— Desculpe, eu não tinha intenção. Vi que se tratava de uma loja de paisagismo.

— De fato é – a voz afirmou.

— Ela está fechada?

— Não. Nunca fechamos as portas. Metaforicamente, é claro. Exceto aquela vez...

— Desculpe, eu já vou embora.

— Mas acabou de chegar.

— Achei que estivesse irritado com a invasão.

— Mas visitas não são uma invasão.

— Mas você disse que eu...

— Como ia dizendo, foi na primavera de 75, se não me engano...

Damra pode ouvir novamente os barulhos vindo do chão e até identificou alguns vultos, dessa vez.

— Desculpe, mas o que é isso?

A voz pareceu bufar, com a interrupção.

— São só ratos. Mas como eu estava dizendo...

Antes que pudesse concluir o raciocínio, o som do grito de Damra se espalhou pelo ambiente fazendo até as vidraças vibrarem.

As pressas, e meio desajeitada, ela andou na direção oposta aos ratos, esbarrando em algo que logo se espatifou no chão com um barulho seco.

Um segundo depois as luzes se acenderam e Damra teve os olhos cegados por um momento, até que pudesse discernir a forma humana que tinha a sua frente.

— Olá Damra – Disse uma senhora baixinha, com longos cabelos grisalhos presos em um coque.

...

— Quem é você? – Conseguiu dizer depois de um tempo encarando-a.

Os lábios da senhora formaram um sorriso travesso.

— Achei que seria isso o que, primeiro, me perguntaria.

— Como?

— Eu estou esperando a sua visita a muito tempo.

— Está?

Ela parecia calma e afável.

— Sinto muito por sua amiga – Os olhos de Damra se arregalaram – Ela está muito bem. Foi difícil no começo, mas ela seguiu com a própria vida. Mudou de cidade, entrou na faculdade, fez novos amigos e até começou a namorar.

Um longo silêncio se seguiu até que Damra processasse o que ouvia.

— Como? — A pergunta pairou no ar — Ela me esqueceu.

— Em partes, sim. Não é mais em você que ela pensa quando vai chamar alguém para ir ao cinema, ou quando precisa desabafar sobre a vida. Mas há vezes, naqueles pequenos momentos em que o tempo para de correr por um instante, que ela caminha pelo jardim, sem se preocupar com compromissos ou tarefas, e deixa a mente vagar até você. E com um sorriso no rosto, imagina como está a sua vida.

— Mas... como você pode saber? – Damra sentiu uma lágrima escorrer.

Com um sorriso doce ela deu de ombros, como se dissesse que simplesmente sabia.

Ainda um pouco aturdida, Damra olhou ao redor, vendo pela primeira vez o espaço bem iluminado.

Pode ver a parede ao fundo cheia de prateleiras com vasos de plantas de todos os tipos. Já a direita, havia uma longa parede de vidro, que parecia transpassar uma árvore ao meio.

A árvore, apesar de não tão alta, possuía um tronco bem robusto, que ficava metade para fora do espaço e metade para dentro, onde Damra podia ver protuberâncias incomuns, que a instigaram durante um tempo. Descendo os olhos, pode ver que as raízes se espalhavam pelo chão da sala em que se encontrava, atrapalhando em parte a passagem.

— Então foi nisso que eu tropecei.

— Não me chame de "nisso"!

A árvore se mexeu um pouco no lugar, fazendo seus galhos estalarem, até que as protuberâncias do tronco se contraíram e suavizaram, revelando um rosto idoso recoberto por uma camada marrom de casca de árvore.

— Então foi você que falou!

— Sim! E você quase me partiu ao meio com seus chutes em minhas raízes. Deveria chutá-la para ver o que você iria achar.

Damra ficou incrédula com a bronca que recebia da árvore.

— Vamos garota! Os ratos comeram sua língua? Estou esperando meu pedido de desculpas.

— Ambrósio. Deixe a Damra em paz.

— Você diz isso, porque não foi você quem ela chutou – Ambrósio revirou os olhos, encarando Damra – Vamos.

Uma batida seca e ritmada começou a ecoar pelo ambiente, como se a árvore tivesse um tic nervoso enquanto esperava.

— Damra ignore essa árvore rabugenta. O Velho Ambrósio não faz nada o dia inteiro além de reclamar.

— Acho que sua vidência está cega afinal de contas, depois de todos esses anos – Sibilou a árvore — É obvio que eu também faço fotossíntese nesse meio tempo. FO-TOS-SÍN-TE-SE – Disse cada sílaba com um chacoalhar das folhagens da copa — Durante tooooodo o dia.

A senhora fez sinal com a mão de pouco caso.

— Que não seja por isso – Damra disse virando-se para a árvore – Senhor Ambrósio, de forma alguma foi minha intenção agredir ou ofender ao senhor. Apenas não vi sua raiz no caminho e peço desculpas.

Depois de um breve segundo em silêncio, a expressão da árvore mudou completamente.

— Aaahhh, não se preocupe, minha querida. Também não foi tudo isso – Disse com um tom amável e expressão simpática – Acidentes acontecem. Isso não ocorreria se eu não tivesse colocado minhas raízes no caminho. Aceito suas desculpas. Moça muito educada. Me lembra da pequena...

— Tudo bem, Ambrósio – disse a senhora enquanto se aproximava de Damra. – Vamos indo. Precisamos conversar e você não tem muito tempo.

— ...Faz tempo que não vem ninguém aqui. – continuava a árvore – pelo menos não alguém tão educado. Uma vez um garoto quis grampear folhetos em mim. Tenho certeza de que ele nunca mais vai furar nenhuma árvore...

— Até logo, senhor Ambrósio – disse Damra fazendo uma reverência formal.

— Até, senhorita Damra! – Ele disse a ela, logo voltando a tagarelar consigo mesmo – Viu só! Sempre gostei dessa garota. Garota educada. E muito inteligente também. Só podia ser uma bruxa. São todas assim...

— Tudo bem, Ambrósio. Você pode vigiar lá fora, enquanto conversamos. A qualquer momento eles estarão aqui. Cedo ou tarde.

Damra reparou um certo nervosismo na voz daquela senhora.

Ainda distraído com as próprias divagações, a protuberância da árvore voltou ao normal e o falatório cessou.

Damra acompanhou a senhora pela cortininha de miçangas até que entrassem em uma sala cheia de mantos de veludos em cores fortes, velas, amuletos e imagens de seres divinos que ela mesma não reconhecia.

Ambas sentaram sob almofadas, de frente a uma mesa redonda com uma bola de cristal.

— A senhora é vidente – Disse Damra surpresa, como se só agora tivesse matado a charada.

Ela assentiu

— E assim, eu sabia que você viria aqui hoje. Infelizmente, eu não sabia a hora exata, e por isso estava no banheiro quando você chegou.

Ambas riram.

— Desculpe, mas eu não sei o seu...

— Margarida.

— É claro.

A senhora sorriu amavelmente.

— E então? Eu deveria te perguntar alguma coisa?

— Se você quiser.

— Você já sabe o que eu vou perguntar?

— Tenho ideia.

— Mas você não é...

— Vidente? Sim. Mas o futuro não é algo exato. É tão fluído, imaterial, e quase palpável quanto o ar.

Damra pareceu refletir um pouco sobre o assunto.

— Não sei se compreendo.

Margarida refletiu por um tempo.

— O futuro não está todo escrito nas estrelas, como algumas pessoas acreditam. Sim, todos nascem destinados a algo, mas o caminho que trilham até lá é feito por escolhas individuais. Eu sabia que você um dia estaria aqui, porque todos os caminhos que você poderia trilhar, acabavam passando pela minha loja.

Damra pareceu compreender.

— Como eu vim parar aqui? Eu estava fugindo e de repente...

— É uma habilidade natural das bruxas. Normalmente se manifesta apenas de forma defensiva. Quando você caiu, se teletransportou para o último lugar em que estava pensando.

— Na verdade – Continuou Margarida – Comumente as bruxas se deslocam apenas alguns metros com essa técnica. Poucas vezes chegaram a marca de quilômetros. Mas você... – Ela parecia intrigada – Você conseguiu fazer uma viagem transmundana. Realmente é muito admirável. Você deve ter sido muito poderosa em suas vidas passadas.

— Vidas passadas?

— Sim. Até onde eu sei, isso remonta da época da Inquisição. As histórias contam que seu clã lançou um poderoso feitiço para proteger as almas de todas vocês, para que pudessem reencarnar muitas e muitas vezes ao longo das eras, levando seu legado a diante.

— Uau. É uma história...

— Impressionante?

— Eu ia dizer "louca".

— Acho que também podemos chamar assim – Ela riu suavemente.

— Mas por que estou aqui? Qual é o grande motivo disso?

— Você precisa de ajuda para seguir adiante. E os deuses intercederam por você.

— Deuses?

— Sim.

— Tipo Zeus, Vênus e tal?

— Sim e não. Os deuses que você citou são de culturas diferentes e nenhuma delas nos pertence. Nós temos a nossa própria história. Mas isso não importa agora. Vamos ver seu futuro na bola de cristal.

Margarida se acomodou melhor nas almofadas, esticou as mãos sobre a bola de cristal, sem tocá-la e, de olhos fechados, relaxou o pescoço.

— Muito bem – Disse ela abrindo os olhos e pousando as mão sobre a mesa – Eu vou te explicar o que você tem que fazer e você faz. Tudo bem?

Damra assentiu.

— Eu preciso que você se concentre na bola de cristal! Você conhece a si mesma, sendo assim, conseguirá prever suas próprias ações e a visão ficará com uma probabilidade de acerto maior.

— Então o que eu tenho que fazer?

— Primeiro você tem que estar confortável. Relaxe um pouco e mantenha-se ereta.

— Okay. – Damra esticou as costas, mexeu os ombros, relaxou o pescoço e estralou os dedos – Pronto.

— Agora coloque as mãos sobre a bola. Feche os olhos. E tente sentir a energia que emana do cristal. Sinta e deixe que flua para dentro de você.

Damra respirou fundo, sentia uma sensação de formigamento nas pontas dos dedos que era o limiar entre cócegas e desconforto. Esperou mais um pouco, crendo que fosse aumentar, mas a sensação passou.

— Acho que não está dando certo – Disse abrindo os olhos, porém Margarida não estava mais lá. Nem mesmo a sala estava lá.

Ao seu redor, apenas havia escuridão, ela e a bola de cristal fixa entre seus dedos.

— Olhe para ela – Teve a impressão de ouvir a voz de Margarida ecoar de um lugar muito distante — veja o líquido dentro dela. Veja como ele se mexe.

— Mas não tem liquido algum.

Damra acreditava nisso até o momento em que terminou de pronunciar essas palavras, pois quando seus olhos se concentraram na esfera ela pôde ver.

— Olhe além dessa realidade – a voz ecoava cada vez mais baixo – olhe além...

Silêncio.

Damra respirou fundo, mais uma vez, esvaziando a mente e com os olhos abertos, ela entrou em estado de transe.

Via o liquido girar dentro da esfera. Girando e girando cada vez mais rápido. Até que sua casca vítrea começou a se romper. Rachaduras começaram a surgir, como a raiz de uma árvore se espalhando pelo chão. Luzes começaram a vazar, pelas fendas que se abriam, transformando o escuro ao seu redor em pura claridade que emanava da esfera, inundando o espaço com um barco naufragando. As fissuras foram aumentando até que a bola explodiu em pedaços, com um clarão amarelo e quente.

Damra fechou os olhos em um instinto de se proteger, mas nada aconteceu. Quando os abriu novamente viu água liquida flutuando no ar a sua frente, como se não houvesse gravidade. E pelo ar flutuavam os cacos de cristais da bola, ainda tão sólidos na sensação da ponta de seus dedos, que tornava toda a cena ainda mais confusa.

Antes que ela pudesse pensar muito mais sobre o que significava tudo aquilo, imagens começaram a surgir na superfície fluída como se fossem um reflexo na margem de um lago.

"Damra estava sentada na salinha com Margarida. Ela levantava abruptamente e saía correndo porta afora. Margarida continuava sentada. Em seguida Damra se via atravessando a rua desesperada, quase sendo atropelada. Tempos depois vários homens armados entravam na loja de Margarida e a agrediam até ela desfalecer no chão. Fogo por todo lugar. O Senhor Ambrósio queimando em brasas. Damra voltava para a casa de Bruno e Adriano e eles partiam de carro. Acidente. O carro capota. Adriano e Bruno não se moviam. Inconscientes. Damra era arrastada para fora do carro e executada".

Então, de repente, como quem mexe água em um caldeirão, o liquido se revolveu, dando lugar a novas imagens.

"Damra e Margarida levantando juntas na sala, apressadas, indo em direção a entrada. Margarida lhe entrega alguns itens. Damra sai apressada pela porta, logo descendo a rua. Os guerreiros chegam na loja e amarram Margarida. Damra pega um taxi. Fogo. Dona Margarida e o Ambrósio são queimados vivos. Damra chega em um circo. O taxista é assassinado no estacionamento. Damra é encurralada dentro da tenda de espetáculos. Sobe até as barras do trapézio e cai de uma altura de 8 metros desaparecendo no ar".

Mais uma vez, novas imagens recomeçam.

"Damra e Margarida conversam um pouco na mesa. Voltam a entrada e Damra toma chá com a dona Margarida na mesa perto do senhor Ambrósio. A senhora vai até a cozinha. Damra pega um frasco dentro da bolsa e despeja um pouco dentro da xícara de Margarida e nas raízes de Ambrósio. Elas terminam o chá. Damra sai da loja com pressa e desvia o caminho para não passar em frente ao condomínio de Adriano e Bruno. Os guerreiros entram na loja e encontram Dona Margarida desacordada. Ateiam fogo na loja. Damra pega um taxi até o parque do Ibirapuera. Vê duas meninas gêmeas brincando na gangorra. É encurralada no meio da mata e é enforcada em uma árvore".

O líquido começou a misturar novamente, mas a essa altura Damra sentia-se fraca e horrorizada. Quando novas imagens estavam prestes a aparecer ela puxou os braços para frente do rosto com um grito, em um ato aflito de tentar não ver.

Então como uma lufada de vento, ela sentiu todo o peso daquelas visões sair de seus ombros, junto com o som da bola de cristal rolando pela mesa.

— Então... – Disse dona Margarida.

Damra abriu os olhos, vendo que estava de volta a salinha exotérica.

— O que você vai fazer?