Traumerei

3 Spleen.


Notas iniciais
Aquele capítulo 0,5 bosta. Enfim. Ficou ruim? Ficou, pelo menos eu achei. Mas era um capítulo enrolation anyway, meio curto e chato. Mas em dois capítulos termina e fim de história! Além disso estou começando uma nova e já deve sair hoje ou amanhã. Well, enjoy.

Kaya levou outra vez o cigarro aos lábios mesmo estando ao lado de Hora este não tinha vontade alguma de dar-lhe um sermão. Estava concentrado a ponto de ignorar a fumaça fedorenta voando em seu rosto. Era uma das raríssimas vezes que os dois sentavam-se lado a lado na ponta de terraço de gárgula sem nenhum tipo de discussão, apenas silêncio. Ambos encarando o nada como se fosse a coisa mais interessante do mundo. O clima gelado do ar era relaxante e a lua, enorme e brilhante, iluminava suas costas. A penumbra da luz branca atrás de si recordava-se daquelas histórias antigas sobre suas ancestrais, sobre os rituais de adoração ao astro e à deusa Lua. Será que tal astro dava mais força aos poderes como acreditavam? Nunca tinha parado para testar isto. Fazia tempo que não os usava de verdade.

– Já mandei você largar esse troço.

A manifestação tardia de Hora fez o bruxo rir. Podia apostar uma nota que ele havia, como sempre, se incomodado desde o início, mas esperou um tempo antes de decidir reclamar. Acumular raiva é incômodo até o limite era uma atitude bastante típica de Hora Cocytus. Para não perder o costuma, ele soprou uma tragada. Outra atitude comum de Kaya Rose.

“Typical”, como o bordão já dizia. As ruas principais eram tão mal iluminadas que vários postes piscantes tiravam sua atenção vez ou outra, mas perdera a concentração de vez ao notar os olhares do menor, fixos. Feiticeiro e demônio se entreolharam em silêncio, compartilhavam os mesmos pensamentos. Claramente.

– “Traidor”?

Ouviu-se apenas a irônica risada do Rose, alta e escandalosa, ecoando pelo salão inteiro. Deus, como era vergonhoso. Juka mantinha a expressão fechada, Jasmine juntou as mãos, Mana revirou os olhos. E nada o Cocytus pôde fazer fora manter-se calado ao lado do moreno que passava mal de tanto rir.

– Deixe-me adivinhar. Querem a minha ajuda por que o irmãozinho surdo e mudo de vocês fez outra previsão? Depois do que fizeram comigo? Permita-me refrescar lhes a memória que fui parar naquela situação por culpa sua. – disse, apontando Mana que não moveu um músculo. Apesar da total falta de respeito, tinha certa razão. – Vão ter que me oferecer muito mais por um servicinho deste calão.

– Oferecer?

– Sim. E já digo que não sairá barato.

Sentiu Jasmine engolir em seco. Bom garoto, sabia exatamente o que queria dizer. O Rose sorriu.

– Acho bom vir logo, caso realmente precisem de mim. Já sabem onde me encontrar. Vamos, Hora.

Começou a andar na frente, mas o demônio não se mexeu. Podia sentir aquele olhar por cima de si e odiava a sensação de recusa na garganta. Era o que chamavam de vergonha?

– Vamos, Hora. – insistiu com mais firmeza.

Só então ele obedeceu.

Cocytus mordeu o lábio ao relembrar a sensação, os olhares. Emoções humanas não podiam ser descritas de outra forma senão uma bosta. E Kaya sabia disto. Estava obviamente bravo, rígido, sem se mover, e assim chegara mais perto. Rose apoiou a cabeça no ombro do demônio, levando a direita à sua face e fazendo uma carícia leve. Hora permaneceu quieto, ignorando completamente os toques do mais novo.

– O que foi hm? – os dedos delicados de bruxa passeavam por seu maxilar numa carícia leve, mas chamativa. – Ainda está pensando naquela moira?

– Não fale dele assim.

Nunca demonstravam, mas tal assunto era como uma faca de dois gumes. Sempre que tocavam nele, feria aos dois lados.

– Ele foi uma cobra conosco, você sabe. Não estávamos assim se não fosse por ele. Se fosse você, não o denfenderia assim.

– Você não tem provas.

– Eu sou minha própria prova.

– Não quer dizer nada.

– Está se iludindo.

– Estou defendendo minhas razões.

Bufou outra vez. Aquela pessoa só servia de causar brigas entre os dois, como dois gatos de rua por uma comida fresca no lixo. Era um horror, pareciam perder a razão ao tocar em tal tópico. O bruxo simplesmente se afastou e, de braços cruzados, levantou e foi embora. Eles nunca, repetindo, nunca chegariam a uma solução racional naquela discussão infinita. Era um inferno.

Hora apoiou o rosto nas mãos e suspirou. Era difícil ter que lidar com aquele pirralho que o fazia de idiota na frente de... Daquela pessoa. Sabia que Kaya ficava chateado, mas o que poderia fazer? Nada. Apenas continuar a seguir o que precisava. Apesar daquele clima pesado que ficava entre eles, lado a lado, sem se olhar e mais ainda sem se falar, mantendo aquele silêncio extremamente desconfortável. Talvez não só este.

Também ecoava o som das unhas batendo na mesa oca, o único resquício de som no ambiente. O maldito silêncio de aguardo começava a dar-lhe nos nervos profundamente que, inquieto, não parava de batucar a mesa e mexer nos cabelos, alternando entre jogá-los por cima do ombro e trazê-los para o mesmo lugar. Kaya mordia o lábio a cada cinco minutos. Não fazia a menor questão de esconder sua falta de paciência.

Queria que aquilo acabasse logo, sentia que não aguentaria mais um segundo naquele lugar fedido.

Quanto tempo a mais vai demorar? A mão do demônio tocou-lhe o ombro e junto o olhar que pedia sua calma. O menor cruzou os braços e bufou, escorregando um pouco na cadeira. Parecia uma criança birrenta e sabia disso. Finalmente, o terceiro elemento entrara coberto por um capuz negro que deixava seu rosto parcialmente impossível de ser visto e recebera um olhar bastante irritado daquele ser impaciente.

– Demorou hein? – disse. – Era para hoje ou para ontem esses cristais?

– Tenha calma, Kaya. – o encapuzado ergueu o indicador enquanto encarava o moreno com os brilhantes olhos – Não é fácil encontrar algo deste porte. Teve sorte que o conselho precisava de você.

– Tá, tá, tanto faz.

O semblante irritado parecia pior agora. Obviamente. O pequeno diálogo com Hora fora suficiente para acabar com seu dia por completo. Estava estampado na sua cara que só queria acabar com aquilo tudo e ir embora, quem sabe ir para a cama de um humano e cortar suas tripas depois. E talvez fosse o que ele planejava antes da honorável criaturinha dar sinal de vida bem na hora em que o bruxo estava para deixar as pedras num canto e ir para algum pub com bebidas baratas.

Estava o chamando de novo.

Parece que era o dia oficial de convocar Kaya Rose para alguma coisa.

Também obviamente, Hora odiou a ideia. Não queria de jeito nenhum que Kaya fosse, mas mandava nele? Nem que mandasse mesmo. Nada fora do comum naquelas vidas conectadas por puro acaso.

• • •

– Merlin travestido.

– Praga loira.

Sorrisos breves e um olhar um pouco mais longo, era assim que Kaya Rose e Kamijo Yuuji costumavam se cumprimentar, com aqueles elogios agradáveis bem típicos. Um era exatamente o mesmo tipo do outro, pareciam se completar. Até possuíam as mesmas práticas, mesmo que o Yuuji desse preferência à mulheres. Mesmo que um fosse feiticeiro e o outro vampiro (que, por sinal, não fazia questão alguma de esconder isso). Já eram conhecidos de eras, mesmo que não fossem muito fãs um do outro, vez ou outra Kamijo precisava de Kaya para alguma coisa. Essa agora era desconhecida.

– Sente-se. – indicou uma cadeira ornamentada branca, bem típido de Kamijo. O moreno apenas olhou duas vezes e obedeceu, mesmo olhando torto para o vampiro. Era suspeito que o chamasse assim, do nada.

– O que quer de mim, hn? – perguntou, apoiando o rosto na própria mão como costumava fazer. – Se quer sexo, desista. Não faço com gente impura que nem você.

– Calme, calme, vamos chegar lá. Tudo em seu tempo.

Ele sorriu de uma forma bem suspeita. Queria alguma coisa dele e estava enrolando, era óbvio. Também por que o Yuuji sempre foi péssimo em mentir.

– Como vai o meu casal favorito, hm? Vão bem?

– Não quero falar disso. — Kaya desviou o olhar.

– Hm... Sabia. – o loiro murmurou entredentes. – Como se sente sobre isso?

– Está querendo brincar de psicólogo, é? Foi pra isso que me arrastou aqui?

– Kaya.

Lançou um olhar bastante... Digamos que ordenava. Ok, vamos acabar logo com isso.

– Spleen.1 – soltou sussurrado com a maior cara de saco cheio do mundo.

– Spleen?

– Spleen.

Uma pequena pausa e olhares fixos ao nada absoluto. Spleen não era bom, nem um pouco. Quando se estava sentindo assim, a tendência da força de seus poderes era só aumentar de forma esmagadora, por causa da raiva que se acumulava em seu peito e ao mesmo tempo, um tom triste. Por que um tom triste? O que tinha de tristeza nisso?

Ah.

Aquela pessoa. Só de pensar nela já lhe dava uma ânsia. Como aquele demônio besta conseguia gostar dela era um mistério. Mas um mistério que odiava sem saber. Kamijo fixou o olhar na face inexpressiva e pálida de Kaya que, nesse ponto, até se parecia um pouco com Hora. Era o mesmo olhar de saco cheio. O moreno havia percebido na hora e rapidamente engoliu em seco e desviou o olhar. Já sabia o que aconteceria depois daquilo. E como sempre, só ia permitir.

– Mana-sama.

Sem resposta. O moreno de cabelos compridos olhava fixo para o chão como se houvesse algo muito interessante lá, enquanto o outro moreno de cabelos curtos tocava em suas mãos frias, mexendo nos anéis de prata nos dedos com delicadeza. Mana não falava, não ouvia e quase não enxergava, apenas podia sentir o toque nas mãos e nada entendia. Mesmo assim, Hora gostava de conversar com ele. Parecia entender vez ou outra, talvez pela surdez não ser apenas parcial. Era um bom ouvinte.

– Vim pedir desculpas por hoje pelo comportamento de Kaya. Eu não sei o que fazer com ele... Mana. – bufou. – Foi você que o entregou a mim, confiou sua segurança a mim... O demônio que ele invocou sem querer. – sorriu ele. Odiava a lembrança desse dia, mas ainda sim, sorria. – Mas... Eu...

A mão direita do moreno apertou a sua com certa força, sinal de que havia entendido. E que ainda confiava nele? O coração gelado se aqueceu um pouco. Fazia-o feliz que Mana ainda confiasse nele. Mesmo que, sob sua supervisão, Kaya se tornasse aquilo que se tornou. Fazia aquelas coisas. Inclusive já começava a sentir que um novo estava próximo. Mas o aperto da mão gelada de Mana o trouxe conforto. Era bom estar com ele.

Queria que Kaya entendesse isso também. Mas o teimoso só dizia que a culpa é toda dele. Como a culpa de qualquer coisa cairia sobre um surdo e mudo? Como? Não havia como. Para Hora, Kaya era assim e pronto. A culpa de Mana era uma desculpa esfarrapada para seus próprios atos. Era irresponsável e fim de história. O único que confiava no meio de tantas bruxas não podia fazer mal a uma mosca. Era certo. E este também confiava nele, sem dizer nada já dava a ideia de que o achava especial. Não só por confiar Kaya a ele quanto por mandar aquela missão aos dois. A confiança era a linha tênue que ligava aqueles dois.

Algo que não existia entre ele e Kaya.

Notas finais
1.Spleen - Em francês, o termo spleen representa o estado de tristeza pensativa ou melancolia associado ao poeta Charles Baudelaire. O spleen baudelairiano é um profundo sentimento de desânimo, isolamento, angústia e tédio existencial, que Baudelaire exprime em vários dos seus poemas reunidos em Les Fleurs du mal. Embora o termo tenha sido muito difundido pelo poeta francês durante o decadentismo , já fora utilizado anteriormente, em particular na literatura do romantismo. (f.: Mrs. Wikipedia)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.