Triangle
1 I-Crossroad Without Exit
Era mais uma caçada rotineira com a minha mãe. Estava de noite e acabávamos de sair do hospital, onde deixamos os sobreviventes que encontramos em um ninho de vampiros, em Ohio. Andávamos pela calçada, indo em direção ao beco, onde nossas motos estavam estacionadas quando pude perceber que minha mãe estava inquieta.
—Tá tudo bem? — ela direcionou o olhar para mim quando a questionei, assentindo positivamente logo depois.
—Só estou me sentindo como se estivéssemos sendo observadas.
Olhei ao redor, procurando por qualquer pessoa ou criatura suspeita. Minha mãe tinha um sexto sentido impecável e quase nunca se enganava. O que só serviu para me deixar mais atenta a qualquer acontecimento repentino.
Andamos até o fim do beco e nos sentamos em nossas motos. Coloquei a chave na ignição e dei partida...nada aconteceu. Olhei para o lado e pude ver a mesma feição de confusão estampada no rosto da minha mãe. Trocamos um olhar e descemos das motos já com as armas em mãos. Foi questão de tempo até três figuras masculinas trajando roupas pretas aparecerem em nossa frente. Será que minha mãe não podia estar errada pelo menos uma vez?
—Olá meninas. — O "homem" do meio se pronunciou mostrando seus verdadeiros olhos, que eram de um vermelho sangue profundo. Os outros dois tinham olhos negros.
—Veja se não é meu demônio de encruzilhada favorito!- Minha mãe cuspiu as palavras de forma irônica.
—Mãe, o que um demônio de encruzilhada pode querer com a gente?- cochichei como se isso impedisse os três homens de ouvir o que era dito.
—Não o que, mas sim quem.- o homem tornou a se pronunciar. — Depois de dois anos fugindo, nós finalmente nos encontramos não é, senhora Hill?
Minha mãe se virou pra mim e seu olhar era de arrependimento.
—Mãe, do que ele tá falando? O que eles querem?
—Eu.- Emma falou, suspirando em seguida.
—O que você fez mãe? Por que eles querem você?- Perguntei sentindo o ar começar a faltar. Que porra estava acontecendo?
—Há doze anos eu fiz um pacto...Eu fiz um pacto para manter...- Emma foi interrompida por um pigarreio.
—O momento de revelações entre mãe e filha está sendo, realmente, emocionante, mas eu não tenho mais paciência com as suas ações, senhora Hill. Você não tem mais tempo. — o homem falou e deu dois passos na nossa direção.
—Nem mais um passo. Fica longe da gente.- esbravejei, apontando a arma para cabeça do ser que se aproximava.
—Brava como a mãe... Diana, certo?- O demônio disse sorrindo, enquanto mais dois de seus capangas surgiam atrás de mim e me agarravam,derrubando minha arma e me imobilizando rapidamente.
—SOLTA ELA! Ela não tem nada a ver com isso!- Emma se exaltou.
—Não se preocupe minha querida Emma. Apesar de sua filha ter um rosto lindo e um corpo maravilhoso, nós não podemos tocar nela... Não ainda.- Soltou uma risada forçada.
—Eu juro que se você encostar em um fio ruivo de cabelo da minha mãe eu vou atrás de você até no inferno, seu filho da puta! — Eu tentava me livrar dos demônios mas, pra dificultar mais as coisas, estava muito cansada. Na noite anterior, tinha ficado acordada, ajudando minha mãe a encontrar o maldito ninho de vampiros e, mais cedo, no dia de hoje, tínhamos lutado contra 5 sanguessugas.
—Eu pago pra ver doçura! Não podemos adiar mais! Isso deveria ter acontecido há dois anos. Meu chefe não é dos mais compreensivos e quase me demitiu por não conseguir levar a alma de sua mãe. Você pode imaginar que ele não ficará nada contente se eu voltar sem ela mais uma vez, né?-O homem agarrou os cabelos de Emma fazendo-a gritar de dor.
—Pois eu acho que você não precisa se preocupar com o seu chefe, afinal, eu vou sair daqui com a minha mãe e vocês não vão sair daqui vivos.- A mão que estava para trás conseguiu alcançar o canivete, molhado com água benta, que tinha no meu bolso e eu não pensei duas vezes antes de cravar no braço do demônio que me segurava. Chutei o outro para longe e parti em direção ao homem que segurava minha mãe, que com apenas um movimento de mãos, me lançou contra a parede. Senti uma dor aguda na parte de trás da cabeça e comecei a perder a consciência.
Quando tornei a recupera-lá, pude observar de longe borrões se movimentando a minha frente. Minha visão foi aos poucos voltando ao normal e pude ver com clareza o demônio de olhos vermelhos com um punhal apontado para o peito da minha mãe, enquanto os outros dois a seguravam. Levantei o mais rápido que consegui, cambaleando e tentando ir até onde minha mãe estava. Ato esse completamente em vão.
A imagem do punhal sendo enterrado no peito de minha mãe estava acontecendo bem na minha frente. Corri pra cima dos demônios, mas eles já tinham partido quando os alcancei. Olhei pra baixo e vi minha mãe caída com um punhal cravado no peito. Me abaixei e segurei suas mãos que já começavam a ficar frias.
—Mãe, vai ficar tudo bem.- O choro me impedia de falar e a frase que eu dissera nem eu acreditava.
—Me prometa uma coisa...- falou baixo, se esforçando para pronunciar as palavras-Você não vai fazer nenhuma besteira...-Ela tossiu e sangue escorreu pelo canto de sua boca- Você vai seguir sua vida como se nada disso tivesse acontecido.-Ela levou as mãos, agora frias, até meu rosto e me olhou dentro dos olhos- Eu te amo...muito e sempre amarei, mas eu preciso que prometa que vai esquecer de tudo isso.
—Mãe,- interrompi-a com o meu choro- eu não posso. Não é tão simples.
—Shhh! Sim você pode e vai. Está me ouvindo?- minha mãe forçou um sorriso. — Preciso que me faça um favor. Entregue isso ao Bobby e ele vai saber o que fazer- Disse e tentou alcançar um papel no bolso de sua camisa. Não teve sucesso. Larguei uma de suas mãos e peguei para ela.
—Mãe, por que você fez um pacto? O que precisava de tão importante?- Perguntei com a voz trêmula.
—Nem tudo na vida necessita de uma resposta.-Ela pronunciou suas últimas palavras sorrindo, enquanto acariciava meu rosto.
Aos poucos, seus batimentos foram diminuindo e sua respiração ficando pesada. As mãos que antes acariciavam o rosto de sua filha agora ficavam sem força, seus olhos lutavam para permanecerem abertos, mas em questão de segundos, essa luta acabou. E então, não se via mais nenhum sinal de vida em seu corpo.
Diana chorava como nunca antes em sua vida. A garota que, com apenas 20 anos, já havia perdido toda a família, agora se sentia diferente. Dois sentimentos predominavam dentro dela: a tristeza e a vontade de vingança. Ela estava disposta a se vingar e, por isso, não havia prometido nada a sua mãe. Por mais que seu último desejo tenha sido que a garota esquecesse o que aconteceu, ela nem cogitava essa possibilidade. Sabia que, se fosse ao contrário, sua mãe não ia deixar pra lá e estava decidida a ir atrás do infeliz que tirara a vida dela. Nem que isso fosse a última coisa que fizesse, nem que precisasse ir até o inferno, literalmente falando. Pegou o papel que sua mãe havia lhe entregado e pode perceber a pequena mancha de sangue por conta do bolso onde ele se encontrava. Guardou dentro da calça e pegou o celular, discando para um amigo que a ajudaria a levar o corpo de sua mãe.
Faziam-se dois dias da morte da minha mãe e eu estava completamente arrasada e cansada. Estava sem dormir, pois após o ritual de cremação de caçadores, passei todo o meu tempo pesquisando sobre alguma forma de achar o demônio infeliz que havia tirado a vida de minha mãe. E o que eu encontrei foi o incrível número de zero informações. Não tinha absolutamente nada útil. Nem um maldito lugar, nem um nome, lenda ou qualquer coisa do tipo.
Hoje era o dia em que as cinzas da minha mãe seriam espalhadas no cemitério onde nossa família havia sido enterrada. Meu pai, avós e tios estavam lá e eu sabia que aquele era o lugar onde minha mãe gostaria de passar a eternidade, bem ao lado deles. Já estava de banho tomado e só me restava vestir uma roupa e ir em rumo a Dakota do Sul.
⌛️
Cheguei no cemitério e já de longe pude avistar os poucos, mas verdadeiros, amigos de minha mãe. Nem todo mundo aceita a ideia de você caçar demônios, vampiros e essas coisas sobrenaturais. Por isso, todos os que estavam ali eram ou caçadores na ativa ou caçadores aposentados. Passei o olho pelas pessoas procurando pelo Bobby e logo o achei sentado num canto, com um terno meio surrado, mas que ainda sim o fazia ficar elegante.
Bobby sempre foi um cara legal. Ele quase casou com minha mãe uma vez, mas eles perceberam que não existia amor o suficiente pra isso, mas sim uma amizade muito forte. Podia dizer que o considerava o pai que eu nunca tive, posto que o meu havia falecido quando minha mãe estava com 8 meses de gravidez.
Fui em sua direção disposta a entregar a ele o papel que minha mãe havia me dado.
—Bobby?
—Diana, meu amor.- Ele se levantou para me abraçar. Aquele abraço foi a melhor coisa que me acontecera nesses dois dias, foi completamente reconfortante.- Eu sinto muito, meu anjo.
—Obrigada, Bobby. Não cogitava a possibilidade de perder minha mãe tão cedo...-Minha voz falhou e ele me abraçou novamente. Respirei fundo e consegui recuperar minha voz.- Antes dela morrer, ela me pediu pra te entregar isso e disse que você saberia o que fazer.-Entreguei o papel. Ele percebeu a mancha de sangue e seus olhos encheram d'água.
—Eu abro isso em casa. Agora não é o momento.-Assenti com a cabeça e fomos andando até onde as outras pessoas estavam.
Espalhei suas cinzas próximo as lápides de nossa família. Já era capaz de imaginar minhas futuras visitas todas as vezes que me sentisse completamente perdida ou quando não aguentasse de saudades. Não consegui me segurar e as lágrimas rolaram livremente pela minha face. O "funeral" durou umas duas horas e a maioria das pessoas fizeram discursos, elogiando minha mãe. Eu preferi ficar sentada e não me pronunciar, não estava forte o suficiente pra isso. Quando acabou, resolvi ir embora ao invés de ficar lá me lamentando. Algumas pessoas me ofereceram carona, mas preferi ir com minha inseparável companheira vermelha.
Parei no trajeto em um bar qualquer na beira da estrada. Precisava de um uísque pra processar os acontecimentos. Após algumas doses, continuei meu trajeto até em casa.
Entrar em casa já não tinha o mesmo sentido sem a minha mãe comigo ou me esperando. Tudo ali dentro me trazia lembranças. Fotos, quadros, móveis. Decidi que ia me livrar de tudo que me lembrasse dela, não sabia se ia doar ou vender, decidiria isso depois.
Prendi meus cabelos e peguei algumas caixas na garagem, decidida a encaixotar tudo. Comecei com seu guarda-roupa até ser interrompida pelo toque do telefone.
—Alô?
—Diana?É o Bobby.
—Oi, Bobby!Pode falar.
—Sabe o papel que sua mãe mandou você me entregar?
—Sim. O que dizia?
—Pelo visto ela já sabia que corria risco de vida. Ela queria que quando morresse, você viesse passar um tempo aqui em casa ao invés de ficar aí sozinha.
—Que?
—Ela queria que você aperfeiçoasse suas habilidades de caçadora para "estar preparada para o que der e vier". São as exatas palavras que ela usa na carta.
—Isso é a cara da minha mãe. Só queria entender o porquê dela não ter me contado nada disso. Sobre o pacto, sobre estar correndo risco de vida.
—Você conhece a sua mãe. Enfim, você vê algum problema nisso? No caso, ficar aqui na minha casa.
—O que!? Você está mesmo disposto a me aturar na sua casa?
—Acredite eu aturo pessoas piores. Então você aceita vir?
—Claro que sim! Eu não tenho nada pra fazer nesse lugar vazio. Ficar sozinha só vai me fazer me sentir pior.
—Sim, eu concordo. Também vai ser bom pra mim ter sua companhia. Quando você vem?
—Quanto antes melhor, está sendo difícil ficar aqui.Posso ir amanhã?
—Claro que sim. Como você preferir.
—Então okay...Bobby?
—Oi?
—Obrigada mesmo por aceitar isso. Vai me fazer muito bem.
—Vai me fazer muito bem também, meu anjo. Boa noite e até amanhã.
—Boa noite, Bobby.
Desliguei o telefone e fui descansar, afinal precisava estar bem pra pegar a estrada amanhã. Seria uma experiência renovante passar esse tempo lá. Acabei desistindo de vender as coisas da minha mãe, eu poderia achar uma função melhor para aquilo tudo.
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