Notas iniciais
Boa leitura e leiam as notas finais ;)

A lua reinava solitária na noite de Paris. Estávamos em uma festa qualquer, de alguém que não me interessava. Não prestava atenção em coisa alguma ao meu redor mesmo. Eu e Jonatas não nos falávamos desde ontem o que parecia uma eternidade.

— Eliza venha para as fotos — uma das modelos acenou animada. Eu queria ir embora. Queria mais que tudo.

Eu gostava desse mundo. Era glamuroso, era magnífico. Quando você olhava um editorial de fotos, um desfile com as modelos caminhando com altivez e poder, tudo era belo. Espetacular. Só que nos bastidores a vida era tão feia como nos lugares mais pobres. Bebidas, drogas, garotas que ficavam dias sem ingerir qualquer alimento de verdade e se matavam com cigarros e remédios. Josephine tentava apagar isso da agência. Impunha regras, estabelecia hábitos saudáveis. Eu realmente gostava dela, só que ela não era a única do ramo. Então no dia a dia, era torturante estar em uma carreira que fazem meninas por todo o mundo sonharem. Pensei em minha irmã visualizando as modelos de revistas como princesas encantadas, e sofri com o pensamento de que algumas pareciam bruxas e seriam capazes de pisar em qualquer um que entrasse em seu caminho.

— Josie não estou me sentindo bem — foi uma meia verdade já que a sensação de vazio doía de verdade.

— Oh non! O que você tem! Vamos ao médica!!

— Só uma dor — no coração — de cabeça.

— Onde está Jonatas?

— Em casa. Já disse, ele tinha coisas a fazer e por isso que não veio.

E porque não estamos olhando pra cara um do outro.

— Que aconteceu?

— Nada — uma irritação cresceu dentro de mim. Às vezes casais fazem coisas separadas. Jonatas não é minha sombra. Ou escravo!

Ela me olhou os olhos cheios de acusações não ditas. Quem ela pensava que era?

— Além disso, eu não devo explicações da minha vida particular a você!

— Quem disse? Você é minha melhor modelo! Ainda tenho planos de uma excelente carreira pra você e...

— Não quero a maldita carreira! — ela me olhou chocada. A Eliza grossa que foi educada e se transformou em uma dama pra ganhar o concurso não havia partido. Estava dentro de mim e bastante irritada ultimamente.

— Vá emborra de uma vez! Se forr pra continuar assim não precisamos de você aqui.

Me virei disposta a não pedir desculpas. Agora eu tinha mais uma pessoa que amava irritada comigo. Não queria nem pensar na próxima que eu iria magoar.

Só que às vezes eu também sou prioridade. Também me magoavam, também me irritavam. Não dava pra ser como o Jonatas que se sacrificava por tudo e por todos. Jonatas. Eu mal olhei pra ele, apesar de sentir os olhares que ele me deu desde a noite passada implorando por uma conversa. Acabou que o larguei em casa e saí hoje cedo não retornando suas ligações. Eu era tão idiota e sabia disso, só que queria ser assim por mais um tempo. Só descontar em outros fazia a Eliza irritada se acalmar.

Continuei caminhando pelas ruas, em uma cidade que me acolheu por um ano, mas que não me pertencia. Sentia falta de casa. Da comida, da música, de assistir televisão com programas que eu realmente gostasse. Sentia falta do som das risadas dos meus irmãos, de assistir novelas com a minha mãe. Sentia falta da energia das pessoas, de ouvir elas falarem comigo e entender imediatamente o que diziam, porque era o idioma que eu escutava desde bebê.

E sentia falta de Jonatas e isso era ridículo porque ele não estava longe, ele estava bem aqui, só que ainda assim, parecíamos separados por um abismo.

— Me desculpa sapo — falei pro vento esperando que o pedido fosse levado até ele.

Tudo dentro de mim despertou alerta quando eu percebi que estava sendo seguida. Eu não era louca, só entendi que alguém vinha por trás de mim. Porque não peguei a droga do táxi?! Sim, porque não queria ir direto pra casa, só queria andar sem rumo. Escutei passos se aproximando. A rua não estava vazia, olhei para os lados e ninguém parecia assustado. Olhei pra trás insegura e vi um vulto se escondendo. Memórias do Dino aparecendo vieram de imediato e não pensei em mais nada. Corri sem destino, sem olhar pra trás. Até uma voz me chamar, me atraindo de volta como um imã.

— Sou eu Eliza!!

Virei-me. Ele estava lá. Só ele. Como eu não percebi que era ele?

— Jonatas — esqueci a briga, esqueci todo o resto e me joguei em seus braços — você me assustou!

— Desculpe — ele parecia assustado também, e a culpa me invadiu. Eu tinha agido como se estivesse em um filme de terror, estava prestes a gritar e ele percebeu.

— Eu pensei...pensei que

— Eu sei o que você pensou Eliza. Eu vi o seu pavor. Não queria te assustar, só que isso tem acontecido muito ultimamente.

Neguei com a cabeça. Ele deslizou uma mão pelos meus cabelos.

— Eu estou me sentindo um idiota desde ontem. Eu nem sei por que a gente brigou.

— Eu sei. É porque você acha que minha vida é aqui. E não é.

— Sim, só que a sua carreira...

— Não sei se é isso que eu quero Jonatas.

Ele arregalou os olhos.

— Estou com você aqui todos esses meses! Você é modelo!

— E você gosta de tirar fotos, nem por isso quer ser fotógrafo

— Mas...

— Gosto do meu trabalho Jonatas. E não me importo de continuá-lo. Só que não me importo de voltar pra casa, e fazer outras coisas também. Quero viver minha vida, não pular de sessão em sessão, de festa em festa. Não quero ir de Paris a Milão. Quero ver minha mãe se casar. Quero contar histórias pra Dayse. Quero que o Felipe se lembre de mim quando nos reencontrarmos.

— E eu só falei besteiras ontem.

— Você me irritou, só que não foi sua culpa. Queria o melhor pra mim. E eu te amo por isso. É bom saber que você me deixaria partir. Mas não pretendo ir a lugar algum — segurei a mão dele — só pra casa.

— E esse trauma Eliza? Até onde você vai levar isso?

Ele estava certo. Não poderia continuar negando. Não se eu queria viver.

— Quero voltar. E lá, vou falar com o Arthur — ele grunhiu — preciso ser sincera com ele também. Ele tem que saber que eu não vou colocar a minha carreira em primeiro lugar. Eu nem sei direito o que eu quero fazer. Sinto que tem alguma coisa esperando por mim. E eu posso ser modelo sim, só que eu também posso ser outras coisas. E eu quero muito isso. Depois vou falar com a minha mãe. Ela vai ficar preocupada, mas não posso mentir pra poupá-la — ele concordou — vou seguir o conselho da Josie. Vou procurar um psicólogo.

— Eu vou estar do seu lado.

— Então é tudo que eu preciso.

— E vai conseguir voltar pro Flor do Laço, morar lá?

— Se eu tive pesadelos aqui, não faz diferença lugar. O que importa mesmo é acordar e ver minha família.

— Ainda assim — ele olhou de um lado pro outro — um lugar novo seria melhor. Recomeçar sabe.

— Não vou pra um lugar novo. Vou pra casa.

— É — ele suspirou. O que eu fiz de errado agora? — Vamos pra casa. Mas poderia ser nossa casa.

Ele disse isso e começou um tique nervoso balançando as mãos em negativa.

— Esqueça o que eu disse! Isso é estúpido, você já me aguentou por um ano, porque deveria...

— Está me convidando pra morarmos juntos Jonatas? — desatei a rir

— Isso não é engraçado! — ele parecia envergonhado. E ficava tão lindo assim que chegava a doer. — Naquela noite quando Fabinho perguntou o que íamos fazer eu só pensei que não importava se tudo continuasse como era agora. Eu e você. Juntos.

— Parece perfeito pra mim — aproximei meu rosto do seu, tocando levemente seus lábios.

— Então diga sim — ele sussurrou e senti seus dedos tocando levemente minha nuca, as mãos tão suaves despertando sensações dentro de mim que nenhuma outra pessoa no universo inteiro conseguiria.

— Sim — eu disse. Porque eu faria qualquer coisa que ele me pedisse. E também porque eu queria. Queria acordar com ele todos os dias, olhar no fundo dos seus olhos, observando toda a imensidão do seu amor por mim, sentir suas mãos me tocando daquele jeito por toda a vida. E se houvesse uma próxima vida, e outra e mais outra eu iria querer o mesmo. eu o queria por toda a eternidade.

Eu queria Viver. Queria descobrir muito sobre mim ainda. Entretanto todo o sentido da minha vida já estava diante de mim. Ele juntou nossas bocas em um beijo, e não me importava pra onde iríamos. Mesmo com meus traumas e medos, descobertas e novas aventuras, ele sempre estaria comigo. Era tudo que eu queria afinal.

Notas finais
Devia ter postado antes, só que meu tempo como sempre anda corrido...nem consigo postar as fics que eu planejo! Eu tentei reescrever esse capítulo mais acabei não tendo grandes progressos e ficou assim mesmo. Espero que tenham gostado. Sobre a Eliza, não sei se estão gostando desses rumos, mas a verdade é que ela passou por muitas coisas, então é normal ficar abalada. Pra piorar estou trabalhando em 3 romances diferentes onde minhas protagonistas tem traumas similares e isso está me influenciando demais. Mas não se preocupem ela vai ficar bem e é forte ;) Sobre a carreira dela, eu nunca senti a paixão de Eliza em ser modelo, não de verdade, por isso tracei esse rumo na história. Ainda assim ela segue fazendo seus trabalhos nesse ramo, não se preocupem. É uma carreira muito curta e é possível fazer vários trabalhos paralelos a ser modelo ^_^ ela ainda tem muito pra descobrir sobre si mesma e pra ser mais decidida também! O próximo cap será enorme e terá os pontos de vista de Carol, Lili e Eliza! Prometo que será em breve =D até lá ♥ e muito obrigada pelo carinho e os coments fico muitoooo feliz de verdade amores ♥