Trama de Marrie
1 A Primeira Carta de Marrie
6 de dezembro de 1999
Olá. Meu nome é Marrie. Não Marry. Minha mãe dizia que toda vez que falava meu nome lembrava de um francês encatarrado tentando falar Marry. Eu estou escrevendo aqui pela simples indicação do Doutor Olívio. Ele disse que isso me ajudaria a pensar. É minha primeira carta então possivelmente as coisas devem estar confusas para você que lê, mas logo vai entender. Minha mãe morreu a dois meses atrás. Tudo que se passou depois disso parece ter sido visto por mim sobre o efeito de um alucinógeno. É como sentar para ver um filme. Por mais que você grite para a personagem não entrar em uma sala porque se ela fizer isso vai morrer, não adianta. No momento meu irmão está brincando de jogar a bola na parede. Nossa casa tem três quartos, dois banheiros, uma cozinha, uma sala de estar, uma sala de janta e um quintal. Ao total de tudo isso temos sete cadeiras, dois sofás, oito janelas, seis portas e tínhamos quatro pessoas. Agora só temos três e um gato preto que anda de uma maneira torta como se tivesse bebido o que gatos bebem para ficar de ressaca no dia seguinte. Nada estou fazendo da minha vida ou das minhas férias. É uma sensação horrível de perda de tempo. Como assistir grãos de areia passarem pela cintura de uma ampulheta. Te leva a sentir um aperto no peito e uma ansiedade que não consegue escapar de seu corpo. Quando expliquei isso ao Doutor ele disse que poderia ser uma causa de eu ter adquirido Dsm-iv desorganizada. Esquizofrenia, em outras palavras. Ou também por ter TEPT, também em outras palavras Transtorno de Estresse Pós-Traumático. Charlotte, minha amiga, virá logo para me ajudar a arrumar a mala. Amanhã iremos para a casa de meu Tio Holavo. Ele tem uma mulher e um filho com a idade correspondente a minha. É uma casa de campo. Não vou lá dês dos meus cinco anos, mas meu pai achou que seria uma boa oportunidade para nos aproximar da família. Ele diz que tem um lago e que poderemos praticar canoagem, eu nunca tentei, mas acho interessante.
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7 de dezembro, 1999
Desci as escadas de madeira que se encontravam logo em frente ao meu quarto. Tomei todo o cuidado para que a minha mala não escorregasse de minhas mãos e acabasse rolando corredor abaixo e sacudindo a velha casa de madeira. Obviamente o meu irmão não teve a mesma ideia que eu, sem se preocupar com a bagunça, pegou sua mala, a deitou e desceu as escadas montado nela como se estivesse em uma montanha-russa.
–Thomas! — escutei meu pai gritar do andar de cima — Pare de brincas e coloque as malas no carro!
Meu irmão de nove anos se entristeceu por ter de deixar a casa, mas fez o que nosso pai disse, dessa vez evitando o stress eminente que poderia sair em forma gasosa das narinas do meu pai se Thomas resolvesse fazer qualquer barulho estrondoso novamente. Atirei a chave do carro que estava sendo segurada por um rabo metálico de um gato colocado na parede. Meu irmão a pegou no ar e se dirigiu até o Omega preto de meu pai. Eu caminhei até a janela e fiquei o observando através do vidro empoeirado da sala de estar. A televisão estava desligada, apesar de que o vídeo cassete exibia uma luzinha vermelha que piscava de dois em dois segundos. Ela sempre me incomodava mais do que qualquer coisa naquela sala. Mais do que os quadros de homens e mulheres em cidades diferentes que fixavam seus olhares em mim e não nas outras pessoas que as vezes ocupavam a sala. Porque todos olhavam para mim com tanta insistência?
–Marrie, eles não estão olhando para você.
Meu pai me encarava do pé da escadaria. Me virei para ele com uma sobrancelha arqueada. Já tínhamos falado sobre os quadros milhares de vezes e ele sabia o que passava por minha mente.
–Como você pode ter certeza?
–Bom, eles podem estar olhando para você sim. Não teriam motivo para não olharem para uma menina tão bonita.
Meu pai se aproximou do sofá vermelho de couro e passou a mão por meus cabelos loiros caramelo.
–Eles só estão nas paredes porque mamãe gostava deles.
–É. Também. Sua mãe sempre teve um péssimo gosto para arte. — ele disse sorrindo para mim. Ambos sabíamos que era verdade.
–O que mais me irrita neste quadro é o homem de preto e chapéu. Aquele que está do lado da criança brincando no balanço. Ele está segurando uma bengala. Vê?
Meu pai olhou para mim e depois para o quatro, procurando sobre o homem que eu estava falando. Depois me fitou novamente. Aquele era o momento do "eu vejo e você não". Essa era uma das falhas de possuir Dsm-iv desorganizada. As pessoas nem sempre viam as mesmas coisas que eu ou as escutavam ou as sentiam. Isso em parte era bom, em outras não. Comecei a tomar remédios cerca de um mês, antes as coisas eram piores.
–Okay, Marrie. Pegue sua mala e coloque dentro do carro. Prefere que eu faça isso para você?
Não escutei a última frase. Meu pai tomou a liberdade de pegar minhas coisas e levar ao Omega. Encarei as feições do homem que me observava no quadro. Suas íris eram vermelhas e seu rosto branco e fino, parecendo um vaso de porcelana. Suas orelhas estavam escondidas pelo chapéu, igualmente como seus cabelos. Imaginei as coisas que poderiam estar escondidas embaixo de sua capa. Talvez ele colocasse criancinhas ali e elas não conseguissem mais berrar nem sair. Uma mão tocou em meu ombro, fazendo eu me virar rapidamente com as pupilas dilatadas. Os olhos esverdeados do meu irmão me olhavam. Suas sardas e seus dentes tortos combinavam perfeitamente com a cabeleira ruiva encaracolada. Os nossos sorrisos largos eram as únicas coisas em comum. Meu pai dizia que parecíamos elfos quando sorríamos.
–Papai está te chamando. Mandou você pegar a chave e entrar no carro para irmos.
Me levantei e achei com facilidade a chave prateada da porta que refletia os últimos raios de Sol do dia que entravam pela janela da sala. Os raios tocaram meu rosto fazendo com que minha sombra imensa se projetasse nas paredes empoeiradas da sala. Aquela sombra poderia ser só minha? Peguei minha bolsa que ainda estava acomodada no sofá, fechei a porta pesada de madeira e corri para o Omega preto.
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