Ainda que não compreendesse as emoções que sempre estiveram ao meu lado — mesmo antes da perda de memória — pude ter um gosto de como é a inquietação de uma empatia mútua.

Se preocupar tanto com o outro, obtendo uma resposta positiva ou não, pobremente se passou pela cabeça narcisista de uma garota egocêntrica. Poderia contar nos dedos todas as tentativas — falhas — que obtive em longos seis anos. Se antes me orgulhava de números tão pequenos, agora reflito sobre como todos acabaram sem que fossem atendidos como tanto desejaram. Me sinto uma assassina e, como muito fiz, também me sinto usada.

A parte que nunca compreendi em uma relação é a doação de um pedaço do teu ser, assim como a recepção da parte do outro em um comutar corporal, sem que realmente retirassem seus membros em disposição. Em suma, essa troca nunca foi reduzida a órgãos nojentos. Pelo menos não aqueles incapazes de se relacionar à consciência, inteligência, memória ou percepção.

O amor é uma força tão grande quanto a gravidade. Nos doamos em prol de receber migalhas dessa emoção. Perdemos tempo, esperanças, assim como podemos enlouquecer por alguém que pouco se dispõe a nos retribuir o que lhe foi dado. Me diga agora, pai. Me diga, por favor, mãe. Por que sinto fragmentos dessa substância em meu corpo?

Mesmo que seja incrível sozinho, essa sensação não me fortalece em nada. Meus sentidos estão confusos agora, por quê? Quero deter a tristeza naquele olhar, quero o proteger com todo meu ser ao ponto de desgastar minha própria figura. Ele é merecedor disso? Me diga, ele merece que eu morra por sua alegria? Ele merece a velocidade em que meu coração palpita pela aflição de sua companhia? É uma tortura vê-lo assim, mãe. Tantos escombros por trás da tristeza, a residência de um trauma bem à minha frente e eu não consigo fazer nada. Não consigo mais falar. Minha cabeça agora dói por conflitos que eu mesma causei.

O amor é mais deprimente do que a depressão. Sinto que quanto mais me afundo em emoções e as decepções me puxam para baixo, exatamente como a gravidade.

Gravidade essa, que parece aumentar gradativamente de acordo com as decepções, e a tristeza nunca falha.

Em meio ao esquecimento, já sinto como se as promessas não fossem o suficiente para manter as lembranças vivas. Quais promessas? Já não consigo me lembrar.

A memória tem uma função primordial dentro da nossa mente, nós nos lembramos das coisas que amamos e das ocasiões maravilhosas em que vivemos, até das coisas que comemos ou fazemos muitas vezes. Porém, já pensou o quão triste a memória também pode ser? Pois sempre nos lembramos com clareza dos nossos traumas e tristezas, é muito doloroso, normalmente as coisas tristes são mais marcantes, como se fossem cicatrizes.

Eu sempre dou o meu melhor para criar lembranças felizes e divertidas com meus amigos, mas… não sei nada sobre mim. Isso me deixa muito para baixo, então, não consigo deixar sempre as perspectivas em alta, mas acho que todos os seres humanos são assim.

Mas eu sou um ser humano? Será que posso me considerar humana? Eu não sei, sinto como se eu não fosse nada e nem ninguém, e talvez esteja certa, mesmo quando me dizem ser alguém, eu não sinto nada, e eu quero tanto sentir. Trabalho dia e noite, todos os dias para poder me sentir alguém, para ter sentimentos felizes, e nutrir amor pelas pessoas que eu gosto.

Mas eu sou apenas uma boneca criada para ser a cópia de alguém, eu nem sou real, todas essas memórias, medos e até mesmo minhas manias, são apenas cópias, nada disso é verdade, eu sou uma mentira, e me sinto tão mal. Choro desesperadamente, é tão angustiante me sentir vazia, mesmo eu, uma boneca sem sentimentos, pode sentir alguma coisa no final… mesmo que seja apenas um vazio existencial.

“Você vai esquecer de mim, mas as lembranças nunca irão embora. Memórias de você e eu estarão sempre juntas... para sempre."

Mas, eu tive que o machucar, e o forçar a me destruir, mesmo sendo uma boneca… eu conheço o coração dele, estamos conectados, eu o fiz sofrer, eu o fiz chorar… me odeio profundamente por ferir a pessoa mais importante para mim.

Uma mera fantoche como eu, não merece um pingo de felicidade? Sou forçada a tomar decisões impossíveis e simplesmente desistir da minha vida, pelo bem dos que eu amo, e ainda sou forçada a machucar ele.

Enquanto minha alma se dissiparia, eu o vi se esquecendo da minha existência, mas ao mesmo tempo nutrindo uma angústia que nem ao menos ele sabia do que se tratava, foi uma cena final, um tanto quanto triste.

Aqui deixo expresso minha dor, por ferir meu amigo querido, mas eu fiz tudo isso por ele, eu sei que ele vai conseguir seguir em frente, eu confio nele, porque mesmo que ele se esqueça, nossas lembranças sempre irão viver dentro dele.

O esquecimento é a minha lembrança.

"Será que eu não deveria existir?"