Totalmente demais 2
8 Capítulo 7
Notas iniciais
Meus dias tem sido tão intensos e significativos esses últimos meses que eu chego a pensar se eu realmente vivia antes. Ou se apenas existia.
Lembro-me de quando era pequena, uma garotinha sem graça e desengonçada, brincando com suas bonecas e as imaginando como suas filhas. Laura e Gisele eram seus nomes. Mesmo quando a adolescência chegou, quando me tornei adulta, as mantive cuidadosamente guardadas em uma caixa, esperando o dia em que eu tivesse uma filha e as repassasse em herança. Só que essa filha nunca veio.
O tempo passou e a família que sonhei foi arrancada de mim sem sequer existir.
O pior dia da minha vida foi aquele em que o médico jogou na minha cara minha impossibilidade de ser mãe. Eu queria isso. Queria demais. Não como um capricho ou uma necessidade de ser amada. Não como um recomeço. Talvez como um reencontro comigo mesma. Eu queria aquela garotinha que eu fui de volta. Queria a menina que distribuía amor incondicional para suas filhas bonecas. Sabia que ela vivia ainda dentro de mim.
Mas a perdi, e perdi a mim mesma naquele momento me sentindo vazia e seca.
Até ele chegar.
Com seu nome de anjo, e uma alegria capaz de contagiar tudo e todos ao seu redor.
— Afinal qual o problema? — Dorinha questionava como se eu não tivesse acabado de explicar — ele chamou o Arthur de pai, o Arthur o chamou de filho. Não é o que você queria afinal?
— Ele me magoou tantas vezes. Tantas. Ele me quebrou, e me tornou alguém capaz de qualquer tipo de maldade por pura vaidade. Ele não pode fazer isso com meu filho Dorinha. Ele não pode entrar na vida dele, enlouquecê-lo de amor pra depois partir e deixar os cacos espalhados. Não posso permitir isso.
— Não pode, mas já fez. Você o quis de volta. Vocês sempre voltam Carol, foram feitos pra ficarem juntos.
Era o que eu pensava. Por isso esperei. Um dia o destino nos uniria de novo e de novo...só precisava ser paciente. Por isso nunca me casei. Por isso desisti de outros que me amaram afinal era só ele que eu desejava. E como eu desejava. Nós poderíamos ter uma família. Eu e ele. Era um sonho distante, e acho que acabei enlouquecendo no caminho. Gabriel foi a minha cura.
Depois que eu me tornei mãe Arthur não importava mais. Era eu. Eu realmente me priorizei, sem ser egoísta porque agora eu tinha um filho e ele era a minha razão de viver. Ele me fazia viver. Eu não dava a ele o melhor de mim, ele me transformava no melhor de mim.
Agora eu sei que ser mãe é diferente de tudo no universo. Que não é um status, um estado de espírito, um laço consangüíneo. Não é um nome. É como se um pedaço seu se desprendesse do seu corpo ganhando vida própria. Mesmo que esse pedaço não seja realmente seu.
Porque a partir do momento em que seu filho olha nos seus olhos, corre para seus braços, você sente seu coração aumentando até não caber mais dentro de si. Tudo muda dentro de você e é invadida pelo entendimento de que toda sua existência e cada passo que deu foram para aquilo. Para ouvir a palavra mãe.
Porque nada se iguala aquilo. Você pode sonhar vividamente, ansiar, desejar, brincar quando criança, que absolutamente nada é igual ao sentimento que agarra seu coração e te consome, te tornando por vezes mais madura, mais carinhosa, mais brincalhona, mais leve e principalmente uma mãe ursa capaz de tudo para proteger a cria. Mesmo quando não existir o perigo.
Por isso evitava o Arthur há dias e não atendia seus telefonemas. Por sorte ele tinha um pai e uma mãe que lhe davam trabalho o suficiente, e uma filha na pior idade cheia de problemas com o namorado.
Ele tinha a própria vida. E eu só queria proteger a do meu filho.
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— Quem é o príncipe dessa casa? Quem é o dono do meu coração?
— Presente — escutei a voz do Germano virando-me. Ele estava escorado na porta observando. Sabe-se lá há quanto tempo. Voltei-me para o bebê bem a tempo de tirar o talco que ele já havia agarrado.
— Nem pensar amorzinho. Sei bem as artes que você pode fazer quando está armado.
Ele riu travesso e meu coração bateu mais forte, uma alegria e amor descontrolados me incendiando por dentro. Era maravilhoso sentir isso novamente.
Germano se aproximou depositando um beijo na minha nuca e se ajoelhando perto do nosso filho fazendo cócegas em sua barriga. Ele explodiu em gargalhadas. Aquele era o som mais maravilhoso do mundo.
Eu havia me esquecido como era a sensação. Não de ser mãe. Não é algo que você esquece quando tem outros filhos. Fui mãe tão jovem, e tão insegura, mas a partir do momento em que segurei Sofia nos braços, soube que havia nascido para isso.
Eu poderia e faria quaisquer coisas por meus filhos adorados. Só que a vida tem um jeito cruel de brincar com seu destino, e eu tive minha família destruída e fiquei sozinha e desamparada. Talvez por isso que tenha sido tão fácil me apaixonar pelo Rafael.
Ele me amou me confortou. Ele me colocou em primeiro lugar. Nem eu mesma me colocava em primeiro lugar.
Ele me fez feliz.
Ainda assim, existiam momentos quando eu ia dormir que me sentia saudosa e nem sabia por quê. Do que.
Agora quando vejo meu marido sorrindo com nosso pequeno filho, um pequeno milagre eu compreendo.
Nossa vida e tão curta que em algum momento não damos o devido valor para momentos em família, momentos de alegria. Só que são justamente esses momentos, esse amor interminável que duram a eternidade. Ainda que um dia eu não exista mais nesse mundo, meus filhos, neto, bisnetos serão a prova de que eu estive aqui e fui feliz.
— Olha como ele está crescendo rápido Lili! É o orgulho do papai! Logo já vai destruir corações — Germano segurava-o em pé que mexia as perninhas animado tentando em vão caminhar sozinho.
O precioso tempo passava rápido demais e logo ele estaria grande. Uma lembrança dolorosa de Sofia correndo em volta da piscina com um Fabinho que mal aprendera direito a andar tentando persegui-la me deu um nó na garganta e um aperto no peito que eu rapidamente afastei. Felipe era meu milagre. Minha luz, depois de uma caminhada em um longo caminho escuro.
— Por enquanto ele é só meu — disse sem medo de ser possessiva — um dia ele será grande e vai me abandonar como o Fabinho — Germano riu
— Podemos fazer outros — olhei incrédula pra ele
— É mais fácil sermos avós — disse e gemi em seguida balançando a cabeça em negativa — ou não. A possibilidade de Fabinho ter um filho com a Cassandra me aterroriza um pouco.
— Então vamos aproveitar que eles estão morando juntos agora e vamos deixá-lo com eles pra praticarem.
— E porque eu faria uma loucura dessas de deixar meu bebê com aquela maluca?
— Pra podermos fugir e namorar — ele disse em tom brincalhão, porem com um olhar denunciando o desejo verdadeiro.
Eu não podia culpá-lo. Tínhamos poucos momentos a sós agora. Por causa do Felipinho nossa vida foi presenteada com uma nova alegria, porém com uma nula privacidade. Eu não me sentia culpada é claro. Quando você perde um filho, é como se você morresse também. Como se alguém te levasse ao prédio mais alto e te jogasse de cima, a queda de alguma forma não te matando, mas te quebrando e você precisando continuar vivendo ainda que estando em pedaços.
É engraçado o significado e o poder da palavra mãe. É uma palavra tão curta e ainda assim com uma grandiosidade e importância sem limites. A verdade é que a partir do momento que você segura seu filho, seu mundo e sua vida são inundados de novas possibilidades e sensações.
Você chora, você ri, você se preocupa desnecessariamente. Você consegue se maravilhar com pequenas bobagens, e o momento em que seu bebê te reconhece e seu olhar se ilumina de amor para você, todo seu passado, presente e futuro se transformam em um borrão, porque o único motivo para viver é observar o sorriso do seu filho.
Eu perdi isso. E ganhei de volta.
Mas eu também ganhei outras coisas.
— Podemos dar um jeito sabe. A Euzébia pode ficar com ele pra gente — eu me recusava a ter uma babá e me recusava a sair de perto do Felipe. Ainda assim eu queria aproveitar os momentos com meu marido — Podemos jantar no nosso restaurante favorito.
— Sem hora pra voltar? — ele questionou. Eu tremi e olhei pro bebê. Ele parecia entretido com a própria meia e eu realmente não podia ser uma mãe psicótica pra sempre.
— Prometo — seus olhos se iluminaram e ele saiu correndo para nos arranjar uma reserva.
— Você vai se comportar não vai amorzinho? — peguei-o no colo e ele estendeu suas mãozinhas levando-as até minhas bochechas — O papai precisa da mamãe também querido — beijei sua testa. Germano voltou com o telefone nas mãos animado como um garotinho e eu senti uma felicidade dentro de mim.
Eu me perdi, e perdi minha família. Mas os recuperei. Nosso filho trouxe alegria a essa casa que viu tanta tristeza e tantas perdas. A vida não era perfeita. Mas essas alegrias faziam ela valer a pena.
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Acordei e ele estava sentado na cama olhando pra mim com um sorriso insultantemente lindo demais para seu próprio bem.
— Eu odeio quando você me vê dormindo. Você sabe.
— É eu sei você ronca e baba — me levantei e joguei o travesseiro nele — ainda assim, consegue ser a garota mais linda do planeta. É um mistério.
Deitei-me na cama e ele veio pra cima de mim.
— Sabe que eu vou até sentir falta disso... da gente acordando aqui em Paris, eu ter você só para mim — suas mãos desceram pelo meu corpo e eu suspirei ao seu toque.
— Pensei que você tinha me convidado para morar com você sapo. Está fugindo é? Tarde demais.
— Eu não sou louco. Só...lá você não é só minha ruivinha. É a ruivinha de todo mundo.
— Mas uma parte minha é sempre só sua.
— Mesmo? Me mostra qual.
Eu ia. A campainha, porém tocou nos fazendo pular da cama. Jonatas praguejou baixinho e eu vesti meu robe indo até a porta.
Josephine estava lá. Impecável como sempre. Me lembro que a primeira vez que a vi achei a mulher mais elegante que já vi na vida. Até mais que Stellinha. Ela estava sempre com a maquiagem perfeita, as roupas jamais repetidas eram a perfeita combinação da elegância e bom gosto. Tentava ser em parte como ela, não apenas pra ser uma modelo melhor, como também pra obter sua aprovação. Eu a amava. Ficamos amigas logo, com uma ligação imediata, e eu tinha real necessidade de agradá-la. Não era assim com praticamente ninguém.
Ela porém importava. E eu tinha sido terrivelmente grossa dias atrás. E mal a tinha visto depois porque ela tinha ido pra Alemanha e só voltou ao que parece agora. Direto pra cá.
— Sei que tem o dia livre hoje pra arrumar suas coisas pra... mudança — sua voz falhou e eu senti um aperto na garganta.
Eu iria embora daqui a uma semana.
E ela me odiava
E não iria ao Brasil
Eu quis chorar ali mesmo.
— Bom dia — Jonatas invadiu o espaço terminando de vestir sua camiseta — não temos café, eu vou descer e comprar. Ah entra logo Josephine, fica aí parada na porta. Conversem — ele olhou significamente pra mim. Ele sabia e nós tínhamos café. Estava nos dando espaço, só que ao olhar pra ela eu não tinha certeza se queria. Ela iria me humilhar e brigar comigo e eu ficaria arrasada. Não queria que os últimos dias aqui fossem assim.
— Senta. Quer um café? — disse enquanto ia até a cozinha.
— Eu pensar que Jonatás dizer não ter café.
Ugh!
— Leite? Chá? — ela me ignorou e puxou uma pasta
— Trouxe seu contrato. Agora que terminou não tem mais nenhum vínculo conosco — seu tom de voz frio machucou e não respondi — Não precisa realmente de nada disso, mas aqui está seus documentos e todo seu Portfólio. Todas as recomendações e impressões de quem trabalhou com você. Reuni tudo para possíveis trabalhos. Claro que não sei se vai querrer. Me disse que não quer a maldita carreira.
— Desculpe. Eu estava brava. Não com você, com o Jonatas. É comigo mesma. E...com tudo. Desculpa.
— Estou indo. Tenha um bom dia
— O que? Ei, eu pedi desculpas.
— E era mentira? Você não esclarecer isso.
— Não. Quer dizer...não sei. Eu...eu sou muito confusa em relação ao que eu quero ou não. Eu não pretendo priorizar minha carreira por um tempo.
Ela me deu um sorriso triste
— É claro que logo uma modelo com talento diria isso. Fico triste.
— Deveria ficar feliz. Achava..achei que gostasse de mim. Da Eliza. Não da modelo.
— Eu amo você Eliza. Como...como uma filha. Você não entende. Eu quero o melhor pra você. E você nem sabe o que quer.
— Eu vou descobrir. Não pode me apoiar? Eu vou embora Josie...você vai me visitar?
Ela não respondeu. Abaixou a cabeça. Suspirou. E vi seu olhar triste com o brilho de algumas lágrimas ameaçando cair.
— Eu tive uma filha sabia?
Meus olhos saltaram.
— O QUE?
— É claro que non sabia. Ninguém praticamente sabe. Nunca conto. Sinto muito. Sei que isso magoou você que me contou tudo sobre seu padrasto, seus dilemas amorosos, sua vida infeliz, e seus medos...sinto muito. Não era falta de confiança. Só uma dor dilacerante.
Fiquei estática sem conseguir emitir sons. Ali estava ela. Minha amiga. E uma pessoa totalmente diferente.
— Era uma modelo muito dedicada. Isso era muito importante você sabe. Amava meu trabalho e nada tirava minha paixão. Até ele aparecer...seu nome era Miguel. Ele era tão lindo que algumas vezes você precisava ficar olhando por minutos sem piscar pra se decidir que ele era real. Eu me apaixonei...e pra minha completa e total loucura ele decidiu corresponder.
Ela levou uma mão até os cabelos arrumados impecavelmente, arrumando os fios.
— Vivemos juntos por dois meses. Só que ele foi emborra parra o Brasil. E Jésus Eliza eu fiquei louca. Eu só tinha dezoito anos e pensei que fosse morrer. Não demorou nem três semanas e eu fui atrás dele. Sem passagem de volta.
Claro. Ela morou no Brasil quando mais jovem. Por anos. E eu pensava que era por sua carreira de modelo.
— Meus pais foram contra e eu rompi com eles. Rompi com a França. Adotei o Brasil, me dediquei a aprender seu idioma, seus costumes. Eu vivi por Miguel, e ele me correspondeu...até se cansar de mim. Ele bebia muito, e tinha um sério problema com drogas. Você sabe isso é comum no nosso meio. Eu nunca...jamais usei Eliza sério. Eu achava que podia curá-lo. E isso o afastou. Nós nos casamos e eu engravidei. Era só uma garota como você. E ele também. Era jovem, inconseqüente. Fiquei sozinha. Ele sumia e voltava dias depois me pedindo perdão. E eu perdoava. Eu não queria ficar sozinha.
Suas mãos tremeram e eu senti uma lágrima escapando pelo meu rosto.
— Quando Ana nasceu eu soube. Nunca mais ficaria sozinha. Miguel não importava mais. Você não entende. Nunca foi mãe. Você acha que o que sente pelo Jonatas ser a coisa mais maravilhossa que tem. Um dia porém vai segurar sua filha ou filho. E um amor infinito vai te dominar te cegando para todos os outros amores. Isso é ser mãe. Eu fiquei brava quando você me contou como sua mãe te tratou, como ela agiu com você. Ela não te colocou acima de tudo. Eu a odiei. Quando ela veio parra sua aniversário eu mal quis olhar pra ela. E eu a invejei também. Porque ela tinha você.
Me sentei de frente a ela que mantinha a cabeça baixa.
— Miguel me bateu uma noite. Ele nunca tinha feito isso. E foi o suficiente pra eu saber que precisava abandoná-lo. Sem perdões dessa vez. Eu peguei minha filha que tinha apenas dois anos na época e comprei uma passagem. Liguei pra minha mãe chorando dizendo que voltaria pra casa. Não voltei. Não deixaram. Eu não podia levá-la pra fora do país sem autorização do pai. E ele ficou furioso comigo. Me acusou de seqüestro, chamou a policia! Pedi o divórcio e me mudei parra outro apartamento. Não podia sair do Brasil então meus pais vieram pra ficar comigo. Foi uma longa batalha judicial. E eu consegui ficar com ela, mas não consegui tira-la do país. E o pior não consegui tira-la dele. Ele podia vê-la nos finais de semana, e eu só pensava nele bêbado e sozinho com ela. Ficava dois dias sem dormir até ela voltar pra mim. Ele sempre me olhando com desprezo quando a trazia de volta.
— O que aconteceu? — recuperei minha voz incerta de que queria saber o final da história.
— Um dia ele não a trouxe de volta. Ele não voltou. Eu surtei. Eu gritei e fui atrás dele certa de que ele estava bêbado em um canto da casa e Ana estaria sozinha querendo a mãe. Quando eu e meus pais chegamos até o apartamento dele, o porteiro disse que ele tinha ido embora. Eu não processei aquilo. Quando meu pai voltou lívido de cima, dizendo que o apartamento estava vazio, eu ainda não compreendi. Quando minha mãe começou a chorar, e chamaram a polícia eu continuei não entendendo. Não entendi por dias. Fiquei em choque, esperando ela voltar. Não chorava, não falava, não comia. Não entendo sequer como eu respirava.
— Josie...meu Deus.
— Não desisti dela. Eu acordei um dia, disposta a varrer o mundo até encontrá-la. Mas falhei. Eu falhei — ela começou a tremer — ela só tinha dois anos. Ela deve ter chorado, deve ter ficado assustada se perguntando onde eu estava. Eu nunca mais a vi.
— Não é possível Josie! Ninguém a encontrou?! Como assim?!! Não! Isso é impossível, você não pode ter desistido!
— Meus pais nunca mais foram os mesmos sabe. Meu pai morreu seis meses depois, de um AVC. E minha mãe nunca mais sorriu. Eu sorri...eu não podia esquecer como era sorrir. Quando Ana voltasse parra mim eu iria recebê-la com um imenso sorriso. Ela era linda Eliza. Os cabelos eram loiros como os do pai, mas o restante era meu. Ela tinha um sorriso que a deixava com lindas covinhas. Eu podia ser uma mãe vaidosa, coruja, mas estava certa de que ela era a garotinha mais linda do mundo. Me pergunto como ela serria hoje. Se ela seria modelo, médica, música. Do que ela gostaria de comer, se ela seria uma adolescente irritante pra me deixar louca. Às vezes eu sonho com ela sabe? Não como antes. Antes eu sonhava todas as noites. Ela me chamava e eu nunca conseguia alcançá-la. Nunca consegui.
— Josie pelo amor de Deus, como assim?! Não acredito nisso — me desesperei. Estava realmente chorando agora, chorando mais do que ela, que só mantinha uma expressão triste — onde ela está?! Você desistiu?!
— Não Eliza. Eu não desisti. Eu o encontrei. Um ano depois...eu o encontrei. Gastei toda a herança do meu pai contratando detetives. Ele nem tinha saído do país. Eu queria matá-lo. Eu iria pegar minha filha de volta e iria embora do Brasil e ele nunca mais encostaria nela. Queria ver quem me impediria. Eu fui até ele.
Uma pausa. E outra. Não sabia se segundos ou minutos se passaram. Ela começou a chorar.
— Ele me levou até o túmulo. Ele me mostrou o atestado de óbito. Ela morreu de pneumonia apenas quatro meses após ele arrancá-la de mim. Ela morreu sem entender porque eu não estava com ela. Ela morreu e eu morri também.
Nós duas chorávamos. Eu a abracei imaginando a pequena Ana chamando por Josephine e seu pai bêbado a negligenciando, ela ficando doente e ele não cuidando dela. Doeu demais e eu não entendia como Josie estava de pé. Como ela superou aquilo.
— Eu e minha mãe fomos embora do Brasil. Ela morreu cinco anos depois e eu fiquei sozinha de vez. Sozinha novamente. Ainda assim não desisti de viver. Achei que Ana gostaria disso. Que eu vivesse. Nunca me casei ou tive outros filhos. O medo da perda era maior do que tudo. Nunca mais voltei ao Brasil. E claro que nada aconteceu ao Miguel. Pra ser sincera, não o odeio mais. Eu vi em seus olhos a dor da culpa quando ele me contou da morte da nossa filha. Acho que vai ser assombrado pra sempre.
Ela enxugou as lágrimas e olhou pra mim, um sorriso triste.
— Talvez eu possa fazer isso. Ir até o Brasil sim. Eu não quero te perder também. Minha filha teria quase sua idade agora. Gosto de todas as minhas modelos Eliza, mas você...você despertou em mim esse sentimento materno. Sou uma mãe sem filha. E sei que você tem uma mãe. Ainda assim...você me ama também não? Se você vai embora, e não vai ser modelo, eu não quero perder você. Quero muito que você seja feliz. Sim eu vou apoiar você sim.
Jonatas não voltou de onde quer que tivesse ido e eu fui grata. Permaneci abraçada a Josephine pensando em Ana, e em como eu gostaria de tê-la conhecido o que seria impossível. E eu lhe fiz uma promessa: Sempre cuidaria da mãe dela.
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