Treinados para Escuridão

2 Conversa estranha.


Notas iniciais
Espero que gostem!!

P.D.V. Milena

Depois da primeira aula do tal novo professor, que disse se chamar Pedro Samarido, as pessoas começaram a deixar de lado as fofocas e histórias sobre ele, aparentemente era uma pessoa normal, portanto deixou de ser a "novidade" da escola e passou a ser somente o professor de química, é claro que ele ainda incomodava muita gente com seu olhar duro e jeito intimidador, mas isso logo seria esquecido.

A penúltima aula do dia acabara de terminar, nossa professora de história tinha falado sobre Tiradentes e sua morte dolorosa, ela já tinha saído, mas o assunto continuava rondando a sala.

J:Isso é incrível não acha? Perguntou Joca

I: O que? Ser enforcado? Perguntou Inara

J: Não, eu quis dizer morrer por uma causa que considera nobre.

M: É sim, mas não sei se teria essa coragem, você teria Joca?

J: Sim, se fosse por algo que valesse a pena.

M: Eu queria poder dizer o mesmo, mas o medo sempre me atrapalha quando trata de demonstrar coragem.
Eu detestava admitir, mas era verdade.
Inara que sempre sentava ao meu lado pigarreou, eu e Joca viramos para ve-la, ela estava com o rosto virado para nós, o cabelo loiro escuro rodeando a face e o rosto corado parecia alarmado, sua posição era ereta na cadeira e seus olhos estavam mais abertos que normal, com um aceno discreto de cabeça ela apontou para frente, me virei para ver o que tinha lá, e dei de cara com o professor Pedro olhando de mim até Joca e depois voltando os olhos para mim, ele não tinha o olhar frio de antes, mas um olhar interessado como se esperasse que uma grande revelação fosse dita.

P: Parece que a aula de história foi bem produtiva hoje ,não é? Disse ele olhando para os alunos.
Todos estavam em absoluto silêncio, provavelmente tentando imaginar de onde ele surgiu tão rapidamente.

C: Professor, eu achei que era aula de geografia agora. Disse Carlos.

P: E era, mas ela não pôde vir, e como eu estava com tempo livre, decidi cubri-la.

R: Ainda bem, geografia é chato pra caramba. Escutei Ray comentando.

P: Então, eu trouxe algumas informações extras sobre o que vocês estão estudando para que possam dar uma olhada. Disse ele distribuindo pequenos livros entre os alunos.

P: Eu vou querer de volta depois da aula, por isso não amassem.

Eu passei o resto da aula pensando no olhar dele e em como chegou tão rápido em uma aula que nem era para ser dele.
O sinal tocou e ele liberou os alunos, eu tinha acabado de colocar a bolsa nas costas quando ele me chamou.

P: Milena, pode me ajudar a recolher o resto dos livros?
Eu parei por um segundo, depois respondi

M: É claro.
Comecei a pegar os livros deixados nas mesas, quando terminei levei-os até o professor.

M: Tome.
Ele pegou os livros e começou a coloca-los em ordem.

P: Sabe, eu ouvi sua conversa com o Joca sobre coragem.

M: Há, bom … Eu não tinha visto o senhor.

P: Não se preocupe com isso, mas eu percebi que sentiu dificuldade em dizer que têm medo.

M: Isso porque eu detesto dizer. Respondi mais rude do que pretendia.

P: Entendo, Porém acho que não ter medo é impossível.

M: Não para aqueles que têm coragem.

P: Talvez a coragem não venha da falta do medo, mas da superação dele.
Olhei para ele sem saber o que responder.

P: Pode ir, eu termino sozinho e obrigado pela ajuda.
Eu assenti e saí da sala, meus pensamentos confusos pareciam querer saltar da minha cabeça. Me encaminhei para fora da escola, vi de longe o grupo dos meus amigos, cheguei perto deles já ouvindo as risadas.

L: Nossa, você demorou. Luenne comentou.

M: Tinha muitos livros. Respondi.
Decidi não contar sobre o papo de coragem, já que eu ainda tentava encontrar sentido naquelas palavras.

B: Eu já estava me perguntando se tinha se perdido no caminho. Disse Berlinda de forma sarcástica.

C: Vocês conversaram sobre algo? Perguntou Carlos, ele sempre era o mais curioso de nós, ele era um moreno bem alto, por isso eu tinha que levantar muito o rosto para olha-lo.

M: Nada importante. Eu disse

E: Eu queria saber como ele chegou lá tão rápido, eu nem vi ele entrando. Disse Enzo, ele estudava comigo há alguns anos, mas só nos tornamos amigos depois de um tempo.

J: Eu também queria, e sem falar que eu tive a impressão de que ele estava ouvindo a minha conversa com a Milena. Disse Joca.

L: Mas então ele não te falou nada? Perguntou Luenne.

M: Não.

RO: O que você esperava Luenne? Questionou Rose.

L: Sei lá, algo interessante.

I: Eu acho que você está ficando obcecada por esse professor. Disse Inara.

L: A culpa não é minha se gosto de pessoas misteriosas, ainda mais se forem homens. Respondeu Luenne.
Todos riram do jeito que ela começou a se abanar. Eu dexei de lado os pensamentos que rondavam minha cabeça e decidi aproveitar o tempo com meus amigos.

P.D.V. Professor Pedro.

Eu estava de frente para a passagem de pedestre, esperando o sinal fica vermelho, quando senti alguém se colocando ao meu lado, uma presença familiar e muito ameaçadora.

P: Você de novo Thales! Já está começando a me dar nos nervos. Eu disse sem desviar os olhos da rua, mantive minha expressão calma, como sempre.

T: Queria ver se você tinha mesmo voltado a procurar seguidores.

P: Não me interessa o que veio fazer, mas sugiro que vá embora ou terei que entregar você.

T: Estou surpreso por ainda não ter feito isso.

P: Acontece que você não é mais problema meu.

T: Já entendi, só não acreditei quando soube que estava tentando de novo, mesmo tendo falhado tantas outras vezes.
Pelo canto do olho eu vi sua expressão, fria igual a minha, ele usava uma blusa com a gola levantada, é claro que isso não escondia a longa cicatriz que começava do queixo até o meio do pescoço, a cicatriz que eu botei lá.

P: Eu vou tentar quantas vezes for preciso. Respondi cruzando os braços.

T: Imaginei que diria isso. Disse Thales.
Ele atravessou a rua antes do sinal fechar e desapareceu em um beco.
Atravessei logo em seguida parando ao lado do beco onde ele desapareceu, eu conhecia aquele beco, ele não tinha saída, levava direto a uma parede de tijolos, mesmo assim Thales não estava lá, e eu sabia porque, embora aquele lugar não tivesse saída, ele tinha algo familiar: a escuridão.
Baixei a cabeça com um pequeno sorriso nos lábios, Thales nunca perdia os velhos hábitos.

Notas finais
O que acharam?!