Transcendência
1 Capítulo 1
A paisagem urbana tomou cores vivas, com projéteis indo de um lado a outro, corpos caindo ao chão, cujo solo manchava-se em um tom escuro de vermelho, mísseis iam de um canto a outro do mundo, aumentando a mortandade dos países em guerra. Guerra, era exatamente isso que estava acontecendo naquele instante, uma jovem de longos cabelos negros, traços egípcios e orbes castanhos havia ido visitar a Rússia, havia abandonado seu lar no Egito para desfrutar melhor das férias de seu emprego como guia turístico.
O estampido das armas e gritos suplicantes por vida eram os únicos sons, que podiam-se ouvir naquele campo de combate, a jovem em questão chamava-se Danúbia Adel que corria para tentar salvar-se, quando no meio de sua fuga foi atingida por um tiro certeiro na cabeça, o qual atravessou seu cérebro, causandolhe à morte instantânea. Seu corpo caiu no chão, com lágrimas rolando por seu rosto moreno e uma súplica feita em um murmúrio inaudível:
— Ré, tem piedade do meu povo!
A guerra estendeu-se pelos demais países, cuja mortandade causou o fim da humanidade, as armas dispostas no chão, ao lado dos corpos inertes, cheios de furos de balas e um líquido quente, vermelho e com cheiro de ferro a escorrer pelos corpos. Os urubus sobrevoavam aquele campo de combate e em alguns minutos começaram a alimentar-se dos corpos putrefatos.
*** Mil anos depois ***
As ruínas de uma sociedade antiga perdiam-se na imensidão verde que se alastrava pelos campos verdejantes, a natureza restabeleceu-se com o passar dos anos, os animais viviam livremente a viver da caça e alguns da pesca, como os ursos. Os tons azul, rosa, laranja e roxo em um tom mais opaco cobriam o céu e tingiam as nuvens, dando espaço ao tímido Sol que iniciava um novo dia, os gatos haviam evoluído, agora podiam planar no topo das árvores para buscar alimentos com mais facilidade e os cachorros de porte menor não resistiram com a ausência dos humanos.
Os cachorros de porte maior sobreviveram, bem como os pombos e as baratas, estas últimas passaram a alimentar-se de folhas e frutos que caíam no chão, havia poucos resquícios de habitação humana ali; com o término do despontar do Sol no horizonte, uma nave pousou em meio àquela calmaria toda, assustando os animais que afastaram-se de imediato e ficaram observando ao longe.
A nave era circular, com luzes neon, nas cores azul, vermelho e amarelo piscando do lado de fora e um compartimento abriu-se na frente, revelando uma porta a sair fumaça e uma escada que seguiu rumo ao chão, longa. De dentro dela saiu um humanoide semelhante ao ser humano, cabelos lisos, roupa com botões de cima a baixo, como uma espécie de macacão fechado, na cor preta, rosto afilado, como se fosse um bárbaro civilizado.
Os orbes de um azul profundo e cristalino, desconhecendo completamente o lado sombrio da maldade, espelhando esperança e curiosidade, era do sexo masculino por sua postura altiva e nariz longilíneo, lábios em um tom rosa, como se estivesse pintados por batom. A escada recolheu-se no último passo, os passos eram firmes e cuidadosos, as mãos rentes ao corpo, de dedos longos e grossos.
Os animais estavam assustados com a presença daquele ser, a única coisa que restou àquela imensidão verde foram as almas das pessoas que morreram há mil anos, vagavam por ali, como um cemitério a céu aberto- entretanto uma alma chamou a atenção do humanoide, o ser cessou seus passos e girou nos calcanhares, começando a caminhar em direção àquela alma. O quê de interessante daquela alma era que, ao invés de apenas vagar, como as demais, ela flutuava no ar, derramando seu pranto incessante e cantarolando uma canção em um idioma não pertencente àquele lugar.
As vestes da alma em questão eram as seguintes: uma blusa de alças finas, calça comprida e sapatos de salto alto, com os fios amarrados nos calcanhares delicados, as mãos não tinham calos, não parecia trabalhar no meio rural, a voz para o ser de tão melodiosa aos seus ouvidos, parecia divina.
O ser abriu a boca para falar ao cessar os passos, mas resolveu não fazer isso, ateve-se à música que aquela alma cantarolava:
— Perdida nos vales sombrios
Sinto a leveza dos rios
Ré, por favor não me deixe só
Não permita que dê um ponto, onde há nó
Deuses, perdoem minha fraqueza
Sofro da falta de pureza
Envolvida nos lençóis da aflição
Curem, meu pobre coração.
Deuses, sei que padeço de amor Não sinto mais calor
Preciso de alguém que aceite
Ser meu também.
Aquela canção, por mais que estivesse sendo ouvida pela metade, fez o ser emocionar-se de uma forma, que mal pôde controlar as lágrimas que rolavam livremente por seu rosto, os orbes azuis tinham um brilho distinto agora, pareciam ter uma tristeza profunda contida, uma tristeza que não era dele. Permitiu-se ajoelhar-se diante daquela alma, havia perdido a sustentação das pernas, sem perceber.
A voz grossa, soou em tom baixo e comovente.
— Diga-me: por que choras? Por que cantas desse jeito?
A alma que chorava e cantava, parou de cantar, para virar-se, ficando de frente ao ouvinte, dizendo em tom baixo e emocionado.
— Canto para esquecer a desgraça que me assola há mil anos, há exatos mil anos perdi minha vida em um segundo, pensando que o país chamado Rússia iria me proporcionar maravilhosos momentos de paz e felicidade. Senti a bala entrando na minha cabeça, minha visão escureceu e agora estou aqui, vagando por essa floresta. E quem és tu?
O ser enxugou bruscamente o rosto com as costas da mão, erguendo o rosto para fitar a alma, um calor morno tomou conto de seu peito, não sabia o que era esse
sentimento novo, só sabia que sentia-se bem e irreconheceu o seu tom de voz usado com ela.
— Meu nome é Devlin. Gostaria de saber o seu nome.
— Meu nome é Danúbia Adel. — disse a alma, o fitando e arqueou uma sobrancelha ao receber um inesperado convite.
— Danúbia, venha comigo para minha nave. Posso te trazer de volta à vida. O que me diz? — a curiosidade havia tomado Devlin, queria saber mais sobre aquela alma, queria conhecê-la melhor.
— E por que eu iria contigo? Estás louco? Acabaste de conhecer-me. — disse a alma, relutante, agora as demais almas observavam o diálogo entre o mais novo e estranho casal.
— Porque...- o ser começou a falar, pensativo. — Porque eu quero estar ao teu lado todos os dias, não sei se isso é amor, tu podes ensinar-me. — rebateu ele, vendo a alma ficar sem jeito e brincar com os próprios dedos.
— Não sei o porquê de aceitar tal loucura, porém dar-lhe-ei uma chance. — retrucou a alma, vendo-o erguer-se de forma a ficar de pé e caminhar a passos lentos até a nave, a alma apenas seguiu-o a flutuar ao lado dele.
Devlin não precisou falar nada, ao chegar próximo da nave, com a alma daquela moça, a porta abriu-se novamente, revelando a escada longa que parou no chão e ele subiu-a, passo por passo, com a alma da moça atrás de si, Danúbia observava aquela nave com curiosidade e receio, o ser terminou de subir as escadas e ela recolheu-se, com a porta fechando-se, de forma silenciosa atrás de si. A nave era grande por dentro, com corredores extensos e iluminados, o piso na cor branca entrava em contraste com o azul das paredes, por dentro, Danúbia seguiu Devlin até uma câmara que havia um sistema grande de computadores e uma espécie de caixão com tampa removível.
— Entre ali naquele caixão, por favor. — pediu Devlin com calma, parando em frente aos computadores e com alguns cliques, a tampa moveu-se e revelou uma cama com espaço para apenas uma pessoa.
— Tem certeza que isso é seguro? — o tom de voz daquela alma era de puro receio, afinal nunca foi apresentada a tamanha tecnologia, um movimento em falso e podia deixar de existir.
— Tenho, pode entrar. Eu sei o que estou fazendo. — assegurou o ser, vendo a alma entrar e deitar-se ali, quase que automaticamente e com alguns cliques, o ser fez a tampa fecharse sobre a alma e digitando algumas coisas em um idioma não conhecido pelo ser humano, aquele caixão começou a brilhar em um tom azul fosco fortemente, cuja cor tornou-se um branco ofuscante em seguida.
Ao terminar de digitar os comandos e de clicar mais algumas vezes, Devlin aguardou a tampa sair do lugar, revelando fumaça de dentro dela, alma com quem havia conversado minutos atrás não havia desaparecido, havia ganhado um corpo novo, com as características do primeiro. A mulher agora erguia-se, de forma a ficar sentada e ele foi para o lado dela, amparando-a por ela estar meio zonza com o experimento, ajudou-a a ficar de pé e envolveu os braços em volta da cintura dela, em um abraço, enquanto as mãos dela tocavam no tórax dele.
A tontura de Danúbia ainda não havia passado, tampouco sua surpresa em ter sido trazida de volta à vida por um estranho, os lábios dela moveram-se, quando ela falou com ele.
— No que mais posso ajudar?
— Eu quero saber como selar compromisso. — disse, sendo direto ao ponto.
— Selar compromisso? Bom, isso pode ocorrer de várias maneiras: com namoro, casamento e até um beijo. — disse ela, sorrindo a ele.
— Oficialmente estamos namorando, como funciona o beijo?
— Eu te ensino. — o sorriso dela alargou-se, ficou na ponta dos pés e fechou os olhos, começando o beijo por um toque sutil, evoluindo gradualmente, Devlin fechou os olhos também, para melhor aproveitar o beijo e sentir o doce aroma que Danúbia exalava, palavras tornaram-se completamente desnecessárias naquele momento. Ninguém podia dizer que o amor que ele sentia por ela não era verdadeiro, tampouco que não existe amor à primeira vista.
O beijo durou alguns minutos, ambos separando-se e reabrindo os olhos, com uma única certeza: queriam ficar juntos, a respiração quente tocava o rosto um do outro, seguiram de mãos dadas até outra parte da nave. Casando-se com ela.
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