Trauma
8 Apesar de tudo…
Apesar de tudo, eu ainda sou eu.
Eu sou como uma bomba-relógio.
Impaciente.
Explosiva.
Todos fogem de um perigo crescente, todos sentem medo.
Talvez eu seja parte dele.
Uma partícula rejeitada, irada demais para se permitir aproximar. Ninguém corre na direção do instável, ninguém em sã consciência estaria à espera do que muito mau faz.
Como um ser emotivo, eu me culpo.
Me culpo por cada pessoa que tratei com desdém, que ignorei às custas do meu orgulho, que julguei ao ponto de humilhá-lo. Me culpo por não gostar do desconhecido, nem DE desconhecidos. Me culpo por não sentir empatia por um sofredor alheio. Me culpo por sempre descontar minha dor naquilo que se esforça para me manter bem. Eu não faço nada para mudar isso, e me culpo por tamanho egoísmo.
Minha raiva nunca vai embora. Eu não sinto ela latejando em minha carne, não sinto nenhuma chama à flor da pele. Ainda sim, uma palavra é o suficiente para me levar ao limite. Considero esta uma necessidade excessivamente maligna. Fora do meu controle, ela me toma por inteira, como se eu fosse um receptáculo para uma fúria incompreendida. Ainda que arrogante, eu não tenho escolha. Não tenho forças para combater a mim mesma.
Apesar de tudo, eu também sou humana.
Mesmo atolada em ignorância, eu também tenho sentimentos. E sinto eles tanto quanto você. Não me culpe por ser tão fria, orgulhosa, ou até mesmo desprezível. Não há nada em meu alcance agora. Jogue as verdades na minha cara e assim me rebelarei contra ti. Eu sou impulsiva. Se me importei com as tuas palavras malditas foi porque feriu-me o ego. Não me importo com o que tu pensa, não de verdade. Eu me sinto algo muito além da tua compreensão. Venha e se apareça como superior para que eu te destrua de uma vez por todas. Não suportaria ser rebaixada por alguém que desprezo.
Já faço isso comigo mesma, não preciso de palpite algum para uma autodestruição.
Esse capítulo pode ser visto apenas uma breve e patética carta sobre como me sinto em relação a única coisa que me intriga.
A mesma emoção que me fere, me pune e me humilha, é a minha única amiga.
Eu me odeio, assim como você me odeia.
Se estivéssemos competindo, eu certamente ganharia.
Só espero que entenda uma coisa:
Não precisa me tratar como um ser idiota, eu sei o que faço, apesar de nunca revisar as consequências.
Não me presto para te fazer feliz, eu mesma não me permito tanta alegria.
Isso tudo é um mecanismo de defesa. Independente do que eu faça, sempre me arrependo. Todas essas palavras, toda essa exposição vai me custar julgamentos e pesadelos.
Espero que esteja feliz com essa abertura. Eu jamais vou me livrar dela.
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