Três amigas e o amor.
41 Raquel - Como é difícil sair dessa
No dia seguinte depois da notícia do infarto de Vitor, Raquel estava muito mal, por sentir-se tão feliz nos braços de outro homem. Dividida entre aqueles os dois que lhe prometiam relações tão diferentes. Vitor era estável e conhecido, mas não tinha futuro, enquanto Otávio era algo novo e livre, mas ao mesmo tempo desconhecido, com uma bagagem de um passado sofrido, e, aparentemente, o fizera uma pessoa melhor. Precisa conversar, expor suas dúvidas e indecisões, então ligou para Ana.
— Eu preciso conversar com você – Raquel confessou, rendendo-se.
— Raquel, o que foi? O que está acontecendo?
— Não por telefone. Podemos nos ver amanhã? Almoçaremos juntas?
— Claro! Eu posso pedir algumas horas de folga à tarde. As coisas estão bem calmas por aqui, assim teremos mais tempo.
— Posso encontrar você aí, perto do seu trabalho? Não queria que fosse perto da minha casa ou do meu trabalho, eu preferia algum bem lugar discreto, onde poderíamos conversar em paz.
— Já sei aonde podemos ir, então nos vemos amanhã, Raquel.
— Até amanhã, Ana.
Durante o resto do dia, Raquel evitou encontrar-se com Otávio, atordoada com os seus sentimentos contraditórios. Ele respeitou a sua escolha, não a procurou. Nas horas que precederam o almoço com Ana, ficou ensaiando como contaria toda a sua história a amiga. Naquela manhã, também teve notícias que Vitor estaria bem e, em breve, teria alta para o quarto, isso a aliviou um pouco a sua culpa.
Na hora do almoço, encontrou com Ana em um pequeno restaurante perto do trabalho da amiga. O lugar estava quase vazio, pois, já passava do período mais movimentado, as pessoas já voltaram para seus trabalhos. Raquel estava ansiosa e sem fome, seu estômago estava embrulhado. Assim, depois que fizeram seus pedidos, ela se encheu de coragem para começar a falar.
— Eu não sei como começar a contar para você, Ana – Raquel remexia as mãos, receosa, enchendo-se de coragem.
— Por favor, Raquel, somos amigas há muito tempo! Quantas vezes contamos segredos uma para outra? Você pode confiar em mim, eu não estou aqui para julgá-la – Ana ponderou, querendo tranquilizar a amiga, Raquel deu um longo suspiro.
— Eu nunca tive coragem de falar sobre a situação que eu estou vivendo, há algum tempo, talvez, porque eu mesmo me sinta envergonhada por isso – Raquel falava, olhando para mãos, sem encarar Ana, em uma atitude bastante incomum para ela.
— Nossa! Que história é essa? – Ana indagou, assustada.
— Bem, eu tenho um caso com um homem casado, há alguns anos. Você o conheceu naquela festa, é o meu chefe, Vitor – Raquel confessou, Ana a encarou, boquiaberta.
Assim, ela contou sobre Vitor e a relação entre eles, sua esposa e seu infarto e, depois, falou sobre Otávio e como ele apareceu em sua vida e balançou tudo – Está vendo agora, porque estou tão confusa, Ana – finalizou.
— Raquel, eu estou pasma! Como você entrou nessa? Logo você, tão segura e inteligente! E por que nunca contou isso antes? – Ana estava atônita, pois nunca desconfiou daquela vida dupla da amiga.
— Eu não sou tão segura assim, nem tive coragem de olhar para você e ver o que estou vendo agora – Raquel falou, dando de ombros. — Sabia, que você nunca aprovaria e eu não queria decepcioná-la.
— Não aprovaria mesmo! – Ana confirmou. – Mas, sou sua amiga e aceitaria sua decisão, apesar de não entender, pois sei que você nunca será feliz assim, vivendo uma vida pela metade. Como você aceita isso?
— Vitor é inteligente e charmoso, me trata bem. Você, mais do que ninguém, sabe como é difícil sair dessa, quando nos envolvemos com um homem assim. Quando, colocamos alguém em um pedestal, não reconhecemos seus erros e defeitos, porque ficamos gratas demais, por receber a atenção e algo que achamos que é amor dessa pessoa.
— Eu sei muito bem! – Ana conhecia bem essa história, deixou-se levar por Marcelo. – Mas, ele é casado e, pelo o que eu entendi, nunca vai deixar a esposa por você para não perder as vantagens deste casamento. Eu entendo Vitor, mas e você, o que ganha nessa relação, Raquel? Sei que não é pelo dinheiro ou presentes, porque você não precisa disso, então o que é?
— Eu não sei direito, mas preciso dele, saber que ele virá, que não estou, totalmente, sozinha – Raquel quis explicar, o que não compreendia bem.
— Raquel, nunca imaginei que você fosse tão carente — Ana constatou, surpresa — Então, até quando você vai levar essa situação? E este tal de Otávio?
— Otávio é divorciado e quer ficar comigo, mas, não sei se quer algo sério – Raquel confessou.
— Ele é legal? – Ana quis saber, curiosa.
— Ele tem uma história forte, dramática, não sei se estaria pronto para entrar em um relacionamento sério.
— Mas, você não tem um relacionamento sério, Raquel – Ana considerou, Raquel a encarou, incomodada – Por que você não tenta? Você é solteira e Otávio é divorciado.
— Foi o que ele me disse — Raquel reconheceu – Mas, teria que desistir de Vitor e, se com Otávio não der certo, eu vou ficar sozinha – confessando seu medo.
— Tente, Raquel! Livre-se desse Vitor, será melhor para você. Corra o risco – Ana a encorajou. – E se não der certo com Otávio, procure outro homem descompromissado, que realmente queira algo sério com você.
— Você sempre foi mais esperta do que eu, conseguiu sair dessa – Raquel elogiou, por pensar que Ana havia esquecido a paixão por Marcelo. Mal sabia do seu recente encontro com ele, por razões supostamente profissionais, mas não tinha coragem de revelar a amiga, porque, com certeza, ela a desencorajaria.
— Mas, não foi fácil! Ainda sinto saudades dele – Ana revelou, pois ainda doía, sempre, que pensava nele. — Vamos, Raquel, se dê uma chance!
Depois do almoço, Raquel não voltou para o trabalho à tarde, foi para casa, atenta, esperou até ouvir barulho no apartamento ao lado e tocou a campainha, Otávio atendeu.
— Oi, Raquel. O que houve? – Otávio a recebeu, sua expressão era um misto de surpresa e expectativa, pois não entendeu a causa do sumiço dela.
— Oi! Otávio, eu pensei muito sobre nós dois e eu quero ficar com você, se é isso que você também queira?
— Raquel, é claro, que eu quero – Otávio disse, com doçura — Entre! Estou fazendo o jantar – ele a convidou, abrindo a porta para dar passagem.
— Obrigada – ela agradeceu e entrou – Mas, não estou com fome, almocei tarde com uma amiga.
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