Notas iniciais
Olá Cupcakes! Eu não sei se todos vocês sabem, mas a minha conta no social spirit foi hackeada e excluída essa semana. Eu criei uma nova conta, mas ainda não repostei todas as histórias. Portanto, peço a ajuda de vocês quanto a isso. Se conhecem alguém que leia as fanfics por lá, avisem, por favor. Eu reparei que no capítulo passado algumas dúvidas surgiram, mas eu os asseguro que tudo será respondido ao longo da história. No mais, eu sei que o vocabulário pode ser um pouco complicado por conta de alguns termos que não são tão populares, portanto me disponho a responder às dúvidas. Perguntaram-me também a respeito da língua usada nos feitiços, é latim (por enquanto). Espero que tudo tenha sido esclarecido. Sem mais delongas, boa leitura.

Não havia estrelas no céu. A tinta negra que pintava a superfície celeste se mantinha intacta, exceto por algumas nuvens que estavam por ali e tornavam a noite ainda mais mística. E lá estava ela. Independente da cultura, a Lua sempre será admirada por diferentes povos. Veja pela ciência, pelas histórias, pelas religiões. A Lua e sua beleza. Sua energia poderosa, que influência até mesmo os leigos de qualquer crença. A Lua Nova completara o seu ciclo e, agora, ela dá espaço a mais intensa delas, a primeira noite de Lua Cheia. O incrível astro, em toda sua imponência, emanava o mais intenso poder, que era respondido pela natureza. As flores noturnas se abriam e admiravam a força proporcionada por Ela. As plantas, recém-cultivadas por Perpétua, erguiam-se do solo negro. As folhas ganhavam um tom esverdeado ainda mais vívido. Os animais caminhavam sob a luz lunar e consagravam a poderosa Deusa.

As três mulheres saíram pela porta principal e caminharam pelo jardim da frente. Os seus olhos estavam completamente brancos e todas elas enxergavam uma realidade para além dali. Os mantos brancos e virgens que vestiam se arrastavam pela grama verde enquanto seus pés descalços ditavam o destino. Entraram floresta adentro, sem ver o que caminho pelo qual seguiam, mas tendo, dentro de si, a certeza de que nada as machucaria, ou impediria o rumo que tomavam. Suas mãos se arrastavam pelas folhas das plantas e pelos troncos das árvores, que compartilhavam com elas as energias que viviam em si. Ainda que estivessem longe uma da outra, as três mantinham-se conectadas. Abaixaram-se ao mesmo tempo e tocaram o chão, sendo, quase no mesmo instante, preenchidas pela energia telúrica que ali vivia. Em suas mentes, passavam-se as imagens daquilo que, agora, as tomava. A energia que se formava no centro da Terra e penetrava por entre lavas e rochas, contemplava todos os horizontes terrestres e, enfim, chega à palma de suas mãos. Levantaram-se e seguiram seu destino.

Nebula propagare. — romperam de seus lábios as palavras que foram ditas por tantas vezes e, inevitavelmente, já estavam gravadas em si.

Como uma resposta ao comandado dado, uma névoa densa e rasteira foi espalhada pela floresta, chegando a todos os pontos que as mulheres não conseguiam chegar. Todavia, elas eram a natureza. Hoje, mais do que em qualquer outro dia, elas eram a água e a terra, o ar e o fogo. Elas eram as pétalas das flores e o caule que as sustentavam. Eram o cheiro de solo úmido e o som de cigarras. Elas também eram a névoa e, portanto, tudo aquilo tocado por ela também era tocado pelas Bruxas. Pertenciam a imensidão celeste e a Lua. Contemplavam a Deusa acima de si e sentiam a força da Deusa que vivia dentro de cada uma.

A névoa as levou de volta ao jardim da frente. Aproximaram-se, com suas mãos erguidas, como imãs que se atraem. Os seus pés se arrastaram pela grama e um círculo brilhou, como se pintado com as lágrimas prateadas de um unicórnio. Regina juntou sua mão à da irmã, que uniu a sua à da avó. Os seus passos ritmados poderiam facilmente ser confundidos com uma dança bem ensaiada. E talvez fosse. Uma dança que seguia o ritmo ditado pelo som da noite, pelo canto da Lua.

Aqua et Terra. — a voz melodiosa de Zelena preencheu o silêncio quando um risco foi traçado dentro do circulo, possuindo a mesma tonalidade.

Ignis et Aeres. — Regina apertou sua mão junto à da irmã quando as palavras foram ditas. Então, mais um risco foi traçado.

Et Spiritu. — Perpétua ergueu suas mãos, junto às das netas. Dois riscos partiram de si e uniram-se aos outros, formando o pentagrama sob o solo.

Os três pares de olhos brancos encararam a Lua, que posicionava-se exatamente acima do símbolo traçado por magia. Uma conexão foi estabelecida e as mãos se soltaram, erguendo-se ao alto. Um rompante de energia se espalhou pela floresta, como uma forte luz branca que carregava consigo paz e harmonia. As copas das árvores se agitaram e a natureza foi preenchida de vida e de força. No solo, os quatro elementos brilharam junto ao espírito.

— Ab initio ad finem. — os olhares retornaram as suas originais tonalidades e as últimas palavras romperam o ar.

Estava feito.

Perpétua aprumou seus ombros, sentindo-se preenchida por diferentes sensações, todas elas trazendo junto de si uma eterna positividade. Encarou as duas netas, que, agora, afagavam-se em um abraço. As lembranças invadiram sua mente e ela visualizou a primeira vez em que aquele ritual fora feito pelas duas pequenas crianças pelas quais ela daria sua vida. Naquela época, elas também se abraçaram ao final e isso veio se repetindo. Anos depois e Perpétua ainda via as duas compartilhando suas energias, seus sentimentos e suas almas. Ela encarou o céu e observou a plenitude da Lua. Em silêncio, ela pediu por suas netas. Agarrou-se ao antigo laço que possuía com a Deusa e solicitou por toda proteção que poderia. Uma vibração se espalhou em seu interior e ela soube que seu pedido fora ouvido.

Regina contornou os ombros da avó e beijou sua têmpora. O mesmo foi feito por Zelena. Ambas sabiam que a avó não era muito chegada a abraços, mas o carinho sempre fora abundante durante toda a vida de ambas as irmãs. Ainda assim, abraçaram a avó. Acolheram-na em seus braços e distribuíram beijos por seu rosto.

— Vocês nunca vão aprender, não é mesmo? — a Senhora protestou, enquanto fugia do carinho excessivo das netas. Ela fingiu seriedade, mas um sorriso brincava em seus lábios. — Vamos entrar.

— É uma pena Emma Swan ter chegado logo agora. Veja bem, é noite de Lua Cheia, nós devíamos aproveitar! — Zelena protestou, enquanto segurava nos ombros da irmã e subiam as escadas para a porta principal.

— Nós podemos ir até o quarto dela e, se der tempo, ainda podemos aproveitar a noite. — a morena tentou ser otimista e ignorar qualquer possibilidade de problema que poderia nascer com a visita ao quarto da loira.

— Eu quero que vocês duas foquem toda sua atenção no que precisa ser feito agora. — Perpétua se sentou em sua poltrona e encarou as irmãs. — Não podem existir falhas. Todo o cuidado é pouco, vocês sabem disso. Eu ainda não entendo o motivo de nenhuma visão ter se apresentado a mim.

— Isso pode significar que não há nada errado, certo? — a ruiva se dirigiu à mesa de bebidas e serviu-se de uma dose de uísque.

— Ou pode significar que algo está tão errado ao ponto de até mesmo as visões estarem sendo barradas. — Regina sugeriu, incerta de suas palavras. — Isso é possível? — buscou pelos olhos da avó.

— O que não é possível, querida? — a mais velha segurou seu queixo entre dois dedos, pensando sobre até onde aquilo poderia ir, ou o que estava sendo escondido de si. — Vocês precisam ir logo. — ela se levantou, chamando a atenção das netas. — Eu estarei aqui e irei esperar por vocês. Mandem-me um sinal caso algo aconteça.

—Se sairmos muito cedo de lá, nós iremos ao riacho contemplar à noite. — Zelena avisou, enquanto seguia até a porta.

— Apenas me avisem, queridas. — ela beijou a teste de ambas as netas quando chegaram à saleta principal. Encarou os olhos verdes e castanhos, que esperavam atentos. — Sigam com cuidado e atentem-se aos seus atos. Lembrem-se dos ensinamentos e da Lei também: três vezes o mal, três vezes o bem. Portanto, não façam nada que gere consequências negativas.

— Certo, vovó. — a ruiva tomou por completo a dose de uísque e entregou o copo a avó. — Vamos, irmãzinha, temos um quarto para invadir.

— E troquem de roupa. Não é aconselhavam andar pelas ruas de uma cidade escura vestindo mantos virgens! — a mais velha gritou enquanto observava Regina e Zelena adentrarem a floresta.

Os pés desnudos tocavam o solo e seguiam por trilhas já conhecidas. A mão de Regina se mantinha presa a de Zelena, enquanto a morena se concentravam em encontrar os pontos certos por onde deveriam passar. Um casal de lebres dormia profundamente, acolhidos entre as raízes de uma enorme árvore anciã. As duas Bruxas contornaram com cuidado os animais, atentando-se para que barulho algum causado por elas fosse responsável por despertá-los. Andaram por mais alguns poucos metros até que chegassem à uma clareira.

Regina parou e se virou para a irmã. Não era necessário que palavras fossem trocadas, ou até mesmo que mentes fossem lidas. Uma simples troca de olhares bastou para que Zelena soubesse que estavam próximas à cidade e que, agora, todo o cuidado deveria ser tomado. A ruiva indicou suas roupas, recordando-se do que fora instruído pela avó. Estalou seus dedos e mentalizou o desejado. Odiava conjurar roupas e não era algo aconselhável, mas não havia alternativas no momento.

— Você anda vendo muitos filmes mundanos. — a morena sussurrou quando notou o traje que vestia. Ambas estavam de preto. A roupa que em muito se assemelhava com a de uma agente especial, ou algo do tipo, fez com que a morena revirasse os olhos.

— Eu não teria outra oportunidade melhor para isso. — Zelena argumentou, certa de que possuía toda a razão para recorrer àquelas vestes. — Veja bem, nós nos misturamos à escuridão.

Ela estava certa, afinal. Caminhavam tão silenciosamente e vestiam roupas tão negras quanto à noite, de modo que tornou-se quase impossível enxergar as duas mulheres. A cidade estava deserta e as luzes das casas estavam apagadas. Todos pareciam dormir o sono dos justos e estavam perdidos demais no mundo dos sonhos para se atentarem a qualquer coisa. Regina e Zelena esgueiravam-se com cuidado por entre a mata que circundava a cidade, até chegarem aos fundos da pensão de Granny.

A ruiva levou dois de seus dedos até os olhos e, depois, apontou o nariz com o indicador. Regina a encarou, parando alguns segundos para tentar compreender que tipo de código estava sendo passado. Por fim, ela desistiu de quebrar a cabeça em busca de sentido.

— O que diabos você está querendo dizer com isso? — sua voz baixa chamou a atenção da irmã, que recuou pé ante pé.

— Eu disse que vou ficar de olho, — ela repediu o gesto em direção aos olhos. — enquanto você fareja. — novamente, apontou para o nariz.

— Céus, — a morena negou com a cabeça. — eu vou mandar vovó queimar todas as televisões.

— Ande, gatinha, — Zelena bateu no ombro da irmã. — fareje.

Regina pensou em responder à ruiva, mas resolveu que aquele não era o melhor momento para iniciar uma de suas tão acaloradas discussões. Apenas reservou na sua mente a lembrança de que o troco precisava ser dado. Por fim, ela caminhou mais à frente e aprumou seus ombros. Seu nariz passou a se mexer rapidamente, tal como a de um felino que fareja com cuidado o local que o rodeia. Uma brisa forte passou por seu rosto, bagunçando seus cabelos castanhos e trazendo, junto a ela, o cheiro que Regina tanto buscava.

O quarto de Emma ficava no segundo andar. Sua janela estava aberta e o vento fazia com que a cortina balançasse. A morena questionou-se o motivo daquilo, já que a noite estava fria e a maioria das pessoas procuraria o mais quente edredom para se proteger. Ignorou suas dúvidas e indicou para a irmã a singela janela de maneira, cuja tintura branca que a cobria já estava desgastada pelo tempo.

— Certo, faremos o seguinte: — a ruiva sussurrou. — gatinha Regina sobe até lá, enquanto eu entro pela parte de baixo. Eu encontro o quarto, dou um sinal, você destranca a porta para mim e nós colocamos um feitiço nela para que possamos vasculhar.

— E se ela acordar quando eu entrar pela janela? — Regina questionou, atentando-se a qualquer possível movimento por perto.

— Ah, Regina, isso não vai acontecer! Além do mais, a noite todo gato é parto. — Zelena encarava a janela, mas virou-se diante do pigarro dado pela irmã, deparando-se com o olhar sério de Regina. — Sem ofensas, é claro.

A morena ignorou, mais uma vez, a irritação em si e aprumou os ombros. O seu corpo iniciou a mutação que originava-se no interior de seu ser. Sua altura diminuiu aos poucos, ao tempo em que seu comprimento se alongou. Os dedos criaram garras, o cabelo se tornou pelo e se espalhou pelo corpo. Uma cauda ganhou espaço no final de sua coluna e seus pés alongaram-se, formando os tarsos. Ela flexionou suas patas frontais e suas vertebras lombares, vestindo por completo a nova forma. Quando a gata encarou Zelena, seus olhos já estavam tomados pelo amarelo. Desviou, com a característica delicadeza felina da roupa, que agora resumia-se a um amontoado de tecidos no chão. Olhava com atenção a parede a sua frente, como quem investiga com cuidado cada detalhe de uma obra de arte. Ela tomou distância e pulou, sem causar barulho algum, suas unhas se prenderam à madeira da janela do andar de baixo. As pequenas patinas apoiaram-se na cobertura da janela, que possuía apenas alguns centímetros e seria impossível para qualquer outro equilibrar-se, mas ela se equilibrou. Uma pata de cada vez, a felina chegou à ponta, dirigindo um curioso olhar à ruiva, que a observava com atenção e certificava-se de que nenhum curioso estava as observando.

— Exibida. — Zelena sussurrou para si mesma enquanto assistia a belíssima performance de sua irmã-gata.

A felina preparou-se mais uma vez antes de saltar e agarrar-se ao batente da segunda janela. Precisou de certo esforço a mais para que o corpo peludo se equilibrasse por completo, mas nada que causasse um alarde. Enfim, a gata pulou e, ao certificar-se de que estava no lugar certo, encarou à ruiva, que entendeu o sinal dado.

Zelena recolheu as roupas da irmã, escondendo-as no pequeno jardim que Granny cultivava do lado de fora da pensão. Ela parou e respirou fundo ao encarar o solo e os saltos de sua bota, não aceitaria ser traída pela moda. Aliviou seus passos e caminhou sobre a terra úmida, sem deixar nem sequer um vestígio. Não demorou até que chegasse à porta dos fundos, cujo entorno era todo decorado por desenhos feitos à mão. Zelena observou com atenção os riscos traçados, reconhecendo alguns pequenos detalhes, que despertaram nela uma curiosidade que não seria esquecida tão cedo. No entanto sabia que aquele não era o momento, portanto, voltou-se para à maçaneta dourada.

Aperire. — aguardou o “click” que denunciaria o destranque da porta, mas ele não veio. — Aperire! — repetiu, desta vez com maior convicção, mas o resultado foi o mesmo. A ruiva cogitou que o problema estivesse nos seus ouvidos, mas bastou que tentasse girar a maçaneta para compreender o porquê da ausência do som. — Quem diabos deixa a porta aberta!? — esbravejou, enquanto adentrava o cômodo. — Humanos idiotas.

A cozinha da casa de Granny causaria um surto em Regina e, por isso, a ruiva certificou-se de que a levaria lá antes que saíssem da casa. Por outro lado, era totalmente compreensível o porquê de ela estar daquele jeito. A desordem notável denunciava a correria do dia a dia de quem precisava administrar uma pousada e uma lanchonete aos cinquenta e poucos anos. Nem todos possuíam o dom das Bruxas de se eternizarem. O papel de parede envelhecido que tomava o corredor principal trazia uma estranha nostalgia, como voltar para um lugar que visitou na infância e que jamais lhe fugira da mente. A pensão trazia consigo uma sensação gostosa de casa e de acolhimento. Zelena cruzou o que parecia ser a recepção e buscou pela escada que dava acesso aos quartos.

— Não dê um rangido, não dê um rangido. — repetiu para si mesmo, como um mantra, aliviando o máximo que podia o seu passo quando a bota tocou à madeira. — Graças à Deusa.

Adiantou-se em subir o mais rápido que podia, certa de que encontraria uma Regina impaciente no segundo andar. Ela desejou bater em si mesma quando encarou o grande número de portas, chegando à conclusão que se esquecera de contar qual era a posição da janela de Emma. Uma grande passadeira de tom bordô se estendia ao longo do corredor. Zelena caminhou por ali, pé ante pé, tentando encontrar qualquer sinal que denunciasse o local certo. Concentrou-se em seus pensamentos, buscando pela mente da irmã, mas o que ela encontrou foram sonhos que a fizeram desejar mais tempo para degustar daquelas maravilhas. Um senhor, que dormia no terceiro quarto à sua direita, sonhava com uma jovem morena de longos cabelos cacheados, que lhe sorria com dentes branquíssimos. Zelena acabou a reconhecendo como uma das atendentes da padaria que ficava próxima ao museu. Mais a frente, ela encontrou os sonhos de uma criança que parecia fugir de um estranho mundo negro demais. A agonia de quem fugia dentro de si mesmo fez com que o coração de Zelena se apertasse. Ela resistiu durante alguns segundos, certa de que aquela não era uma boa ideia, mas a decisão já estava tomada antes mesmo das escolhas se apresentarem. A ruiva resolveu que aqueles não eram bons sonhos para um jovenzinho. Concentrou-se no menino, até que encontrou seu quarto. Sua mão tocou a maçaneta e ela sussurrou o comando, desta vez o “click” foi audível.

O pequeno garotinho de cabelos loiros dormia agarrado ao seu urso. O seu rosto estava suado e ele parecia estar aterrorizado. E não era para menos, a ruiva concluiu. Os seus sonhos em muito se assemelhavam aos que Zelena tinha na infância. Sonhos que ela escondeu o mais fundo que pode em sua mente. A mulher se aproximou da cama do garoto, sem saber ao certo o que faria. Não conhecia nenhum feitiço na língua mãe que se dirigisse a sonhos, ou algo do tipo. Por fim, ela se lembrou do que a avó sempre dizia, o que realmente tem relevância sobre um feitiço é o quão verdadeiros são os seus sentimentos sobre ele. Além disso, todo feitiço deve ser conjurado na língua em que foi escrito, portanto, ela inventaria um em sua própria língua.

— Oh céus, eu espero que isso dê certo, garoto. — ela se acomodou ao lado da cama, desejando que a irmã estivesse ali. Regina sempre fora melhor com poemas e rimas, mas ela também não era tão ruim. Lembrava-se de ter escrito um feitiço ou outro na infância, mas isso ficara perdido no tempo. Acabou por fazer uma anotação mental para pedir ajuda à avó. Os seus olhos se fecharam e ela tocou o rosto do menino, buscando pela magia dentro de si, tão vívida quanto o coração que pulsava em seu peito. — Flores, campos e heróis também, que só haja espaço para o que provém do bem. Doces sonhos venham agora e só pela manhã vão-se embora. Que o mundo dos sonhos não permita jamais que qualquer pesadelo lhe tire a paz. Com a força das minhas palavras, que assim seja e que assim se faça. — ela abriu seus olhos e encarou o rosto que, pouco a pouco, ganhava um ar mais sereno. — Não conte para ninguém que eu fui legal, porque isso pode arruinar a minha fama de malvada. — levantou-se com cuidado da cama, temendo despertar o menino.

— Isso foi muito legal. — a voz da morena fez com que os olhos da ruiva se arregalassem. Ela se virou, deparando-se com uma Regina totalmente nua.

— Regina! — ela esbravejou, fazendo movimentos rápidos com as mãos, como se batesse em algo à sua frente. — Droga! Droga! — respirou fundo, recuperando sua postura. — Não vamos falar sobre isso. Nunca.

— Você é um amor. — a morena passou o braço pelos ombros da irmã enquanto saiam do quarto, mas se certificou de que a porta se trancara atrás delas.

— Eu não sou, não. — a ruiva mordeu a própria bochecha, segurando a raiva dentro de si.

— É sim.

— Nós estamos invadindo uma residência, você está nua e eu estou mal humorada o bastante para começar uma briga. Você quer isso? — os olhos claros encararam Regina, desafiando-a.

— Vovó nos mataria. Não vale a pena. — concluiu, por fim. — Você esqueceu qual era o quarto, não foi?

— Não, claro que não. — ela deu de ombros. — Imagine só se eu iria cometer um erro ridículo desses.

— Claro. — a morena a puxou em direção ao quarto da loira. Ambas entraram com uma enorme cautela.

Enquanto Zelena se ocupava com o feitiço que manteria Emma dormindo, Regina, que já estivera ali há alguns minutos, dedicou-se a revisar os livros de Emma, que estavam espalhados sobre uma escrivaninha de canto. Algumas diversas anotações se espalhavam por ali e a morena acabou, involuntariamente, notando alguns curiosos hábitos da loira. Ela parecia ter a estranha mania de marcar livros com qualquer coisa que encontrasse pela frente. Regina concluiu isso após encontrar um cabo de maça, um prendedor de cabeços e um clipe de papel servindo à função de marcar qualquer informação que fosse julgada importante. Além disso, anotações eram feitas a lápis e se distribuíam pelas bordas das páginas. A letra corrida fez a morena concluir que Emma pouco dava atenção ao que escrevia e executava o ato quase em um modo automático. Papéis amassados também estavam jogados por ali e, em um deles, ela encontrou um pentagrama rabiscado, tendo o simbolismo de cada detalhe destacado. Não julgou aquilo importante, afinal, não era difícil saber o significado, difícil era saber colocar aquilo em prática. Tudo parecia normal, sem grandes coisas que viessem a causar um alarde, apenas uma enorme quantidade de conhecimentos banais.

Zelena revirava as malas da loira e acabara descobrindo que seu gosto por roupas não era dos piores. Encontrou algumas outras anotações, que nada de diferente carregavam. Era incrível a capacidade que Emma tinha de guardar quinquilharias que não serviam para nada, ou que pareciam não ter uma utilidade aos olhos da ruiva. Revisou mais uma vez tudo o que estava a sua frente, até ter certeza de que nada havia lhe passado despercebido, mas algo lhe chamou a atenção. Ali, embaixo da cama, provavelmente esquecido no meio de tantos papéis, um pergaminho antigo se destacara aos olhos da Bruxa. Ela o pegou, abrindo com cuidado para que o desdobrar do papel não fosse tão barulhento. Os seus olhos se arregalaram levemente quando percebeu do que se tratava, pois logo um segundo papel se revelou dobrado ali. Esse sim poderia causar-lhes dor de cabeça.

— Regina, nós precisamos voltar. — a ruiva cutucou o ombro da irmã, alertando-a.

— Certo, vamos logo. — a morena segurou um pequeno livro de couro, sem saber ao certo porque ele a atraíra tanto. Entregou-o à irmã, pois sua nudez não permitia que nada fosse guardado.

A morena abriu a porta, colocando apenas a cabeça para fora e observando o corredor, que mantinha-se desértico. Zelena seguia logo atrás da irmã. Sua mente funcionava, preocupada com o que havia visto, mas ainda assim ela imaginava o quão hilário seria se alguém se deparasse com Regina nua, invadindo uma pensão. Já estava tão acostumada com aquilo que já não lhe causava incomodo algum. Aliás, a nudez nunca lhe causara grande incomodo, nem mesmo em Regina, ou nas outras Bruxas que conheciam. Contemplavam o corpo feminino como quem contempla uma obra bem pintada, cujos traços devem ser enaltecidos sempre. Ainda assim sabia que aquilo estava longe de ser o pensamento da maioria das pessoas, que mantinham ideias tão retrógadas e cheias de pudores.

— Zelena, você não tirou o feitiço de Emma! — Regina lembrou quando já estavam no jardim.

— Eu tenho certeza que ela irá acordar um dia. — a ruiva tentou argumentar, mas sabia que o feitiço poderia fazer a loira dormir por um período longo demais.

— Fique aqui, eu vou até lá. — voltaram, então, ao ponto de partida. Bem abaixo da janela de Emma.

A ruiva aproveitou para recuperar as roupas da irmã e guardou o pequeno livro em seu bolso, junto ao pergaminho. Encostou-se na cerca que circundava o terreno e encarou o céu escuro. Estava cansada. Cansada ao ponto de cogitar ir direto para casa e se abrigar em sua cama. Ela quase não pode imaginar que estava pensando em negar uma noite no riacho à luz da Lua Cheia. Toda aquela situação já estava tirando a sua paz. Uma estranha movimentação no quarto fez com que os olhos de Zelena se arregalassem. O pânico tomou à ruiva, mais ainda quando a luz se acendeu e uma cabeleira loura apareceu na janela, em seu colo estava uma gatinha preta.

— Ah... Oi! — Zelena pensou no que poderia fazer, sua mente estava mergulhada em um déjà vu que a levava diretamente para quinze anos atrás. — Eu sinto muito por atrapalhar, mas a minha gatinha fugiu. — ela apontou para a felina que estava no colo de Emma.

— Oh, certo. Isso explica muita coisa. — a loira, que ainda estava sonolenta e pouco havia assimilado do acontecido, saiu de seu quarto e desceu até a porta da frente.

Emma havia acordado em um susto enorme. Estava perdida em meio a um sono sem sonhos, completamente negro e profundo. O seu corpo desejava despertar há algum tempo, mas ela simplesmente não conseguia. Então, de repente, foi como se um estranho gancho a puxasse para fora. Os seus olhos se arregalaram a tempo de ver um grande vulto passar à sua frente. Demoraram-se longos segundos até que se acostumasse com a escuridão e fosse capaz de enxergar distinguir a silhueta da gata, que estava prestes a pular pela janela. Em um impulso curioso, a loira a segurou em seus braços, receando que a queda machucasse o animal.

— Olá, — ela sorriu fraco quando encarou os olhos claros que a aguardavam em expectativa do outro lado da porta. — aqui está a sua gata. — entregou a felina à ruiva, que segurou-a com um cuidado exagerado.

— Eu sinto muito por ela ter atrapalhado sua noite, de verdade. Sabe como é, gatos são meio imprevisíveis. — as palavras ditas em uma curiosa velocidade fizeram com que Emma precisasse se esforçar para acompanhar o ritmo da mulher. — Aliás, que enorme indelicadeza a minha. Minha gata invade o seu quarto e eu nem ao menos tenho a decência de me apresentar. — revirou os olhos. — Perdoe-me. Sou Zelena Mills. — ela ofereceu a mão à loira, que a aceitou.

Todavia, um curioso turbilhão de pensamentos invadiu a mente de Emma. Pouco a pouco, ela se recordou de uma estranha lembrança que a muito estava armazenada nos confins de sua mente. Recordou-se de uma noite calma e de um céu estrelado, dos olhos amarelos de uma gata e da cabeleira ruiva de uma adolescente.

— Eu conheço você, — disse, por fim, enquanto parecia se esforçar para lembrar-se de cada detalhe. — eu sou Emma Swan. Acho que nos conhecemos há alguns anos.

— Oh, é mesmo? — a ruiva fingiu indiferença. — Eu não estou me lembrando.

— Consigo me lembrar perfeitamente agora. — a mulher sorriu. — A sua gata também havia fugido naquela noite.

— Ah, isso é realmente difícil. Minha gata foge muito. Ela não é do tipo doméstica, está mais para delinquente agressiva. — deu de ombros, certa de que o melhor a se fazer era sair dali. — Bom, eu preciso ir. Foi um prazer conhecer você. — deu as costas à loira, que continuou a olhar enquanto a mulher se afastava.

Emma voltou para o seu quarto com estranhos questionamentos na cabeça, que há muito não a abatiam. Não sabia o porquê de aquela lembrança lhe causar tanto desconforto, mas decidiu que não havia motivo para tal. Deitou-se novamente, tentando convencer a si mesma de que coincidências acontecem. Logo ela, que não acreditava nem um pouco em coincidências.

— Oh meu Deus, eu arruinei tudo. — Zelena colocou a mão sob a testa. — Ela com certeza sabe tudo agora.

— Calma, Zel. — Regina, que havia voltado à forma humana, vestia suas roupas em meio à mata. — Fui eu quem acabou despertando-a. Eu não sei como isso aconteceu, geralmente as pessoas levam um tempo para voltar à realidade.

— Aconteceu porque as coisas tinham que dar errado. Eu devia ter desconfiado, sabia? Estava tudo dando muito certo. — a ruiva suspirou. — Será que ela te viu nua? Pelo menos será uma boa lembrança.

— Claro que não, Zelena. Consegui me transfigurar antes que ela despertasse por completo. Foi possível sentir o retorno dela com uma força muito intensa. — a mais nova explicou, enquanto colocava-se a caminhar de volta para a casa. Ambas decidiram que a noite já havia sido agitada demais.

— Certo, certo. — a ruiva ergueu suas mãos frente ao rosto, canalizando sua própria energia. — Eu estou muito nervosa, mas tudo está bem. Está tudo bem. Claro que está tudo bem.

— Está tudo bem. — Regina confortou sua irmã, sem saber ao certo o quanto de certeza carregava em suas palavras. — O que você encontrou por lá?

— Ah não está tudo bem. — Zelena praguejou, buscando o pergaminho em seu bolso e abrindo-o frente ao rosto da minha irmã.

— Droga, — a morena encarou os detalhes que se distribuíam pelo papel escurecido. — é um mapa de leɪ laɪnz.

Notas finais
Digam-me o que acharam e o que esperam! Estou à disposição para responder qualquer dúvida. Um grande beijo. Twitter: @evilquexr