Três Desejos
24 Capítulo Vinte e Dois
Capítulo Vinte e Dois
Atena acariciou a face sem vida de Jack, ainda quente, uma última vez e se levantou, enxugando as lágrimas. Jack havia sido um herói e morrido bravamente. Agora era hora de honrar o propósito ao qual ele havia servido.
Às suas costas, dois pares de olhos observavam a cena com diferentes expressões. Eurínome exalava um divertimento maligno, enquanto Poseidon parecia um tanto... Confuso. E Atena sabia o que ele sentia. Afinal, talvez ele não tivesse entendido que não havia nada entre Atena e Jack além de uma paixão não retribuída.
— Quanto drama — Eurínome reclamou, entediada. — Ele era só uma peça do jogo, Atena. Não há necessidade para tudo isso. Ou você vai me dizer que se apaixonou por ele também?
Atena olhou de Eurínome para Poseidon, que parecia também esperar uma resposta, e então de volta para Eurínome. Ela sabia o que a deusa pretendia. Queria colocá-la contra Poseidon de outra forma, agora que era evidente que Atena não havia beijado Jack, e sim o contrário. Bom, ao menos era evidente para Atena. Talvez Poseidon, em toda a sua destreza mental, ainda não tivesse entendido o que se passava.
— É possível amar uma pessoa sem se apaixonar por ela — Atena respondeu. — Mas é claro que você não consegue entender isso.
— O amor é uma falha da criação — Eurínome retrucou, indiferente. — E com isso eu quero dizer, é claro, que eu não o criei. Infelizmente, ele existia ainda antes de mim, mas isso não vem ao caso. Acho que devemos encerrar as formalidades por aqui. Não temos a noite toda, não é mesmo?
Atena concordou, mas sentiu o corpo gelar. Estava diante da que provavelmente seria a batalha mais difícil de toda a sua vida. Não só porque além de proteger a si mesma ela queria proteger Poseidon; ela havia lidado com uma situação parecida na Guerra de Tróia — onde todos pensavam que os dois estavam em lados opostos quando na verdade Atena o estava mantendo vivo, e ela precisava fingir que queria matá-lo quando na verdade tentava protegê-lo; mas porque, pela primeira vez, não sabia como derrotar o adversário.
Os adversários, no caso.
Eurínome fez surgir, a partir do nada, dezenas de criaturas que lembravam zumbis. Tinham a pele descamada, com seus órgãos vitais à vista, e se arrastavam como mortos ao andar. Atena não teve tempo sequer de discutir um plano com Poseidon antes de começar a ser atacada. Ela apanhou sua espada do chão, pronta para começar a lutar, mas quando voltou a levantar, a lâmina de dois gumes cortou um dos "zumbis" a sua frente, e quando ela impulsionou o braço para trás, planejando eliminar uma outra criatura que se aproximava, acabou matando outra que se espremia atrás dela. E então a luta, que deveria ser trágica, se tornou cômica. A verdade era que, em meio a fúria, Eurínome criou tantos monstros que nem Atena e Poseidon conseguiam empunhar suas armas, e nem os mortos-vivos conseguiam usar qualquer que fosse seu ataque.
Então, presa àquela posição, Atena passou a simplesmente impulsionar a espada para frente, dissolvendo os zumbis na substância que agora ela era capaz de identificar como matéria negra líquida. Com a ajuda de Poseidon, que espetava os monstros que atacavam do lado oposto com seu Tridente, o cômodo não demorou muito a ter um espaço minimamente decente para a luta. E a luta não havia acabado por ali. Quanto mais monstros eram eliminados, mais Eurínome criava, e não eram todos como os primeiros. Alguns era feitos da matéria prima que se podia encontrar ao redor, como madeira, musgo (esses eram realmente fáceis de matar) e até de plantas. Levava menos de um segundo para acabar com as criaturas, mas com tantas delas ao redor, aquilo começava a ficar realmente cansativo. E isso quem pensava era Atena, que não se cansava facilmente.
Com um plano já formado para encerrar tudo aquilo, Atena deu um passo para trás cuidadosamente, procurando ficar próxima do ouvido de Poseidon, ainda que não conseguisse chegar tão perto quanto gostaria por causa de sua altura.
— Será que você poderia fazer alguma coisa para acabar com um monte deles de uma vez usando seus super poderes de peixe? — ela murmurou.
Depois de espetar um monstro de madeira com seu Tridente e transformá-lo em poeira, Poseidon virou apenas a cabeça para respondê-la:
— Os mesmos poderes de peixe que você também tem e pode usar se quiser?
— Preciso chegar até Eurínome — Atena apontou. — Não posso fazer as duas coisas.
— Certo — Poseidon enrolou os dedos em torno do cabo de seu Tridente com mais força, deixando os nós dos dedos brancos. — Se segure.
Atena se preparou para o que quer que estivesse prestes a acontecer, a espada em mãos e os pés bem firmados no chão. Mas o que Poseidon fez, afinal, foi trazer uma onda gigante desde a costa até a casa, usando a água em alta velocidade — como Atena havia feito na ilha Dauphine num dia que parecia estar a séculos de distância — para derrubar todos os monstros dentro da Cabana. No fim das contas, Atena não precisava ter se preparado para nada, já que o deus dos mares estava tendo o cuidado de guiar seu ataque de forma que passasse longe dela. Assim, ela correu para Eurínome, que observava toda a cena de um canto escuro com olhos confusos, como se tentasse entender o que se passava. Com toda aquela confusão, foi ainda mais fácil para Atena chegar até a deusa sem ser notada. Quando Eurínome se deu conta, Atena já tinha a lâmina da própria espada pressionada contra sua garganta desprovida de carne, embora soubesse que não poderia matá-la com isso.
— Ora, mas de novo essa! — Eurínome exclamou, impaciente. — Deveria ser mais difícil te derrotar, Atena. Você está tornando tudo isso monótono demais!
Atena empurrou um pouco mais a espada, que por centímetros não penetrava o corpo de Eurínome, forçando desesperadamente seu cérebro a funcionar. Tinha que haver uma resposta. Ninguém era indestrutível. Ela precisava pensar. O oposto de matéria escura. O que poderia deter matéria escura? O que, em todo o Universo, eliminava a matéria escura? Ela ocupava 75% do Universo.
E os outros 25%?, sua consciência indagou sabiamente.
— É ISSO! — Atena exclamou sem se conter.
Como se ela houvesse ordenado o silêncio, todos os sons ao redor pararam. Poseidon provavelmente havia conseguido eliminar todos os monstros. E agora Atena sabia como matar Eurínome. Tudo o que ela precisava era...
— Atena!
Toda a cena seguinte aconteceu rápido demais. Primeiro Poseidon gritou seu nome. Depois, o som de passos retumbou pelo cômodo, seguido por um barulho terrível, que Atena conhecia muito bem e temia lembrar, de lâmina penetrando carne. Quando a deusa se virou para entender o que acontecia, Poseidon já estava estirado no chão, como Jack, mas ao invés de uma espada fincada em seu coração (até porque uma simples espada jamais derrubaria um deus), ele tinha parte do escudo Aegis afundado no peito. Atena subiu os olhos, na esperança de encontrar as orbes verdes ainda brilhando e um sorriso torto nos lábios do deus, enquanto ele dizia que aquilo sequer o afetava. E as orbes verdes estavam ali, mas não brilhavam mais. Estavam ofuscadas e reviradas para cima, e tudo o que saía de seus lábios entreabertos era uma enorme quantidade de icor dourado. Centímetros atrás de Poseidon, um único monstro-zumbi olhava para o deus sem vida como quem sequer entendia o que estava acontecendo — e ele provavelmente não entendia mesmo. Mas Atena entendeu no segundo em que seus olhos pousaram sobre o corpo caído de Poseidon. Não era necessário analisar a situação por muito tempo para deduzir o que se passava ali. Apenas a julgar pela posição dos corpos e a relação entre as pessoas que lutavam, era óbvia a conclusão de o zumbi tentara atacar Atena pelas costas, mas Poseidon se colocou na frente e foi atingido ao invés dela. E agora ele estava morto, ou qualquer que fosse o estado divino quando deixavam de viver.
Eurínome soltou um riso gutural, maligno, sem alegria.
— Isso! — bradou em plenos pulmões. — Finalmente um soldado apto a obedecer minhas ordens!
Atena se virou para ela, os olhos cinzas faiscando como uma tempestade que trazia destruição.
— Vadia.
— Me ofender não vai adiantar de nada, querida — Eurínome respondeu, intocada. — Porque você perdeu. Você não pode me der...
Eurínome não pôde terminar o que dizia, porque foi calada por um raio que desceu do céu, explodiu o teto da cabana com um estrondo, atingiu diretamente a espada de Atena e se enrolou em torno de Eurínome como uma enorme corda feita de...
— Energia — Atena disse, por fim. — A matéria negra não tem energia. Ela ocupa 75% do Universo, mas os outros 25% são preenchidos por astros celestes compostos por energia. É isso o que te destrói.
O sorriso de Eurínome se desmanchou tão rápido que Atena poderia dar replay naquele instante pelo resto da eternidade. O escárnio em seu olhar sumiu e foi substituído por um sentimento que Atena conhecia bem: o medo.
— M-mesmo que você que mate — Eurínome gaguejou. — Não importa. Eu já te venci. Eu atingi a sua maior fraqueza.
— Eu não vou te matar — Atena afirmou com voz suave. — Não agora.
Eurínome franziu as sobrancelhas quase invisíveis.
— Não?
— Não. Primeiro você vai me assistir enquanto eu te destruo — Atena deu meia volta e passou por cima do corpo de Poseidon — e aprender o quê você deveria ter esperado da deusa da sabedoria.
Nem Eurínome podia argumentar quando Atena falava com tanta confiança, então a deusa permaneceu calada, observando tudo com olhos curiosos e amedrontados. Atena parou à frente do zumbi, que permanecia parado como uma estátua descarnada, e com um único golpe de sua espada, partiu a criatura ao meio. A pilha de ossos e órgãos podres se espalhou pelo chão, mas era uma sujeira com a qual ninguém se importava. Em seguida, Atena voltou a se virar para Poseidon e se ajoelhou ao lado do corpo inerte do deus, arrancando o escudo cravado em seu peito.
— Átropo — ela murmurou.
E no segundo seguinte lá estava ela, de pé no meio do cômodo: a figura esquelética de cabelos brancos e pele enrugada capaz de fazer tremer até mesmo o mais poderoso dos deuses, segurando uma tesoura e uma linha dourada.
Átropo. A moira que cortava o fio da vida. A responsável pelo último desejo de Atena.
Fale com o autor