Touch
3 The Plan
Notas iniciais
(Cora)
Eu estava regando meu jardim, como costumava a fazer todas as manhãs. Desde que Henry, meu marido, morreu devido a um infarto, minha rotina vêm sido bastante simples e um tanto quanto monótona. Já fazia quase oito anos que eu o tinha perdido. Éramos muito próximos e mesmo com a perda daquela paixão inicial em todo relacionamento, ainda nos amávamos. Talvez até mais do que no começo do casamento. Como quase todos os casais da época, meus pais me apresentaram à Henry. Era um rapaz humilde, inteligente e de uma família nobre de Boston. Um futuro advogado com uma carreira promissora.
Não demorou muito para que começássemos um namoro. No entanto, eu me achava nova para casar e esse não era meu plano inicial. Para minha surpresa, Henry disse que eu teria uma vida independente. Estudaria e trabalharia, diferente da maioria das moças que após o casamento se dedicavam exclusivamente à vida doméstica. Afinal, ainda vivíamos em uma sociedade bastante machista e patriarcal, onde as mulheres pouco podiam fazer fora do alcance de seus pais ou maridos. Por isso, logo me formei em Arquitetura. Uma paixão que tinha desde pequena, que logo foi silenciada por meu querido pai.
Lembrar de Henry ainda me trazia lembranças dolorosas, mas eu já tinha superado sua morte e retomado minha vida. Adorava organizar meu jardim, pois outro hobbie que desenvolvi era o Paisagismo. Por ter tempo de sobra e muito espaço em minha mansão, logo tratei de decorar o lado de fora da forma mais harmoniosa possível. Nos fundos de minha casa havia um extenso jardim com flores de várias regiões do mundo e pequenas árvores frutíferas. Havia um pequeno arco feito de madeira rústica na entrada com alguns ramos de rosas o enfeitando. Além de um banco em uma pequena trilha no meio das flores.
— Senhora Mills, dona Regina está lhe esperando na sala. — escutei a voz de Elvira, minha governanta e confidente me chamando.
— Já disse que não precisa me tratar com formalidades. — respondi retirando minhas luvas de jardinagem e me aproximando da senhora de cabelos curtos grisalhos, pele negra, olhos castanhos e estatura baixa.
— É costume. — deu de ombros. — Além disso, gosto assim.
— Que estranho, geralmente Regina não precisa ser anunciada e muito menos costuma me visitar à essa hora da manhã.
— Ela parece bem desesperada. Será que é algo relacionado à Emma?
— Não tenho certeza. — suspirei exasperada e caminhei rumo à cozinha, já retirando meu chapéu de palha e o colocando em cima do balcão.
— Queria que minha filha não fosse tão cabeça dura quanto a Swan.
— Se não fosse assim, duvido que se amassem tanto.
Rimos baixo com seu comentário. Eu ainda me lembrava de quando Regina veio me contar que namorava uma garota. Ainda mais se tratando de uma transgênero. Claro que no começo foi difícil digerir a ideia, ainda mais para alguém como eu criada em uma família tão conservadora e religiosa. No entanto, ao conviver com as duas percebi que o sentimento era tão forte e verdadeiro, que a melhor maneira de manter minha filha perto de mim era aceitar a situação em que me encontrava. Com o passar do tempo, fui me afeiçoando à minha nora. Vendo nela uma terceira filha e uma oportunidade de Regina finalmente ser feliz.
Encontrei minha menina de uma forma que há muito tempo não a via. Suas roupas eram as mais improváveis se tratando de Regina. Uma calça jeans desgastada, uma enorme blusa de manga longa do Red Sox, time que Emma e meu neto eram fanáticos, tênis all star e o cabelo bagunçado. Seus olhos estavam vermelhos, o que indicava que provavelmente estava chorando e sua expressão era bastante aflita. Por apenas três vezes eu já tinha visto minha garotinha assim. Regina era a mais sensível de minhas duas filhas. No entanto, também era a mais difícil de se conviver e desvendar. Eu me lembro bem quando a vi tão triste. A primeira vez que brigou com Emma, quando ainda namoravam, quando perdeu o pai e quando minha nora foi embora há três anos.
— O que aconteceu, minha princesa? — indaguei, sentindo toda a preocupação por vê-la assim tão frágil. Coisa que uma mãe jamais quer presenciar.
— Eu a perdi. Eu a perdi de verdade.
— Oh, Regina... — lhe dei um abraço, enquanto sentávamos no sofá. — Conte-me tudo.
— Já faz uma semana que Emma chegou, me entregou os papéis do divórcio assinados e estávamos sem conversar. Até que a encontrei no The Habbit Hole. Eu estava acompanhada de Zelena e Robin. — revirei os olhos sem que ela percebesse, pois eu definitivamente não gostava do lenhador. — Acabamos discutindo na boate e eu disse que a esperaria. Eu me declarei, mamãe. De uma forma que há muito tempo não fazia. Mas quando pensei que finalmente ela voltaria para mim, acabei vendo-lhe beijar Lily.
— Vocês estão separadas há três anos. Além disso, o que estava esperando? Que ela simplesmente voltasse para casa depois de você expulsá-la e assumir um namoro com um homem há alguns meses?
— Não é só minha culpa! — rebateu irritada, se afastando um pouco de meus braços. — Eu a expulsei em um momento de raiva, pois estávamos brigando. Nossa relação não estava bem já tinha tempo. Emma também errou.
— Eu sei, minha menina. Um casamento não é feito apenas por uma pessoa. — tentei ser o mais calma possível, afinal de nada adiantaria dar um sermão agora. — Regina, antes de mais nada você precisa se resolver com esse Robin.
— Não adianta mais. Emma está com aquela desqualificada.
— Meu amor, escute bem o que vou lhe dizer, pois será a última vez. — peguei suas mãos entrelaçando com as minhas, e olhei fundo em seus olhos. — O tipo de amor que há entre você e Emma é tão especial e raro, que poucas pessoas tem o privilégio de vivê-lo. Henry é o maior fruto disso. Pense em tudo que Emma passou, principalmente para se tornar a mulher forte que é hoje. Pense nas dificuldades e nos momentos em que você esteve ao lado da minha querida nora. Vocês se amam Regina. Essa moça, a tal de Lily sempre tentou atrapalhar sua relação. E pelo que vejo ela está tendo sucesso. Mas eu posso dizer com toda a certeza do mundo, que Emma não a ama. Aliás, eu sei que vocês jamais se apaixonariam por alguém mesmo que passassem o restante de suas vidas separadas.
— Então o que eu faço? — sussurrou com uma expressão aflita.
— Vá e reconquiste sua mulher. Prove que é o sangue Mills que corre em suas veias.
Ela apenas assentiu me consentindo um sorriso fraco. Minutos depois estava totalmente recomposta e acabamos rindo de seu figurino. Por fim, após comermos uma salada de frutas maravilhosa, que apenas Elvira sabia fazer, minha filha decidiu ir embora. Naquela mesma tarde terminaria com Robin. Finalmente eu pude ter a esperança de ver os olhos de minha princesa brilhando novamente. Foram três anos angustiantes. A dor de Regina, era a minha dor. Apesar de não ser uma mãe muito carinhosa, admito, sempre amei e protegi minhas meninas da melhor forma que pude. Com todas as minhas forças.
Resolvi tomar um banho quente. Precisava relaxar um pouco. Alguns minutos na banheira me fizeram bem. Coloquei um conjunto social preto, bem básico, com joias simples e deixei o cabelo solto mesmo. Iria visitar Morgana, minha melhor amiga e uma das poucas que ainda se preocupavam comigo após a morte de meu marido. O problema das cidades pequenas e de se ter uma boa situação financeira, é que tudo é movido pelas aparências. Regras de etiqueta que comandavam um simples café na companhia de amigos. Tornando assim, as relações cada vez mais frias e robotizadas. Apesar de sempre manter a compostura, eu definitivamente odiava tantos melindres. Peguei as chaves do carro e meus óculos de sol. Estava me preparando para entrar em meu carro e sair, quando escutei uma voz grossa e rouca atrás de mim.
— Não, Lana. Você não pode entrar aí.
Rapidamente me virei, me deparando com um labrador de pelo dourado correndo em minha direção. Mas o que realmente me deixou estática foi a visão de um deus grego, que vinha logo atrás. Usava moletom cinza, uma blusa preta amarrada na cintura e o peitoral nu. Não pude deixar de reparar que alguns pelos negros adornavam os músculos protuberantes, até o abdômen definido. Gotas de suor escorriam em sua pele pálida, pois apesar do Sol não estar forte, o rapaz deveria estar fazendo cooper. Era alto. Os cabelos negros e barba cerrada, os olhos azuis eram penetrantes e brilhantes devido ao reflexo do dia claro.
— Dona Cora. — sorriu envergonhado, mas bastante galanteador. — Peço desculpas por minha cachorra, era geralmente me obedece, mas hoje está mais enérgica do que de costume.
— Você é um dos amigos de Zelena, correto? Estudava com minha filha. — consegui formular um pergunta, me restabelecendo rapidamente antes que o rapaz visse que perdi a fala.
— Sim. Meu nome é Killian Jones. Creio que não se lembra de mim, mas já vim em algumas festas em sua casa.
— Ah, claro. Eu me lembro bem desses momentos.
— Sempre foram as melhores da cidade, se me permiti dizer. — seu sotaque britânico apenas me deixava ainda mais arrepiada. — Bom, não quero tomar mais do precioso tempo da senhora. Espero que tenha um bom dia.
— Você não incomoda, senhor Jones.
— Por favor, me chame só de Killian. — sorriu mais uma vez galanteador.
— Apenas se não me chamar mais de senhora, apenas de Cora. Não sou tão velha assim. — eu não costumava a brincar desta forma, principalmente com os mais jovens, porém não consegui me segurar na presença daquela bela visão.
— Bom, se me permite dizer. A sua beleza em nada tem a ver com sua idade. — passou a mão pelos cabelos escuros, se aproximando um pouco. — Espero lhe encontrar mais vezes. Passar bem, Cora. — pegou em minha mão, lhe dando um beijo e fazendo uma pequena reverência.
— Tenho certeza que nos veremos novamente, Killian.
Nossos olhares se prenderam por mais alguns minutos, antes que ele finalmente se virasse chamando por sua cachorra. Balancei a cabeça afastando os pensamentos um tanto quanto obscenos que preencheram minha mente. Era apenas um homem jovem, que claramente deveria aproveitar de sua beleza e encantamento com muitas mulheres ou rapazes por aí. Conhecendo os amigos de Zelena, como eu conhecia, provavelmente era mais um que não levava compromissos a sério. No que eu estava pensando? Era uma viúva, de idade e com neto. Porém, durante todo o percurso até a casa de minha amiga, eu ainda lembrava do sorriso galanteador e dos músculos bem definidos de Killian Jones.
~~SQ~~
(Henry)
Revirei os olhos ao ver qual era a próxima aula. Odiava Álgebra, minhas matérias preferidas eram Literatura, História e Inglês, geralmente aquelas em que o restante dos meus colegas dormiam ou mexiam em seus celulares. Nunca fui de fazer muitas amizades, na verdade, eu conversava apenas com Nicholas e Ava. Os dois irmãos gêmeos que moravam perto de minha casa e nos conhecíamos desde pequenos. Eram meus melhores amigos e provavelmente os únicos que eu teria até terminar o colegial. Estava trancando meu armário, quando ela passou perto de mim. Grace era a garota mais bonita da escola, pelo menos na minha opinião.
Seus cabelos loiros caíam lisos pelos ombros, era um pouco mais baixa do que eu. Como era líder de torcida, tinha o corpo definido. Os olhos claros e pele clara. No entanto, em toda a minha vida, tínhamos trocado apenas duas palavras. Na verdade, eu nem gostava muito de me lembrar daquele dia. Afinal, eu tive a infeliz ideia de tentar fazer o teste para o time de basquete da escola. O que era bem estúpido, pois eu não tinha nenhuma coordenação motora. O resultado foi um nariz sangrando e um corte no supercílio. Grace estava por perto, ensaiando a coreografia com o restante das garotas. Ela perguntou como eu estava e me entregou um lenço para que eu limpasse o sangue, enquanto Jefferson, o professor de Ed. Física e pai de Grace, me entregava uma bolsa com gelo.
Foi o momento mais próximo que tive com a garota dos meus sonhos. Sim, eu gostava dela, mas nem tinha beijado pela primeira vez ainda. Obviamente não tinha nenhuma chance. Nicholas achava que eu deveria chamá-la para sair, já Ava dizia que se talvez eu mudasse minhas roupas ou o corte de cabelo teria mais sucesso. Porém, não queria me tornar como os babacas do time de basquete. Eu queria ser carinhoso, lhe dar flores e ler meus poemas favoritos. Levá-la para assistir um filme ou passear na praia. Claro que ela não deveria gostar dessas coisas. Com certeza preferia ir para as festas que os garotos do terceiro ano faziam. Jamais daria chance para um cara do segundo ano e tímido como eu. Esperei que ela entrasse em sua sala, enquanto a olhava. Segui para minha turma, rezando para que a aula não fosse tão entediante.
— E aí? O que vai fazer no fim de semana? — Nicholas me perguntou, enquanto eu me sentava ao seu lado. Ele era muito bom com as matérias exatas, por isso quase não prestava atenção na aula e me ajudava a estudar para as provas.
— Não sei ainda. Estava pensando em chamar minhas mães e meu tio David para um passeio em família, quem sabe assim elas não se acertam.
— Henry, você já parou para pensar que talvez elas não voltem? Ela namora, cara. Quando meu pai se separou, eu pensava que eles poderiam voltar, mas depois entendi que não tinha mais jeito.
— O Robin nunca dormiu lá em casa. Se minha mãe realmente gostasse dele, não via problema nenhuma em deixá-lo passar a noite. Além disso, eu vi como elas se olham. Nick, eu acho que se minha mãe voltasse para Storybrooke, tudo poderia se ajeitar. Só preciso de um plano.
— Quer dizer que nós estamos em mais uma operação?
— Como assim “nós”? — arqueei a sobrancelha e o encarei.
— Você acha que eu ia perder isso? Jamais. — sorriu animado. — Além disso, seus planos sempre são melhores quando eu te ajudo. Você sabe que sou um gênio.
— Você é um idiota, isso sim. — joguei uma bolinha de papel em sua cabeça, mas ele apenas revidou e rimos juntos.
A aula passou mais rápida do que imaginei. Talvez porque eu estava ansioso para por o meu plano em ação. Claro, faltavam alguns ajustes, eu precisava da ajuda de várias pessoas ligadas às minhas mães. Porém, estava confiante. Se tudo saísse como eu imaginava e juntando com um pouco de sorte, logo seríamos uma família feliz novamente. Eu nunca vi minhas mães discutindo, mas eu sempre sabia quando estavam brigadas. Emma era a mais de difícil de se ler, sempre muito reservada e escondia o que sentia. Já Regina... Minha mãe morena era do tipo que se expressava pelo olhar e por alguns gestos. Quando ela estava nervosa ou triste, eu sabia apenas por observá-la alguns minutos.
Eu sentia tantas saudades da minha família unida, que até mesmo chorei algumas noites após a separação. Eu não culpava Emma por ir embora de casa, porém sentia raiva por ter saído da cidade e Regina por tê-la expulsado. Por algumas vezes quis gritar, expressar toda minha tristeza por elas estarem se divorciando. Mas eu sabia que não devia. Primeiro porque precisava apoiá-las em um momento tão complicado, segundo porque minhas esperanças de voltarmos ao que éramos nunca morriam. Enquanto voltava a pé para casa com Nick e Ava, pensava qual seria o meu primeiro passo. Os dois tagarelavam sobre como me ajudar e no fim acabaram brigando. Não dei muita moral, porque eles brigavam quase toda hora. Eram gêmeos, mas tinham personalidades totalmente opostas.
Dei tchau para ambos, que ainda discutiam, e combinamos de nos encontrar mais tarde para uma maratona de videogame. Nick e Ava eram excelentes jogadores, então sempre fazíamos campeonatos valendo alguma coisa. Geralmente eram quadrinhos ou mangás. Como minha mãe ainda estava na prefeitura, resolvi dar o meu primeiro passo na operação, que ainda não tinha nome. Liguei para Ruby, para meu tio David e tia Mary e para Cora. Eu não costumava a chamá-la de avó, mas éramos muito unidos. Com minha avó Ingrid eu falaria mais tarde, pois ela passava o dia cuidando do haras que meu avô George era dono. Logo todos estavam sentados na sofá da sala, enquanto eu estava em pé de frente para eles.
— Até agora eu não entendi porque você nos chamou aqui, menino. — Ruby disse enquanto cruzava as pernas. — Minha avó vai me matar se souber que saí no meio do expediente.
— E eu tive que deixar a delegacia sozinha com o Graham. — David completou.
— Primeiro, você é a dona do Granny's, então não exagere. — rebati para minha madrinha, que apenas me deu língua e sorriu. Tínhamos uma relação diferente, pois Ruby era a pessoa mais animada que já conheci. Assim como tia Zelena. — E você é xerife, mas o Graham tá na delegacia tem mais tempo.
— Menino, você anda muito folgado. — meu tio fez menção de ir atrás de mim, mas revirei os olhos e comecei a explicar.
— Eu chamei todos aqui porque preciso colocar um plano em ação.
— Ah não! — Mary balançou a cabeça. — É mais uma das suas operações. Desde pequeno você tem essas ideias mirabolantes. Sempre me deu o maior trabalho. — minha tia era professora da turma infantil, então me dava aulas quando eu era pequeno.
— Eu sabia que o sangue Mills um dia ia se manifestar, meu neto. — Cora se levantou e se aproximou de mim, colocando uma mão em minha bochecha. — Não precisa nem explicar. Esse seu plano é sobre fazer com que suas mães reatem, não é?
— Sim. — abaixei a cabeça e suspirei. — Não aguento mais essa situação. Eu sei que elas são adultas e precisam se entender sozinhas. Que minha mãe namora Robin, mas eu também sei que elas ainda se amam. Eu vejo isso.
— Henry, suas intenções são boas. Mas já se fazem três anos. Além disso, Emma voltará para NY após o Natal. — tio David sorriu tristemente.
— Então por que ela ainda mantém seu apartamento antigo aqui? Por que ela voltou apenas para entregar os papéis do divórcio? Por que minha mãe não deixa o Robin passar a noite e eles mal saem juntos? Por que ela dorme com o pijama da Emma e voltou a chorar agora que a data de aniversário de casamento está se aproximando? Por que os olhos das duas brilham quando se encontram? — explodi descontando tudo que estava guardando há três anos. Senti algumas lágrimas quentes descendo em meu rosto, mas não podia evitar. — Eu tô cansado disso! As duas são teimosas e estão infelizes! Eu estou infeliz!
— Ei, ei... — Ruby se levantou e me abraçou. — Calma, garoto. Nós entendemos e vamos te apoiar ok?
Sorri enquanto passava o braço por sua cintura. Vivíamos nos implicando, às vezes eu pensava que ela era a adolescente e não eu. Tínhamos uma relação bem diferente do que os afilhados e madrinhas costumavam ter. Mas Ruby sempre foi a pessoa que busquei apoio quando eu não me sentia confortável falando com minhas mães. Era a primeira pessoa que eu ligava quando tinha um problema ou quando tinha aprontado. Desde pequeno eu sabia que podia confiar nela. Na verdade, sempre fui sortudo, porque sabia que podia confiar em todo mundo que estava ali. Mesmo agora que minhas mães estavam separadas.
No fim, até mesmo minha tia Mary concordou em participar da operação. Expliquei todos os detalhes. Eu tinha pensado em tudo, até mesmo em alternativas para caso algo não desse certo ou minhas mães agissem diferente do que eu imaginava. Eu as conhecia o suficiente para saber a reação de cada uma, porém elas andavam tão estranhas que era melhor me preparar para qualquer coisa. Ruby foi a primeira a ir embora, porque realmente mesmo sendo dona do Granny's, eu sabia que Granny iria matá-la se soubesse que ela tinha saído no expediente. David e Mary foram logo depois. Meu tio tinha que terminar seu turno, e minha tia tinha aula para planejar. Sobramos apenas Cora e eu. Resolvemos preparar o jantar, como surpresa para minha mãe Regina. Minha avó não era do tipo que cozinhava sempre, mas a comida dela era deliciosa. Claro que não tão boa quanto a de Elvira.
— Sabe, a sua mãe também costumava a fazer planos como você. — comentou enquanto terminava de temperar a carne.
— É mesmo? Eu sempre achei que mamãe Emma fosse assim. — respondi enquanto enxugava as louças e colocava nos armários.
— Bom, você é uma mistura de ambas. — sorriu docemente e voltou sua atenção para as panelas no fogão. — Zelena foi sempre a mais aventureira. Brigávamos muito, principalmente porque o seu avô a defendia. Já Regina era diferente. Acho que por isso não tínhamos uma relação muito profunda. Na verdade, ela é parecida comigo quando jovem.
— Mas hoje vocês são unidas. — franzi o cenho, confuso.
— Nem sempre foi assim. Ela não se abria comigo e eu admito que quase nunca dava liberdade para isso. As coisas pioraram um pouco quando ela chegou em casa dizendo que namorava Emma, uma garota. Só que naquela época, sua mãe tinha acabado de começar a transição. Os hormônios ainda não faziam muito efeito, portanto ela ainda tinha a aparência um pouco masculina. Só que claro, já se vestia com roupas femininas.
— Mas vocês hoje são amigas. Minha mãe Regina até mesmo fala que Emma conspira com a senhora contra ela.
— Exagerada. — rimos juntos. Depois Cora ficou séria, se encostando no balcão com sua postura elegante. — Você precisa entender, Henry, que eu vim de uma época totalmente diferente do que a sua e de suas mães. As pessoas eram bastante conservadoras e religiosas. Havia preconceito aberto contra negros, latinos ou outras etnias. Gays e lésbicas não podiam se assumir e quando o faziam eram totalmente excluídos. Pessoas trans então, essas nem era vistas nas ruas. Todos viviam na clandestinidade, reclusos em bairros afastados ou mantinham duas vidas. Aquela onde eram aceitos pela sociedade, e aquela onde faziam coisas escondidos. Meu pai sempre foi um homem machista e reacionário. Minha mãe, como toda mulher na época, apenas aceitava as ordens de seu marido. Preocupava-se com o serviço doméstico e a educação dos filhos.
— Nossa, deve ter sido difícil. Sabe, nas aulas de História sempre vemos mesmo que muitas coisas mudaram nas últimas décadas. Mas eu não lembro do meu avô como alguém machista e conservador. E nem a senhora, na verdade.
— É porque nós aprendemos a aceitar que nosso modo de vida, nem sempre é o correto. — sorriu e acariciou minha bochecha. — Na verdade, não existe uma forma certa de se viver. Cada um tem suas condições, seus problemas, suas limitações. No começo eu já não gostava do fato de sua mãe namorar uma mulher, mas uma mulher trans era pior ainda. Eu já conhecia Ingrid e George, já sabia que Emma era diferente. A elite de Storybrooke foi muita dura com os Swan. Meu marido foi o primeiro a apoiá-los. Discutimos muito por isso, até o dia em que eu percebi que suas mães se amavam. Que por mais que eu me esforçasse em separá-las, jamais conseguiria e ia apenas fazer com que Regina me odiasse.
— Então Emma ganhou sua confiança?
— Não, meu querido. Eu ganhei a dela. — voltou a se aproximar do fogão, apagando o fogo, já que a comida estava pronta. — O que sua mãe ganhou foi minha admiração. Eu vi o quanto Emma sofreu nas mãos das pessoas dessa cidade. Hoje ela é querida por todos, mas houve uma época em que não era bem assim. Sua mãe me ensinou a desconstruir certos conceitos equivocados. Sou grata por isso. Mas o que quero lhe dizer aqui é que estou bastante orgulhosa de você, principalmente por hoje. Eu percebi que você é um Swan, definitivamente, mas acima de tudo é um Mills. — beijou minha testa.
— Eu só quero minha família de volta. — respondi sentindo um aperto no peito.
— Vai dar tudo certo ok? Vai dar tudo certo.
Após esta pequena conversa com minha avó, fiquei mais animado com meus planos e senti a esperança crescer dentro de mim. Minha mãe Regina não demorou a chegar, e mesmo surpresa por encontrar minha avó ali fomos comer. O jantar foi bastante alegre, com conversas relacionadas ao festival que seria em duas semanas. Storybrooke, como toda cidade pequena, tinha suas tradições e festas típicas. O festival de gastronomia era uma delas. Por ter famílias italianas, francesas e irlandesas ali, a festa acontecia como uma forma de relembrar essas culturas. Não eram apenas comidas típicas de cada país, mas também músicas e no fim o dinheiro arrecadado pelas barracas era doado ao orfanato da cidade.
Minha mãe estava um pouco estressada com os preparativos. Primeiro porque sempre tinham aqueles que bebiam demais, como o caso do Leroy, um sujeito baixinho, fofoqueiro e rabugento que sempre era preso por se meter em confusões. Além disso, o convento e a escola eram as duas instituições que ajudavam na organização do evento. A madre superiora era uma mulher um tanto quanto rígida e mal-humorada, e Mary Margaret tinha o poder de tirar minha mãe do sério. Eu me divertia quando as duas se implicavam, porque mesmo brigando elas sempre estavam juntas e tinham uma amizade bastante singular. O bom de quase todos se conheceram desde jovens era que eu me sentia em uma enorme família e única. Os amigos de minhas mães eram como tios para mim e isso me ajudava bastante. Nunca senti a falta de um pai, pois minhas figuras masculinas eram Graham e David. Já Zelena, Ruby e Mary viviam me paparicando e enchendo de presentes. Eu conseguia o que quisesse se pedisse para elas.
Cora era mais rígida e séria, só que no fim eu sempre conseguia convencê-la. Já Ingrid e George me levavam em viagens, para a fazenda onde eu cavalgava e também me davam os melhores presentes que alguém pudesse ganhar. Sorrindo e ansioso para dar o primeiro passo em minha grande operação, me despedi de minha mãe e minha avó, que estavam na sala tomando vinho e subi para meu quarto. Logo Nick e Ava chegariam para jogarmos e por estar à noite eles com certeza dormiriam aqui. Em alguns minutos meus amigos estavam no meu quarto, enquanto conversávamos e jogávamos concentrados. No entanto, eu ainda estava pensando em coisas para o plano e acabei perdendo a primeira rodada de Mortal Kombat X para Ava, era a vez de Nick então deixei os dois ali e desci para preparar chocolate quente.
As luzes da sala e da cozinha estavam apagadas, o que indicava que minha mãe já tinha subido para dormir. Como era sexta-feira, ela não se importava que eu ficasse acordado até mais tarde, mesmo porque os gêmeos estavam aqui. Preparei uma garrafa térmica com chocolate quente, peguei alguns cookies e três copos de plástico. Todos eles de heróis. Mamãe não gostava que eu mexesse com vidro, mesmo que meu aniversário de 16 anos estivesse chegando. Já estava no corredor, quando escutei um choro baixo. Virei a cabeça para o rumo do quarto no fim do corredor, onde era o quarto de minhas mães. O meu ficava quase ao lado, e o de hóspedes do lado das escadas. Uma feixe de luz saía pela porta entreaberta, indicando que ela ainda estava acordada e provavelmente o motivo eu conhecia. Deixei as coisas com os meninos, dando a desculpa de que ia no banheiro. Aproximei-me lentamente da porta.
— Mãe? — chamei baixinho, enquanto entrava lentamente. Ela não sabia que eu sempre a escutava chorando, por isso tentei não assustá-la.
— Henry. — disse enxugando as lágrimas rapidamente e se endireitando na cama. Usava uma camisa cinza, que ia quase até seus joelhos. A mesma que Emma costumava usar para dormir. Ela era mais alta, por isso a roupa estava tão grande na mamãe.
— O que é isso? — apontei para uma caixa em suas mãos, feita de madeira. Sentei-me ao seu lado na cama.
— Lembranças. — sorriu tristemente.
Dentro havia fotos, que rapidamente percebi serem de quanto ela era jovem. Algumas com minha tia Zelena, outras com Graham e Ruby. Porém, as de maior número era ela com mamãe Emma. As duas sorrindo, abraçadas ou se beijando. Sorri com aquilo. Elas eram tão jovens, talvez poucos anos mais velhas do que eu. Mas mesmo assim, pareciam felizes e apaixonadas. No entanto, a que mais chamou minha atenção foi uma que estava na mão de Regina. Ela a observava com a expressão triste e ao mesmo tempo encantada.
— Posso ver?
— Claro. — respondeu me entregando a foto.
Nela as duas estavam bem diferentes. Mamãe usava um vestido vermelho, bastante decotado e com algumas plumas em volta do pescoço. Seu cabelo preso em um coque e uma maquiagem forte. Seu olhar era imponente, aquele mesmo que eu costumava a chamar “modo prefeita”. Quando ela ficava séria e você a obedecia apenas com um olhar. Ao seu lado, segurando em sua cintura e em uma de suas mãos, estava Emma. Os cabelos dourados em uma trança longa, o rosto quase sem maquiagem, uma roupa semelhante a de um cavaleiro medieval, mas com corte feminino e justa. Nas cores azul com creme. Elas estavam bem próximas, e a testa de Emma estava colada ao rosto de mamãe. Como se dançassem ou algo assim.
— Quando foi tirada?
— No dia em que nos beijamos a primeira vez. — mamãe olhava o nada, mas eu sabia que ela estava se relembrando de cada momento. — Foi quando eu finalmente percebi que estava completamente apaixonada naquela garota que me implicava o tempo todo, mas que era a minha melhor amiga. Era uma festa à fantasia. Sua mãe dizia que eu parecia uma Rainha Má, então eu a provoquei falando que ela era uma princesa rebelde.
— Mas aqui ela parece mais um cavaleiro.
— E de fato era essa sua fantasia. — sorriu para mim, com os olhos marejados. — Naquele dia ela me disse que a princesa rebelde se tornaria a protetora da Rainha, porque apenas ela conseguia ver o que todos não viam. Ela prometeu que estaria sempre ao meu lado e daria sua vida por mim se fosse preciso. Então, em uma reverência perfeita, ela estendeu sua mão e me chamou para dançar. Foi quando nos beijamos.
— É uma linda história.
— Sim. — enxugou as lágrimas novamente. — Pena que agora a Rainha está aqui, sozinha em seu castelo e pensando em como deixou sua Cavaleira Branca escapar.
— Ela fez uma promessa, mamãe. — dei um beijo em sua testa, me levantando da cama e devolvendo a foto. — E um cavaleiro nunca quebra suas promessas.
— Acho que isso só existe em contos de fadas, filho.
— Bom, as ficções são sempre cheias daquilo que desejamos que seja realidade, não é? Vai ficar bem aqui?
— Sim. — assentiu. — Pode voltar para seus amigos.
— Boa noite, minha Rainha.
— Boa noite, meu pequeno príncipe.
Sorri com o apelido que ela costumava me chamar quando era pequeno. Fechei a porta e voltei para meu quarto, contando o plano em detalhes para Nick e Ava. Eu precisava agir rápido. No dia seguinte colocaria minha operação em prática. Agora era oficial. Eu daria tudo para completar a Operação SwanQueen.
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