Touch
2 Hurricane Drunk
Notas iniciais
Mal conseguia respirar. Todo esse tempo que passou longe, mal recebia notícias de sua ex-mulher. Apenas Ruby, Graham e Henry lhe diziam como ela estava. Até que parou de perguntar, pois a dor era demais para suportar. Seus pais ainda estavam chateados com Regina, por isso mal falavam em seu nome. Comunicavam-se apenas pelo Henry. Levantou-se tentando se manter firme, sabia que precisava ser assim. Emma segurava os papéis do divórcio em uma das mãos, o suor frio molhando as letras.
— Precisamos conversar. — foi o que conseguiu dizer, após sair rumo ao corredor onde os banheiros ficavam. Escutou os saltos de Regina atrás de si, como sentira falta daquele som.
— Há quanto tempo chegou?
— Hoje mesmo, pela manhã. — engoliu em seco. — Eu vim para lhe trazer os papéis do divórcio. Já estão devidamente assinados. — estendeu o que segurava para a morena.
— E-Eu pensei que você mandaria pelo correio. — ainda estava em choque, na verdade, imaginou que Emma seria mais resistente, contava com isso para ser sincera.
— Vim vistar a cidade e passar o Natal com meus pais. — balançou a cabeça negativamente, deixando os papéis em cima de um aparador próximo. — Não se preocupe, depois acertamos como ficará a guarda de Henry.
— Então você volta para NY.
— Sim. Assim que passar o feriado. Bom, é só isso mesmo. Até mais, Regina.
Saiu sem dar chance para a morena responder. Sentiu seus olhos arderem com as lágrimas que se criaram, mas foi forte e não as deixou cair. Passou pela mesa onde estava seu filho e sua cunhada, que estava grávida de cinco meses. Mary Margaret era esposa de seu irmão David há pouco mais de quatro anos. Namoravam desde o colegial, assim como a maioria dos casais da cidade. Assim como a prória Emma e Regina. Terminou seu chocolate quente, em silêncio. Os outros dois ocupantes da mesa queriam interrogar a loira, mas sabiam que não era um bom momento. Na verdade, sabiam que Swan era fechada em relação ao que sentia.
Pagou a conta, combinando de passar ali mais tarde para conversar com Ruby. A morena de cabelos castanhos, que agora já estavam sem suas mechas vermelhas tradicionais, ainda continuava trabalhando com a avó. Mesmo que tenha feito faculdade resolveu permanecer com o negócio da família depois que Granny adoeceu devido à idade. Antes que pudesse sair dali, pois sentia o ar muito abafado, viu que um homem desconhecido entrava no estabelecimento. Era alto, forte e com a barba cerrada. Os cabelos castanhos claros e os olhos azuis. Não era muito bonito, mas tinha presença. Então suas mãos fecharem em punho. Ele se dirigiu até Regina e deu-lhe um longo beijo nos lábios.
— Mãe? — Henry encostou a mão em seu ombro.
— Vamos. — respondeu com a voz embargada, mas respirou fundo para recobrar a postura.
Saiu sem dizer mais nada ou olhar para trás, por isso não percebeu o olhar preocupado e triste que a morena lhe lançou. Deu carona para Mary, deixando-a no apartamento em que morava com David, e Henry na casa de um amigo. Sua aula já tinha acabado. Não sabia muito bem para onde ir porque não queria confrontar os pais naquele momento. Ingrid e George com certeza lhe enecheriam de perguntas e tentaria lhe convencer de voltar para Storybrooke. Parou no acostamento que levava até o limite da cidade. Deixou sua cabeça encostar no volante e algumas lágrimas caírem.
Vê-la com outra pessoa, era definitivamente algo que Emma jamais imaginou. Mesmo nos três anos em que esteve fora. Claro que as chances de Regina se envolver com alguém eram grandes. Afinal, mesmo ainda casadas, não moravam no mesmo lugar e muito menos tinham algum compromisso. Os papéis do divórcio eram apenas formalidades. Limpou o rosto e ligou o carro. Dirigiu por alguns minutos até chegar no lugar em que mais sentia paz. Na verdade, Storybrooke continuava sendo seu lar. Jamais se compararia à movimentada NY. No entanto, mesmo com uma vida boa que levava na metrópole, Emma queria voltar.
Enfiou os pés na areia, após deixar suas botas no carro. Sentir a brisa do mar era reconfortante. O cheiro de sal, e o gosto que ficava na boca lhe traziam uma sensação libertadora. O Sol estava fraco e o vento era frio. Colocou aos mãos no bolso da jaqueta, e continuou caminhando por aquela imensidão branca que era a praia. Por estarem no estado do Maine, a água era sempre gelada e raramente fazia um clima bom para entrar na água. Fechou os olhos absorvendo tudo que podia. Sorriu tristemente ao se lembrar do dia em que ela e Regina transaram ali. Era na noite do baile da escola. Tinham fugido como todo bom casal adolescente, que está se descobrindo em uma relação.
Por estar de noite, imaginaram que não haveria ninguém na praia. Então estenderam uma toalha na areia e ali se amaram mais uma vez. Tinham feito sexo antes, mas para Emma aquela foi uma das melhores noites de sua vida. Nunca sentiu algo tão intenso e a sensação de ver a pele morena de Regina brilhar à luz do luar era inebriante. Porém, o que foi lindo ao mesmo tempo foi cômico ao perceber que tinha flagrado David com Mary, Ruby com uma garota que não se lembrava o nome e Graham com Zelena, a irmã mais velha de Regina. Nessa época a ruiva estava na faculdade, mas sempre preferiu pessoas mais novas que ela. Não conseguiu evitar a risada ao se lembrar da cena que foi encontrar todos os seus amigos tendo a mesma ideia brilhante que elas, era uma aventura que serviria de história para seus filhos e netos. Bom, talvez agora não contasse para ninguém. O que era feliz, se tornou apenas uma lembrança que doía em seu peito toda vez que vinha à sua mente.
~~SQ~~
Ainda não acreditar que segurava aqueles papéis em suas mãos. Tinha os mandado para sua, agora ex-eposa, apenas porque Robin insistira. Além disso, queria ver Emma lutando pelo casamento delas. Um casamento que durou por quase 17 anos. Praticamente a mesma idade de Henry, isso sem contar os dois anos que passaram namorando antes. Guardou os papéis na bolsa sob o olhar atento de Robin. A verdade é que queria rasgá-los e jogá-los na lareira de sua casa, a casa que também era da loira. Mordeu os lábios, disfarçando a raiva e frustração. Sorria forçadamente para o que seu namorado falava.
Regina não o amava. Na verdade, jamais conseguiria. Como poderia se ainda sentia as pernas fraquejarem e o coração bater mais forte ao ver sua ex? Não sabia o que pensar naquele momento. Sua cabeça estava uma bagunça. Doía se lembrar do olhar magoado e furioso que Emma lhe deu assim que os vira juntos no Granny's. Porém, o que ela poderia fazer? Sabia que sua parcela de culpa era maior. Talvez se não tivesse deixado se levar pela raiva e mágoa, poderiam ter resolvido tudo e estarem juntas nesse momento. Não queria se lembrar disso agora, então tentou ao máximo prestar atenção no tom animado do namorado.
— Acho que logo Will e eu poderemos abrir nosso próprio estabelecimento. — Robin contava seus planos com um grande sorriso no rosto.
— E como vão conseguir capital para isso?
— Bom, ele tem suas economias e eu estou colocando parte do meu salário em uma poupança, assim pode render e logo teremos o necessário para um financiamento.
— Espero que sim.
Concedeu-lhe um sorriso fraco e levou a xícara com café aos lábios. Amargo e sem acúçar, assim como sua vida andava nos últimos anos. A verdade é que queria sair dali, ir para casa e tomar um bom banho quente. No entanto, sabia que não podia simplesmente inventar uma dor de cabeça. Mesmo porque Robin com certeza insistiria em acompanhá-la. Era um bom homem, sempre atencioso. Tinham a mesma idade. Robin era lenhador e no momento trabalhava com Marco, o carpinteiro da cidade. Tinha se mudado para Storybrooke, trazendo consigo o melhor amigo, a ex mulher e o filho, Roland. Este tinha apenas cinco anos, mas era bem esperto para sua idade. Regina não via Marian, a mãe do garoto como uma ameaça. Entendia que Robin era a única família que ela tinha.
Além disso, mal sentia ciúmes do namorado, como poderia achar ruim algo que de fato não lhe afetava? Mais um sinal de que aquela relação estava fadada ao fracasso. Era uma pessoa ciumenta e um tanto quanto possessiva, um dos motivos para que brigasse sempre com a ex-esposa. O fato de não sentir o mesmo com Robin, apenas enfatizava o quanto não o amava. Com certo esforço, se livrou de Robin, inventando que tinha documentos em casa lhe esperando para serem revisados.
Mesmo após seu banho quente, a sensação de alívio não veio. Sentou-se no sofá, de frente para a lareira. Uma mão segurando uma taça de vinho e a outra os papéis do divórcio. Passou o dedo carinhosamente sobre a assinatura. A mesma mão que a fez um dia lhe dera carinho e todo o apoio que precisava. Balançou a cabeça depois de horas ali sentada se martirizando. Resolveu se arrumar, pois caso não saísse logo com certeza sua irmã lhe buscaria até voando em uma vassoura se fosse preciso. Não evitou sorrir com a imagem. Adorava provocar Zelena, e sempre mantiveram esse clima em suas conversas. No fim, era apenas uma relação saudável entre irmãs.
Em pouco mais de uma hora estava pronta. Cabelos devidamente penteados, de uma forma mais casual lhe deixando com um ar mais jovem. Vestido azul e justo com o comprimento quase nos joelhos. Era sua cor favorita, embora usasse mais preto. Sapatos escuros com saltos altos e finos. Uma maquiagem mais forte, com seu típico batom vermelho deixando a cicatriz sensual mais evidente. Era sua marca registrada.
— Uau! Você está linda, milady. — Robin estava parado do outro lado da porta com um sorriso galanteador. — Mas não quero que vá com essa roupa.
— Primeiro, quem precisa querer algo sou eu. Segundo, não estou com humor para crises de ciúmes.
Estava irritada e saiu sem esperar por uma resposta. Robin a seguiu a contragosto. Sabia que Regina era uma mulher de personalidade forte. Mas para o lenhador, ele era o homem, ela lhe devia respeito e obediência. No entanto, ele estava enganado em pensar que a prefeita aceitaria isso.
~~SQ~~
Emma se perguntava, pela milésima vez, o que fazia ali. Obviamente, se não fosse pela insistência de Ruby, não saíria tão cedo. Claro que sua melhor amiga sempre tinha as armas perfeitas para lhe convencer a fazer algo. Desde crianças era assim e por sinal, isso não tinha mudado. Ruby fora uma das pessoas mais importantes nesses três anos que se passaram. O que só aumentava a amizade entre as duas. Fazia Emma se relembrar do passado, de uma época onde precisou do apoio de muitas pessoas ao mudar totalmente sua vida. Lembrava-se com certa tristeza de sua transição, mas sabia que no fim as coisas deram certo.
— O que viemos fazer aqui mesmo? — resmungou batendo os pés no chão, quase como uma criança birrenta.
— Beber, dançar e te arranjar uma boa mulher.
— Eu assinei o divórcio ontem.
— Queridinha, isso só me faz ter mais razão ainda em te tirar de casa. — disse enquanto puxava a amiga pela jaqueta, entrando no estabelecimento. — Primeiro, eu pedi para o Moe selecionar músicas bastante especiais para esta noite. Segundo, eu adoro você e a Regina juntas e logo trabalharemos no plano de reatar seu casamento, mas hoje você precisa se divertir.
— Ruby, não tem mais casamento! Acabou! Ela namora e eu entreguei os papéis hoje.
— Detalhes, apenas detalhes. — piscou para a loira e sorriu maliciosamente. — Agora, vamos à minha bebida favorita. Tequila!
Levantou os braços animada, caminhando até o balcão e pedindo duas doses. The Habbit Hole era a única casa noturna de Storybrooke, que funcionava como bar durante o dia. Moe French era o dono desde... Bem, desde que Emma se conhecia por gente. Era o primeiro lugar onde ela tinha ficado bêbada, onde ela tinha saído com os amigos e ficado até mais do que 00h fora de casa e a primeira boate onde levou Regina. Claro que as lembranças vinham à tona, o que deixava a loira sem saber dizer se iria realmente se divertir ali. No entanto, deu de ombros e se pôs a beber com a melhor amiga. Afinal, ela merecia recomeçar com o pé direito.
Emma usava um conjunto de terninho azul, com blusa preta por baixo. Saltos não muito altos e os cabelos presos. Como não gostava de maquiagens muito fortes, opetou apenas pelo contorno de um lápis preto e batom vermelho. Estava deslumbrante, e ciente de que muitos olhares femininos eram dedicados à ela. Homens também lhe admiravam, mas por estarem em uma cidade pequena quase todos sabiam de sua orientação sexual. Conhecia a maioria dos frequentadores ali, exceto os turistas que vinham à Storybrooke em busca de um local calmo e bom para acampar, pescar e passar um fim de semana ou férias.
A decoração era um tanto quanto rústica. Móveis e paredes de madeira, puffs espalhados perto da pista de dança e mesas posicionadas nos cantos. Algumas fotos e pôsteres de artistas, famosos e outros. Tinha desde Marilyn Monroe, passando pela banda Kiss até Florence + The Machine. Havia música pop, rock clássico, anos 80 e 90. Era um ótimo lugar e onde Emma se sentia bastante agradável. Já estava em sua terceira dose de tequila. Outras pessoas tinham se juntado à ela e Ruby, em uma roda de velhos amigos. Graham, Mulan, Aurora com seu marido Eric. Porém, o sorriso da loira morreu assim que seus olhos caíram na porta da boate. Ela estava lá. Linda e estonteante, como se lembrava. Acompanhada pelo namorado e por Zelena.
(Emma)
Meu coração estava a ponto de sair pela boca, eu conseguia senti-lo bater freneticamente mesmo com o som alto e as conversas em volta. Meus antigos amigos possivelmente perceberam para onde eu olhava, pois todos ficaram em silêncio. Respirei fundo tentando me acalmar, o fato de estar alcoolizada só aumentava minha vontade de chorar ali mesmo. No entanto, jamais faria isso, ainda mais com o tal Robin por perto. Eu seria forte, como sempre fui desde que nasci e precisei enfrentar todo o tipo de dificuldade possível. Eu estava acostumada a não transparecer minhas decepções, principalmente depois que comecei minha transição. Meu olhar se cruzou com o dela e por um momento vi Regina sem palavras.
Porém, não durou muito. Logo ela desviou o olhar e disse algo à Zelena, lhe condecendo um belo sorriso. Não desgrudava de Robin e eu entendi isso como um recado. Virei-me novamente para Ruby e a roda, voltando ao assunto que estávamos antes. O clima pesado logo foi passando à medida que fomos pedindo mais doses de tequila e algumas cervejas. Eu sabia que misturar bebidas diferentes não era lá a coisa mais esperta do mundo, mas realmente não estava nem um pouco preocupada com a ressaca que teria no dia seguinte. Além disso, eu passaria o dia com Henry e meus pais. Isso me deixava sempre melhor.
— Vamos dançar? — ofereceu Ruby, e eu entendia aquele olhar.
— Só se for agora. — respondi animadamente, o que era normal depois de certa quantidade de álcool.
— Hoje Moe disse que fará uma lista especial para você. — Mulan comentou se aproximando de nós duas apontando em minha direção. — Desde os velhos tempos, até os atuais.
— Como vocês aprontaram isso?
— Simples, minha cara. Eu entreguei seu Ipod pra ele. — Rubs piscou para mim e sorriu como sempre fazia quando aprontava. — Agora, você vai mostrar para sua querida esposa o motivo dela dar um pé na bunda, muito bem dado alías, naquele ser com cheiro de floresta.
— E não menos importante, vamos relembrar a velha Emma Swan que de tímida só tinha a cara e o andado, mas sabíamos que era a maior come quieto do colégio. — Graham completou me arrastando para a pista, junto com meus outros amigos.
O máximo que consegui foi apenas assentir. A verdade é que eu queria sim provar que era melhor do que aquele lenhador. No entanto, sabia que essa era uma atitude bastante infantil, mesmo até para meus parâmetros. A música era um dance dos anos 80, que eu rapidamente reconheci como uma das que eu mais gostava de dançar. Muitas pessoas foram para a pista, alguma relembrando velhos tempos e outras por gostarem de músicas que não faziam parte de sua geração. Era bom saber que clássicos não morriam facilmente. Graham, Mulan e Ruby me mantinham sempre com um copo de bebida na mão ou uma garrafa. Era comum entre nós, principalmente nessas situações.
— Loirinha! — gritou Zelena ao se aproximar, acompanhada de Belle French, que parecia bastante corada e embriagada.
— Minha figura preferida. — hesitei em dizer cunhada, afinal não seria verdade.
Regina e Robin estava logo atrás, mas eu não consegui dizer nada. Provavelmente se abrisse a boca saíriam palavras não muito agradáveis. Percebi que o namorado de minha ex me encarava com a expressão fechada. Apenas o fitei de volta, demonstrando que não me deixava me intimidar por um sujeito como aquele. Eu tentava o máximo não prestar atenção em Regina, mas era praticamente impossível. Ela estava a personaficação de própria Afrodite, ou melhor, alguma deusa latina. Cora Mills, minha ex sogra, era descendente de brasileiros por parte do pai.
Porém, mesmo que eu não quisesse transparecer toda minha dor, a música não me ajudava. Eu conhecia aquela letra e naquele momento, era algo que traduzia tudo o que eu era e sentia naquela fase de minha vida. Com certeza todos sabiam o motivo para que eu dançasse e cantasse de uma forma bastante empolgada. O álcool me deixava ainda mais desinibida. Claro que eu estava consciente e raras vezes acordei sem me lembrar da noite anterior, mas eu merecia extravasar tudo que guardei durante três anos. Ruby me abraçou, enquanto eu suspendia meu copo e praticamente gritava a letra, minha voz quase sobrepondo a de Florence, embora ela tenha uma afinação infinitamente melhor do que a minha.
Zelena dançava bem próxima de Belle e eu sorri com aquilo. A garota mais nova, de cabelos avermelhados, pele clara e olhos azuis parecia bastante delicada. Enquanto a irmã mais velha de Regina parecia uma furacão ruivo. Os olhos verdes e intensos deixavam qualquer um louco, mas eu sempre fui imune aos seus efeitos. Afinal, uma vez presa aos encantos de minha deusa latina, não sobrava espaço para observar mais ninguém. Graham já estava se atracando com uma loira qualquer, que sinceramente nem ele mesmo devia saber quem era. Mulan estava quase na mesma fase que eu. Desde que éramos adolescentes ela era apaixonada por Aurora, e mesmo sendo melhores amigas, a minha amiga de traços asiáticos jamais superou o casamento de sua amada com Eric, um sujeito que a mesma conheceu na faculdade.
Estavam todos reunidos em suas dores ou prazeres, Rubs como sempre estava feliz. Por poucas vezes eu a vi chorar ou deixar se abalar por qualquer coisa. Seu coração não pertencia à ninguém, a não ser à ela mesma. Eu admirava isso, mas mesmo tendo meu passado, era uma mulher que almejava um casamento feliz e uma família. Bom, eu tive isso por um tempo. Agora, era obrigada a observar aquele brutamontes beijando minha ex na minha frente. Eu senti a lágrima escorrer, mas a enxuguei tão rápido, que ninguém viu. A boate estava quase escura, exceto por algumas luzes coloridas que eram comuns nesse tipo de casa noturna. Eu sentia os olhares de várias mulheres sobre mim e uma delas eu reconhecia.
Lily Page foi, durante muitos anos, uma amiga bastante próxima. Vivemos algumas aventuras enquanto eu ainda me chamava James. Assim que entramos no colegial, quando eu comecei minha verdadeira transição percebi um certo interesse da morena de cabelos castanhos e lisos. Claro que eu não correspondia, pois além de não gostar da garota desta forma, eu já vinha observando Regina há muito tempo. No entanto, Lily nunca parou com suas investidas. Mesmo depois que eu já estava casada. Eu me afastei totalmente, pois amava minha esposa incondicionalmente e jamais olharia para outra mulher. A questão é que eu não podia controlar a morena, afinal não era sua mãe e muito menos Morgana, sua irmã mais velha. Que por acaso era uma das amigas de Cora.
Agora ela estava ali, se aproximando e pela primeira vez eu não recuaria. Regina tinha seguido sua vida, era hora de continuar a minha. Estávamos oficialmente divorciadas. Mesmo que eu soubesse que jamais conseguiria amar outro alguém. Estava quase me aproximando de Lily, quando senti um puxão. Olhei para o lado e lá estava ela. A figura que vagava entre meus sonhos e meus pesadelos.
— O que você está fazendo? — Regina indagou de braços cruzados, a veia de sua testa saltava o que indicava que ela estava extramamente brava.
— Como assim? Estou curtindo minha noite.
— Com ela? Sério, Emma? Lily?
— Qual o problema? — rebati já irritada com aquilo. Estávamos no corredor que levava até o banheiro feminino. — Vá ficar com seu namorado, Regina. Não sei você percebeu, mas já estamos divorciadas.
— Eu sabia. Você já devia estar com ela quando brigamos.
— Que porra! — esbravejei me aproximando de seu corpo, como costumávamos a fazer sempre que discutíamos. Invadir o espaço pessoal uma da outra era bastante comum, mesmo quando ainda éramos amigas. — Para de colocar a culpa dos nossos problemas em outra pessoa. Nunca te traí e nunca dei motivos para desconfiança.
— Você foi embora. — sua voz estava mais fraca e os olhos marejados.
— Porque você me expulsou! — mesmo me doendo vê-la assim, eu não conseguia recuar com minhas acusações. Eu estava com aquilo na garganta há três anos. — Nós sabemos muito bem porque nosso casamento acabou.
— Você ainda me ama?
— O que? — balancei a cabeça, mesmo entendendo o que ela tinha perguntado, queria ganhar tempo.
— Você ainda me ama?
— E-eu... — mordi os lábios, pois não queria contar a verdade. No entanto, ela estava tão perto. Seu cheiro de maçã e seu hálito quente atingindo meu rosto. Aquela boca convidativa e sua cicatriz que eu amava tanto. — Sim.
— Volte para casa. — sussurrou com uma expressão angustiada e ao mesmo tempo sincera. — Por favor.
— Não posso. Você tem ele e eu não sei se estou pronta para esquecer tudo.
— Eu preciso de você.
— Regina, não... — encostei minha testa a sua. — Acabou.
— Você é meu happy ending, lembra? — sorriu fracamente, se afastando um pouco para me encarar com aqueles grandes olhos castanhos. — Eu vou te esperar. Não existe Robin, não existe Lily. Todos os problemas são pequenos perto disso. — colocou uma de minhas mãos em seu peito e pude sentir seu coração bater rapidamente. — Eu sou o seu lar, e você é o meu. Henry é o nosso. Eu vou te esperar.
Antes que eu pudesse responder, já me encontrava sozinha no corredor. Não sei quantos minutos fiquei parada por ali, mas logo Ruby e Mulan vieram me chamar. Diziam que Moe estava nos dando uma rodada de whisky escocês grátis e como boa degustadora da bebida, não perdi a oportunidade. Minha mente ainda estava à toda vapor pensando nas últimas coisas que Regina me disse. Será que ela ainda possuía os papéis ou já tinha concluído o divórcio? Mesmo emocionada por sua declaração, eu ainda não conseguia perdoá-la por me mandar embora e esquecer todos os problemas que vinhamos enfrentando anos antes da separação.
Eu sabia da minha parcela de culpa. Eu sabia que havia Robin e que Lily jamais nos deixaria em paz. Meus pais estavam envolvidos e Henry era a maior vítima de todo esse caos. Eu estava ciente de todas as dificuldades, mas ainda a amava tanto que doía. Porém, eu só queria ficar ébria o suficiente para esquecer tudo. Se possível, até mesmo esquecer que a ideia de voltar para casa martelava em minha cabeça o tempo todo.
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