Touches You
42 Bônus 3
Moscou, 11:20AM, 16/04/1965
Illya balançava as pernas um pouco impaciente. Não achava justo ficar tanto tempo só em casa com seu avô sisudo. Seu pai tinha saído com a promessa de que voltaria com a sua mãe. Assim que a porta se abriu, o pequeno garoto correu para olhar o pequeno ser envolto na manta que sua mãe segurava. A sensação de ver aquele menino tão pequeno era estranha para ele. Seus olhos se arregalaram quando o bebê abriu a boca num bocejo.
— Mas ele já tá com sono? — estranhou — Mas ele mal nasceu!
Zlata e George riram.
— É que ele é muito novinho, meu amor. — Zlata respondeu — Mas venha conhecer o seu irmão.
— Qual o nome dele, mamãe?
— Ivan.
— Ivan? Legal.
Moscou, 08:15 AM, 25/12/1969
Illya e Ivan se espremiam na fresta da porta para espiarem a conversa dos pais. Pelo tom de voz, os garotos percebiam que o assunto era sério e não tinha muito a ver com o almoço que teriam aquele dia.
— Não posso fazer isso com os meninos, George! Ivan mal fala russo e Illya daqui a pouco tem que frequentar a escola.
— A Inglaterra também tem uma escola. Muito boa, inclusive. Mas eu não posso deixar minha irmã sozinha numa situação dessas. É desumano!
Os dois garotos não entendiam muito os argumentos dos pais, mas iam vendo o desenrolar da conversa com uma atenção tão grande que quase não respiravam.
— Tem certeza que o caso dela não tem como fazer ela vir até aqui? Podemos dar um jeito.
— Ela está com varíola de dragão, Zlata. Eu não vou fazer a minha irmã atravessar a Europa inteira pra ter um tratamento aqui se eu posso fazer muito bem lá.
— E como a gente vai se manter por lá? Com a herança dos seus pais?
George se aproximou da esposa e a abraçou.
— Zlata, por favor. É um momento delicado. Você, mais que todo mundo, sabe o que é ter um irmão com varíola de dragão.
Nem Illya nem Ivan conseguiu ouvir o que a mãe deles tinha dito no ouvido do pai, mas sabiam que a decisão iria afetar os dois.
King’s Cross, 10:32AM, 1º/09/1980
— Mãe, já disse que vai ficar tudo bem — reclamou Ivan em russo. Não queria que os colegas entendessem a conversa — Não é como se fosse meu primeiro ano, tá?
— Ivan, você vai me entender quando tiver seus próprios filhos. Eu te amo e prometa que, qualquer coisa, vai me escrever. — Zlata pediu
O garoto revirou os olhos.
— Quando o Illy vinha, você não ficava tanto no pé dele.
— Porque ele não esteve seriamente doente dias antes de embarcar.
— Ok, ok! Agora tenho que ir. Também te amo e vou escrever.
— Até o Natal!
Ivan entrou no trem o mais rápido que conseguiu. Quase saiu correndo pelos vagões atrás de uma única aluna. Só queria ver aquele véu. Assim que encontrou, entrou no compartimento.
— Oi — ele cumprimentou com um sorriso enorme
— Tudo bom? — Samira respondeu
— Tudo sim.
— Melhorou?
— E muito. Mas minha mãe ainda queria que eu ficasse em casa. — ele revirou os olhos de novo — Mas era só um problema no ouvido.
Os dois ficaram em silêncio até o trem dar o último apito, indicando que ia partir. Samira começou a chorar, deixando Ivan extremamente desconfortável.
— Samira? Tá realmente tudo bem?
Ela negou a cabeça. Já soluçando, ela olhou pro amigo, mas ainda de cabeça baixa.
— É que esse é o último ano que eu vou poder vir. — ela confessou em voz baixa
— Mas ainda temos mais três anos pela frente!
— Você não vai entender...
— Ei! É claro que eu vou entender. Eu sou um russo morando na Inglaterra.
Samira levantou o rosto.
— Meu pai foi demitido e vamos ter que voltar pra Arábia Saudita. Vou ter que ficar estudando em casa.
— Mas não podem te deportar, podem? Digo, eu sei que você é imigrante e tudo mais, mas você tá estudando.
— Só vou poder ficar até o ano letivo acabar. Aziz e Khadija já vão ter que voltar mês que vem pra poderem se adaptar de volta.
— Não tem nada que vocês possam fazer?
— Bem, meu pai tem só seis meses pra conseguir um novo emprego. Mas vai ser muito complicado. Ele é um muçulmano estrangeiro com três filhos em idade escolar. Dificilmente alguém contrata uma pessoa com o perfil do meu pai.
—E se eu falasse com o meu irmão? Ele conhece bastante pessoas no mundo Muggle, até porque faz parte do trabalho dele pro banco. Illya pode ver se alguém tá precisando de ajuda.
— Não precisa se importar. Sério.
— E deixar a minha melhor amiga ficar nesse estado? Claro que não. Eu falo com meu irmão e as coisas vão se resolver.
Londres, 09:00AM, 17/05/1995
— Não sei porque sua irmã insiste tanto em ir com a gente. — Ivan reclamou
— Você sabe que Khadija é teimosa. E, dessa vez, dr. Mitchell garantiu que os bebês vão ficar bem.
— Como ele pode ter tanta certeza? Das duas últimas vezes, ele disse que ia dar tudo certo e...
Samira calou o marido com um dedo.
— Ivan, por favor, tenha um pouquinho de fé. E eu tenho a esperança de que, dessa vez, vai dar certo.
Ele acenou com a cabeça, mas ainda sentia um nó na garganta. As últimas duas tentativas de ter filhos se tornaram dois abortos espontâneos. Os dois projetos de crianças já tinham nome: Dawud e Peter.
Enquanto terminava de se arrumar, Samira também compartilhava um pouco das angústias do marido. E se aquela gravidez fosse dar no mesmo resultado que as duas anteriores? O último ultrassom já tinha avisado que eram dois bebês, mas por conta da posição dos dois, não puderam saber o sexo.
Durante o caminho até a clínica do ultrassom, Samira e Ivan se mantiveram calados, presos nos mundinhos deles. Assim que chegaram, Samira fez logo o check-in e viram Khadija sentada na sala de espera, com um sorriso enorme.
— Bom dia! — ela sorria ainda mais ao ver a barriga saliente da irmã
— Bom dia.
— Será que já vai dar pra ver o sexo dos bebês dessa vez? — Khadija parecia mais animada do que os futuros pais
— Khadija, até parece que é você quem tá grávida! Vamos com calma aí.
— E você nem parece que tá esperando dois filhos.
— Você sabe muito bem o motivo, minha irmã.
— Dessa vez vai dar certo, ok? — Khadija apertou a mão da irmã — Tenho certeza disso. Os dois bebês vão nascer saudáveis e bem. Você vai ver.
Os três ficaram em silêncio esperando o nome de Samira ser chamado. Ivan e Khadija se revezavam para pegar água para Samira e, quando finalmente ela foi chamada, os dois a acompanharam para a sala.
— E aí? Como está se sentindo, Samira? — perguntou dr. Mitchell
— Vou bem.
O médico percebeu o nervosismo dela.
— Fique calma. Vai dar tudo certo. Ficar nervosa não ajudar em nada. Vou pedir o de sempre, ok?
Samira se deitou na maca e levantou um pouco a blusa. O médico passou o gel e pegou o aparelho. Ivan ficou tenso ao lado da esposa. Dr. Mitchell começou o exame.
— Por enquanto, tudo certo. Dá pra ouvir o batimento dos dois, eles tão do tamanho certo... — ele começou a contar — E dá pra ver o sexo dos dois. Querem saber?
Samira e Ivan se entreolharam com sorrisos meio abobalhados.
— Claro — Ivan respondeu pelos dois
— E temos aqui — o médico apontou no visor — um menino. E outro menino aqui. São dois meninos. Já pensaram nos nomes?
— Ainda não — confessou Samira entre sorrisos
— Mas definitivamente não vão ter patronímico. Isso é um castigo. — Ivan riu
— Patronímico? — o médico perguntou, claramente confuso
— É que eu sou russo. Lá, o comum é você ter um nome que seus pais lhe dão e o nome do seu pai acompanhado de um "yevich" no final. Acredite, isso faz um estrago.
— Ok. Então nos vemos daqui a duas semanas com o resultado, ok?
O casal e Khadija se despediram do médico, marcaram a próxima consulta e foram para casa. No caminho, Samira e Ivan iam discutindo os nomes.
— Que tal Alexey e Michael? — Samira sugeriu
— Nada de nomes russos, por favor. Sei em como é o pesadelo pra explicar como é que se escreve ou se fala o nome.
— Tá certo, senhor Georgiyevich Thompson. — Samira retrucou rindo — Mas podemos manter o Michael?
— Podemos. — depois de uma pausa, Ivan continuou — E se a gente colocar o segundo nome deles os nomes dos que não deram certo?
— Tudo bem. Apesar de eu achar que não seja uma ideia muito genial. E pro outro? Qual nome você sugere?
— Max?
— Michael Dawud e Max Peter. Gostei.
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