Traumerei

2 A bela flor apodrecida.


Notas iniciais
Papaparara, voltei. Fanfic curta etc. deve estar pronta antes mesmo do fim do ano (com muita sorte). Já tenho ideia para minhas próximas também~ Apesar dos baixos stats, não vou desistir tão cedo da história. Vou terminá-la aos futuros que se interessarem, quem sabe. Enfim, let's go to the chapter ♥

Toda a cacofonia vinda de baixo parecia não incomodar lhe no telhado daquele pub semifalido onde gostava de ficar, sentado à ponta mais desprotegida do edifício com os joelhos dobrados sobre a janela abaixo de si e as mãos apoiadas entre eles, totalmente propenso a cair em um único escorrego, mas ao mesmo tempo aparentava estar bem fixo ali. Uma pose de gárgula como zombava Kaya. Talvez fosse mesmo uma gárgula humanoide.

– Hora?

Ele nem precisou se virar para encarar a pessoa corpulenta que brotara atrás de si, apenas rebaixou a cabeça como licença para que se sentasse ao seu lado e assim o fez. Estava ocupado demais olhando para o nada e ignorou a presença da pessoa de cabelos escuros e compridos e os olhos amendoados de íris escarlate o olhando.

– Ele foi pra lá de novo. – comentou. Hora deu de ombros.

– Ele faz o que quiser mesmo.

Tinha razão. Aquele a qual se referiam era óbvio, e o demônio já não estava mais nem ligando para o que fizesse ou deixasse de fazer. Tinha cansado. O outro a seu lado deu de ombros igualmente.

– Veio só pra dizer isso ou tem alguma coisa pra mim? Hein, Masashi. – foi direto ao ponto, era assim que costumava ser. Enrolar na fala para ele era tão desnecessário quanto um sobretudo no verão. Mesmo que ele mesmo usasse um.

Felizmente, Masashi compreendeu na hora e puxou de trás de si duas latas. A bebida favorita dos humanos problemáticos e imbecis, e agora um tira-gosto de demônio. Reclamava dos vícios podres de humanos adotados por Kaya mas tinha lá os próprios pela pura convivência com eles. O que podia fazer? Acabava por empilhar as latas vez ou outra e tinha uma dor de cabeça aqui ou ali, mas ficar embriagado de verdade? Nunca. Não podia dizer o mesmo de Masashi.

– Hora... Fala sério... – disse às risadas. – Você ‘tá se mordendo de ciúmes do Kaya.

Aquilo quase fez o demônio engasgar com a bebida, pondo-a de lado para recompor-se enquanto o outro ria mais. Maldito.

– Eu não tenho ciúmes dele. Nunca terei ciúmes daquela praga. – curto e grosso, como sempre que se referia ao Rose.

Masashi não parava de rir. Estava bêbado, claro, mesmo que não fosse um humano. Masashi Miwa era farinha do mesmo saco que Hora Cocytus, mas por ser inferior a ele e bem mais jovem, era mais semelhante aos humanos. Era patético um superior ver um irmão naquele estado, mas também não era de grandes honras. O mais novo adorava dizer que estava com ciúmes do bruxo, ele ficava mordido de raiva mesmo que não demonstrasse. Seus argumentos de que Kaya desgostava dele assim como ele desgostava de Kaya não eram mais válidos, o aprendiz de criatura do submundo insistia na implicância de que eles se gostavam sim. Apenas desistia de argumentar. De certa forma, Miwa não estava totalmente errado. Repentinamente, Hora revirou os olhos como se fosse desmaiar e bufou forte. Aquele aroma voltava a impregnar suas narinas.

– De novo.

O mais jovem apenas mexeu nos cabelos e deu de ombros. Pareceu Kaya por um segundo, Hora sentiu raiva dele. Miwa pareceu não ligar ter causado desconforto ao superior, e apenas juntou as mãos apoiadas nos joelhos e encarou-o. Sinal de que poderia ir.

– Obrigado pela bebida, Miwa. – ergueu a cabeça e se levantou. – E volte logo antes que seus superiores percebam.

– Sentiu o cheiro da sua rosa, foi? — Masashi riu.

Suspirou fundo. Não queria perder a paciência com o garoto, estava apenas alterado.

– Vá pra casa, você está bêbado.

• • •

Loira, moreno, homossexual, ruivo, negro, morena, tatuado, bissexual, cabelos roxos, piercing interno, implante, transexual, ruiva. Em meio a tantas figuras, a mais chamativa com certeza era uma loira sozinha na bancada do bar. Franja lisa e cachos por trás, olhos arroxeados muito bem delineados e grandes, os lábios do tom dos olhos. Possuía delicadeza em seu toque e desejo no olhar. Era uma bela loira. Naquele ambiente abarrotado de pessoas fora de si, um que simbolizasse pureza atraía olhares. Fossem eles bons ou mal intencionados.

Mas a loira não ligava para a maioria daqueles olhares, havia focado o próprio numa única pessoa. Porte atlético, olhos azuis, parecia ser de fora pelo sotaque (mesmo abafado pela música alta). Havia escolhido sua vítima e eles trocavam olhares e sorrisos silenciosos. A dona das madeixas douradas moveu a cabeça para o lado e ele entendeu o recado, era para se aproximar. Assim o fez. A loira abriu mais o sorriso ao vê-lo chegar perto e levantou o braço para acenar para ele quando um pulso o agarrou e o puxou para longe, deixando o pobre rapaz confuso. Fora puxado sem o menor cuidado, espremendo-se entre as pessoas até ser arrastada ao lado de fora da boate, tendo os falsos fios loiros puxados com força, revelando os próprios compridos e negros.

– Ei! Qual é o seu problema? – indagou nervoso, acariciando a própria cabeça. – Isso doeu.

– Vamos para casa. Agora.

Reconheceu a voz de imediato. Hora havia o pego no flagra. Teve seu pulso agarrado novamente e fora arrastado novamente. Já chegaram a casa batendo boca, ou melhor, Kaya argumentando nervoso e Hora retrucando sem o menor resquício de emoção. Preocupava-se mais com o braço decepado largado em sua cama.

– Como se não bastasse àquela nojeira no bar, ainda me vem com isso...

– Se não aguenta ver um sanguinho sequer, vá embora.

– Qual é o seu problema?

E assim começavam as discussões. Discussões de casal, como a praga loira (um apelido amoroso de Kaya) gostava de chamar. O feiticeiro de olhos brancos e o demônio de face pálida, a dupla dinâmica que vivia daquela relação de amor e ódio há tempos. Como um aguentava o outro dependia apenas daquele peso que carregavam juntos e que carregariam por mais alguns séculos. Discutindo sobre quem era o sem noção da história e desenterrando erros do passado, expressões e risadas irônicas seguidos de mais “elogios agradáveis”. Brigaram até o momento em que o Rose, se controlando para não jogar algo em Hora, sentou-se em sua “cadeira de trabalho” acariciando o gato como se o braço empapado de sangue não fosse nada demais.

– Eu só peguei um bracinho, Hora, sem drama. – revirou os olhos, pondo um cigarro em sua boca e já riscando o fósforo na mesa à sua frente. Hora tratou prontamente de apagar o fogo e arrancar a “máquina de câncer” como chamava de sua boca. – Ei!

– Não reclame quando estiver agonizando sem ar de novo por causa dessa coisa.

O menor cruzou os braços e bufou, escorregando um pouco na cadeira. O pequeno bico em seus lábios que tentava forçar a esconder era o sinal claro de que a tática da mão na consciência havia funcionado, como sempre. Nesses momentos, ele realizava de que estava agindo como uma criança birrenta, e aquilo lhe dava ódio. Lembrava-se de coisas ruins.

“Sua criança mimada.”

– Cale a boca. – levou uma mão ao rosto na tentativa de escondê-lo. Do tanto que Hora conhecia Kaya, sabia que lembrar dessas coisas o faziam chorar. E que ele odiava chorar.

O demônio se apoiou na mesa, levando uma das mãos à cabeça do mais novo e a encostou delicadamente em seu próprio corpo, fazendo uma carícia leve em seus cabelos. Nessas horas, o ódio que um sentia pelo outro parecia desaparecer. Se xingavam, discutiam, brigavam, davam gelo um no outro, até se agrediam mas quando o ferimento aberto era mais profundo não havia uma vez que não ajudasse a fechá-lo. Talvez esse fosse o real motivo que a praga loira gostava de chamá-los de casal.

– Por que tinha que ser assim, hein? – encolhido, trêmulo e dando socos leves no abdômen do outro, claramente, já havia perdido o controle. – Por que tinha que doer tanto?

O local foi tomado apenas pelos soluços controlados do mais baixo e murmúrios do demônio para que este se acalmasse. Por mais que odiasse admitir, Hora não suportava ver Kaya chorar.

Aquele assunto também o dava certa raiva, mas não feria tanto quanto ao menor. Depois de tanto tempo, doía como se tivesse ocorrido outro dia.

– Vê, minha rosa? – dizia o maior, erguendo o queixo do outro para que o olhasse e afastando os fios escuros que grudavam em sua face úmida. Era estranho chamá-lo assim, minha rosa, mas fazia-o se sentir bem. – Vê como é a dor em seu pior tipo? Dói pensar nisto, não dói?

Ele assentiu positivamente.

– Essa ferida pode ser curada, sabia?

– P-Pode?

O olhar indefeso dele. Parecia um cãozinho pidão.

– Claro... – abaixou-se, ficando da altura do outro e segurou seu rosto com firmeza. – Mas não é matando inocentes por diversão que vai fazer isso, sim? Escute-me pelo menos uma vez.

Kaya abaixou o olhar por um segundo, esfregando as costas da mão no rosto. Quando tornou a olhá-lo, um breve sorriso tomou seus lábios. Pensou novamente sobre aquele termo. Do jeito que se mostrava delicado, era capaz de chamá-lo assim de novo. Sua rosa.

– Vá se ferrar, Hora.

Mudou de ideia. Apodreceu novamente.

• • •

Ecoava o som das unhas batendo na mesa oca, o único resquício de som no ambiente. O maldito silêncio de aguardo começava a dar-lhe nos nervos profundamente que, inquieto, não parava de batucar a mesa e mexer nos cabelos, alternando entre jogá-los por cima do ombro e trazê-los para o mesmo lugar. Kaya mordia o lábio a cada cinco minutos. Não fazia a menor questão de esconder sua falta de paciência.

Queria que aquilo acabasse logo, sentia que não aguentaria mais um segundo naquele lugar fedido.

“Quanto tempo a mais vai demorar?”. A mão de seu companheiro tocou-lhe o ombro e junto o olhar que pedia sua calma. O menor cruzou os braços e bufou, escorregando um pouco na cadeira. Parecia uma criança birrenta e sabia disso. Finalmente, o terceiro elemento entrara coberto por um capuz negro que deixava seu rosto parcialmente impossível de ser visto e recebera um olhar bastante irritado daquele ser impaciente.

– Demorou hein? – disse. – Era para hoje ou para ontem essa chamada?

– Tenha calma, Kaya. – o encapuzado ergueu o indicador enquanto encarava o moreno com os brilhantes olhos – E não aja assim a não ser que queira ganhar mais alguns séculos de pena.

Abriu a boca para dizer algo, mas logo se calou, afundando mais na cadeira. Hora desculpava-se pelo mau comportamento do acompanhante e este nem se manifestou. Além de estar contra sua vontade, ainda levava um cala a boca daquela secretária mística.

– O conselho já o aguarda, pode ir. – disse o encapuzado, ignorando a atitude infantil do bruxo diante de si. Este levantou primeiro e tomou à frente no caminho já conhecido de braços cruzados e expressão fechada. O que aqueles velhos queriam com ele? Urgh vai saber. Só queria acabar logo com aquilo. Ignorava os pedidos de Hora para que fosse com mais calma e rapidamente chegou à sala que menos queria estar, cercado por aqueles três que não queria ver, sentados em seus tronos altos. Vê-los lembrava do dia do julgamento, só a lembrança lhe dava náuseas. Como um dia já gostara daquela convenção de coroas com poderezinhos? O homem do meio dirigiu-lhe a palavra primeiro, um cujo semblante era tão frio quanto o de Hora e cabelos curtos e brancos. Era Juka, o segundo mais velho daquelas três moiras1.

– Rose, Cocytus. É um prazer revê-los depois de tanto tempo. – sorriu brevemente ele.

– Gostaria de dizer o mesmo se não estivesse diante de cobras. – retrucou o bruxo com um sorriso no rosto. O demônio lançou-lhe um olhar repreensor ao menor pelo atrevimento, mas ele nem ligou. Na sociedade em que os dois viviam, responder um superior daquela forma era impensável. O platinado quis ficar nervoso, mas logo fora impedido pela dama sentada na ponta esquerda, de vestido lilás e cabelos castanhos presos de forma extravagante. Jasmine You, mais doce daquelas cobras e o mais jovem dos três, sempre o mais piedoso. Após o ocorrido, este se pronunciou.

– Não chamamo-nos para discutir, sim? Entendo sua raiva, mas vamos direto ao ponto. Não, irmãos? — Os outros dois concordaram com a cabeça. O mal educado se manteve calado em respeito à You, o único por quem Kaya ainda possuía algum afeto e respeito. – Querido, há um problema deveras grave em nosso meio... Manabu teve uma visão.

Manabu era o último daquela fila, cabelos escuros cobrindo parcialmente o rosto e olhar frio. O mais velho e nasceu surdo e mudo, e ainda enxergava mal. Como conseguia entender os outros sem que usasse óculos nem nada era um mistério. Tinha o dom da clarividência. Desenhava ou escrevia o que via em sua mente e nunca, nunca, errava. Mana percebeu ter sido citado e prontamente fez um sinal com a cabeça e fez a folha em sua frente voar às mãos de Kaya. A letra era rabiscada, desesperada e estava escrita bem grande, ocupando toda a folha.

"TRAIDOR"

• • •

"–O que o Conselho determina é o que será feito. Sem mais nem menos.

"Queria contestar, mas sabia que não seria possível. O outro ao seu lado parecia não dar a mínima para tal veredito.

"- Mas isto é um absurdo... Não podem...!

"O bater do martelo sobre a mesa o calou, fazendo-o levar um breve susto. Os olhares sobre si eram cruéis e ele definitivamente não queria olhá-los de volta.

"- Sem contestamentos. A decisão foi unânime. Kaya Rose, décimo filho do décimo filho da linhagem pura de Rossensträus, por ter quebrado a regra principal entre nossa sociedade e invocado algo proibido, o Conselho o condena a passar o resto de seus dias ao lado desta criatura que trouxera a nosso mundo, lado a lado, até segunda ordem. E o Conselho não dá segundas ordens.

"O martelo bateu novamente. Tinha vontade de chorar, mas não chorou. Apenas cruzou os braços, furioso. Além daqueles desgraçados fizerem aquilo com ele, agora o puniam. Havia feito aquilo por um propósito, não era justo! Não era! Mas o que podia fazer. O que o conselho ordena é a lei. Estava preso até segunda ordem. Abaixou a cabeça, escondendo o rosto nas costas da mão. Foi quando uma mão foi ao encontro de seus cabelos, acariciando os fios com delicadeza. Apesar daquilo tudo, Hora ainda estava tentando confortá-lo. Kaya sorriu para ele.

"Talvez não fosse tão ruim assim ficar preso à ele. Afinal, havia o convocado. Talvez não fosse tão ruim.

Notas finais
Vago? Bastante, do jeito que gosto. Hehe. Até a próxima, bbys. --- 1 - Moiras: (em grego antigo Μοῖραι) eram as três irmãs que determinavam o destino, tanto dos deuses, quanto dos seres humanos. Eram três mulheres lúgubres, responsáveis por fabricar, tecer e cortar aquilo que seria o fio da vida de todos os indivíduos. Durante o trabalho, as moiras fazem uso da Roda da Fortuna, que é o tear utilizado para se tecer os fios. As voltas da roda posicionam o fio do indivíduo em sua parte mais privilegiada (o topo) ou em sua parte menos desejável (o fundo), explicando-se assim os períodos de boa ou má sorte de todos. (f: tia Wikipédia). Claramente um elogio agradável de Kaya aos seus superiores.