Três Príncipes, Três Princesas
43 Não tem perdão
Bella
— “Liguem para meu pai. Precisamos dele aqui. Bella, está em choque e somente duas pessoas, no mundo, a conseguem trazer de volta quando está assim”.
“Liguem para meu pai”... “Liguem para meu pai”...
A frase severa e com muito sentido ecoava, um milhão de vezes, tentando de alcançar.
Charlie, Forkian, casa, segurança, aconchego, lar,... Parecia tão tentador, tão certo.
“Liguem para meu pai...” “Liguem para meu pai...”
— “Tirem Edward daqui. Ele já fez besteiras por uma eternidade, hoje”.
Pai, Renée, Rosie, bebê, Emm, segurança, silêncio... Era tão tentador. Eu queria tanto. Bastava permanecer nesse estado e logo teria tudo isso e estaria em casa, em paz.
— “Não! Bella?! Soltem-me! Eu preciso ficar com ela! Ela precisa de mim! Vocês não entendem”.
Gritos, medo, descontrole, Edward, casamento, pai. Casa? Angelus ou Forkian? Eu não teria as duas coisas. O que eu queria? Se Alice falasse com Charlie... Nós seis estaríamos condenados. Seis não, sete. Rosie está grávida. O que eu queria?
— “Beeelllaaa”!
Edward, gritos, casamento, dificuldades, pressão, promessas, medo, amor. Muito amor.
O que eu queria? Como eu poderia escolher?
— Alice...
Murmurei baixo, tentando abrir os olhos e parando de me balançar. Forcei minha consciência a voltar para a realidade. Eu não me renderia mais. Não era mais uma garotinha amedrontada. Tomaria as rédeas da situação.
— Shiii, fique quietinha. Descanse, Bells. Já passou, já passou. Logo papai estará aqui e você poderá ir para casa.
“- Nãããoooo”! Bella não! Por favor, não!
Instintivamente, levei as mãos à cabeça e tapei os ouvidos.
“- Jasper, Stephan, eu mandei tirá-lo daqui. O que estão fazendo que ainda não me obedeceram”?
“- Não! Mãe? Eu quero ficar. Por favor, por favor. Eu preciso saber que ela está bem. Eu preciso”...
Esfreguei acima dos olhos, bem onde a enxaqueca era mais intensa e insuportável. Será que alguém poderia fazê-lo se calar?
— Relaxe, Bells. Vai passar. Espere só um pouco. Logo essa confusão estará resolvida. Fique quietinha, irmã. Durma um pouco e logo estará em paz, longe desse pesadelo.
— Não!
Forcei o tronco para cima e me sentei. Respirei fundo, porque a tontura veio em ondas. Onde será que estava minha maleta? Eu precisava de um analgésico rapidamente ou aquela dor me enlouqueceria.
— Não envolva papai nisso, Allie. Sou responsável pela minha vida agora. Eu resolvo o que quero e o que é melhor para mim.
— Mas, Bella...
— Não, Alice. Essa decisão é minha.
Com grande dificuldade, abri os olhos e a encarei. Pronta para argumentar se ela insistisse em não me ouvir.
— Você não está em condições de decidir nada. Olhe só para você? Olhe para esse quarto? Observe essa situação toda, irmã. Isso não tem explicação, nem perdão.
— Isso sou eu que decido, Alice.
Cortei Ignorando seu discurso inflamado.
Joguei minhas pernas para fora da cama, vesti um roupão que Esme me estendia e por fim, me dirigi ao banheiro.
— Além disso, vou estar em condições em cinco minutos. Só preciso encontrar um... Ah! Achei!
Abri a última gaveta do armário, da pia, e retirei de lá uma caixa de primeiros socorros.
— O que está fazendo?
Elas haviam me seguido, Esme, Bá, Charlote e Alice estavam a minha volta, prontas para me amparar caso eu desabasse ou desse outro chilique.
Lamentei desapontá-las, porém, aquilo não aconteceria.
— Acalme-se, Alice. Você está histérica. Isso é somente um analgésico injetável. Preciso curar esse “inferno” de dor de cabeça, antes de qualquer coisa, ou então não agirei com coerência.
Preparei a seringa, esterilizei o braço esquerdo, com álcool, e sem refletir demais, pressionei a agulha contra o músculo levemente relaxado.
— Ai. Isso dói.
Reclamei, enquanto friccionava o algodão embebido, no lugar picado.
— Pare de tentar fazer graça, Bella. Ninguém aqui está se divertindo. Você não pode agir como se nada tivesse acontecido. Nós precisamos ir à polícia. Ou você faz isso, ou eu farei.
— Alice!
— O quê, Esme? Não me venha com sermões agora. Nós defendemos umas as outras. Seu filho não tem perdão, não me venha defendê-lo. Olhe só para tudo isso.
Alice alternava a mão entre mim e a desordem do quarto. Ela estava possessa e provavelmente fora de controle também.
Polícia? Eu havia ouvido direito. Isso causaria um estrago grandioso na família real, ou melhor, nas famílias reais. Nem posso imaginar a reação de Charlie a tamanho escândalo.
— Não estou defendendo ninguém. E baixe esse tom de voz ao falar comigo, mocinha. Não sou um de seus empregados. E pare de subestimar sua irmã. Isabella tem idade e mentalidade o suficiente para decidir o que quer e o que é melhor para ela e meu filho.
— Não! Você está enganada. Ela não tem. Bells diga a Esme que...
— Chega! Parem as duas.
Gritei, me colocando entre elas e levando as mãos, outra vez, a cabeça.
Merda de remédio que não fazia efeito.
— Esme está certa, Alice.
— Ah, Bella! Você não vai fazer isso. Essa família tem um poder sobre você, que não posso acreditar.
— Não, irmã. Eu não quero e não vou ouvir você agora. Essa é a vida que escolhi. Esse casamento é meu. E eu, somente eu, decidirei o que é melhor. E no momento o melhor para mim é ficar sozinha. Por isso, saiam. E não chame a polícia, Alice.
— Bells...
Virei-me para ela e a abracei. Forte, intenso.
Aspirei seu cheiro e por segundos me deixei ser confortada.
Porém, isso acabava ali...
— Eu cresci, Lice. Cresci. Confie em mim agora. Eu só preciso colocar as ideias em ordem antes de decidir qualquer coisa.
— Eu confio, Bella. Só não confio no poder que aquele, aquele... idiota tem sobre você.
— Por favor?
Implorei alisando o rosto bonito de boneca de porcelana. Desenhada. Alice era linda.
— Tudo bem. Eu confio. E no mais, estarei a duas portas daqui, qualquer coisa é só gritar. Ok?
Assenti e aceitei, de bom grado, o beijo que ela me deu na testa antes de sair do quarto.
Bonitinha, mas o gênio... Oh céus!
— O que quer comer, minha garota? Farei qualquer coisa. Pode exigir.
Abracei uma preocupada e carrancuda Bá.
— Não quero nada agora “Bazinha”. Preciso que minha cabeça melhore primeiro.
— Tudo bem. Você é a doutora aqui e sabe o que é certo. Porém, não pense que se livrará de mim, assim tão fácil. Volto mais tarde com algo bem gostoso para você e aí não terá desculpa.
Voltamos para o quarto e as acompanhei até a porta.
— Não terei desculpa, vou te esperar, Bá.
Sorri ao vê-la sair. Era bom ter alguém cuidando de mim aqui.
— Posso mandar alguém para arrumar essa bagunça, princesa? Ou prefere que deixemos isso para quando melhorar?
— Não, Charlote. Não quero que mande ninguém. São meus cacos e eu preciso juntá-los.
Compreensiva, porém, mais contida, a governanta de Esme somente acenou, formalmente, em concordância para então me deixar a sós com a rainha.
— Não seio o que dizer, Bella. Não conheço essa pessoa que fez esse estrago com você. E não sei se tenho o direito de lhe implorar que o perdoe mais uma vez, minha querida.
— Não, Esme. Você não tem mesmo esse direito. Por favor, eu quero ficar sozinha agora.
Afastei-me do alcance dela, segurei a porta e lhe mostrei, com a mão, o caminho da saída.
Eu não estava sendo cordial, sabia disso. Mas, quem se importava, eu tinha um álibi.
— Tudo bem! Você tem todo o direito de estar chateada conosco. Eu entendo. E entenderei também qualquer que seja sua decisão, minha filha. Mesmo que não seja o que tenho sonhado e planejado para vocês, eu entenderei. Conte com meu apoio. Prometo-te que sua decisão será lei, assim que a pronunciar. Ninguém irá contra você, nem terá o direito de contestá-la, seja da forma que for.
— Obrigada, Esme.
Murmurei, sem muita emoção, e incapaz de retribuir o sorriso que ela me oferecia no batente da porta.
— Se cuide, meu amor.
Sussurrou já do lado de fora, enquanto eu fechava a porta e a trancava pelo lado de dentro.
Meu corpo e minha mente queriam desabar e se fecharem em lágrimas, dor e desolação. Autopiedade era a palavra exata.
Contudo, eu não sucumbiria. Não mais. Já havia perdido demais para o medo. Isso se tornaria passado, a partir daquele dia.
— Muito bem, Isabella. Agora é com você. Vamos lá.
Devagar, fui até o aparelho de som e o liguei baixinho, numa melodia suave e tranquila. O silêncio me dava calafrios.
Voltei para o interior do closet e bem de lá fundo, arrastei duas malas grandes para o quarto e as abri em cima da cama.
— Vamos logo com isso.
Eu estava acabada, desiludida, destruída. Porém, não seria a primeira vez que resurgiria, reergueria.
Isabella Swan era uma insistida na arte de se recuperar e viver.
Uma insistida na arte de amar e perdoar, mas, principalmente uma insistida na arte de se ressentir e guardar mágoas.
E mágoa era o único sentimento que eu definia e destacava em meio o turbilhão que retumbava em mim.
Edward
— Soltem-me, “porra”. O que acham que estão fazendo?
Sacudi-me inteiro e por pouco não escapei das mãos deles. Emmett seria páreo para mim, Jasper e Stephan não. Mesmo que estivessem juntos.
— Ah, mas, nós vamos te soltar sim e vamos fazer isso agora!
— “Merda”!
Só tive tempo de esbravejar e prender a respiração, antes de ser jogado, de uma vez, com roupa e tudo, dentro da piscina gelada, da área de lazer de nossa casa.
— Fique aí, seu idiota. De preferência, durma aí. Para ver se esfria essa sua cabeça de vento. Você é um babaca, Edward. Um babaca que vai me dar Isabella de presente. Sem que eu precise “levantar um dedo”. Espero que esse tenha sido seu plano e que esteja muito feliz com os resultados agora.
— Saia daqui, Jasper. Suma daqui, seu bastardo.
— Ah, mas, eu vou sair mesmo! Afinal, alguém precisa consolar sua mulher, não é?
“Filho da mãe”!
Vi vermelho outra vez. Rapidamente nadei até a borda e espalmei as duas mãos, impulsionando o corpo para cima e para fora.
Porém, Stephan segurou meus ombros e me atirou de volta n’água.
— “Porra, Stephan”! Você ouviu o que ele disse? Eu preciso impedi-lo. Você não entende.
— Mesmo que você precisa impedi-lo? Não seja idiota, Edward. Não jogue o jogo dele. Jasper só quer te provocar. Por Deus, homem! Pense e haja com coerência, Bella nunca deu motivos para que você duvide dela. Conhecendo-a como conhece, acha mesmo que ela se interessaria e se deixaria seduzir logo pelo marido da irmã?
— Eu não sei! Droga, eu não sei!
Gritei exasperado enquanto tentava, em vão, descontar a minha raiva socando a água.
— Se não sabe é porque é um otário. O que está fazendo com sua vida, Edward?
Paciente e amigo, ele veio até a beira da piscina e sentou-se no chão molhado. A água rapidamente encharcou a calça de seu terno.
Mais calmo, voltei a me aproximar da borda, virei, encostei as costas ali e cruzei os braços.
Respirei fundo e passei a admirar a arquitetura de minha casa.
— Fiz besteira, não fiz, Stephan?
— Fez. E dessa vez, foi das grandes, amigo.
Levei as mãos aos cabelos, os puxando com violência e fechei os olhos.
As lágrimas vinham incontroláveis agora que a sanidade voltara.
— Bella vai me deixar, Stephan.
— Também acho que vai. E, lamento, mas não posso culpá-la. Você merece.
Ah!
Gemi, agora soluçando. Não era para ele ter concordado comigo. Era para ter me dado esperança. Ele não era meu amigo? Não era para isso que os amigos serviam?
— O que vou fazer agora? Como reverto essa situação? Por favor, me ajude, Stephan.
— Você não reverte. É impossível.
— Stephan!
Indignei-me com a falta de solidariedade dele. Afinal, ela meu empregado tinha a obrigação de me animar.
— O quê? O que quer que eu diga? Que Bella é um anjo e que passará por cima de tudo o que você fez hoje em nome do “grande amor” de vocês? Não, amigo! Não vai ouvir isso de mim. Aquela mulher tem um “geniozinho do cão”. Ela não é submissa. É uma Swan, esqueceu?
Neguei com a cabeça. Ele estava coberto de razão. Bella não sucumbiria só porque “tecnicamente”, me amava.
— Pois é. E infelizmente você está nas mãos dela, agora. E não vejo expectativa boa para seu caso. Creio que nem sua mãe e sua avó o salvaram dessa vez. Você está por si, amigo.
Oh Deus! Eu a perdi. Perdi de vez.
Voltei a levar as mãos aos olhos e os esfreguei com força tentando afugentar as lágrimas. A consciência e a lembrança de meus atos me levando ao desespero.
— O que faço? Ajude-me? Eu preciso daquela mulher.
Perguntei de novo, desesperado. Eu não conseguia raciocinar. O medo era tanto.
— Então se prepare para implorar, meu amigo. Implore, mas, implore mesmo. De todas as maneiras que conhece e até invente algumas. E reze também, reze muito. Porque só Deus será capaz de te ajudar. Ou talvez, você só devesse ter pensado nas consequências quando resolveu aplicar os ensinamentos absurdos de seu pai, em sua linda esposa.
E dando-me muito que pensar com aquela última frase e pondo fim a nossa conversa, ele se levantou e me deixou sozinho.
Sozinho, com frio e inundado de culpa, afundei a cabeça n’água e permaneci lá embaixo por alguns segundos.
Talvez quando emergisse, as ideias estariam mais claras e eu pudesse chegar a conclusão de por onde começaria a arrumar a bagunça que me meti.
Se é que havia concerto para tanto estrago.
Ledo engano...
Algum tempo depois, sem poder mais adiar o momento, e sem nenhum plano bom em mente, nadei até a borda e impulsionei o corpo para cima.
Passei pelo vestiário, arranquei as roupas molhadas, esquadrinhei o armário da sauna até encontrar um roupão, o vesti. Teria que ser assim mesmo. Eu não era digno de entrar em nosso quarto, nem para pegar uma roupa limpa.
Dei uma ajeitada, básica, nos cabelos e então rumei para o encontro de minha família. Começaria meu calvário agora. Sem estratégia, sem amparo. Eu deixaria meu coração falar por mim. Talvez Bella o ouvisse.
Meus pais, Jasper e Alice estavam reunidos na sala. Pareciam absortos e aéreos demais.
Eles haviam deixado Bella sozinha? Isso não era um bom sinal.
Alice foi a primeira e me notar. Imediatamente, seus punhos se fecharam. Preparei-me para sua fúria quando fez menção de se levantar. Porém, Jasper a conteve com sussurros baixos e afagos no joelho.
Falso de uma figa!
Esme e Carlisle estavam longe um do outro. E suas expressões eram taciturnas e rancorosas. Creio que tenha contribuído, e muito, para mais uma briga de ambos.
Papai era um misto de sentimentos: orgulho, tristeza, ansiedade? Eu não era capaz de decifrar o que se passava em sua mente insana. E nem queria. Essa situação era em parte por culpa dele também. Nós tínhamos muito o que acertar.
Já mamãe, era outra história. A decepção era visível e perceptível em seus olhos. Olhos que, em momento algum, se viraram em minha direção. Era oficial, dessa vez nem com ela eu contaria. Estava completamente perdido e sozinho. E só Deus sabe como isso me afetou. Quantas pessoas eu havia magoado hoje? E não eram quaisquer pessoas, eram as minhas, melhores pessoas.
— Senhora, nós trouxemos um chá.
Bá e Charlote se juntaram a nós. Cada uma trazia na mão duas enormes bandejas, uma repleta de guloseimas e outra com a bebida fumegante. Algo me disse que o objetivo delas não era alimentar ninguém e sim acalmar os ânimos.
Será que Bella havia comido hoje? Senti meu estômago retorcer ao pensar nisso. Será que ela já estava mais calma?
Porém, todas as tentativas, das duas bondosas senhoras, foram em vão e os nervos voltaram a se exaltar quando Bella apareceu no topo da escada, arrastando enormes malas de viagem.
— Ah Deus! Está decidido. Ela vai embora.
Esme choramingou. No entanto, não fui capaz de me solidarizar com o sofrimento dela. Estava ocupado demais tentando assimilar aquela visão e aquelas palavras.
Bella estava me deixando.
Cada degrau que ela descia era como uma “martelada na estaca cravada em meu coração”, o despedaçando, o destruindo. Me despedaçando, me destruindo.
Eu havia perdido meu amor. Ela estava partindo.
Os beijos, os afagos, as carícias ousadas, os banhos, as noites de amor, as brigas, as reconciliações, tudo estava acabado.
“Implore, implore”... Minha consciência gritava, enquanto meu coração acelerava.
— Não! Não! Não! Ela não pode.
— Ah, ela pode sim.
Sussurrei quando ela se aproximou e parou bem a minha frente. Alice zombava de meu pesadelo sem dó nem piedade.
Um silêncio sepulcral tomava a sala e ninguém ousava quebrá-lo.
Bella estava prestes a se despedir para partir.
— Bá, você poderia...
— Por favor, por favor...
A interrompi, dando voz a meus maiores medos, antes que fosse tarde demais. Eu faria qualquer coisa, mas qualquer coisa mesmo.
— Eu não posso te perder. Tenha misericórdia, minha rainha. Eu vos imploro, me perdoe.
E sem a mínima vergonha ou pudor e sem saber como me redimir, como convencê-la a me dar outra chance, como me perdoar pelos erros constantes, dobrei um dos joelhos até o chão e baixei a cabeça.
— Eu lhe imploro, minha rainha. Tenha misericórdia. Imploro do jeito e quantas vezes você quiser. Só não me deixe. Não me deixe, por favor. Eu não saberia viver sem você.
Bella
Droga! Mil vezes droga! O que “diabos” aquele homem “burro” estava fazendo? Enlouqueceu?
Ele havia dobrado o joelho numa mesura? Era isso? Ele estava chorando e implorando na frente da família e dos empregados? Era mesmo isso? Ele achava que isso me amoleceria?
Oh Deus! E agora? Edward parecia quebrado, destruído.
Não pense assim, Isabella. Não tenha pena. Não toque na cabeça dele, nem afague seus cabelos.
Lembre-se o que ele fez. Lembre-se! Siga o plano. Não falhe logo agora. Você não é fraca.
— Bá, por favor, dê um sumiço nesses “trapos” que viraram meus uniformes. Não sei o que fazer com isso. E essa bagunça, no quarto, está me dando náuseas.
Ignorando a postura de Edward ao chão e ignorando, mais ainda, as especulações de nossa família, me afastei dele e arrastei as malas até minha babá.
— Cuidarei disso, minha querida. Não se preocupe.
Sentindo a força do controle nas mãos, longe dele era mais fácil, rumei para minha ideia original, quando decidi descer.
Edward continuava ao chão meio abalado e abismado. Se ele pensava que seria fácil assim, significava que não me conhecia mesmo.
— Quando parar com sua autopiedade e teatro e resolver se levantar daí, Cullen, estarei na biblioteca. Só não demore demais, porque, minha paciência está no limite para você.
Pude ouvi-lo se levantar rapidamente e me seguir. O que fez Alice rir baixinho.
Caminhei a passos controlados e aproveitei para me libertar da visão dele implorando e prostrado ao chão. Dizer que Edward não me afetava era mentira, porém, essa fraqueza teria que ser ignorara e controlada agora. Porque, eu estava no controle.
— Bella, sei que não existe perdão para o que fiz, mas, se você puder...
— O que é a tornozeleira?
O interrompi do “discurso barato” que já havia previsto.
Apesar da distância segura que eu nos impunha, estávamos de frente um para o outro. Edward confuso e arrependido.
Eu? Segurando firme e mantendo a postura de fria e impassível que resolvi adotar.
— Hã?
— O que é a tornozeleira?
Tornei a perguntar. Porque se tudo havia começado por causa dela, alguma coisa importante aquilo deveria de ser.
Ele parecia não acreditar no que eu acabara de perguntar.
— Uma joia.
Respondeu rápido, mentindo. E eu ainda insistia...
— Ok.
Sem nem perder mais tempo, comecei a me afastar em direção a saída. Uma frustração ia se apossando de mim sem o mínimo cuidado.
— O quê? Não! Para onde vai?
Desesperou-se.
— Arrumar minhas coisas. Se você quer continuar por esse caminho, mentindo e se irritando comigo por coisas que nem faço ideia do que sejam, vá sozinho. Não tenho mais nada a fazer aqui. Estou cansada de ser julgada e tratada como uma demente. Não sou isso, Edward. Sei me defender e sei atacar também, quando quero e preciso. E se você não percebe isso, quer dizer que estou perdendo meu tempo. Talvez, se me apressar ainda dê tempo de jantar em Forkian.
Terminei sarcasticamente e continuei a caminhar. Eu tinha um propósito.
— Um rastreador!
Gritou quando minha mão tocou a maçaneta. Ele esperou até o último minuto para se render. Será que acreditava que eu não seria capaz de cumprir minha palavra?
Ah, se ele imaginasse do que eu estava disposta. Aposto que sua atitude mudaria rapidinho.
— Como é?
Virei-me para ele, enquanto o via se sentar e levar as mãos aos cabelos, os despenteando loucamente.
— É isso mesmo, um rastreador. A tornozeleira contém um “nano chip” de última geração, capaz de localizar quem o porta, a qualquer distância na terra e até parte do espaço.
Aturdida, voltei para perto dele.
— Mamãe te um e sua irmãs também. A agência de segurança de Ângelus preferiu se precaver, ainda mais quando as ameaças se voltaram para você e Alice.
— Um animal. Você me controla com fazem com os espécimes em extinção? Isso é insano, Edward. Eu não sou seu bichinho de estimação.
— Não, Bella. Não é assim. Não funciona assim. Eu não tenho esse poder.
O descontrole e a raiva variavam entre ele e eu.
Não era possível que ele me fizera de idiota por tanto tempo.
— Somente o chefe de segurança pode acioná-lo e somente com minha autorização. Só eu tenho a senha que destrava o programa de acesso. Temos que estar em comum acordo quanto à necessidade de seu acionamento. Ele não foi criado para ser usado levianamente. É uma arma de proteção, só isso, meu amor.
— Que eu não sabia! E não me chame de amor. Você não tem esse direito, não mais.
— Você não entenderia. Reagiria dessa mesma forma. Te conheço, amor. Odeia ser dependente, controlada. Por isso, preferi ocultar a verdade. Foi para o seu próprio bem, meu amor.
— Não me chame de amor!
Gritei, dando vazão a minha raiva. Eu odiava gritar, mas, ele merecia depois de tudo.
— Mentiras, brigas, ciúmes, ataques. O que mais falta, Edward? O que ainda devo esperar de você? Porque, se você me adiantasse evitaria que a surpresa me decepcionasse mais.
Passei a caminhar de um lado para o outro, enquanto o acusava e lhe apontava o dedo em riste. Ele, incrivelmente, permanecia quieto me olhando arrependido.
— Não há mais segredos, eu juro. Pelo menos de minha parte não. Papai e mamãe nos escondem algo, mas isso é com eles, também estou no escuro quanto a isso. Por favor, Bella, me perdoe por hoje? Prometo que não vou mais...
— Não! Não há perdão. E não quero ouvir suas promessas vãs. Você me humilhou, me agrediu com palavras na frente de sua família e das pessoas com que trabalho. Pensa com que cara poderei voltar lá amanhã? Mesmo que esteja de partida ainda tenho obrigações a cumprir.
Vi toda cor sumir de seu rosto. O desespero estava de volta à face dele.
— Está de partida? Vai mesmo me deixar?
— Claro que vou. Você vê alguma chance para nós depois de hoje? Porque, eu não vejo.
— Eu estava fora de mim, Bella. Papai e Jasper me alfinetaram a manhã inteira, você esqueceu o rastreador, quando te pedi para não tirá-lo e...
— Eu não sabia o que ele era. Talvez, se você tivesse me contado a verdade eu poderia ter sido mais cuidadosa.
— Eu sei, agora sei. Mas, na hora não pensei nisso. Jasper, papai, o atentado a Alice, que na hora achei que era com você. E depois todos aqueles homens falando e falando. E Sam me desafiando. Eu fiquei louco. Não vi a besteira que estava fazendo. Perdoe-me, Bella. Eu imploro.
Ele tinha justificativa para seus atos, isso era fato, mas, mesmo assim, a culpa de tudo não era minha. E quem sofreu as consequências?
— Esse é seu problema, você não pensa. E aqui estamos nós nas mesmas discussões de sempre. Não tem solução, Edward. Você promete, promete, mas, não muda. Estou cansada disso.
— Você também não ajuda.
Falou sarcasticamente e acidamente. Ele queria virar a situação e me acusar?
Ah, mas, dessa vez não.
— É verdade. Sou uma esquecida e uma ingênua, por não ter percebido que meus horários e Jasper lhe incomodavam tanto. Porém, não sou advinha. Custava me contar as coisas?
— Eu queria mudar. Achei que conseguiria me controlar sozinho. Não queria lhe dar mais uma reclamação, já havia lhe pedido demais. Sei que sente falta de Jacob.
— Não traga Jacob para nossa conversa. Não tenho falado, nem o visto mais que o necessário.
— Eu sei. Por isso, não quis exigir mais de você. Perdoe-me, Bella. Prometo que o episódio de hoje nunca mais se repetirá.
Meu coração e meu corpo quiseram correr para ele. Edward estava sendo sincero, eu o conhecia. Porém, também sabia que suas promessas se esvaiam quando a raiva vinha.
— Eu não posso. Eu quero. Por Deus! Como eu quero te perdoar e esquecer o que aconteceu hoje. Mas, eu não posso. Não preciso disso, Edward. Não preciso ser humilhada e quase apanhar de um cara. Sou autossuficiente. Tenho quem me ampare e posso muito bem me virar sozinha. Desculpe-me, mas dessa vez será diferente. Não dá.
Com a voz embargada, desabafei o que queria. Os olhos dele estavam banhados de lágrimas e projetavam a tristeza que eu também sentia.
Era nosso fim.
— Tenho pacientes agendados por um mês, mas, vou pedir a Aro que reduza minha jornada de trabalho, então, é provável que ainda permaneça em Ângelus pelos próximos dois meses. Nesse período cumprirei com todos os compromissos que tenho como sua esposa, mas, depois disso entrarei com o pedido de divórcio e procurarei a igreja pedindo a anulidade de nosso matrimônio, acho que nosso caso cabe isso. Porque, é claro que você não é príncipe com quem achei que estava me casando. E por Deus, que ainda vou encontrar alguém que mereça esse título. E aí vou querer me casar na igreja para que sejamos abençoados.
Com a punhalada final, dei-lhe as costas e comecei a caminhar para a saída. Lágrimas escorriam em meu rosto e eu não queria que ele as visse.
— Por favor, Bella. Não faça isso. Pense bem. Não jogue nossa história fora. Perdoe-me, estou implorando?
Respirei fundo.
— Não há mais o que pensar. A decisão está tomada. Acho que isso é tudo, não é? Se não se importa, voltarei para a sala agora, tenho mais algumas coisas a resolver antes do jantar.
— Bella, por favor.
A passos rápidos, saí dali e voltei para junto de nossa família. Era hora de deixa-los saber de minha decisão.
Edward, ainda implorando, me seguia de perto.
— Charlote, peça, por favor, para que alguém retire as coisas do senhor Cullen de meu quarto.
Falei diretamente a governanta. Era agora que ele entenderia que eu não estava brincando. E que “cada ação, gerava uma reação”.
— Sim, senhora. E para onde as levo, senhora?
— Isso não é problema meu. Resolva com ele e Esme.
Esme suspirou alto e Carlisle fez cara de indignação. Bá, Alice e Jasper sorriram de lado.
Virei-me para eles e encontrei o olhar de Alice.
— Irmã, será que tem como, você ver com a equipe de costura de Forkian uniformes novos para mim?
O sorriso dela foi de ponta a ponta. Eu sabia que isso a acalmaria de sua fúria e a entreteria. Um modo prático de afastá-la de minha vida, meus problemas e minhas decisões, sem magoá-la.
— Claro que tem, Bella. Eu já vinha te falando sobre isso há tempos. Seus uniformes andavam defasados mesmo. Compridos demais, para meu gosto. Tenho uns croquis prontinhos, só esperando pelo seu aval.
O olhar cínico dela, foi para um Edward choroso e mais abismado do que nunca.
— Excelente. Você tem minha autorização. Faça seu melhor.
Menti, é evidente que não aceitaria nada ousado demais. Estávamos falando de uniformes para uma médica e de crianças, ainda por cima. Porém, não pude perder a oportunidade de cutucar Edward. Ele merecia.
— E, ah...
Parei a meio passo do início da escada.
— Não economize e, assim que terminar, encaminhe os custos para o escritório do senhor Edward Cullen. Tenho certeza que ele terá o maior prazer em pagar por todas essas minhas despesas. Afinal, elas me pegaram despreparadas.
Ouvindo-a gargalhar, me afastei. Não tinha mais nada o que fazer ali, no momento.
E além do mais, era oficial agora, Isabella Cullen não era mais a mesma e reverteria essa situação.
E se tudo saísse como planejado, dos cacos se ergueria um vida nova. Sólida e feliz para todos, Cullen e Swans.
Porque, se a mudança fosse necessária, que ela viesse de todos os lados.
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