Touches You
41 Bônus 2
Londres, 10:30 PM, 05/07/1945
Charlotte caminhava de um lado pro outro ansiosa. Sabia que, apesar da pouca idade, aquela decisão seria a mais acertada da sua vida. Teve um pouco de receio de que seu pai, que sempre fora rígido, não permitisse, afinal, estavam no meio de uma guerra Muggle, onde tudo era mais difícil.
Ela observou seu irmão mais novo, George, brincar com um dos poucos brinquedos que puderam levar para aquele abrigo aéreo. O garoto parecia entretido só com aquele carrinho de madeira.
Adair iria lhe pedir em casamento oficialmente ali mesmo, no abrigo sujo. Os dois já tinham discutido como as coisas iriam ser feitas. Não haveria festa, já que não queriam gastar dinheiro comprando comida a mais no mercado negro. Só seria um jantar com as duas famílias. O vestido seria o mesmo utilizado pela mãe da noiva.
— Georgie, o que acha de Adair? — Charlotte questionou o irmão, numa tentativa de testar a recepção da ideia de casamento
O garoto olhou para a irmã como se ela estivesse maluca.
— Ele é um cara legal, Charlie. Mamãe e papai gostam dele. Porque?
— O que você acharia se eu casasse com ele?
— Normal, ué. Se você gosta dele e ele te faz feliz...
Charlotte suspirou. Nunca pensou que seu irmãozinho fosse tão desapegado e, de certa forma, preocupado com a sua felicidade.
— Posso te contar um segredo? — ela sussurrou pro garoto, que concordou com a cabeça — Ele vem me pedir em casamento hoje. Não conta nem pro papai nem pra mamãe, tá certo?
— Tá. Mas você vai ter que brincar comigo. — ele abriu um sorriso típico dele
— E qual a brincadeira que você quer?
— Pega isso aqui. — ele entregou o outro carro de madeira que conseguiram levar — Você vai passear. E eu também. Se quiser, os carros podem conversar um com o outro.
Charlotte entrou no mundo da fantasia do irmão mais novo. Isso a ajudou a se acalmar.
Alexander Thompson olhava os filhos brincando juntos como não via havia muito tempo. Mas estranhou assim que viu o namorado da filha, o qual ele nunca lembrava exatamente o nome, aparatou e se juntou ao pequeno grupo. Se aproximou dos três enquanto o seu quase genro tentava se inteirar da brincadeira.
— Pai! — Charlotte foi a primeira a perceber sua presença — Adair acabou de chegar. Quer se juntar a gente?
Alexander sentou ao lado dos filhos ainda um pouco desconfiado.
— Hã, senhor Thompson, eu queria perguntar uma coisa para o senhor. — Adair gaguejou
— Desculpa, garoto, mas não lembro seu nome todo.
— Adair Devin. — o jovem ficou ainda mais sem graça — Senhor Thompson, o senhor permite que eu case com Charlotte? — o jovem pediu, ainda muito nervoso — Eu tenho onde morar e teria como sustentar nós dois confortavelmente.
— Estamos em guerra, Devin. Você sabe que tudo é mais difícil agora, não sabe?
— Eu sei. Por isso já conversei com Charlotte sobre essa possibilidade de casamento e concordamos em fazer um jantar só entre as famílias, só pra ter alguma coisa.
Alexander ponderou um pouco. Sabia que a filha ansiava pelo próprio casamento, mas não sabia se aquele era o momento ideal. Ela era tão nova!
— Pode sim. Cuidado com a minha filha. — Alexander ameaçou
— Sim, senhor. Terei o maior cuidado do mundo com ela. — Adair prometeu, com um pequeno sorriso
Moscou, 05:15PM, 22/04/1957
George olhava para a praça vazia a sua frente. Se sentia engraçado pela maneira como chegou até ali. Nunca na vida imaginou que iria chegar a ir para Moscou falar com alguém. Mas ela valia aquela mudança na sua vida. Zlata Pavlov valia tudo aquilo.
Tinham se conhecido alguns meses antes, num curso de especialização que realizaram juntos. Zlata tinha sido uma das melhores da turma em que estavam. Inclusive, tinha sido ela quem o ajudou a compreender melhor uma parte crucial do conteúdo. A amizade dos dois tinha sido aprofundada através de cartas que trocaram ao longo daqueles meses que estiveram separados. Zlata já tinha feito uma visita ao inglês, mas ele nunca teve a oportunidade de encontra-la na Rússia até então. Aquela era a única chance que tinha de, finalmente, poder se declarar à russa.
George entrou na passagem que encontrou para o hospital. Assim que viu a recepcionista, a cumprimentou com um sorriso.
— Boa tarde. Sou George Thompson. Vim da Inglaterra e gostaria de falar com drª Pavlov. — ele se apresentou com um sotaque carregado e um russo vacilante
— Ela deve sair a qualquer momento, senhor. Espere por aqui. — a moça o acompanhou até uma sala de espera, com um sorriso gentil — Assim que ela sair, eu peço para que ela venha falar com o senhor.
— Obrigado.
Ele tentou se acomodar naquela cadeira desconfortável. Esperou o que lhe pareceu uma eternidade até que Zlata apareceu, ainda vestindo o jaleco branco.
— George? Você por aqui? — ela parecia surpresa
— Vim fazer uma visita. Espero que não seja muito incômodo.
— Não, não, de maneira alguma. É só que eu realmente não esperava a sua vinda. Vamos comigo. Temos muito a conversar.
Os dois conversaram por horas a fio num bar próximo à casa de Zlata. Quando perceberam o horário, a moça ofereceu a George um lugar para dormir.
— Não precisa se preocupar comigo, Zlata. Eu já tenho hotel reservado pra alguns dias.
— E eu tenho espaço em casa, que, por acaso, é aqui perto. Além do mais, pela hora, você teria muitas chances de ser assaltado pelo caminho.
— Tá certo.
George e Zlata seguiram para a casa da jovem. No caminho, continuaram a conversa que tinham começado no bar.
— Hm, Zlata? Posso te fazer uma pergunta?
— Pode, claro.
— Quer namorar comigo?
— Bem, George, é que temos um problema de distância. Não vai ser uma aparatação ou duas que vai encurtar o caminho.
— É que eu não contei uma coisa muito boa. Eu recebi uma proposta pra trabalhar num hospital daqui.
— George! Isso é maravilhoso! — a jovem abraçou o amigo rapidamente
— Então, Zlata, vai querer namorar comigo?
— Não precisa perguntar duas vezes.
George tomou a iniciativa e diminuiu novamente a distância entre os dois, dando um beijo em Zlata.
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