Charlie

— E então? O que ela tem? Pare de tanto mistério e isso é uma ordem, garoto.

Jacob nem havia acabado de entrar no quarto, com um enorme envelope em mãos, e eu já o inundava de perguntas.

Isso era o que chamavam de desespero de pai.

— Calma, padrinho. Vamos conversar direito.

Ele se aproximou da cama e começou a conferir cada fio e tubo ligado em minha garota, que permanecia inerte e muito pálida.

O segui de perto, e parei ao lado de um angustiado Edward que segurava a mão de Bella na mesma posição em que o encontrei no fim da noite anterior quando enfim, conseguimos chegar a Ângelus.

Só Deus é capaz de explicar o tamanho do meu temor e dor, ao saber, por Renée, que Bella havia desfalecido na frente de várias pessoas e em rede aberta, porque o evento era transmitido ao vivo para todo reino.

Merda! Pensar nisso fazia lembrar-me de querer processar a imprensa inteira por estar supondo as piores coisas de “meu milagre”.

— Fale, Jacob. Por favor, o que Bella tem? É algo grave?

Edward falava baixo e seus olhos estavam vermelhos e muito cansados. Ele havia soluçado e se desculpado a noite toda em um lamurio de sofrimento.

Eu só queria saber do que ele se desculpava. Será que era por não ter percebido que Bella estava passando mal?

Renée, ele e eu não “arredamos pé daqui”. Era difícil dizer quem parecia mais desolado.

— Só um minuto.

Jacob conferiu, mais uma vez, os batimentos cardíacos dela e aferiu sua pressão.

— Bom! Tudo normal agora.

Graças a Deus!

Pelo que Esme me contou, antes de voltar para o palácio com uma teimosa Rósalie, é que Bella chegou aqui com a pressão baixíssima e uma respiração fraca. E que o atendimento do plantonista foi essencial, até que Jacob chegasse e tomasse as rédeas da situação.

Guardando tudo na maleta que o acompanhava, ele então se virou para nós.

— O que ela tem, querido?

— Está tudo bem, madrinha. Não precisa se preocupar.

Nós três, ao mesmo tempo, respiramos aliviados.

— Os exames estão bons, nada de anormal. Só aquela “anemiazinha” companheira de sempre, da Bells. Já prescrevi uma dose de sulfato ferroso. Mas, quero conversar com Bá sobre a alimentação dela. Acho que Bella vem facilitando.

Assenti já mais calmo e pensando nas frutas e verduras tropicais que mandaria para cá. Porque “raios” Carlisle não tinha uma horta?

— Se está tudo bem, por que ela não acorda? Isso não pode estar certo, Jacob. Ela está tão pálida.

Edward indagou enquanto levava os lábios até a testa de Bella e a beijava com carinho e preocupação. Uma parte de mim quis estapeá-lo por aquilo, outra parte, que venceu com folga, se derretia pelo amor que ele demonstrava por minha filha.

— Ela não acorda, porque a sedei ontem. Ela precisava descansar, desligar do mundo. Porém não demorará muito para que ela acorde agora, os efeitos já estão acabando. E, se não se importa, gostaria de conversar com você enquanto ela ainda dorme. Porque creio que queira estar aqui quando ela acordar.

Os dois se encararam por um instante. Jacob não parecia disposto a mudar de ideia e Edward, a contra gosto, foi obrigado a fazê-lo. Eu sabia que ele não queria se afastar, mas, conversar com “o médico” Jacob era importante também.

Encontrá-lo aqui quando cheguei, não foi surpresa. Uma chorosa Alice nos contou de como ele fora avisado pelo pessoal do hospital sobre o incidente envolvendo Bella.

Jacob veio o mais rápido que pode, e assim que chegou tomou conta do caso. O que me deixou mais aliviado. Eu sabia da competência dele.

— Tudo bem. Vamos conversar. Vocês podem, por favor, ficar aqui? Prometo não demorar.

— Vá tranquilo, querido. Estaremos aqui quando você voltar.

Renée o abraçou e alisou seu rosto cansado. Eu somente concordei e me dirigi para o lugar que ele estava, ao lado de Bella. Queria mimá-la um pouquinho. Eu odiava encontrar minha filha em um hospital.

— Charlie, você acha que eles vão brigar?

Renée sussurrou.

Instintivamente, olhei para os dois homens que saiam pela porta. Fiz sinal de negação, com a cabeça.

— Nenhum dos dois tem força para isso, mulher. E além do mais, Billy me telefonou essa semana e me surpreendeu ao dizer que Jacob já aceitou seu destino. A amizade dele com nossa filha não será mais um problema, se Edward conseguir aceitar isso.

— E será que ele aceitará?

Acariciei o rosto macio de Bella e Renée sentou-se de seu outro lado, alinhando devagar os fios que escapavam para debaixo do travesseiro.

— Isso, só Deus sabe, querida. Só Deus...

Edward

Acompanhei Jacob até a sala que eu supunha, ser a dele. Era bem desenhada e alegre, bem parecida com a de Bella, bem infantil. Com a diferença de que ali, personagens da Marvel eram grande maioria.

— Sente-se.

Apontou para a cadeira de frente a, bem talhada, mesa branca.

— Edward, não sou de rodeios, aliás nunca fui. Prometi a mim mesmo que não me intrometeria mais na vida de Bella. Ela tem se afastado e sei que, de alguma maneira, isso foi uma decisão de vocês. Mas, posso só saber onde vocês estavam com a cabeça quando decidiram ir para uma festa depois do que aconteceu aqui? Minha equipe me relatou que Bella saiu daqui devastada e amparada por Sam e Zafrina. Como, em sã consciência, vocês me resolvem festejar depois dessa situação? Era óbvio que Bells não tinha estrutura para isso.

Esfreguei a testa com força e puxei os cabelos. Jacob era a última pessoa com quem eu gostaria de desabafar. Eu só precisava de Emmett agora.

— Eu não percebi, tá bom? Nós não conversamos. Ela estava atrasada e eu praticamente a esperava no carro. Só fui capaz de identificar que algo não estava normal quando chegamos ao evento, mas, aí já era tarde demais.

Ele me avaliava com intensidade. E eu odiava mais, saber que ele praticamente lia meus pensamentos.

— Vocês estão brigados. Como não percebi isso.

Conversando sozinho, ele foi até o frigobar e retirou de lá, duas garrafinhas de água. Estendeu-me uma e abriu a outra.

— Eu sabia que algo não estava certo. Bella tem se afastado muito. Ela não aceitou novos pacientes e por lei nenhuma me avisou da cirurgia de Suzie. Droga! A cabeça dela deve estar a mil.

Ele sorveu a água na mesma intensidade que fiz com a minha. Estávamos sedentos.

E de repente, como se lembra-se de que eu estava ali, me fulminou com o olhar.

— Qual foi a burrada que você fez dessa vez, Cullen? Quando Bella se fecha pode saber que alguém fez alguma “merda” que a desagradou. É uma autodefesa dela.

Precisando explodir, levantei-me e lhe apontei o dedo. Ele seria a vítima perfeita já que também era culpado por meus destemperos.

— Minha vida e de minha mulher não lhes dizem respeito. Nossos problemas, nós resolvemos. Se mantenha longe e estará fazendo um bem enorme para nosso casamento.

Ele não se abateu com minha ameaça, porém, respirou fundo e voltou a se sentar em seu lugar. Jacob mantinha um autocontrole invejável.

— Você sabe que estou para me casar, não sabe, Edward?

— Sei. Só não sei o que isso importa para nossa conversa.

Fiz-me de desentendido. Ele não ia começar com o sermão de amizade verdadeira. Ou ia? Eu já estava cansado daquela ladainha toda.

— Importa, porque, quero que tenha certeza de que agora, mais do que nunca, Bella e eu somos somente melhores amigos.

O idiota achava que minha briga com Bella era por causa dele? O cara achava mesmo que o mundo girava em torno “de seu umbigo”. Só pode.

— Alias, nem isso somos mais. Porque ela anda me evitando ao máximo. Porém, não vou me meter mais e não vou te prender aqui por mais tempo. Bella deve acordar a qualquer instante. Só preciso te dizer, pela última vez, não perca seu tempo criando picuinhas por minha causa. Bella te ama, sempre amou. Até quando você não a conhecia e a menosprezava, ela te amava. Eu nunca tive chance. Infelizmente só percebo isso agora.

Ele se recostou na cadeira e cruzou as mãos na nuca.

— Estou tocando minha vida. Fiz um acordo com você, vou me casar e nunca mais pressionarei sua esposa romanticamente. Agora, faça um favor a nós mesmos, deixe de idiotice e vá ser feliz. Comece a entender Bella. Cative-a, ame-a e terá dela o que quiser. Pare de agir com o “namoradinho adolescente ciumento”. Você é um príncipe e é casado com a princesa mais adorada dos últimos tempos. Cresça, Edward! Seja feliz e faça minha amiga feliz.

Uma ponta de dor na consciência me assolou. Ele estava mesmo me dizendo que desistira de minha mulher? Ele seria mesmo capaz disso?

Se isso fosse verdade eu teria mesmo que em render a amizade deles.

Isso se eu ainda tivesse um esposa para me render a ela, porque depois de ontem, meu casamento estava, mais uma vez, nas mãos de Deus.

Bella

Hum! Uma pontadinha de dor na cabeça!

Droga! Eu estava acordando de um sono sedado. Eu conhecia os sintomas e os efeitos.

— Ai...

Murmurei, quando tentei levar à mão a cabeça e então, senti a pressão do cateter no braço.

Droga, de novo! Eu estava hospitalizada. E com um tubo intravenoso. Isso era “o fim da picada”. Um prato cheio para a imprensa e suas teorias malucas. Eu já podia imaginar...

— Querida? Abra os olhos para o papai. Preciso ver meu “mar castanho de chocolate derretido”. Preciso ter certeza de você está bem, meu amor.

Papai?

As coisas eram piores do que eu imaginava. Charlie estava aqui.

Aliás, por que eu estava no hospital mesmo?

— Filha, estamos com saudades. Venha para a mamãe. Traga sua consciência para cá.

Renée estava a minha esquerda e papai ao seu lado. À direita, o toque das mãos de Edward nas minhas eram reconfortantes. Ele não falava, somente me acariciava. Porém, eu reconheceria aquele toque entre um milhão de toques diferentes.

— Pare de manha, Bells. Os remédios já estão acabando os efeitos. E você já dormiu demais. Obrigue sua consciência a vir para cá, ou te deixarei de molho aqui por uma semana.

Jacob? O assunto era sério mesmo. Porque, só isso obrigaria Edward a aceitar a presença dele tão perto de mim. E clinicando? Impossível.

— Amor...

A voz baixa e sofrida, como se ele estivesse numa angústia enorme. Não havia como não respondê-lo.

Mas, o que eu...

— Ah!!

Edward, Suzie, morte, Esme, evento, desmaio... Esses eram os motivos de tanta preocupação.

Eu havia desabado ao final do discurso de minha sogra.

— Ai...

Outra pontada na cabeça quando me lembrei de tudo que me trouxe a esse momento.

Forcei meus olhos devagar, até abri-los, por completo.

Era hora de enfrentar a realidade. Eu tinha que aprender a parar de fugir dos problemas.

— Graças a Deus!

Contemplei os olhos de meus pais se acalmarem.

Droga! Eu não queria, nem precisava deles tão preocupados.

— Oi...

Murmurei com a voz seca e baixa. Eu estava com muita sede. E minha garganta ardia demais.

— Como se sente?

Jake se aproximou e pegou em meu pulso para conferir os batimentos.

Instintivamente, olhei para o outro lado encontrando o mesmo Edward, da voz sofrida de segundos atrás, completamente quieto e sem reação a aquele toque. Eu não queria que ele se irritasse, na frente de meus pais, por causa presença de meu amigo ali.

Nossos problemas, nós resolveríamos sozinhos. E de hoje não passaria.

— Minha cabeça dói e meu corpo parece que foi atropelado por um caminhão bem grande.

— Você sabe que isso é normal. Sua carga de estresse te levou a esse estagio hoje. E pelo que vejo, nada de exercícios físicos para aliviar a tensão, não é? Nós não combinamos de sempre extravasar de alguma maneira?

— Afh!

Resmunguei irritada e com vontade de acertar algo naquela cabeça grande dele.

— Não deu tempo, doutor Black. Eu tinha obrigações a cumprir, sou uma princesa, se não se lembra e, além do mais...

Edward respirou mais alto que o normal, chamando minha atenção. Ele estava arrependido, outra vez. E a acidez e cinismo de minha fala só serviram para atormenta-lo ainda mais.

— Eu sei, não é a mim que você precisa se justificar. “Abaixe as armas”, doutora Cullen. Sou seu amigo. Lembra?

Respondeu agora aferindo minha pressão e controlando o gotejar do soro intravenoso.

— Mas, é fato que você não anda se cuidando, nem se alimentando direito. Sua anemia voltou.

— Coisa à toa. Resolvo isso com alguns comprimidinhos de sulfato ferroso.

Com aquele levantar de sobrancelhas de um médico e não de um amigo, fui repreendida.

— Pare de fazer graça, o assunto é muito sério, dona Isabella. Você foi imprudente e não está se dando conta disso. Sabemos onde isso leva. E como você disse, sua vida é atribulada demais, não se dê ao luxo de ficar doente.

A bronca dele era merecida. Não foram nem um, nem dois de nossos companheiros de faculdade que pereceram pelo caminho devido a depressões e transtornos causados pela pressão de nossa profissão.

— Por que você não agendou comigo a cirurgia de Suzie? Nós combinamos, doutora Swan. Somos parceiros de pesquisa e profissão. O que deu em você para agir tão imprudentemente?

Sem conseguir encará-lo, fechei os olhos, respirei fundo e deixei que uma lágrima caísse. Eu era uma fraca e precisava agora, vivenciar meu luto e minha dor.

— Jacob, por favor, não é o momento.

Mamãe intercedeu. Não era mesmo o momento. Eu estava cansada demais até para uma bronca.

Papai me acariciou os cabelos, me consolando. Mal sabia ele que não havia consolo. Eu havia perdido uma criança, na minha ignorância de querer ser autossuficiente.

Como explicar a eles que eu queria me afastar de Jacob para aliviar de Edward de um ciúme que colocava nosso casamento em risco?

Não! Isso não era possível. Eu não faria uma maldade dessas. Nunca que eu colocaria esse peso nas costas de meu Edward. Ele já estava angustiado o bastante.

Como explicar a minha família que eu precisava aprender a me virar sem Jacob? Eu precisava confiar em mim e nos anos de estudos. Eu sabia o que fazer, porém, deixava o medo de errar me consumir, nas horas mais importantes.

— Ok, o padrinho está certo. Vou deixar a bronca para depois. Você está bem, Bells. Só foi uma queda de pressão. Acredito eu, devido a exaustão e pressão. Tenho que terminar de administrar um calmante que está em sua corrente sanguínea, então prefiro que fique aqui até de tarde. E se tudo continuar correndo bem, te libero a noite, para dormir em casa.

Respirei aliviada, deixando que as palavras dele me consumissem. Não queria passar a noite ali. Queria o conforto de meu quarto.

— Posso te pedir um favor?

— Sempre, a qualquer hora.

Voltei a abrir meus olhos para passar confiança em meu pedido.

— Você pode dar uma olhada em meus pacientes, por mim? E, por favor, peça para que Bree libere minha agenda?

— Pode ficar tranquila. Aro já dispensou sua secretária e os compromissos que tinha hoje já foram remarcados. Quanto a seus pacientes, eles também já estão por minha conta. Aliás, estou atrasado, preciso ver Nessie.

Ele me deu um olhar conciliador, no entanto, não se aproximou mais do que o necessário. Creio que tenha percebido alguma coisa na minha mudança de comportamento.

Eu também precisava que Jake entendesse que essa distância era o melhor para mim e meu casamento tão fragilizado.

— Jake? Posso pedir mais uma coisa?

Ele assentiu. Edward apertou meus dedos com um pouquinho mais de força, porém, permaneceu quieto.

— Descubra para mim, onde e que horas Suzie será velada e sepultada...

— Filha, eu não acho que isso seja prudente. Você não está em condições de participar de nada agora.

— Mãe, por favor... Eu quero estar lá.

Renée não discutiu, mas, o desgosto estampou suas feições.

Não me importei.

Eu precisava comparecer e eles precisavam aprender que, apresar das fugas inesperadas de minha mente, eu teria que aprender a lidar com situações adversas.

— Vou descobrir e mando te avisar. Ok? Agora descanse. Vou pedir para lhe trazerem algo para comer e beber. Deve estar com sede, não é?

Assenti, em concordância com tudo o que ele falou.

— E vocês...

Apontou para meus acompanhantes, sem medo ou precaução. Ele estava agindo como um médico.

— Um de cada vez. A mente de Bella tende a se defender de uma maneira diferente. E o que ela menos precisa agora, é de três pessoas falando ao mesmo tempo. Portanto, saiam e se revezem.

Suspirei de alívio. Eu queria ficar sozinha com Edward, no entanto, nunca expulsaria meus pais daqui.

— Você está sendo insolente, garoto. Nenhum de nós está disposto a sair daqui.

— Não, padrinho, estou sendo profissional. Porque, o senhor e a madrinha não me acompanham? Quero que o senhor veja a nova sala cirúrgica do hospital. Bella e eu estávamos conversando e chegamos a conclusão de Forkian merece uma igual.

Jacob passou um dos braços pelo ombro de Charlie e foi guiando-o porta a fora.

— Você ficará bem? Tenho que ligar para Rósalie. Preciso acalmá-la antes que ela resolva voltar para cá.

— Estou mãe. Tranquilize a todos. Está tudo certo.

— Ok. Eu volto logo para Edward poder ir para casa tomar um banho e descansar, ele não “arredou o pé” daqui e nem cochilou à noite.

Mamãe se aproximou e me beijou a testa, saindo logo em seguida pelo mesmo caminho que Jacob e meu pai haviam feito agora a pouco.

— Jake?

Chamei um pouco mais alto.

Ele colocou somente a cabeça, de novo, para dentro do quarto. Esperando que eu falasse.

— Obrigada. Estou te devendo uma.

Ele sorriu, aquele mesmo sorriso de garoto travesso de nossa infância. Jacob tinha tudo de “irmão mais velho”. Eu o amava por isso.

— Não me agradeça. E você não me deve nada. Agora estamos quites. Era o mínimo que eu poderia fazer depois de nosso último almoço em Forkian.

Suspirei com a lembrança. Ainda me causava arrepios pensar na tempestade e nos raios.

— Descanse, Bella.

Assenti e assim que a porta se fechou voltei minha atenção para Edward que me olhava ansioso, abatido, arrependido e muito, muito cansado.

— Você devia ir para casa, Edward.

Ele não respondeu, continuou me olhando.

— Estou bem, não precisa ficar aqui. Meu pai e minha mãe cuidarão de mim e no mais logo receberei alta.

Essa fala pareceu ascender algo nele o obrigando a reagir.

Ele se levantou e com bastante ímpeto começou a esfregar a mão nos cabelos, os tornando uma bagunça mais do que generalizada.

— Só saio daqui com você. Afinal, é por minha culpa que está aqui.

— Edward...

Tentei aliviá-lo daquele estresse, porém, ele estendeu a mão e pediu que o deixasse falar primeiro.

— Você não conversou comigo, Bella. Eu agi errado, de novo, e você não me parou, não gritou. Não esfregou na minha cara o que havia acontecido e principalmente, não se recusou a me acompanhar. Eu coloquei você em risco, mais uma vez. Eu agi mal e com isso minha mãe e você estão feridas e magoadas.

Droga! Eu não precisava que Esme também se culpasse.

Porém, dessa vez seria diferente.

Não! Eu não me fecharia. Se ele queria ouvir, eu falaria e mesmo que não tivesse condições psicológicas, seria naquele instante.

— Não me acuse...

Forcei meu corpo para cima e me sentei.

Imediatamente, ele veio para o meu lado e me ajudou, colocando alguns travesseiros a minhas costas.

— Eu fui do hospital até o palácio murmurando que o perdoaria, que acabaria com nossa angustia naquele momento. Eu só precisava de suas mãos em minha volta. Eu queria chorar em seu peito. Eu estava completamente perdida, Edward.

Os olhos dele se arregalavam, à medida que eu falava.

— Mas, você não quis. Não me olhou, mal trocou duas palavras comigo. Foi frio e se recusou a me ouvir. O que queria que eu fizesse? Que gritasse? Que sapateasse?

Nossa conversa, apesar de pesada e tensa, não passava de um cochicho. Bella Swan não fazia escândalo.

— Eu não grito, Edward. Meus pais não me criaram assim. Não sou a herdeira do trono, porém, continuo sendo uma nobre e tendo educação e respeito com o próximo. Odeio discussões no furor do momento. Prefiro me retirar e deixar que as coisas se acalmem.

— Isso é errado. Você se fecha. Eu nunca vou conseguir lhe dar com essa atitude.

— Eu sei...

Sussurrei tristemente.

— Não posso dizer que a culpa de tudo seja sua. Sei que tenho minha parcela. Nós ainda não conseguimos sentar e dialogar, na verdade acho que nunca conseguiremos. E isso é à base de um casamento de sucesso. Não está dando certo, Edward.

— O que você quer dizer com isso?

Ele me olhava pálido, dos pés da cama. Com tanta dor que me atingia, em cheio. Onde eu queria chegar com aquela confusão?

— Quero dizer que vou para Forkian com meus pais. Isso não está dando certo. Só nos ferimos cada vez que conversamos. Talvez seja melhor você seguir seu caminho e me deixar seguir o meu.

— O quê? A separação definitiva, é isso que está propondo?

Assenti sem conseguir pronunciar aquilo em voz alta. Um pedaço de mim se rasgava, só de pensar naquela possibilidade.

— Amor...

Sem eu esperar, ele veio para meu lado e segurou meu rosto com as duas mãos, me encarando intensamente.

Seus olhos estavam molhados de lágrimas, iguais aos meus.

— Por favor, por favor, não desista. Ainda não. “Eu meti os pés pelas mãos”, outra vez, mas você me deu dois meses. Não volte atrás, eu te imploro. Ajoelho-me de novo, se quiser. Mas, por favor, não volte atrás. Não faça isso comigo.

— Não está dando certo, Edward. Estou tão cansada. Nenhum amor resiste a tanta discórdia e sofrimento. Acabaremos nos matando, desse jeito.

Num ímpeto de desespero, a boca dele veio de encontro a minha. Com sofreguidão a língua buscava e preenchia cada mínimo espaço. Ele parecia desesperado em provar algo.

— Te amo... Te amo...

Gemia como um mantra, enviando ondas de desejo e amor por todo meu corpo cansado.

— Não desista, de nós. Olhe como reagimos um ao outro. Nós precisamos disso, princesa. Não faça isso conosco. Perdoe-me... Perdoe-me. Tenha compaixão e misericórdia. “Setenta vezes sete” se lembra das palavras da bíblia?

— Pare de se desculpar. Você não é o único que erra nesse casamento, no entanto,...

Levei minhas mãos a sua nuca e encostei minha testa na dele, nos afastando para que eu pudesse respirar, porém, mantendo nossos corpos ligados.

— Não sei o que fazer. Não quero desistir, mas não consigo seguir assim. Está me matando, Edward. De- me um tempo. Deixe-me ir para Forkian. Ou então para fazenda de vovó. Longe um do outro conseguiremos pensar com mais coerência.

— Não. Eu me recuso a perder você. Mesmo que seja temporariamente. Eu me recuso, princesa. Sei que se sair, não voltará. Meu coração me alerta disso e ele nunca se engana.

As mãos dele acariciavam meu rosto, enquanto a boca enchia meus lábios com pequenos selinhos doces.

Edward estava desesperado. Eu me odiava por causar esse tipo de sofrimento nele.

— Será somente um tempo. Para que nós dois tenhamos certeza de que é isso que queremos.

— Não tenho dúvida disso. Nunca desistirei de você. Não faça isso conosco, princesa. Eu te imploro.

— Edward...

Choraminguei. Ele não podia me culpar de desistir, não depois de tudo o que havia feito e falado.

— Está bem, me perdoe. Perdoe-me. Não estou pensando com coerência. Só de imaginar que estou lhe obrigando a desistir de nós, me deixa louco. Eu não consigo sem você, Bella. Não consigo... Só de imaginar, fico sem ar. Eu morrerei, princesa. Simplesmente morrerei...

— Por favor, não diga isso. Nós precisamos de um tempo. Precisamos nos afastar.

Com as testas ainda coladas, lhe acariciei o rosto, enquanto ele respirava fundo e acalmava a respiração e o coração.

— Eu sei que precisamos fazer isso. E mesmo que doa na alma, vou aceitar sua imposição. Porém, será do meu jeito.

Fiquei em silêncio esperando que Edward completasse seu raciocínio. Se eu exigia ele também tinha esse direito.

— Você disse que precisava de dois meses para se ajeitar antes de nos separarmos de vez. Então, não mude seus planos, princesa. Sei que a situação se agravou, mas prometo que lhe darei esse tempo. Você continuará aqui e no palácio e eu também. Porém, prometo que serei invisível. Não te atormentarei e nem forçarei minha presença. Reivindicarei que papai cancele todas as aparições que teríamos que fazer juntos, para que nada a force a representar. Com exceção do casamento de Jacob, claro. Mas, do restante pode ficar tranquila, não a forçaremos a nada. Você ainda estará aqui, mas, será como se tivéssemos separados. Isso servirá para provar o quanto essa situação nos afetaria. Vou te provar que separados não somos nada, Bella.

Eu não estava entendo bem como o raciocínio dele funcionava e nem como esse plano maluco funcionaria.

Quer dizer que não o veria pelos próximos, quase, dois meses?

— Por favor, Bella. Dê-me mais essa oportunidade, meu amor? Prometo-te que depois desse tempo, se ainda desejar a separação, apesar de sofrer horrores não farei mais objeções. Você a terá.

Sem mais conseguir me segurar, o puxei para meus braços e o apertei com força. Nossa teimosia nos levava a caminhos extremos.

— Nós tentaremos, meu amor. Mais uma vez, tentaremos. Eu te devo isso também.

Ele respirou, aliviado e voltou a me beijar com força. Eu já estava morrendo de saudades.

— Eu te amo, Bella. Amo com toda minha força.

— Também te amo. Nós conseguiremos, meu amor. Conseguiremos... Sei disso. Confie em mim.

Esse “novo” tempo não era um castigo a Edward, era a nossa provação. Esse tempo nos revelaria, de uma vez por todas, se estávamos prontos para enfrentar os maiores desafios que ainda estavam por vir em nosso relacionamento.

E que Deus nos ajudasse.