Três Alternativas.
2 Capítulo 2 — Encontros.
Notas iniciais
Michael não dormiu bem aquela tarde. Não estava cansado e simplesmente prestava atenção em todos os ruídos da casa, desde os estalos da madeira até os pingos da torneira. Não, sem condições. Sem sono. Barulho demais.
Três alternativas para a situação citada anteriormente.
a) Levantar e quebrar a merda da torneira, a casa, o mundo.
b) Levantar e tentar alguns acordes.
c) Reclamar e continuar deitado em posição fetal.
Hm. Resposta difícil. Ele se levantou e pegou o violão, abrindo a porta. A mãe devia estar dormindo. Ruídos no quarto. "'Não, Madalena! Não vá!', 'João Augusto, você me traiu com aquela... Mulher!'". Novela. Ai, que ótimo. Micro ondas aberto, ruídos altos de deglutição. Pipoca. Novela com pipoca! Que coisa mais clichê!
Fechou a porta e sentou-se na cama. Passou o dedo pelas cordas e arrancou uma melodia suave, mas melodramática. Sem cabeça para compor nada; Passou os dedos novamente pelas cordas novamente e a melodia que ele mais gostava saiu: One, Ed Sheeran.
Não tocou muito, largou o violão novamente em cima da cama, agora desarrumada, e levantou-se bruscamente. Sono, cansaço. Peso nos ombros, a cabeça girando. A torneira pingando. A cama da mãe se mexendo. Os ruídos da TV. A mãe mastigando a pipoca. A chaleira para o chá fervendo. O apito nos ouvidos. A escuridão.
***
Uma de suas repentinas crises teve início; Elle estava ali. Sorria, com seus dentes de leite, o da frente tinha caído. Deu uma risada alta quando uma bola de neve a acertou, derrubando sua touca de tricô rosa. Fez mais uma e atacou Michael.
A sensação de frio e calor o atingiu ao mesmo tempo, e ele também riu. A cena foi se repetindo, a garota sorria, pontos brilhantes a rodeavam. A felicidade, o calor, os sorrisos, as risadas, o choque, a luz, o coração batendo novamente.
— Michael! — a mãe estava ao lado dos médicos. — Michael, o que aconteceu com você? Você está bem?
Tudo rodava.
Três alternativas para tentar tranquilizar a mãe.
a) TRANQUILIZAR PRA QUÊ? EU QUASE MORRI!
b) Eu tô bem, mãe.
c) Começar a chorar, afinal, eu quase morri.
— Eu... tô bem, mãe. — Michael murmurou, ou tentou. Os médicos se afastaram, aquelas... aquelas máscaras esverdeadas aterrorizantes.
Não demorou muito para que se sentisse melhor. Os médicos o obrigaram a tomar dezenas de remédios por dia, que o deixavam entorpecido e estático. Não conseguia se mexer, nem se quisesse.
Ah, raiva! O que iria fazer, agora? Estava sentado na cama hospitalar, vendo TV. Um canal muito sem noção, para falar a verdade. Uma entrevista com um ator.
“Você gosta das novelas que faz?”
“Bom, a questão não é gostar, é ser a novela, o personagem”.
Wow. Acho que isso foi um corte. Pálpebras pesadas fizeram companhia a um Mike que queria muito dormir. Desligou a televisão, mas foi interrompido por uma garota morena, de olhos escuros, e bem pálida.
— Mike!
Ele arregalou os olhos, um pouco assustado. Silêncio.
— Claire. — a garota apontou para si mesma. — McCoy.
Foi como se uma lâmpada se ligasse em suas têmporas. O garoto não podia acreditar. Uma de suas melhores amigas de infância estava ali. Ela o abraçou com entusiasmo e ele, a ela.
— Tome. Trouxe bombons. — Claire entregou uma caixa de coração, com um cheiro de chocolate delicioso.
— O-obrigado. — balbuciou ele. — Como me achou?
— Resolvi voltar pra cidade.
Ficaram conversando por muito tempo, talvez horas. Ela lhe disse que iria ir embora, beijou a testa dele e saiu. Não demorou muito tempo e sua mãe entrou.
— Mãe! Você viu quem estava aqui?
— Não, querido. — ela largou a bolsa na poltrona ao lado da cama hospitalar. — Quem?
Os efeitos dos remédios pareciam ter-se ido embora com o seu entusiasmo.
— A Claire McCoy! Você lembra dela, mãe?
A mãe sorriu, assentindo. O filho falava muito dela, desde... sempre! Ela se sentia ótima, por ver o filho sorrindo. Sentando-se, sua expressão mudou. Mike não sabia dizer se era reprovação ou apenas repreensão.
— Mike, por que não tomou seus remédios?
Foi como se um soco no abdômen de Mike surgisse. Ouch! Aquilo doeu. Se fosse um soco de verdade, doeria menos. Como dizer pra mãe que, com os remédios, sentia-se mal? Iria preocupá-la mais ainda.
— Os remédios... Me intorpecem! É como se eu estivesse ali, mas ao mesmo tempo não. — sob o olhar semicerrado da mãe, baixou os olhos. — Desculpe, mãe, mas não é o que eu quero pra mim.
— E o que você quer, Michael?
Ai, Michael.
— Eu... Eu quero me sentir normal, mãe! Normal, sem ter que tomar tantos remédios pra não ter uma parada cardíaca. Quem você conhece que acontece isso? Surtos são pra gente louca!
— Querendo ou não, Michael, você é essa “gente louca”! — o tom de voz da mãe aumentou. Percebendo o que disse, respirou fundo e baixou os olhos. — Desculpe, Michael.
— Então a senhora também acha que sou um louco varrido? Viu?!
— Não foi isso que eu disse, Mike. Eu só me preocupo com você.
Michael cruzou os braços e ficou em silêncio. A mãe logo percebeu; levantou-se e disse que iria tomar um café. Não demorou muito para se tocar que fora um ato insano e imprudente, e que sua mãe só estava preocupada.
Não demorou muito para que aumentassem a dose dos remédios por causa de sua contínua marra e seu estresse avassalador. Poucos dias depois, quando já estava controlado e sua pressão estável, o médico barbudo que o atendia disse-lhe que só o liberaria se ele tomasse seus remédios com regularidade, e Mike foi obrigado a prometer na frente da mãe.
***
Michael desceu do carro, ah, o vento bagunçando seu cabelo exageradamente! Era o que mais gostava depois da chuva molhando seus olhos a ponto de ficar cego por dois minutos e rir de si mesmo. E receber uma bronca da mãe por estar na chuva, mas isso é só um detalhe.
Uma garota estava ali. Seus cabelos eram loiro-escuros, os olhos exageradamente azuis e cobertos e lápis de olho preto e delineador. Tinha tatuagens no peito e braços, os lábios vermelhos e um cigarro entre os dedos. Algo lhe dava a incrível sensação de que conhecia a garota, além de estar sentada em seu gramado e sorrir para ele, claro.
Cinzas do cigarro caíram na saia extremamente curta, justa e preta da menina. Limpando-as, se levantou, e seu sorriso infantil lhe lembrou: Oh, Elle!
Três alternativas para não sair correndo que nem um bebê quando vê o carro do sorvete para abraça-la.
a) Sair correndo que nem um bebê quando vê o carro do sorvete para abraça-la.
b) Andar até ela, de braços estendidos, e lhe dar um abraço como uma pessoa normal e sensata.
c) Sair correndo, mas para se esconder.
Mike sorriu e abriu os braços, mas quem correu foi ela. Seus cabelos balançaram ao vento levemente, largou seu cigarro no gramado e apertou-o com força.
— Mike! Ah, quanto tempo! — o perfume dela atingiu-o com mais força do que qualquer crise esquizofrênica. — Senti tanto sua falta!
— Eu também, Ellie. Eu também.
Três alternativas para não dar uma de garoto não-virgem e leva-la para a cama.
a) Ela é uma gostosa. Leva pra cama, sim!
b) Convida-la para entrar e assistir um filme da hora.
c) Nada, só correr e se esconder em baixo da cama.
— Quer entrar, querida? — a mãe de Mike escolheu por ele. — Vou fazer chocolate quente e cookies.
— Ah, claro, tia Janet!
E, de mãos dadas, os dois seguiram Janet até a casa, sentando-se no sofá e esperando o lanche. Elle o olhava com tamanha admiração, mas algo no brilho de seus olhos havia diminuído a excitação de Mike. Parecia estar morto, o brilho.
— Para que tantas tatuagens, Ellie? Digo, são maneiras, mas como seu pai deixou?
— Depois que a mamãe morreu, Mike, ele não liga pra mais nada. Só quer beber e ir pra alguma casa de putarias, e... — El suspirou. — Desculpe dizer isso, Mike, estou um pouco nervosa.
E, por mais que Mike desejasse, mas não houvesse imaginado, Elle se aninhou ao peito dele esperando Janet voltar com os chocolates quentes.
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