Treze dias
12 Capitulo 12
Notas iniciais
Andamos por mais alguns quilômetros, eu estava com muita raiva do Rony, minha mão estava doendo e eu me sentia cada vez mais fraca. Seguimos por um caminho onde tínhamos que passar por cima de um tronco de árvore, estava ficando cada vez mais difícil de me manter em pé. Na hora que fui passar por cima do tronco enrosquei meu pé e caí de joelho.
—Ai! — Gritei.
—Hermione, cuidado! Você está bem? Deixa eu te ajudar. — Disse Rony estendendo sua mão.
—Não precisa, eu estou bem. — Respondi sem olhar pra ele, me levantei e continuei seguindo o caminho.
Estava começando a anoitecer e por sorte encontramos uma árvore bem grande com uma cavidade em seu tronco, era perfeita para passar a noite. Entrei nela e fiquei sentada enquanto Rony acendia a fogueira um pouco a frente, vi ele pegando um galho e enfiando dentro da cobra e depois colocando próximo ao fogo. Hermione, você não vai comer… segura a fome… seu orgulho é maior. Se ele te oferecer você não vai aceitar. Seja forte. Eu pensava comigo mesma.
Continuei sentada e em silêncio curtindo a dor que sentia em minha mão, quando vem ele e trás em cima de uma folha um pedaço da cobra.
—Não quero, pode comer sua proteína. — Respondi olhando em seus olhos.
—Hermione, por favor para com isso, você precisa tanto quanto eu. — Ele insistiu.
—Não quero Rony, já disse. — Fui ríspida.
Ele parou por um momento, abaixou a cabeça, respirou fundo e disparou.
—Me desculpa.
—O que? — Respondi surpresa.
—Me desculpa tá... eu.. eu sou um idiota. — Ele se sentou ao meu lado e continuou. Sabe Hermione, eu não sou muito bom em ter amigos, viver em grupo ou algo do tipo. Você me perguntou quem eu era e na verdade não sei te responder, fiquei remoendo essa pergunta a noite toda.
Fiquei imóvel olhando fixamente para ele e não o interrompi, queria ouvir tudo que ele tinha para falar.
—Você é muito perspicaz sabia? E estava certa nasci aqui no Brasil, numa cidadezinha no interior de São Paulo meus pais sempre foram muito humildes. Fui criado praticamente dentro da igreja, íamos para o culto no mínimo três vezes por semana, lá na igreja eu aprendi a cantar e tocar violão. Na realidade o pastor falava que minha voz era o meu dom e me aconselhava a usar sempre pro bem. Ano retrasado cantei em um evento onde reuniu todas as células da igreja, teve uma senhora, a dona Sônia, que se encantou pela minha voz. Ela disse que tinha um irmão produtor musical que morava há anos nos Estados Unidos e que minha voz tinha que ser reconhecida mundialmente, que eu não podia me limitar a apresentações dentro da igreja. Imagina.. um pobre coitado do interior indo para os Estados Unidos. — Ele deu uma pausa e continuou — Pois bem, mas foi bem isso que aconteceu, ela bancou toda minha viagem e eu me encontrei com o Fernando, irmão dela, ele também amou minha voz e disse que eu precisava de um empresário, foi aí que conheci o Emerson e o inferno na minha vida começou.
Meu coração estava a mil com essa revelação, eu sabia que ele era daqui do Brasil, meu sexto sentido não falha nunca, por um momento até esqueci da minha dor, Rony Weasley, o cara arrogante que conheci no avião é do interior de São Paulo.
— Sabe Hermione eu era muito inocente, muito bobo mesmo, e confiei no Emerson como se ele fosse meu pai. O plano dele era me “americanizar”, eu tinha que perder meu sotaque, aprender a falar inglês, agir como um americano nato, comer as mesmas coisas que americano come, enfim, eu tive que deixar de ser o Ronaldo Martins para me tornar Rony Weasley. Emerson me mostrou um mundo que eu jamais pensei em conhecer, uma gama de possibilidades que eu jamais achei que pudesse existir, me encantei com tudo e não me importei em me tornar Rony Weasley. Foi um ano de preparação antes de seu ser lançado, eu até que estava curtindo, foi quando um mês antes de lançar minha primeira música, Emerson veio me dizer que não era mais para eu conversar com ninguém aqui no Brasil, meus pais, meus amigos, todos com quem eu tinha contato não existia mais, era para eu esquecer a vida medíocre que eu vivia e olhar para frente.
—Nossa Rony... e aí?
Bom, depois que lancei a primeira música minha vida virou de ponta cabeça, eu fiz fama tão rápido que realmente não tive tempo pra mais nada. Mergulhei naquele mundo de cabeça sem olhar pra trás.
—E seus pais? — Me arrisquei com mais uma pergunta.
—Não falo com eles há um ano. — Respondeu com um pesar na voz e continuou. — Sabe Hermione, eu deixei Emerson me levar pra onde ele queria, eu confiava nele de olhos fechado, até que conheci Rebeca, uma modelo linda por quem me apaixonei cegamente. Emerson nunca foi a favor do nosso relacionamento, isso não seria bom para os negócios, ele sempre dizia que Rebeca era uma aproveitadora, que ele conhecia o tipo, mas nunca dei ouvidos. Com quatro meses pedi Rebeca em casamento escondido do Emerson, eu estava louco por ela, nunca tinha me apaixonado antes, quando Emerson descobriu ficou uma fera comigo, me proibiu de contar minha história para ela e disse que ia me provar que Rebeca não valia nada. Há uns seis meses estávamos em um hotel em Miami, quando Emerson me deu um pen drive e pediu para que eu abrisse naquele momento. Assim fiz e quando abri haviam muitos arquivos com datas diferentes de pelo menos uns três meses antes. Quando abri o primeiro arquivo era um vídeo da Rebeca e do Emerson transando, fiquei em choque quando eu vi. Lembro como se fosse hoje.
—Assista até o fim Rony. — Emerson disse com seu tom arrogante de sempre.
—Eu continuei assistindo perplexo, Emerson prometendo mundos e fundos para a Rebeca, disse para ela me largar, que o lugar dela era com ele e não comigo. Ela sorria e o beijava feito uma puta iludida com as promessas. No final do vídeo ela pegou um relógio e o presenteou, disse rindo que comprou com o cartão de crédito que eu havia dado pra ela. Emerson fazia questão de sempre esfregar esse relógio na minha cara como se fosse um troféu.
Olhei para o meu pulso e assimilei tudo, aquele relógio que eu peguei do Emerson era o mesmo relógio que Rony estava se referindo e eu inocentemente continuava esfregando esse troféu na cara dele. Fiquei completamente envergonhada.
—Rony sinto muito... eu não... — Tirei o relógio do pulso e ameacei em jogar fora, mas fui interrompida por ele.
—Não, não faça isso Hermione. — Disse derrotado olhando para mim.
—Mas esse relógio te traz lembranças ruins.
—Mas está sendo útil, não está? — Ele abaixou a cabeça novamente.
—Quem precisa ver as horas quando está perdido no meio da mata hein? — Dei um sorriso tímido, reuni a pouca força que me restava e joguei longe o relógio.
Surpreso, Rony levantou a cabeça e olhou na direção que eu joguei o relógio, depois olhou para mim. Embora não tenha falado nada, eu vi em seu olhar uma imensa gratidão por ter jogado fora aquele objeto que lhe causava tanta dor.
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