Três Desejos

23 Capítulo Vinte e Um


Capítulo Vinte e Um

Inicialmente, o choque impedia Atena de se mover. Ela permaneceu parada por segundos sem fim, os olhos arregalados, enquanto os lábios de Jack se moviam sobre os seus. Só quando a mão dele escorregou para seu pescoço a realidade acometeu Atena, e ela o empurrou como se visse um monstro à sua frente.

— Jack, o que você fez?!

— Eu imploro seu perdão, milady — Jack caiu de joelhos aos pés de Atena no chão de mármore. — Ela me mataria se eu não o fizesse. Mataria a mim e a minha família.

— Quem te mataria? — Atena se inclinou sobre ele, mas Jack empurrou a si mesmo para longe.

— Minha patrona — Jack soluçou entre as lágrimas. — Minha mestra.

— Sua mestra? Jack, eu não estou entendendo — Atena correu as mãos pelo rosto. — Me explique isso.

— Sua missão, milady. É tudo parte de sua missão — Jack gritou, a voz oscilando. — Ela me enviou para separá-la de Poseidon e assim poder matar aos dois.

A verdade atingiu Atena como um soco na cara. Todos os pontos se juntaram de uma só vez, tão rápido que uma pontada martelou em sua cabeça. Então o inimigo não era quem ela pensava. Não era Caos o causador de tudo aquilo. Era uma mulher. E agora que Atena tinha plena certeza de quem era, amaldiçoava a si mesma por ter sido tão cega o tempo todo.

Mas ainda assim não conseguia entender. Jack era um traidor? Ele estava tentando separá-la de Poseidon esse tempo todo?

— Jack — Atena se forçou a segurar as lágrimas que forçavam caminho em seus olhos e manter a voz firme. — Você me traiu. Você estava tentando me matar.

Jack balançou a cabeça com força, irrompendo em um choro sofrido. Mas tudo o que Atena conseguia sentir agora era raiva. Como ele podia? Ela o havia salvo, o havia ajudado a sobreviver. O que havia feito de errado para ser traída?

— Ao menos compense a burrada que fez — Atena rosnou, segurando Jack pelo cabelo. — Quem é a sua patrona?

Jack abriu a boca para responder, mas foi interrompido quando um estrondo ensurdecedor como um trovão reverberou através do castelo, causando uma rachadura no teto abobadado metros acima. Atena olhou para o alto com espanto.

— O que foi isso?

— Foi ele, minha senhora — Jack fungou. — Poseidon.

— O quê? Por que Poseidon faria isso?

— Porque ele me viu beijá-la.

Oh. Por isso Jack a havia beijado. Era assim que ele planejava separá-la de Poseidon. O desgraçado iria quebrar sua confiança mútua, se é que existia alguma. Atena olhou para Jack com raiva, sentindo os olhos arderem.

— Eu confiei em você, Jack. Você era meu... — Atena engoliu em seco. — amigo.

Jack não respondeu. Apenas se encolheu mais e continuou a chorar desesperadamente. Mas Atena não ficou para consolar o garoto. Precisava ir atrás de Poseidon, e precisava ir rápido, sabendo da tendência do deus dos mares a cometer erros absurdos quando se irritava. Ela abandonou o traidor no chão e correu para os andares de cima, em busca dos quartos, para onde Poseidon sempre ia. Mas ao invés do deus dos mares, Atena encontrou uma Helena desesperada, andando de um lado para o outro no corredor como uma louca.

— Atena! Graças aos deuses você está aqui — Helena puxou seu braço e a chacoalhou. — Você precisa pará-lo antes que ele se mate.

— Onde ele está?

— Ele disse que iria terminar logo com essa missão. Poseidon foi enfrentar os titãs, Atena, e foi sozinho.

Atena sequer teve tempo de pensar em uma resposta ou em uma reação decente. Antes que pudesse acalmar Helena ou elaborar um plano, já havia se teleportado para a ilha, com a espada na mão e o Aegis preso ao antebraço esquerdo, sem qualquer armadura para proteger seu corpo. O coração ribombava em seu peito, fazendo as batidas estrondarem nos próprios ouvidos conforme ela andava a passos firmes mata adentro para o meio da ilha. O primeiro monstro não demorou a aparecer. Era um dos mais fracos, protegendo a área mais distante do centro. Atena nem precisou sujar a espada para acabar com ele. Um simples pensamento, foi tudo o que precisou para o monstro explodir em uma mistura nojenta de icor, pele escamosa e dentes afiados. Mais para frente, era cada vez mais curto o intervalo de caminhada sem encontrar um vigia, e os vigias se tornavam mais perigosos. A ponta da espada de Atena estava encharcada de icor, e seu escudo, amassado pela pressão de centenas de cabeças monstruosas colidindo contra ele. Havia machucados por todo o seu corpo, mas ela não parou. Poseidon estava quase se matando em algum lugar mais para frente, e ela mataria quantos monstros e titãs precisasse para chegar até ele e garantir que ele sobrevivesse a uma luta com um poder milhões de vezes maior. Atena sequer se deu ao trabalho de identificar a qual titã estava matando quando a guarda passou de monstros para seres de aparência quase humana. Só corria como um raio, com a espada erguida, arrancando cabeças e cortando corpos ao meio.

Eventualmente, ela avistou uma pequena cabana de madeira cercada pelo maior e mais seleto grupo de titãs que já tinha visto. Alguns brilhavam, outros se misturavam às sombras, e alguns simplesmente brandiam armas como animais. Atena gastou um pouco mais de tempo com estes, mas não demorou até que um único titã a impedisse de chegar até Poseidon. E não era qualquer titã.

Era ele. O mesmo que havia aparecido na ilha no dia em que ela e Poseidon se beijaram pela primeira vez, o mesmo que, de alguma forma, era capaz de sugar toda a sua energia para fora.

E era isso o que ele estava fazendo.

Pouco a pouco, Atena sentiu o próprio corpo querendo sucumbir, implorando por descanso. Suas pernas fraquejaram, e a vista começava a embaçar. Mas lá no fundo de sua mente, um pedacinho escondido de consciência martelava que ela tinha que lutar; tinha que salvar Poseidon, tinha que chegar até ele, não importava o custo. E foi por esse pedacinho de consciência que a força de Atena voltou para ela. Foi pela visão de Poseidon lutando até a morte contra um inimigo imbatível que ela conseguiu erguer os braços dormentes, mirar a figura a poucos metros de distância e atirar sua espada com todo o vigor que tinha.

E funcionou.

No momento em que a espada se cravou no corpo do titã, Atena se sentiu revigorada, como quando fora curada por magia. Ela correu até ele, ofegante, e pegou a espada de volta, ao passo que o titã desaparecia lentamente em névoa dourada.

A porta de madeira roída por cupins já estava entreaberta quando Atena encontrou a entrada da cabana, e os sons de objetos colidindo comprovavam que Poseidon já estava ali. Atena largou o escudo pesado no chão e adentrou a cabana armada apenas com sua espada. A casa era tão pequena por dentro quanto aparentava ser por fora. Um único cômodo de madeira escura, com musgo subindo pelas paredes apodrecidas e nenhuma mobília, exceto por um único objeto metálico que Atena reconheceu pendurado na parede: o painel que costumava ficar na ilha Dauphine, aquele que mostrava o Acampamento Meio-Sangue. Então era assim que o segundo ataque fora possível; o inimigo estava vigiando de dentro.

Atena correu os olhos pelo lugar, procurando por Poseidon. Ela queria dizer que o localizou facilmente, lutando num mano-a-mano com o líder dos titãs, mas a verdade é que estava um pandemônio ali dentro. Seres estranhos se atiravam em direção a algo no centro da pequena casa, parecendo se reproduzir em ultravelocidade quando alguns deles caíam sem vida no chão. A deusa não teve muito tempo para fazer reconhecimento da área e criar uma estratégia. Tudo o que fez foi caminhar silenciosamente na direção dos seres esquisitos e, um a um, fazê-los dissolver, alguns em poeira dourada, alguns na rara matéria negra da qual eram formados. Em algum tempo, todos haviam sido derrotados, e só restavam três pessoas de pé dentro da cabana: Atena, com sua espada pronta para matar o próximo que aparecesse em seu caminho, e Poseidon, o Tridente em mãos, olhando mortalmente para o terceiro elemento: uma mulher — ou ao menos Atena imaginou que fosse uma mulher, era difícil dizer — de pele escura, cabelos brancos gigantes que escorriam até próximo de seus calcanhares e um sorriso assassino no rosto.

— Atena, minha querida — a voz da mulher era como um velho rádio: ruída, rouca e baixa. — Eu estava esperando por você.

Atena andou para frente em passos lentos e cautelosos, se aproximando da mulher. De perto, suas feições eram ainda mais assustadoras. A mulher não tinha uma composição sólida. Era como um vapor escuro, flutuando a uns trinta centímetros acima do chão, mais parecida com um fantasma do que com uma divindade.

— Seu namorado não sabe quem eu sou — a mulher prosseguiu, em tom de lamentação. — É claro, ninguém nunca sabe quem eu sou. Que importância tenho eu para este mundo?

Atena parou e analisou o "espectro" dramático de alto a baixo, esperando que a mulher não notasse que ela estava parada estrategicamente na frente de Poseidon.

— Mas você sabe melhor do que eles — a voz da mulher se elevou. — Você sabe quem eu sou, não sabe?

Atena assentiu, sem pronunciar palavra alguma.

— Então diga, minha querida — a mulher ordenou. — Diga em alto e bom som, para que o Universo saiba quem eu sou.

Atena respirou fundo e relanceou um olhar para Poseidon antes de responder.

— Você é Eurínome. A mulher de Caos. Deusa da criação.

— Bravo! — a mulher aplaudiu animadamente. — Eu sabia que você desvendaria o enigma. Afinal, você existe por causa de mim.

— Você não me criou — Atena disse com repulsa. — Não fui feita como os outros deuses. Eu vim do puro pensamento de Métis.

— E eu criei Métis. Eu criei o solo sobre o qual você anda. Eu criei o monte onde você mora, e todos os seres que vivem ali. E ainda assim... Ninguém sabe da existência da grande Eurínome. Toda a glória da criação vai para Caos... O inútil que nada fez além de existir.

Atena não respondeu e nem se mexeu. Temia que qualquer movimento brusco desencadeasse uma luta que ela evitaria tanto quanto pudesse; ao menos até que Poseidon retomasse a calma.

— Me diga, como você descobriu? — Eurínome indagou, se colocando a flutuar pelo cômodo. — Imagino que tenha pensado em meu marido primeiro? Claro, todos conhecem o grande Caos.

— Sim, pensei em Caos primeiro — Atena concordou, acompanhando os movimentos de Eurínome de forma que estivesse sempre na frente de Poseidon, que permanecia parado e impressionantemente quieto.

— E como seus pensamentos foram desviados para mim?

— Os seres criados — Atena respondeu automaticamente. — Você enviou criaturas que não existiam. E também... — Atena engoliu em seco. — Seu espião me deu uma dica.

— Ah, Jack — Eurínome gargalhou. — Ele fez um ótimo trabalho, não fez? Confesso que duvidei da capacidade do garoto no início, mas vejam só... Ele trouxe vocês até aqui.

— Espere — Poseidon se pronunciou pela primeira vez. — Você enviou Jack?

Atena sentiu vontade de nocauteá-lo. Estava o tempo todo tentando fazer Eurínome se esquecer dele, e ele se fazia notar desse jeito?

— É claro que enviei — Eurínome estreitou as fendas escuras que tinha por olhos. — E vocês caíram tão facilmente. Eu achei que Atena fosse ser um problema, mas no final, foi ela quem ajudou Jack no próprio trabalho.

— Você o criou também? — Atena perguntou, tentando tirar o foco de Eurínome de Poseidon outra vez.

— Oh, não. Jack foi um recruta. Eu precisava de alguém de dentro, e ele vinha de uma família pobre do reino do seu namorado e queria um futuro melhor. Eu prometi um bocado de dinheiro e ele aceitou na hora. Ele serviu bem ao meu propósito, mas cometeu um erro leviano: se apaixonou por você. Ah, o coração dos mortais é tão fraco.

Atena apertou mais forte o cabo da espada, deixando os nós dos dedos brancos. Seus olhos ardiam, tentando empurrar para fora lágrimas que a deusa segurava com todas as suas forças. Não podia demonstrar fraqueza ali. Não na frente de Eurínome, não na frente de Poseidon. E por falar nele...

O máximo que Atena pôde fazer para verificar a condição de Poseidon foi arriscar um olhar por sobre o ombro. Ele estava apoiado no Tridente, sem armadura ou escudo, mas a despeito da expressão desolada, parecia estar bem. Um suspiro de alívio escapou por entre os lábios da deusa ao constatar isso, e ela voltou a atenção completamente para a primordial flutuando a poucos metros de si.

— Você não ordenou que ele me beijasse — Atena deduziu, tentando se manter impassível.

— Não precisei — Eurínome alisou um vaso de flores murchas sobre uma mesa de canto com seus dedos esqueléticos. — Mas Jack entendeu meu plano facilmente. Um garoto muito esperto — a deusa ergueu os olhos famintos. — Você entendeu o meu plano, Atena?

Atena tamborilou o pé no assoalho de madeira, inquieta. Não estava gostando de toda aquela enrolação. Também não entendia onde Eurínome queria chegar, revelando os próprios planos antes do ataque. Se estivesse sozinha, provavelmente já estaria no ápice da luta, mas as coisas eram diferentes quando tinha de proteger alguém. E ela ficaria ali conversando por horas e horas, contanto que Eurínome não se lembrasse de Poseidon.

— Partes dele — Atena respondeu.

Eurínome baixou o olhar para o chão, unindo as mãos à frente do corpo.

— Tsc, tsc. Admito que estou decepcionada. Eu esperava mais da deusa da sabedoria. É tão simples. Um efeito dominó. Primeiro eu tive que descobrir a maior fraqueza do Olimpo. Não foi muito difícil. Cheio de deuses estúpidos com cabeças de vento. É claro que era você. Então só precisei montar uma situação onde fosse impossível enviar qualquer outro deus. E depois...

— A minha maior fraqueza — Atena completou, balançando a cabeça como se fosse óbvio.

— Admito que essa parte foi mais difícil. Você é uma armadura bem moldada, Atena — Eurínome deixou transparecer sua admiração. — Mas no final, a sua fraqueza é a mesma de todos os outros. Você é quebrada pelo amor. E se apaixonou logo pelo seu companheiro de missão... Tão típico.

A porta de madeira caindo aos pedaços foi arrancada definitivamente de suas dobradiças com um barulho estrondoso quando mais um elemento adentrou a cabana, chutando a porta sem se ater a formalidades. Quando a poeira abaixou e o barulho parou de ecoar nos ouvidos de todos, foi possível reconhecer o rosto de Jack, iluminado com um tom de amarelo pela única lâmpada que livrava a casa da escuridão completa.

— E vejam só quem chegou! — Eurínome uniu as mãos numa palma. — Venha, Jack, junte-se a nós. Estávamos justamente falando de você.

Embora mantivesse um olhar sombrio, Jack se aproximou, como um servo obediente, sem desviar o olhar para os outros deuses presentes na sala uma única vez. Estava muito próximo de alcançar sua patrona quando, com um movimento rápido demais até para os olhos divinos acompanharem, puxou uma espada presa ao cinto da calça e mirou a ponta afiada na garganta de Eurínome. O sorriso da deusa vacilou momentaneamente, como um mero tremor nos músculos da face, mas logo em seguida ela caiu em uma gargalhada tão sombria quanto o olhar que Jack dirigia a ela.

A risada de Eurínome não a embelezava. Pelo contrário, ressaltava ainda mais o quão estranha ela era. Seu rosto, negro como a noite, se contorcia em expressões que mais lembravam dor e sofrimento do que alegria. Quando ela se curvava, seu corpo descarnado se contraía, como fumaça preta desaparecendo; e o som de sua risada... Era tão horrível que Atena sentia vontade de sair correndo. Era como um grito sufocado de morte, espetando os tímpanos como milhares de agulhas finas.

— Você acha que pode me matar, garoto? — Eurínome perguntou, com escárnio. — Quanta audácia. Eu realmente te subestimei. Mas eu não sou feita de carne como vocês, humanos fracos. O que me constitui está fora do seu alcance e entendimento.

Não parecia a melhor hora, já que a vida de Jack corria um sério perigo nas mãos de Eurínome, mas sendo provavelmente a única hora possível, Atena aproveitou a distração da deusa para tentar se comunicar com Poseidon pela mente. Os deuses costumavam fazer isso sempre, mas Atena preferia o impacto das palavras ditas em voz alta. No entanto, aquele não era o momento para preferências, e ela precisava urgentemente falar com Poseidon.

Hey, ela o chamou, sem fazer movimento algum ou mudar o semblante. Você está bem?

Parecia uma pergunta muito estúpida para a situação, mas sinceramente, era o que mais preocupava Atena. Afinal, ela nem estaria ali, sem plano algum, submissa ao desejo de ataque de Eurínome, se não fosse por Poseidon e sua cabeça dura.

Estou vivo, Poseidon respondeu.

Não foi isso o que eu perguntei, Atena retrucou em resposta.

Fora da mente, Atena ouviu o suspiro pesado de Poseidon.

Estou bem, ele disse por fim.

Ótimo. Atena não queria prolongar o assunto. Eu acho que tenho um plano.

Como alguém pode achar que tem um plano?

Desse jeito: se Eurínome estiver falando a verdade, e a composição dela estiver além do alcance humano... Atena fez uma pausa, dando a Poseidon tempo para entender. Então talvez ela seja formada do mesmo material que o monstro que ela criou.

Matéria negra? Poseidon chutou.

Exatamente. Atena agradeceu aos deuses por não precisar explicar. O problema é: como se desmancha matéria negra?

Se você não sabe, então não existe uma solução.

Tem que existir, Atena insistiu. Nenhuma matéria é indestrutível. Tem que haver alguma coisa.

Bom, eu não faço a mínima ideia, disse Poseidon.

Eu também não, respondeu Atena. Mas se pensar em alguma coisa, me avise. Eu farei o mesmo.

Certo.

E assim a conversa teve fim. Mas não poderia ter continuado, ainda que eles quisessem, porque no meio da troca de olhares fulminantes entre Eurínome e Jack, o garoto decidiu que encarar não resolveria a situação e resolveu partir para o ataque. Mas quando ele ergueu sua espada acima da cabeça e girou a lâmina em arco, acertando em cheio o pescoço de Eurínome, a espada simplesmente atravessou o corpo da deusa sem causar dano algum. Jack abaixou o olhar para sua arma, mortificado, e em seguida voltou a encarar Eurínome.

— Eu te avisei, garoto — Eurínome rosnou, possuída de raiva. — Você não pode me matar. Eu não sou humana. Quer saber? Estou farta desse seu atrevimento por hoje. Você nos divertiu muito, mas não é mais necessário.

E assim, sem cerimônia alguma, Eurínome puxou a mão de Jack e projetou a espada que ele segurava dentro do peito do garoto, de modo que ele mesmo se apunhalou. Um grito ecoou pela cabana, mas não era de Jack. Era de Atena. Sem pensar no que fazia, a deusa largou sua espada e correu na direção de Jack, que estava caído no chão, sangue escorrendo do ponto onde a espada se cravava em seu peito. Atena se ajoelhou ao lado dele, sem se importar em estar sem defesa na zona de ataque de Eurínome, e arrancou a espada o mais rápido que pode para analisar o corte; mas já não havia mais nada que ela pudesse fazer. Se a espada tivesse sido projetada um pouco mais abaixo ainda haveria uma chance, mas Eurínome era precisa, e acertou em cheio o coração de Jack.

— Milad-d-dy — Jack gaguejou, um filete de sangue escorrendo de sua garganta. — Você deve matá-la. Eu tinha que morrer, pagar pelo que eu fiz, mas a senhora... tem a chance de acabar com tudo isso.

— Eu sei, Jack — Atena assentiu, escorregando os dedos pelos cabelos de Jack. — Eu vou matá-la. Vou vingar a sua morte.

— A minha... — Jack tentou falar, mas se engasgou quando mais sangue começou a sair de sua boca.

— Shhh — Atena o silenciou. — Você cumpriu sua missão, Jack. Agora você deve descansar.

E mesmo machucado, mesmo banhado em sangue, mesmo prestes a dar seu último suspiro de vida... Jack sorriu.

— Eu vou — ele garantiu.

Jack levantou, com muito esforço, uma mão trêmula, e segurou a destra de Atena, levando as costas da mão da deusa aos lábios ensanguentados. A essa altura, Atena mal conseguia enxergar o rosto dele de tantas lágrimas que borravam sua visão. Jack manteve a mão de Atena junto aos próprios lábios por algum tempo, e conseguiu abrir mais um sorriso triste ao soltá-la.

— Minha bela dama — ele sussurrou antes de enfim fechar os olhos e se deixar partir.

Notas finais
Só tenho uma coisa a dizer: Ah Jack, por que tão bom e tão ruim?