Trina

10 Capítulo 10 - A pérola e o diamante


O impacto de seu salto no mármore ecoava no ar com suas passadas ritmadas, parando somente quando Bellona entrou por uma porta aberta no final do corredor.

A sala, bem iluminada e cheia de janelas, estava abarrotada de frascos e potes transparentes, contendo líquidos e ingredientes triturados que nem eu sei para que servem todos.

— Senhora Bellona. — disse um homem corcunda, enquanto fazia uma reverência.

Ela se aproximou do sofá no centro da sala, ignorando completamente a saudação de seu servo, e empregando sua total atenção à jovem mulher que ali estava deitada.

Bellona passou as costas dos dedos na lateral de seu rosto, seguindo para os longos cabelos castanhos que lhe caiam sobre os ombros.

— Onde encontraram-na? – perguntou Bellona sem tirar os olhos da garota.

— Os lobos encontraram a garota perto do riacho a leste, minha senhora – O corcunda se aproximou cautelosamente – Pelo que me parece – sua voz oscilou – ela mora em uma vila próxima.

Ela pousou a mão, delicadamente, sob a têmpora da garota, que depois de um instante, começou a emitir um suave brilho em tom amarelado. Bellona fechou os olhos e respirou fundo, como se entrasse em transe.

Quando o brilho cessou e ela voltou ao normal, parecia intrigada.

— Dê-me o frasco – ela esticou a mão para o servo.

Como se não esperasse pela ordem, o corcunda saltou no lugar, mancando às pressas até uma bancada próxima, procurando o item.

— Você me irrita com a sua demora.

Ele voltou ainda mais rápido, dentro de suas limitações, oferecendo um frasco com dois líquidos diferentes dentro. O de maior densidade era marrom e ocupava o fundo do frasco, enquanto o outro era verde e ficava acima do primeiro.

Bellona pegou o vidrinho, sacudiu-o algumas vezes antes de tirar a rolha e aproximar do nariz da moça, soprando levemente, para que o aroma da poção entrasse em suas narinas.

— Onde estou? — Foi a primeira coisa que a moça disse ao abrir seus olhos cor de mel.

— Em minha casa – disse Bellona, sentando ao lado dela – está segura aqui.

— Mas como vim parar aqui? Não me recordo muito...

— Quantos anos você tem, minha querida? — sua voz soava doce e gentil.

— Eu? – Bellona concordou – completarei 19 na chegada do próximo mês.

— Que formidável!

— Achas?

— Claro que sim. Dezenove é, sem dúvidas, a melhor idade.

Ela aquiesceu docemente.

— Estou com tanta sede.

— Claro. Claro.

Bellona fez sinal com a mão para o corcunda, que em instantes voltou com um copo e uma jarra cheia de água.

— Desejas mais alguma coisa, minha senhora?

— Apenas que nos deixe a sós — disse entregando o copo a moça.

Com um aceno de cabeça ele se retirou.

— Que falha a minha. Creio não ter me apresentado. Me chamo Bellona.

A garota deu a última golada na água com certo esforço, antes de responder.

— É um prazer conhecê-la. Meu nome é Pérola.

— Pérola... — ela deixou que a palavra brincasse em seus lábios — é um bom nome.

— Desculpe, mas... como é mesmo que vim parar aqui?

— Um de meus criados a encontro desmaiada e sozinha. Então a trouxe para cá.

— Humm...

— Pérola, você tem ideia de quem és?

— Eu... ahnn... não tenho certeza se entendi a pergunta.

— Você mora em uma vila aqui perto, mas você não tem ainda 19 anos. Você é um caso raro.

...

— Eu quis dizer... – Bellona segurou as mãos dela, olhando fundo em seus olhos – existem poucas jovens bonitas como você por aí. Deve tomar cuidado.

— Ah sim. Eu costumo ser bem cautelosa. Realmente não sei o que aconteceu. Quanto mais me esforço para lembrar, mais tudo se esvai.

— Estranho, não?

— Sim. Bom, é melhor eu partir. Minha mama já deve estar preocupada.

— Ah, sim. Claro. Nunca faça uma mãe se separar de sua filha – Acrescentou com um sorriso.

Ambas levantaram.

— Pérola, talvez você quisesse... ahn.

— Sim...

— Bom. Não é nada.

— Por favor, eu insisto.

— Só ia dizer que talvez quisesses voltar outro dia. Sou muito sozinha. Seria bom ter uma amiga.

— Claro que sim. Aposto que mama não se importaria de me deixar visitar alguém que me ajudou tanto.

— Por favor, não conte nada a sua mãe.

— Por que não?

— Não há necessidade em preocupa-la explicando a situação na qual nos encontramos.

— Creio que estejas certa — Bellona sorriu em resposta – tudo bem. Voltou outra hora, então. Agora preciso mesmo partir.

— Claro, claro. Vou pedir que algum de meus criados a leve até a saída.

Bellona fez soar um sino que estava sobre a mesa, e antes que o barulho cessasse, o corcunda estava de volta.

— Leve-a até a saída. E permita a entrada dela, sempre que quiser.

Ele assentiu, partindo porta afora, acompanhado da moça.

Assim que a porta se fechou, Bellona voltou ao sofá com um sorriso malicioso no canto da boca, que foi aumentando até virar uma gargalhada, até que um vento gelado cortou a sala, apagando algumas velas e sua risada.

Os vidros e espelhos começaram a se recobrir de cristais de gelo e a respiração tornou-se visível.

— Tinhas que surgir para arruinar minha alegria, não é?

Em cada superfície vítrea congelada, uma parte central permanecia a salvo do frio, dando espaço a uma mancha que foi gradativamente aumentando, escurecendo e ganhando forma, até que fosse possível discernir a figura de um homem.

— O insuportável som da sua risada me força a vir calar-te – Sua voz era grave e cortante, apesar de abafada.

Bellona caminhou até um espelho oval de corpo inteiro, no canto da sala, vendo os detalhes da figura ganharem maior foco à medida que se aproximava.

— Nem tu serás capaz de destruir minha alegria hoje.

— Eu não preciso. Assim que você se der conta de que ela não se lembra de você e que nada do que você faça fará com que ela relembre o que se passou nas outras vidas, esse sorriso ridículo sumirá de seu rosto.

— E quem disse que quero que ela se lembre? Meu caro, a informação sempre lhe chega atrasada, não é?

— Não tente me enganar, Bellona. Eu sei quem ela é.

Com um sorriso sarcástico, ela fitou um espelho menor, apoiado em uma estante próxima.

— Ainda estás chateado pelo ocorrido, querido? — sua voz soava debochada.

— Chateado? Acho que essa não é a palavra.

— Me partiu o coração ter de fazer isto. Foi um grande desperdício. Ô se foi – Ela passou a mão sobre a superfície gelada do espelho.

A silhueta tremeluziu, perdendo a nitidez da forma.

— Deve ser muito difícil – Bellona riu – Querer e não poder. Estar tão perto, e tão longe ao mesmo tempo...

— Pare.

— Amar e ser traído. Amar e nunca ser amado em troca.

— Pare!

— Ah, meu caro. Nos divertíamos tanto, não é?

— CHEGA! — a silhueta ganhou foco novamente, dando ainda mais altura para a voz – Como pude acreditar em você? Como pude acreditar que me amava? Acreditar que ficaríamos juntos para sempre?

— Mas nós estamos juntos. Estás aqui agora.

— Morto!

— E reclamas? Eu te salvei.

— Você me matou! E por quê? Por causa dela? E o que adiantou? Eu entreguei minha vida a você...

— E eu a peguei.

— Entreguei minha vida para que nos tornássemos um! E o que fez?! Me apunhalou pelas costas!

— Apunhalado? Achei que tinha te envenenado — ela colocou a mão sobre o queixo como se estivesse realmente pensando no assunto.

— Achas que é piada? Depois de tudo que me fizestes passar. Eu, que sempre estive ao teu lado. Eu que estava aqui o tempo todo. Eu que ainda... – ele se deteve.

— E tu que ainda me amas? Que ainda me desejas? E que quer ficar ao meu lado, mesmo sabendo que eu prefiro outra a você?

...

— Eu só amei uma pessoa em todas as minhas vidas. E eu faria tudo para tê-la de volta – sua expressão era firme – Você não era nada. Só uma necessidade carnal que precisava ser saciada.

...

— Deverias ter pensado melhor no que significa entregar tua vida a uma bruxa.

— Ainda se acha digna desse título? — Disse com desdém.

— Tu ficarás aqui para sempre. Me verás com outros. Com ela. Por toda a eternidade.

— Seu tempo há de chegar, Bellona. E tenho a eternidade para ver-te ir ao chão.

Tão rápido quanto se formou, a silhueta se desfez, devolvendo à sala sua temperatura habitual e desfazendo todos os cristais de gelo, com exceção de um ponto brilhante na superfície vítrea a frente de Bellona.

Com a ponta das unhas, ela arrancou o pequeno diamante do espelho e, caminhando até a bancada, colocou dentro de um frasco ao lado de diversos outros iguais.

"Só mais algumas" — pensou — "Só mais algumas...".