Torre de Névoa
5 Nervos de Gaia.
Notas iniciais
— Há muitos anos nossos ancestrais vêm passando conhecimentos, por meio de livros e, até mesmo, por meio de seus descendentes. Dentre histórias contadas, existia uma, que sempre me chamou a atenção, sobre leɪ laɪnz. — Perpétua segurava sua xícara de chá, sentada em sua confortável e antiga poltrona, enquanto seus olhos se perdiam para além dali. — A Terra, Gaia, tal como nós, possuí corpo e espírito. Sabe-se que ela é um ser consciente, uma criatura viva. Os animais e as plantas são como seus órgãos. Os rios, mares e oceanos são seu sistema sanguíneo. As leɪ laɪnz são seu sistema nervoso. Gaia adoece e sofre. Suas árvores são cortadas, seus rios secam. Ela se alimenta da radiação de outros corpos planetários que a rodeia nesse tão extenso universo. Gaia, assim como os seres humanos, também possuí seus chakras. — os seus olhos correram pelo mapa a sua frente, observando-o com atenção, ainda que cada detalhe já estivesse mais do que gravado em sua mente. — As leɪ laɪnz funcionam como linhas de energia que cruzam toda Gaia. Elas carregam poder dentro de si, carregam magia. Igrejas e templos de adoração costumavam ser construídos em pontos característicos, aonde existia uma conexão com essas linhas. Acredita-se, também, que todo lugar onde exista uma forte prática e grande energia causa um ponto entre elas, que passarão a ligá-lo a outros pontos ao redor do mundo.
Ela se acomodou na poltrona e voltou seu olhar para suas netas. Ambas estavam sentadas à sua frente, com suas xícaras de chá quente presa às mãos. A avó já as esperava quando romperam pela porta, com seus rostos assustados e o medo estampado em cada palavra dita. A calma precisava ser mantida, Perpétua logo declarou. Precisavam sentar e analisar os fatos, nada poderia ser feito em meio à euforia e não existia algo mais eficaz para abrandá-la do que um chá quente. A noite, que se tornava cada vez mais fria, também a preocupava. Portanto, antes de qualquer coisa, mandou que as netas tomassem um bom banho e vestissem roupas confortáveis. Tudo aquilo ainda estaria ali quando elas voltassem, afinal.
Encarou o rosto de Regina, que aparentava calma. A avó sempre admirou tal característica na neta, uma boa soldada em meio à tempestade. Regina tinha o poder de pensar enquanto o caos se instalava e Perpétua sabia que era isso o que a morena fazia agora. Os seus olhos castanhos estavam vidrados no papel antigo e amarelado. Sua postura ereta e a forma como mantinha os lábios semicerrados. Por tantas vezes a avó havia observado aquela criança, que cresceu e se tornou mulher, mas que, ainda assim, possuía traços tão fortes e antigos. Temia por sua neta. Todos os dias, ela temia. Temia por saber demais e por suspeitar do que ainda não fora esclarecido. Inevitavelmente os seus olhos pesaram sobre a pequena pedra negra no colar. Uma vida fora perdida e agora, Regina possuía seis delas. Seis vidas e apenas uma realmente a pertencia.
Zelena sempre fora mais emoção. A ruiva, que carregava a euforia e a animação de toda uma torcida, sempre se mostrou mais transparente para a avó. O seu sorriso poderia iluminar até a mais escura das noites e os seus olhos refletiam tamanho saber. Desde pequena sempre prezou a beleza, como se esculpida por Vênus para vir ao mundo e torná-lo mais belo, com seu dom peculiar de ver o bom e de externar tudo aquilo que a abatia. Zelena não temia nada e nem ninguém. Tão dona de si mesma e tão decidida que por vezes a avó precisou intervir para que ela não causasse uma confusão, ou outra. Jamais permitira que ninguém entrasse em seu caminho, ou que a diminuíssem. Uma filha da Deusa, sem dúvidas. Perpétua, que fingia não saber de muitas coisas, podia ver o peso sobre os ombros da ruiva. Um peso que não deveria ser dela.
— Emma ter um desses mapas deve mesmo nos causar tanta preocupação? — Zelena rompeu o silêncio. — Quer dizer, hoje em dias as informações se disseminaram por ai. Sabe-se muito e não sabe-se nada. O que eu quero dizer é que ela pode muito bem ter encontrado o mapa e até saber que ele retrata leɪ laɪnz, mas sem realmente compreender o que elas representam e sua real importância. Eu vejo muitas pessoas usarem símbolos, carregarem cristais e proferirem nomes sem, de fato, compreender o sentido e relevância daquilo.
— Oh sim, querida. As coisas têm, cada vez mais, se perdido por entre as trocas que ocorrem no mundo. — a avó tomou um gole de seu chá, preparando-se para responder à grande questão de Zelena, mas foi Regina quem o fez.
— Emma ter um mapa qualquer sobre leɪ laɪnz não nos preocuparia, mas, Emma ter este mapa, nos preocupa, — ela segurou o papel em suas mãos, colocando-o à frente do rosto de Zelena. — pois nós estamos exatamente neste ponto aqui. — tocou o círculo negro que marcava uma longa linha. A boca da ruiva se abriu em choque.
— Isso quer dizer que...
— Que se ela o seguir, nos encontrará. Encontrará a casa e, mais do que isso, encontrará a floresta. Descobrirá que vovó criou um ecossistema escondido em meio ao Maine. — um suspiro pesado foi dado pela morena, que deixou a cabeça descansar em uma das mãos, enquanto buscou a quentura de seu chá.
— Mas ela não pode entrar na floresta, certo? Ninguém pode entrar na floresta. Não sem que vovó saiba que estão o fazendo. — buscou por qualquer coisa que as pudesse proteger daquilo. Elas precisavam fazer alguma coisa.
— Ela não pode, querida, — a avó adiantou-se em explicar, pousando sua mão sobre os cabelos ruivos em um afago carinhoso. — mas acredito que o que mais preocupa sua irmã é, também, o que me preocupa. Desde que Emma Swan chegou à cidade, nenhuma visão se apresentou para mim. Existem partes de sua mente que não foram lidas por você. Acredito que devemos nos manter atentas. Até então, ela não passa de uma jovem escritora, que veio buscar por novas informações e que possuí um ou outro conhecimento peculiar. Deve-se manter assim. — ela se colocou de pé e as duas mulheres souberam que, por hora, o assunto estava encerrado. — Eu quero que as duas vão para cama e descansem. Durmam o mais belo sono e amanhã nós poderemos nos preocupar com isso, certo?
— Certo, vovó. — Regina levantou-se e teve sua testa beijada pela avó. O mesmo foi feito com Zelena.
Ambas as mulheres seguiram para seus quartos e buscaram o conforto de suas camas. Estavam cansadas, mas a preocupação as impedia de dormir. Regina encarou o teto branco de seu quarto, como se ele fosse capaz de lhe dar as respostas que tanto buscava. Não via ameaça em Emma, sabia disso. No entanto sabia também, por meio de sua própria vida e pelas histórias contadas pela avó, que tudo aquilo que é novo precisa ser melhor compreendido. Emma era nova. Um ponto de mudança em suas rotinas tão bem planejadas, em suas vidas bem estruturadas. Temia que a mulher pudesse trazer algo para lá, ainda que não fosse sua intenção. Preocupava-se com a avó e com a irmã, como se fosse responsável por aquilo, de alguma forma.
As batidas em sua porta roubaram-lhe a atenção. Ela moveu a mão e permitiu que a fechadura se destrancasse. Sabia que era Zelena e sabia o que a irmã estava fazendo ali. A ruiva jamais batia na porta, ou esperava dois segundos para invadir o espaço com sua animação extrema. Se ela o fez, ela queria algo.
— Sim, você pode dormir aqui, Zelena. — Regina falou antes mesmo que a boca da irmã se abrisse. — Não, não vou dividir a minha coberta com você, vá buscar a sua.
— Mas eu já estou aqui, Regina! E eu trouxe o travesseiro desta vez. — ela se embrenhou junto ao cobertor da irmã e encarou os olhos castanhos. — Você também está com medo?
— Não é medo. — respirou fundo antes de seguir. — Eu tenho receio de que não estejamos vendo alguma coisa. Ao mesmo tempo em que eu acho que tudo isso pode ser uma grande perda de tempo, toda essa preocupação. Essas coisas conflitam na minha mente o tempo todo, mas eu preciso de mais segurança. Preciso ter a certeza de que não há nada errado antes de me permitir respirar normalmente.
— Você pode respirar agora. — a ruiva buscou pela mão da irmã, segurando-a firme, como fazia quando eram apenas crianças com medo do escuro. — Eu estou aqui e eu vou te proteger, Regina. Confie em mim.
— Eu confio em você, com toda a minha vida. — tocou a ponta do nariz da outra com o indicador. — Com todas as minhas vidas. — deu de ombros e acabou fazendo com que um sorriso escapasse dos lábios de Zelena.
— Certo, eu tenho um plano. — a ruiva se sentou na cama, sem largar a mão da irmã. — Acho que o mais importante agora é... — ela parou. — Espera, eu preciso ver o seu rosto.
— Ah não, Zelena, não acenda a luz. Eu estou vendo o seu rosto. — a morena cobriu-se com o cobertor no instante em que a irmã conjurou um feixe de luz sobre sua mão livre.
— Você tem a sua visão felina, Regina. Não é justa a comparação. Eu preciso olhar nos seus olhos para saber que você está prestando a atenção. — Regina se limitou a assentir, certa de que pouco adiantaria discutir com a irmã. — Bem, como eu estava dizendo, o mais importante agora é continuarmos de olho na Emma. Você precisa se aproximar dela. Pense bem, você viveu toda a sua vida aqui, além disso, é uma bibliotecária que praticamente mora dentro dos livros e Emma vem em busca de conhecimento. Ninguém melhor do que Regina Mills para ajudá-la e é isso o que ela precisa pensar. Então, você descobre o que ela sabe e nós tomamos descobrimos tudo.
— Mas este não era o plano desde o início? — a morena ergueu uma de suas sobrancelhas, que eram demasiadamente expressivas.
— Talvez, mas eu o melhorei. — adiantou-se em falar, dando de ombros. Fechou sua mão, apagando a luz que ali vivia, e deitou-se novamente ao lado da irmã.
— Olha, — a morena esticou sua mão e com um movimento rápido fez com que o teto desaparecesse. Pouco a pouco, o céu se expôs aos olhos das duas Bruxas e, lá em cima, brilhava uma intensa Lua. — é lindo.
— Lindo demais. — a ruiva apoiou sua cabeça em ambos os braços. — Ela também é linda, não é? — perguntou, sem nomear ninguém. Nem ao menos precisava, a morena sabia de quem ela estava falando, mas manteve o silêncio. — Ah Regina, vamos lá, não é crime achar uma pessoa bonita. Além disso, você pode se abrir comigo, a sua mente já me disse tudo.
— Então por que me pergunta? — virou-se para os olhos claros, que ganhavam um tom mais escurecido sob a luz da Lua.
— Eu gosto de ouvir você falar sobre as coisas que rondam a sua mente. — Regina sabia que a irmã falava a verdade. Um suspiro pesado precedeu as palavras dela.
— Ela é linda sim. — um sorriso brincou nos lábios da ruiva, mas ela escolheu não interromper. Podia ver, nos olhos de Regina, que ela estava longe dali. — Existe algo a mais nela, entende? Algo no olhar. Ela me parece tão forte e decidida, como se pudesse lutar com um gigante usando apenas uma espada e ainda assim sair vencedora, ao tempo em que os seus olhos guardam, também, uma inocência tocante.
— Fico me questionando como seria se não tivéssemos todos esses problemas. Acho que seria interessante ver uma interação de vocês duas. — a morena buscou por malícias na frase da irmã, mas não a encontrou. Apenas trazia uma sinceridade forte demais. — Porque você é Regina Mills. Você faz todos os homens da cidade sofrerem, será que Emma Swan já descobriu sobre isso? — a ruiva gargalhou e Regina soube que a malícia estava de volta.
— Não seja louca, Zelena. Eu não faço isso. — se virou de lado, certa de que já estava na hora de dar o assunto como findado e ir dormir.
— Como não, Regina? Sidney sofre até hoje! Na verdade, aquela vez não foi mesmo sua culpa. Ele fez um bom trabalho em se iludir sozinho, mas você nunca se deu ao trabalho de dizer a ele que não estava interessada. — Zelena se sentou mais uma vez e Regina começou a se arrepender de ter permitido a permanência da irmã ali. Questionou-se se a avó brigaria muito caso ela banisse Zelena com um feitiço que repetia-se em sua mente. — Agora, Graham. Você o iludiu sim.
— Zelena! — a morena bateu contra o colchão, mas isso só serviu para que a irmã gargalhasse ainda mais. A irritação de Regina sempre era a resposta que Zelena buscava e sempre era causada com uma facilidade enorme. — Se você continuar, eu vou me transfigurar e ir dormir lá fora.
— Você pode até tentar. — ela deu de ombros, mas segurou o braço da irmã quando a mesma insinuou que iria se levantar. — Eu estou brincando, Regina, fique aqui. Não quero lhe provocar e nem nada, mas você precisa confessar que, de uma forma ou de outra, as pessoas acabam apaixonadas por você. Não é sua culpa não corresponder, mas você precisa admitir que acontece. — deitou-se de novo, puxando a morena junto de si. — Esses dias eu encontrei Graham no Granny’s. Ele estava tomando café e me perguntou sobre você.
— O que você respondeu? — os olhos castanhos se arregalaram e a ruiva acabou por sorrir.
— Eu respondi que você estava muito bem solteira. Ele até me pediu o seu número novo, disse que estava com saudades e que precisava lhe ver. — Zelena fingiu desdém, mas a irmã lhe fuzilava com o olhar, o que a fez adiantar-se em responder ao questionamento que ela sabia que viria. — Não, claro que não dei o seu número a ele, Regina. Além do mais, você quase não usa o seu celular, de pouco adiantaria.
— Ele precisa superar isso. Nós não tivemos nada, só dormimos juntos algumas vezes e eu sempre deixei claro que era algo eventual, nada demais. — aquele assunto acabara por causar um desconforto em Regina. Odiava ser pressionada e Graham costumava ter o mau hábito de fazê-lo.
— Quem manda você ser uma filha de Morrigan. — a ruiva bocejou e logo foi acompanhada pela irmã. — Certo, vamos dormir. Eu amo você, irmãzinha. — ela beijou o rosto de Regina, segundos antes de cair no sono.
— Eu também amo você. — respondeu, mesmo sabendo que Zelena já se perdera em sonhos.
Regina demorou a dormir. Sabia que demoraria, de fato. Encarou o céu durante um bom tempo até que seus olhos pesassem e, quando o fizeram, um estranho som lhe chamou a atenção. Ela pensou em levantar, mas a mão de Zelena se prendia firmemente à dela e sabia que a irmã acordaria caso saísse dali. Sabia também que sempre seria um grande erro acordar Zelena. Então, fechou os olhos e aguçou seus ouvidos. O som de passos era bem claro e ela agradeceu à Grande Deusa por sua audição. A avó estava saindo da Mansão, não lhe restava dúvidas. Não se importou com aquilo. Perpétua costumava colher algumas ervas específicas durante a primeira noite de Lua Cheia. A morena relaxou o corpo, era certo que sentiria o chamado da avó caso algo acontecesse, portanto, não havia o que temer. Pensou em permanecer acordada por mais algumas horas, apenas para ter a certeza de que a mais velha chegaria em segurança, mas logo um incontrolável sono a abraçou e, antes que pudesse impedir, os seus olhos se fecharam.
A última coisa que Perpétua desejava era ser seguida por Regina. Conhecendo bem a neta e sabendo dos seus belos instintos, a avó praguejou uma ou duas vezes ao sentir a mais nova das netas. Jurava que o sono já havia tomado Regina quando decidiu deixar a casa, mas lá estava ela, acordada e atenta. Certamente já sabia que ela havia saído, mas Perpétua não poderia correr o risco do instinto protetor de Regina atrapalhar seus planos. Não aquela noite. Não quando ela precisava demais da solidão.
— Manere per somnus, Regina Mills. — sussurrou, enquanto uma fina névoa lhe abandonava as mãos e partia em direção à janela do quarto da neta. Sorriu de leve quanto sentiu o sono pesado de Regina a ganhar. Agora, ela podia partir em paz.
Caminhou por uma trilha já conhecida há anos. Somente por ela, de fato. Ocultava-se até mesmo para as duas netas de Perpétua. Aquele lugar, que poderia ser considerado o coração da magia que circundava a Mansão, obtinha um carinho especial da velha Bruxa. Andou por entre plantas e galhos secos. Seus passos já não mais faziam barulho e a floresta, pouco a pouco, abrigava-a como parte de si. O manto azul escuro que vestia refletia à luz do luar e a tornava um pedaço da noite.
Perpétua resistiu em ir até ali. Pensou uma ou duas vezes antes de seguir em frente, mas sabia que não existia outra opção. Ela, que guardava consigo uma intensa preocupação, não podia permitir que aquilo continuasse. De forma alguma. Lutou para que seus olhos não revelassem suas preocupações às netas, nem mesmo a Zelena, cujo poder crescia a cada dia e, a cada dia, tornava mais difícil para Perpétua proteger sua mente da leitura da ruiva. Sabia que a neta não era culpada por seu dom, nunca pensara dessa forma. Era uma dádiva, sem dúvidas. Ainda assim, Zelena carregava preocupações demais. Existiam coisas guardadas pela mente de Perpétua que jamais poderia ser vistas, por nenhuma das duas netas. Talvez, por ninguém.
Encarou a grande árvore anciã. A maior de todas elas e, para Perpétua, a que carregava a mais devastadora beleza. Seu tronco marcado por antigas inscrições deram à Bruxa a segurança para respirar fundo. Ela estava no lugar certo. Caminhou por entre as grandes raízes, que estavam expostas para fora do solo. Suas mãos se colaram à madeira fria e ela permitiu que seus olhos tomassem a cor de sua alma, um branco vívido.
— Cailleach Oidhche, mo charaid milis. Thigibh a m'ionnsuidh, a bhana-mhaighstir a 'ghliocais.¹ — intensas ondas de energia foram liberadas por suas mãos. Elas, que carregavam um vermelho vívido, penetraram no grosso tronco da árvore, subindo até sua copa. Perpétua aguardou, até que o som das asas batendo lhe causou um breve sorriso.
— Perpétua Mills, Segunda Descendente de Cailleach, a Terceira Filha da Deusa Tripla. — ela se virou, encarando os olhos amarelos do animal que a observava com a atenção de um predador. A Coruja trazia penas brancas e negras. Pousava em apenas um dos pés, obtendo o equilíbrio perfeito. — Mostre-me os seus olhos para que eu os contemple. — Só então a mulher piscou, deixando o branco para traz e trazendo, de novo, os seus olhos. Hoje, eles estavam cinza. — Qual preocupação torna teus olhos cinzentos, doce criança? Devo agradecer a ela, de fato, pois há um século eu não a vejo. Pergunto-me o que a fez desaparecer. Acredito que a vida tenha lhe dado paz nos últimos anos, pois é no caos que tu me procuras. — sua cabeça se entortou por um breve instante, mas seus olhos mantiveram-se presos à mulher.
— Olá Ezag, eu também senti saudades. — ela tombou sua cabeça em uma breve referência ao animal, que repetiu o gesto, como em respeito mútuo. Ambos já viveram o bastante para entender que aquilo era necessário. — Eu peço desculpas por ter me ausentado por tanto tempo. Confesso que os dias se tornaram mais corridos quando me tornei responsável por duas jovens Bruxas. — o seu peito se encheu de uma quentura terna quando pensou nas duas meninas-mulheres, ela sabia que Ezag sentiria aquilo, pois ele tudo sentia e tudo via.
— Zelena e Regina. Garanto-lhe que poderia me sentir ofendido por não ter sido apresentado às duas jovens mulheres, mas entendo seus motivos, Bruxa. Ainda que anseie por conhecer a jovem dos cabelos de fogo. Também entendo o que a trouxe aqui. — a coruja bateu suas longas asas, que guardavam runas dentro de si, e pairou em um galho mais baixo, permanecendo na altura do rosto de Perpétua. — A jovem mulher, cujos olhos verdes refletem a alma, deveria guardar dentro de si um enorme legado, mas este não mais ali habita. Agora és pura e humana. Ainda assim, eu lhe digo, Sacerdotisa, a preocupação que habita seu coração à ela não deve pertencer, pois tu és protetora daquela que não deveria ter nascido.
— Não ouse continuar, Ezag. Nós já tivemos esta conversa há alguns séculos. — ela aprumou seus ombros e calou a voz da coruja. — Eu vim aqui, pois desejo o conhecimento daquilo que tomou minhas visões. Eu desejo o conhecimento sobre sua ausência.
— Suas visões voltarão, doce menina. Não temas a ausência daquilo que lhe roubará a paz, eu lhe asseguro. Acredito que é hora de partir e peço-te perdão por já ir tão cedo. — Perpétua pensou em protestar, mas sabia que nada adiantaria. Era hora de partir e ela compreendia aquilo. — Não demore mais um século para retornar, querida Bruxa.
Um único bater de asas foi o bastante e a noite abriu aquela que guardava a sabedoria dentro de si. A coruja, que outrora se apresentou tão insistente à Perpétua, hoje se tornara uma antiga amiga. A mais velha tocou a arvore uma última vez e agradeceu por sua ajuda, também era hora de retornar. Voltou-se para o caminho, que se abriu para ela. Seus pés arrastavam-se, cansados demais. Sua cabeça não deixava de trabalhar e podia-se jurar que seus pensamentos seriam ouvidos pelo mais relapso ser. Ela contemplou a Lua, pediu, em súplica silenciosa, pela proteção da Deusa que habitava o céu. Aquela que era a dona de tudo e a criadora de tudo. Aquela que era tudo.
As palavras de Ezag trouxeram preocupação junto de si, que somou-se a que ali já estava. Ainda assim, a mais velha entrou na Mansão e recolheu-se em seu quarto. Deitou em sua cama com a certeza de que o dia seguinte seria melhor, afinal, ela teria o riso fácil de suas duas netas, que, para ela, eram a razão de tudo. Faria biscoitos para as meninas, de maçã com canela, decidiu. Apagou a vela que mantinha acesa em seu quarto, apenas por um hábito antigo que perpetuava-se mesmo com a modernidade da energia elétrica. Sua cabeça pousou sobre o travesseiro e seus olhos se fecharam.
Sentia o cansaço em seu corpo e não tardou para que o sono lhe abrigasse em seus braços. Não tardou, também, para que os dizeres de Ezag se afirmassem. As imagens, pouco a pouco, tomaram à mente de Perpétua. Tão claras quanto a Luz do sol. Traziam consigo um dos possíveis futuros, as verdades ainda não reveladas aos mortais.
Ela via Regina e via Emma. Conhecia o rosto da jovem mulher loira antes mesmo que fossem formalmente apresentadas. Emma Swan. Os cabelos loiros brilhosos e a postura firme. Os olhos verdes que refletiam sua alma, aquela alma. Tão nítido quanto à verdade que habitava os dias, Perpétua pode ver a linha que a ligava à Regina, uma linha que jamais poderia ser rompida. Uma linha de vidas passadas, que firmar-se-ia nesta, cedo ou tarde. Ela buscou por detalhes não vistos e muitos foram encontrados.
No entanto, assim como começou, a visão chegou ao fim, mas Perpétua continuou de olhos fechados, pois mais uma imagem do futuro a tomou. Esta lhe roubou o fôlego e fez com que as pupilas totalmente brancas fossem expostas. Foi esta imagem que causara o pânico e o medo. As palavras de Ezag ali estavam. Uma imagem que fez o coração da velha Bruxa disparar, tão forte quanto o cavalgar veloz de um cavalo. O suor lhe ganhou a pele e suas mãos tremiam em pavor.
— Não! — o grito forte foi dado no instante em que a mulher voltou à realidade.
Um estrondo se espalhou pelo quarto quando a porta se abriu em um rompante, dando passagem às duas netas. Zelena segurou nos ombros de Perpétua enquanto a questionava sobre o que estava acontecendo, mas a mulher já não era capaz de lhe ouvir. A avó respirava com dificuldade e encarava, com seus olhos mais acinzentados do que nunca, os olhos castanhos de Regina. Em sua mente, a imagem de sua visão se repetia, pois, nela, Perpétua via Regina queimar.
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