Touches You

14 Capítulo 13


Londres, 07:00PM, 24/12/2010

— Não, mãe. Eu não vou ficar todo engravatado pro almoço. — insistiu Miko pela milionésima vez.

— Então vá nu. Aproveita e morre congelado.

— Eu não vou nu, mas me recuso a botar a forca que você chama de gravata.

Astrid começou a gargalhar enquanto Samira saía do sótão, ignorando os comentários do filho. Antes de perder o fôlego de tanto rir, Astrid se levantou e foi ajudar Miko com a camisa de botão.

— Você é claustrofóbico, não é? — Astrid perguntou timidamente

— Sou. — Miko desviou o olhar

— Ei. Não tem problema nenhum em ser claustrofóbico, sabia? Eu mesma sou acrofóbica. Se me botar pra olhar através de alguma janela do dormitório, pode se preparar pra me ver em pânico de verdade.

— Então não sou tão medroso assim.

— Vou nem rebater, senão acabo ofendendo.

— Eu não te chamei de medrosa.

— Mas eu não acho que fobia é uma questão da pessoa ser medrosa ou não. É uma questão de más experiências. Garanto a você que as minhas experiências com altura não foram nem um pouco agradáveis.

— Qual foi a pior?

— Eu estava com Onkel Leon num parque, pouco depois dele ser dispensado do exército Muggle alemão e eu acabei parando em cima de um prédio, bem na pontinha, quase caindo. Não tinha ninguém por perto, nem do meu lado, nem embaixo. Demorou um tempo até que o meu tio conseguisse me achar lá em cima. Eu estava chorando e tremendo.

— Quantos anos você tinha?

— Eu era pequena. Foi antes de me mudar pra Manchester.

— Eu te amo, sabia?

— Também te amo, Miko.

Miko deu um selinho em Astrid, passando a mão pela cintura dela e depois mordiscou o lábio inferior dela. Astrid soltou um suspiro baixo e depois riu.

— É melhor a gente descer, antes que mais alguma coisa aconteça. — Astrid falou

Os dois desceram; Miko primeiro, e foram pra sala.

— Vai de vestido mesmo? — Miko perguntou

— Eu ia assim pros Natais desde Munique.

— Tá certo, então. Mãe! A gente já tá aqui na sala!

Em pouco tempo, Samira e Ivan apareceram na sala.

— Cadê a gravata? — Ivan perguntou

— Aquela forca? Não vou usar.

— Michael...

— Pai. É sério. Eu não vou usar aquilo. A gravata incomoda. Mal aguento ter que usar em Hogwarts, pra que eu tenho que usar inclusive nas férias?

— Depois a gente conversa sobre isso.

— Nada de conversar depois. A gente já conversou sobre isso, você e a mamãe sabem o que eu penso sobre gravatas e lugares pequenos e apertados. E vocês sabem que esse pensamento não vai mudar nem tão cedo.

— Michael, isso não está aberto a discussões. Volte no seu quarto e pegue a sua gravata.

— Não precisa, de verdade. — Astrid interferiu — Meu pai nem vai estar usando uma e os meus pais não fazem a menor questão desse nível de formalidade.

— Sério mesmo? — Ivan questionou

— Sério.

— Mesmo seu tio sendo um ex-auror?

— Ex-militar, na verdade. Sim, mesmo ele sendo ex-militar. Meu tio é a pessoa que vai menos se importar com o que as pessoas estão vestindo.

— Então vamos. Michael, não esqueça o seu casaco.

Do outro lado da cidade, Sarah corria de um lado para o outro tentando ajeitar os últimos detalhes, mesmo a casa estando na mais perfeita ordem.

— Sarah. — Klaus chamou

— Tá bom? — ela perguntou apontando pra sala por cima do ombro

— Tá ótimo. — ele depositou um beijo na testa dela — Só quero que você se acalme. Daqui a pouco a Astrid vem com os Thompson e não seria bom ela te ver nervosa desse jeito.

— Realmente não seria. Você sabe dizer onde estão a Leslie e o Max? — Sarah perguntou

— Eles estavam no quintal de trás conversando. Pode ficar tranquila. Eles não estavam fazendo nada de mais quando eu olhei.

— Tem certeza?

— Tenho. Eles não estavam me vendo, então...

— Ela ainda está chateada com você.

— Vou conseguir lidar com isso. A Leslie tem o seu gênio forte. Sempre teve. — Klaus riu

— E a Astrid sempre foi que nem você.

— Falando na Astrid, to preocupado com uma coisa em relação a ela.

— O que?

— Ela tá meio distante. Como se o corpo dela estivesse ali, mas a cabeça dela estivesse em outro lugar completamente diferente.

— A Astrid já andava um pouco assim antes de vir pra Londres. Quase toda vez que ela falava comigo ela queria saber, de alguma forma quando voltaríamos pra Munique.

Klaus começou a soltar uma gargalhada divertida.

— Já sei qual o problema. É que, no fundo, a mente da Astrid associa nós dois — Klaus apontou para Sarah e para si — juntos e bem com Munique. Mesmo que o lado racional dela diga que não é bem assim.

— Então, com o tempo ela vai voltar um pouco para a realidade.

Os dois trocaram sorrisos e beijos até Leon aparecer para apartar os dois e procurar pela próxima garrafa de cerveja.

— Leon. — Klaus chamou, sendo completamente ignorado pelo irmão — Leon! Das fertige Bier. Jetzt erst morgen. (Tradução: A cerveja acabou. Agora só amanhã.)

— Wo haben Sie zu verbergen, Klaus? Weil ich genug gekauft zu Woche. — Leon respondeu (Tradução: Onde você escondeu, Klaus? Porque eu comprei o suficiente pra semana.)

— Früher habe ich das Abendessen zu machen. Eltern von Astrids Freund stehen vor der Tür. Bitte. (Tradução: Usei para fazer o jantar. Os pais do namorado da Astrid tão vindo aí. Por favor.)

— Ok, ok. Aber nur weil Weihnachten ist, und es ist von Astrid. (Tradução: Ok, ok. Mas só porque é Natal e é pela Astrid.)

— Danke, Leon. Zumindest für die Prüfung. (Tradução: Obrigado, Leon. Pelo menos pela consideração)

Leon se levantou e foi pro quarto. Lá dentro se trancou, tirou a roupa que estava vestindo e encarou o próprio reflexo no espelho. As cicatrizes que ainda carregava do seu tempo no exército alemão o lembravam de muitas coisas das quais queria esquecer. Agradeceu aos céus o dia em que recebeu dispensa. Os horrores que tinha presenciado nas missões ainda causavam pesadelos, mas muito menos do que antes, já que não faziam mais parte do seu dia-a-dia.

Começou a encarar a placa de dispensa que recebera do exército. Leon Jähn Hoff. Passou a desejar que alguém mais além de seu irmão e suas sobrinhas compartilhassem de algum laço de sangue com aquele nome.

Quando soube, quando ainda estava no exército, que seu “irmãozinho” iria se casar com uma inglesa, ficou feliz. Sabia que seu irmão estaria feliz com quem quer que fosse e, de acordo com as cartas que recebeu, a moça parecia ser a mulher dos sonhos de Klaus. Alguns meses depois, recebeu outra carta do irmão contando que seria pai — e de duas crianças. Conseguiu licença para poder ver as sobrinhas nascerem em Munique.

Logo que voltou pro exército, recebeu, formalmente, a declaração de dispensa honorária pelos serviços prestados à corporação. Aproveitou essa dispensa e passou alguns anos em Munique antes de se mudar para Londres. Durante seu tempo em Munique, se apegou muito a Astrid. A menor das gêmeas sempre se mostrava capaz de surpreender. Apesar de parecer muito mais frágil do que Leslie, sempre participava das brincadeiras mais pesadas.

Todas essas lembranças vindo à tona fizeram Leon começar a chorar. Era doloroso lembrar que desperdiçara a sua vida no exército e não construíra a própria família, tendo que viver invejando a família do irmão mais novo. Depois de um tempo chorando, enxugou as lágrimas e foi tomar um banho. Sentia que devia isso à sobrinha.

Quando chegou na sala, Leon viu que a conversa estava animada. Um casal que ele não conhecia estava conversando com Klaus e Sarah. Astrid e um menino estavam conversando e rindo num sofá mais distante. Respirou fundo, abriu um sorriso e foi cumprimentar os convidados.

— Oi. — Leon falou, enquanto se aproximava do irmão e da cunhada.

— Ivan, Samira, esse é o Leon, meu irmão. — Klaus apresentou

— Prazer em conhecê-los.

Leon apertou a mão de Ivan e de Samira.

— Astrid falou que o senhor é ex-auror. — comentou Ivan

— Na verdade sou ex-militar. É o equivalente a auror pros Muggles.

Assim que ouviu a voz do tio, Astrid se levantou e o abraçou.

— Onkel Leon! Wie lange! (Tradução: Tio Leon! Quanto tempo!)

— Biene, você está muito magra.

— Onkel! Tá parecendo Oma Hoff. Reclamando do meu peso.

— No jantar, ou você come direito ou vai se ver comigo.

Astrid revirou os olhos, mesmo sabendo que o tio tinha razão. Tinha perdido peso desde a última vez que o viu, mas não foi por má alimentação. A correria de aulas normais e aulas extras, fora os jogos de Quidditch que assistia com Miko e os estudos pros OWLs a fizeram perder peso.

Beijou a bochecha do tio e voltou a sentar com Miko. Assim que sentiu o assento do sofá abaixar com o peso da namorada, Miko abriu um sorriso.

— Você tá linda, sabia? — Miko falou

— E você não fica muito atrás não.

Astrid apoiou a cabeça no ombro de Miko e segurou a mão dele, fazendo um leve carinho. Por um momento, Astrid se lembrou da conversa constrangedora sobre peixes. Chegou perto da mãe e sussurrou no ouvido dela.

— Mama wird nicht Fisch, wird er? (Tradução: Mãe, não vai ter peixe, vai?)

— Dachte, ich hätte Sie vergessen? (Tradução: Achou que eu ia me esquecer de você?)

— Danke, Mama. (Tradução: Obrigada, mãe)

Astrid beijou a bochecha da mãe e sorriu. Parecia que a sua mãe de verdade voltou. Não que Sarah nunca estivesse ali, mas tinha ficado um tanto quanto amarga depois do divórcio. E agora tinha voltado a ser a mesma pessoa doce que era antes da confusão toda começar. Para Astrid, isso bastava.

Quando se lembraram do jantar, Klaus e Sarah foram para a cozinha, esquentar a comida. Os dois sentiam-se como se tivessem voltado aos vinte e cinco anos, quando ainda eram recém-casados e estavam celebrando o primeiro Natal com os amigos. Começaram a rir com as pequenas trapalhadas na cozinha. Em pouco tempo já colocaram a mesa e chamaram todos.

Durante o jantar, a conversa foi animada, mesmo com Leslie ainda com raiva de Klaus e tentando esconder o mau humor em relação ao pai. Piadas e histórias engraçadas foram contadas.

— O Michael, quando era pequeno... — Samira começou

— Se for a história do Dimo pode esquecer. É muito vergonhosa. — Miko cortou a mãe

— Era o seu boneco, Mike. — falou Max

— Mas a história continua sendo muito vergonhosa.

— Tá bom, nada do Dimo. Então a história do cortador. — Samira tentou consertar

— Garanto que a história do cortador foi mais assustadora pra você do que pra mim, mãe. Mas pode contar.

— O Michael tinha... Quantos anos mesmo?

— Cinco pra seis. — Ivan respondeu

— É, cinco pra seis anos e...

— Eu estava desligando o cortador de grama e ele colocou a mão dentro do motor. Quase perdeu o polegar.

— Quase perdi coisa nenhuma. Ainda tenho meu polegar, consigo mexer e o corte não foi nem tão profundo.

— Enfim, ele teve que ir pro hospital e levou algumas pontas.

— Pontos, pai. O nome é pontos.

As mulheres da mesa começaram a rir, mesmo que discretamente. O sorriso mais largo era o de Sarah. Toda aquela confusão de nomes feita por Ivan lembrava a confusão de nomes que Klaus fizera anos antes quando começaram a morar juntos. Começou a recolher os pratos e a trazer a sobremesa com a ajuda das filhas e de Klaus. Quando voltou, Leon e Miko estavam conversando, com a mão direita de Miko entre as mãos de Leon.

— Toda vez que o seu dedo travar, por causa do corte, faz isso. — Leon falava enquanto fazia um movimento na mão do menino — Funcionava muito comigo no exército.

— Essas do Leon sempre funcionam. — falou Sarah

— Que bom que você lembra, Sarah. — Leon comentou sem olhar para ela

— Claro que eu lembro. Ajudou muito com as meninas.

— Asta, cadê os talheres? — perguntou Klaus

— To trazendo, pai.

Astrid chegou na sala carregando os talheres e colocou-os na mesa antes de sentar ao lado de Miko.

— Onkel, o que você está fazendo?

— Ele tava me ensinando umas maneiras de destravar o dedo. — Miko respondeu — É bem legal, pra falar a verdade.

— Ou seja, você não vai mais parar por uma eternidade na aula de Flitwick por causa de dedo travado.

Miko riu um pouco. Todos comeram da sobremesa e depois Miko foi com Astrid até o quintal de trás.

— É verdade aquela história que a tua mãe contou? — ele perguntou

— Qual das?

— A que você roubou o boneco de pelúcia favorito da Leslie.

— Odeio essa história. Me sinto mal. Sim, eu sem querer queimei o cachorrinho de pelúcia da Leslie quando eu era pequena. Ela só faltou morrer.

— Adoro o teu sotaque, sabia?

— Ali dentro tem mais três pessoas com o mesmo sotaque.

— Mas o seu é diferente do sotaque do resto. Um pouquinho só, mas é diferente.

— Acho que é porque eu me negava a mudar meu sotaque lá no internato.

Ficaram em silêncio por um tempo, se encarando.

— Tem uma coisa suja aqui. — Miko falou

— Onde?

— Aqui, ó.

Miko beijou Astrid com vontade, trazendo ela pra mais perto de si o possível. Quando se separaram do beijo, os dois estavam sem fôlego, mas Miko não soltou Astrid.

— Eu te amo muito. De verdade. Sei que ainda é muito cedo pra pensar nesse tipo de coisa, mas imagino que, em alguns anos, a gente ainda possa estar juntos, sabe?

— Também te amo muito, Miko.