Trama de Marrie
2 o Casebre e o Lago
8 de dezembro, 1999
Fazia dois meses que eu odiava viajar de carro. Meus músculos estavam tensos, minhas mãos em forma de conchas envoltas em meus ouvidos e minhas pálpebras severamente fechadas. Eu não tinha ideia como as pessoas poderia considerar aquilo um veículo seguro. Será que ninguém percebia o quando os carros passavam perto uns dos outros? Muito perto. Perto. Conseguiam escapar por um fio de cabelo, correndo em uma velocidade enorme. Tão perto até quase bater. Mas nunca batiam. Nunca. Até que vidros se estilhaçavam, as paredes metálicas se dobravam e corpos eram atirados contra a caixa com rodas, parecendo bonecos de pano. Pensei também em como algumas pessoas conseguiam viver tão tranquilas sabendo que poderiam morrer a qualquer segundo que se passava. A cada segundo ficavam mais velhas e se aproximavam de algum fim. Ainda de olhos fechados, senti o carro fazer uma curva e as rodas cantarem enquanto passávamos por terra. A mão pequena de meu irmão tocou a minha, que protegia meus ouvidos.
–Marrie, já não tem mais carros. Pode olhar. Estamos quase chegando no chalé.
Minhas pálpebras despertaram o suficiente para que meus olhos observassem através do vidro fechado do carro. O que pareciam ser árvores passavam como meros borrões diante do meu campo de visão. Atrás delas vi algo que me fez prender o fôlego. Era como um espelho. Um imenso espelho feito de águas paradas que formavam um imenso lago oval. Se estendia por uma distância imensa, mas que não me impedia de ver as árvores em sua borda no lado oposto ao que estávamos. Foi a primeira vez em dois meses que a minha cabeça ficou completamente vazia. Nenhuma voz se atreve a se erguer. Encarei o espelho novamente, mas ele refletia o céu cinza coberto de nuvens, ocupado de mais para me dar atenção. Acho que o que mais gostei nele foi que ele não me encarava como os quadros em minha sala de estar. O carro parou.
Olhei pelo pára-brisa e vi um chalé quadrado com paredes de madeira, um telado pontudo com uma chaminé e duas janelas fechadas, fazendo parecer que a casa tinha olhos. Na sacada se encontrava um homem com uma barba marrom na altura do peito, o que me deixou fascinada. Poderia até parecer a imagem católica de Deus. Envolta em seus braços se encontrava a irmã de minha mãe. As duas eram muito parecidas. Pele clara, sardas e a única diferença era a cor de cabelo. Minha tia nascera com o cabelo caramelo, mas sempre o pintava de loiro claro, enquanto minha mãe tinha cabelos ruivos. Meu irmão puxou meu braço, me trazendo à realidade.
Coloquei minhas pernas para fora do carro e pisei na lama. Queria bater em minha testa por não estar usando minhas botas de borracha, guardadas bem fundo dentro da mala. Fui até a traseira do carro e peguei minha bagagem, a carregando com duas mãos enquanto ela batia em meus joelhos devido a minha caminhada. Meu irmão borboleteava ao redor das árvores então me dirigi até o lado de meus pai, que conversava com minha tia e o homem Deus.
–Nossa Marrie! Como você cresceu! Está uma moça tão linda!! — falou minha Tia Hellen. Isso era comum entre meus familiares, era o elogio mais básico de todos e nunca era possível errar. O mesmo servia como puxar assunto sobre o tempo com alguém. Infalível.
–Obrigada, Tia Hellen. – agradeci.
–Você sempre foi linda, Marrie. – falou meu Tio Holavo. Eu adorava aquele homem. Tinha sido meu segundo pai até que minha mãe brigou com Hellen e as duas não se falaram até a morte de minha mãe. Sorri para Holavo. – Mas então, vamos entrar?
Meu pai confirmou com a cabeça. Tio Holavo seguiu até a porta e a abriu, mas pelo que vi sua barba entrou na casa antes que ele. Fomos atrás dele. Thomas apareceu carregando sua mala e seus inúmeros soldadinhos de brinquedo esverdeados.
– A casa tem um segundo andar. Se vocês subirem as escadas ali vão caminhar até o final do corredor e encontras uma porta a esquerda e a direita. Podem ficar com aqueles quartos. –Holavo explicou, apontando para uma escada de madeira larga que se encontrava ao lado de uma cozinha improvisada. Olhei para Thomas e ele me devolveu o olhar desafiador. Corremos para as escadas, um empurrando o outro pra ver quem iria ficar com o melhor quarto.
Corri em direção ao final do corredor. Minha saia preta se balançava e o pequeno salto de me sapato produzia um “clack, clack” que era possível ser ouvido na casa toda. Consegui deixar meu irmão para trás depois de ele ter deixado seus soldadinhos caírem escada abaixo. Abri a porta da direita.Uma janela pequena, suficiente apenas para iluminar o quarto. Abri a porta da esquerda e dei de cara com um quarto entulhado de estantes de livros. A estrutura de uma cama segurava um colchão empoeirado ao lado de uma janela grande e retangular. Thomas apareceu logo atrás de mim. Seu rosto se distorceu.
–Pode ficar com esse, Marrie.
–Pode deixar. Eu respondi.
Meu irmão se dirigiu ao cômodo da direita enquanto eu encostava minha mala na parede, o que obviamente levantou grãos de poeira no ar. Me dirigi até a janela, antepondo meus joelhos cobertos por minha meia calça na cama. Tinha obtido uma visão perfeita do lago e toda sua borda. Era um ângulo diferente do que eu tinha visto. Agora conseguia enxergar um píer e uma cabana três vezes menor comparada à casa. Provavelmente era aonde se encontravam as canoas e varas para pesca. De repente vi um menino. Ele deveria ser alguns anos mais velho que eu. Vestia uma calça kaki e não usava nenhuma camiseta ou sapato.
–Thomas! Venha aqui. – eu berrei o suficiente para que meu irmão acordasse de suas brincadeiras e se dirigisse até meu quarto.
–Você vê alguém no píer ali?
Colei a ponta de meu dedo no vidro, apontando para o lugar que desejava que Thomas olhasse. Meu irmão não questionou minha pergunta. Era difícil saber o que eu inventava e o que realmente existia.
–Tem aquele menino sem camiseta. – ele respondeu, virando os olhos para mim – deve ser o nosso primo. O que papai falou.
Meu irmão respondeu e voltou saltitante para o quarto. Eu não retirei os olhos do lago ou o menino que estava sentado no píer encarando o infinito. Perguntei-me se naquele momento ele se sentiria observado.
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