Torre de Névoa
8 O Corvo.
Notas iniciais
Há muito a dizer sobre a chuva. Dizem que são as lágrimas dos Deuses, que choram cristais líquidos e banham o mundo com sua dor. Como pode haver dor em algo tão belo? As gotas que caem e voam, pairando sobre o solo perdido, encontram as folhas verdes e ali moram até que o vento as mande embora. No chão, os pequenos lagos se formam e até mesmo uma correnteza pode nascer. O cheiro que provém da terra úmida abriga as lembranças de uma infância perdida entre memórias do passado. A ventania faz com que as árvores dancem, assim entoando sua melodia. Há quem diga que o som é irritante, mas Emma sempre encontrara conforto. Uma natureza em festa, pois há chuva. Em seus pensamentos dispersos, concluía que talvez sejam mesmo as lágrimas dos Deuses, mas, talvez, eles chorem de emoção e suas lágrimas, em tempestade, lavam a terra.
Quem dera se a chuva também pudesse lavar as almas.
Quem dera se os Deuses realmente existissem para limpar o mundo de seu caos, mas Emma sabia que nada disso era realmente verdade. Ainda que sua mente divagasse junto às gotas, ela sabia. Há muito convencera a si mesma de que nada disso era possível, de que o mundo era maniqueísta e sempre seria. Sem talvez, sem salvações divinas, sem caminhos fantasiosos. A esperança de um além lhe foi roubada. Para muitos, era curioso que Emma escrevesse tantas histórias e não nutrisse confiança alguma em suas próprias palavras, mas ela não via as coisas dessa forma. Escrevia histórias, pois eram somente isso: histórias.
Ela acordara no meio da noite com um incômodo sonho. Lembrava-se de descer e encontrar Granny. Trocaram algumas poucas palavras, mas ela voltara para seu quarto e, curiosamente, foi tomada pelo sono que jurara ter perdido. Agora, Emma observava as gotas mancharem a janela, trilhando caminhos sobre o vidro e deixando para trás a arte líquida. Ficou ali, por longos minutos, sem que nenhum som fosse emitido além da melodia chuvosa, que tornava-se serena e tempestuosa na frações de segundos. Os óculos pendiam na ponta de seu nariz, enquanto o lápis rabiscava a superfície do papel branco, unindo palavras sem sentido na métrica de uma poesia. Poesias jamais contadas. Poesias que Emma guardava para si, somente para si. Naquele dia, abrigada pela melodia chuvosa, os seus poemas falavam sobre olhos castanhos.
Não, eles não a abandonaram. Mesmo após sua volta ao sono, eles permaneceram ali, vívidos. Emma contava com os ponteiros do relógio. Suplicava silenciosa para que corressem e logo marcassem as horas de seu reencontro. O reencontro com aqueles olhos, ela desejava. Enquanto isso, transformava seu inexplicável sentir em palavras mais inexplicáveis ainda. Contava com a descrição dos poemas e pedia a eles que guardassem seus sentimentos sem sentido, sua confusão interna e seus desejos ocultos. Como poderia lidar com aquilo que não entendia? Sua vida, sempre tão certa e calculada, encontrava-se perdida em olhares castanhos.
Não, não olhares. O olhar. Somente um olhar.
Perdera-se curiosamente na intensidade de Regina. Isso a incomodava, na verdade. Afinal, pouco sabia daquela mulher, pouco convivera com ela. Não existiam explicações e Emma gostava de explicações. Gostava dos detalhes bem ditos e dos desenvolvimentos esclarecidos. Ali, não havia nada disso. Apenas sua ansiedade pelos ponteiros do relógio e pela atmosfera curiosa que acompanhava o som dos saltos de Regina.
Ela encarou o céu uma última vez, contemplando as nuvens negras que se formavam por ali. Desceu as escadas, decidida a tomar seu café na lanchonete, mas o chamado vindo da cozinha fez com que ela mudasse seu rumo.
— Bom dia, Emma! — Granny sorriu, entregando-lhe uma xícara de café. — Eu já estava mesmo indo acordá-la. Bem, eu gostaria de me desculpar por ontem. Imagine o quanto lhe pareceu indelicado de minha parte, mas há uma explicação. Claro que há. — a senhora empurrou a mulher em direção à cadeira. Logo em seguida, pães e bolos foram dispostos para que Emma escolhesse. — Eu tenho um péssimo humor quando acordo durante a noite, principalmente quando é por culpa de um gato irritante. — ela bufou. — Espero que me perdoe pela indelicadeza.
— Está tudo bem, Granny. Já era tarde. — a loira bebeu um gole do café quente, apreciando-o. — Na verdade, eu gostaria de saber se a senhora entrou em meu quarto para arrumá-lo, ou algo do tipo.
— Oh não, querida, de forma alguma. Lembro-me muito bem que me pediu para não fazê-lo. Sabe, você tem algumas coisas parecidas com minha neta. Ruby também encontrava-se em sua própria bagunça. Meus cabelos brancos são culpa daquela menina atrevida. — Emma percebeu quando um sorriso triste tomou o rosto de Granny. Perguntou-se onde estava Ruby, mas preferiu não questionar. — Eu insistia para que arrumasse o quarto, mas ela dizia que estava tudo bem organizado. Enfim, ela nunca perdera nada e sempre sabia onde encontrar tudo. — deu de ombros. — Mas por que pergunta? Aconteceu alguma coisa?
— Não, não. Nada de mais. — a loira mentiu. Queria saber onde estava seu pergaminho, pois tinha certeza de que o colocara na mala, mas era certo que Granny não o pegara. Afinal, não existiam razões para aquilo. — Apenas perdi um dos meus pergaminhos, mas não há importância. Ele deve estar dentro do carro.
— Sim, querida, procure por lá. — ela se virou.
Emma tomou o último gole de seu café e estava pronta para se levantar, mas seu corpo se chocou com a senhora, que estava de pé segurando uma faca. O corte feito no braço da loira não tardou a ser tingido pelo sangue.
— Oh céus, eu sinto muito. Sinto muito mesmo. — Granny buscou um lenço em um dos seus muitos bolsos. — Como sou atrapalhada, céus. Perdoe-me.
— Não há o que perdoar, Granny. Está tudo bem. Eu não vi que a senhora estava de pé, o erro foi meu. — a loira deixou que a senhora cuidasse de seu ferimento, pois estava claro que ela se culpava pelo ocorrido mesmo com todas as palavras tranquilizadoras de Emma. — Veja só, já parou de sangrar. — ela devolveu o lenço à Granny. — Uma pena ter manchado.
— Nada que boas esfregadas não resolvam, querida. Irei lavá-lo agora mesmo. Tem certeza de que está tudo bem? — atentou-se mais uma vez ao ferimento.
— Sim, já está tudo bem. Foi apenas um arranhão. — Emma se levantou, tomando cuidado para que nenhum outro incidente acontecesse. — Eu preciso ir agora. Regina está me esperando na biblioteca.
— Regina? — os olhos de Granny se abriram, atentos. — Regina Mills?
— Isso mesmo, a bibliotecária. Ela está me ajudando com alguns detalhes do meu novo livro. — a loira voltou a se sentar, vendo ali uma oportunidade para descobrir um pouco mais sobre a morena. — Aliás, o que você sabe sobre ela, Granny? Ela me parece tão...
— Problemática? Pois é isso o que aquela mulher é. Eu sugiro que você se afaste dela o mais rápido possível. Vá fazer suas pesquisas em outro lugar, menina. — a senhora ajeitou os óculos, respirando fundo. Sentou-se ao lado de Emma e aguardou, como se escolhesse as palavras para continuar. Quando falou, sua voz estava baixa e calma. — Regina é uma ótima menina, na verdade, mas há coisas complicadas demais, querida. Coisas que devem continuar do jeito que estão. Então, escute o conselho que lhe dou: afaste-se. Afaste-se enquanto ainda pode.
— Mas o que são essas coisas complicadas, Granny? — aproximou-se, curiosa. — O que há com Regina?
— Regina tem esse dom quase curioso de entrar na mente das pessoas. — Granny encarou o olhar esverdeado. — Bom seria se ela somente lhes roubasse os pensamentos. — a mais velha gargalhou, colocando-se de pé.
— A senhora me deixou ainda mais confusa. — Emma suspirou. As palavras ditas eram mais para si do que para a própria Granny. Ainda assim, a senhora retornou, afagando o ombro da loira.
— Proteja seu coração, menina.
Suas últimas palavras foram como caminhos para que Emma se perdesse. Quando pensou em questionar, a senhora já não estava mais ali. A confusão em sua mente lhe causou nuvens mais escuras do que aquelas que habitavam o céu. Deixou a pensão e caminhou sem rumo. O carro fora deixado de lado e o guarda-chuva fora esquecido. A tempestade, agora, era apenas uma garoa fina que marcava com pequenas gotas a jaqueta vermelha da loira.
Proteja seu coração.
A frase brilhava em sua mente. Deveria proteger seu coração de Regina? Mas que tolice era aquela? Decidiu ignorar o aviso da mais velha, pois era certo que Granny deveria ter alguma implicância com a mulher. Afinal, aquela era uma pequena cidade e esse tipo de situação não era das mais incomuns. Ainda assim, a cada passo dado, uma curiosa ansiedade despertava dentro de Emma. Seus batimentos perdiam o ritmo, vagarosamente, ela ansiava pelo olhar castanho que parecia guardar as estrelas dentro de si.
Mas a biblioteca estava fechada quando Emma chegou. Conferiu seu relógio, certa de que perdera longos minutos com Granny para estar adiantada. Bem, ela não estava. Como em seu primeiro dia ali, ela encontrou o garoto sentado, com seu livro no colo e os cabelos bem penteados.
— Parece que ela está atrasada de novo. Não foi você quem disse que ela é muito pontual? — questionou, sentando-se ao lado do menino, assim como fizera quando o conheceu.
— Bem, imagino que ela deve ter tido algum imprevisto. Senhorita Mills jamais se atrasaria sem motivos. — ele fechou seu livro e a encarou. — Além do mais, está chovendo.
— Sim, está chovendo. — a loira assentiu. — O que você está lendo?
— É um livro sobre magia. Foi Zelena quem me deu, a irmã da Senhorita Mills. Ela é sempre muito atenciosa. Disse que esse livro foi, por engano, junto com as caixas do museu. Ele deveria vir para a biblioteca, mas ela imaginou que eu gostaria muito dele e acabou me dando. Eu fiquei com receio de que a Senhorita Mills brigasse com Zelena, mas, bem, ela também não se importou. Disse que é um livro muito bom e que ela o leu quando era pequena. Na verdade, a avó leu para ela. — as palavras ditas rapidamente exigiram que Emma se concentrasse para compreender por completo o que o garoto estava dizendo. Ela quase pode sorrir com o jeito como ele falava.
— Então você gosta de magia? Bruxas, fadas e todas essas coisas? — questionou e ele assentiu. — Eu também gostava quando era pequena.
— Não gosta mais? — o menino abraçou o livro, como se desejasse protegê-lo.
— Bem, eu gosto sim, mas não como antes. — Emma explicou. Desejava continuar, mas parou por alguns segundos, lembrando-se de acontecimentos quase apagados de sua memória. — Minha mãe costumava ler algumas histórias para mim, mas meu pai não gostava disso. Ele dizia que contos de fadas eram para tolos.
— Seu pai era tolo. — ele declarou, sem se preocupar com a reação de Emma. Ela acabou rindo daquilo.
— Sim, ele é. — deu de ombros.
— Sua mãe parou com as histórias por causa do seu pai tolo?
— Ela continuou contando algumas quando ele não estava em casa. Mas minha mãe ficou doente e isso a impossibilitou de continuar contando-as. — a lembrança da mãe e de seu sorriso fácil fez com que o peito de Emma pesasse. Ela engoliu seco, ainda que seus olhos ardessem pelas lágrimas contidas.
— Por isso você escreve? — o menino chamou sua atenção, afastando a dor de suas lembranças. — Conta para outras pessoas as histórias que sua mãe não pôde contar para você?
— Eu nunca pensei dessa forma. — mas ela estava pensando agora, era verdade.
— Eu acho que as histórias são uma forma das pessoas nos contarem as verdades que não podem ser contadas. Quer dizer, você pode escrever sobre fadas e bruxas reais, mas ninguém jamais vai desconfiar que são histórias da realidade, porque elas simplesmente acreditam que essas coisas não existem. — a convicção contida nas palavras do garoto fez com que Emma o observasse com curiosidade.
— Ou talvez elas realmente não sejam verdadeiras. Só porque você acredita em algo, não faz disso verdade.
— Acreditar que algo não existe também não o torna menos real. — ele sorriu pela primeira vez e Emma desistiu de seu debate. Era apenas uma criança. Uma criança com suas fantasias curiosas. Ela sabia que essas fantasias deveriam ser mantidas, até que o mundo as roubasse.
Encontrar aquele garoto ali fez com que Emma se lembrasse de outra coisa. Um singelo aviso que lhe foi dado pelo menino em seu primeiro dia na cidade. Não olhe diretamente nos olhos dela. Bem, ela olhou. Ela olhou e, agora, os encarava mesmo na ausência de Regina. Olhara tanto para as profundezas castanhas que sua mente era capaz de reproduzi-las com fiel exatidão. Agora, não havia escolhas. Esperou por mais alguns minutos e teria ficado por mais tempo se a chuva não a tivesse expulsado dali. A biblioteca se mantinha fechada. Emma caminhou de volta para a pensão. Ainda que tentasse forçar sua mente a respeitar suas escolhas e caminhar pelos rumos escolhidos, o questionamento que lhe tomava era inflexível.
Onde Regina estava?
***
— Cassandra Mills, responda minhas perguntas ou eu juro que lhe colocarei sob um feitiço que irá obrigá-la a fazer o que estou mandando! — a voz de Perpétua se tornou um tom mais alta. Cassandra era a única que conseguia aquela proeza.
Perpétua possuía o dom de manter a calma, mesmo diante do mais absurdo caos. Nem mesmo as mais sérias travessuras de suas netas eram capazes de fazer com que a senhora gritasse, ou se tornasse menos delicada ao repreendê-las. No entanto, ali estava Perpétua Mills, com suas bochechas levemente coradas e os braços cruzados. Enquanto isso, Cassandra sorria. O sorriso da filha lhe roubava ainda mais a paz. A senhora odiava o jeito travesso de sua caçula. Ainda assim, era possível perceber de quem Regina herdara sua ironia ácida e Zelena ganhara seu sarcasmo.
— Eu senti sua falta, mamãe. — a Bruxa deu de ombros. — Imaginei que seria extremamente indelicado não aparecer para ver minhas sobrinhas. Além do mais, quanto tempo já se passou desde nossa última conversa? Três décadas? Com certeza não fora tempo o bastante para que a senhora colocasse seu orgulho de lado e procurasse por sua filha. Ou será a vergonha seu maior impedimento?
Cassandra não era o tipo de pessoa que disfarça seus interesses e suas mágoas, Perpétua sabia disso, conquanto o comentário feito pela filha fez com que seu coração se apertasse. Obviamente, ela não deixou que isso refletisse em seu olhar. Deu as costas à Cassandra e caminhou até a janela. Os trovões foram apenas o início do que estava por vir. A belíssima noite fora comprometida quando os sentimentos das Bruxas foram colocados à prova. Pela forma como a conversa caminhava, Perpétua sabia que Storybrooke presenciaria uma intensa tempestade.
Parte dela desejava abraçar a filha e lhe aconchegar em seus braços. Sabia que devia muito à Cassandra, mais do que a qualquer outra pessoa. Sua dívida com a mulher era enorme e pesava em seu peito. No fundo, ela estava certa. Perpétua não a procurara por orgulho e por vergonha. Vergonha, pois falhara com a filha quando a mesma se colocou em risco para ajudar. Poucas dores sentidas ao longo de sua existência poderiam ser comparadas a que sentiu quando percebeu as verdades contidas nas palavras de Cassandra. Mais do que isso, Perpétua sabia que muitos dos desafios carregados por ela eram consequências diretas de sua descrença do passado. O que a impediu de procurar Cassandra foi a culpa.
— Perdão, mas eu adoraria saber do que você está falando. — Regina entrou na grande sala, sendo seguida por Zelena. Os olhos da morena faiscavam. Ela não confiava em Cassandra, Perpétua pode perceber. Apesar disso, essa não era sua maior preocupação naquele momento. Muitas coisas precisavam ser ditas e muitas coisas não podiam ser ouvidas por Zelena e Regina.
— Regina. — a avó chamou.
— Regina! — Cassandra se colocou de pé, indo até a sobrinha. — Veja só! Você se tornou uma belíssima mulher. — ela sorriu, voltando-se, então, para Zelena. — E você, Zelena. Fui eu que escolhi o seu nome, você se lembra? É claro que não. Zelena, pois me lembra Selena e Selena me lembra a Lua. Zelena significa verde em algumas línguas e, bem, verde significa esperança para alguns humanos. Eu tive a esperança de que o seu nascimento pudesse mudar algumas coisas. É claro que, nessa época, eu ainda acreditava nessa coisa de esperança. Hoje em dia nós sabemos que é só algo criado para nos fazer negar o inevitável.
— Cassandra, por favor. — Perpétua se aproximou, tocando o ombro da filha. Surpreendentemente, ela a obedeceu. Afastou-se das duas mulheres e sentou-se no sofá. — Eu sei que vocês estão curiosas sobre tudo o que está acontecendo e eu entendo isso. Entendo e irei responder a todas as perguntas, mas peço que vocês se retirem agora, por favor. Há muito que preciso conversar com Cassandra. — a avó pediu, sentindo no mesmo instante a preocupação de suas netas. — Fiquem tranquilas, está tudo bem. Agora, por favor.
Zelena assentiu. Seu silêncio causou perguntas à Perpétua, mas ela sabia que a ruiva escolhera observar. Regina ainda encarava Cassandra. A dúvida em seu olhar a fazia hesitar diante do pedido da avó. Mesmo indo contra seus instintos, ela segurou a mão da irmã e, juntas, caminharam em direção ao quarto da morena. Perpétua encostou a porta e sua mão se ergueu, girando rapidamente no ar. Cassandra sabia que ela vedara a sala e que nenhum som seria ouvido além dali. Soube, também, que isso apenas lhe afirmava o óbvio.
Sua mãe não contara a verdade às netas.
— Regina sabe que carrega uma maldição das trevas nas costas por causa da sua filha querida? — questionou. — É claro que não sabe. Você não contou, não é? Até quando vai fazer isso!? Você cria essas meninas dentro de bolhas de cristal, mas sabe que elas irão se quebrar, mamãe. Você pode ter o poder de ver o futuro, mas não pode controlá-lo. Ninguém pode. Todos nós seremos massacrados pela roda do destino caso o pior ocorra. — lá fora, um estrondo trovejou e um claro raio marcou o céu.
— Cassandra, cale-se. — a senhora ergueu a mão. As palavras que seriam ditas por Cassandra se mantiveram presas em sua garganta. Perpétua precisava do silêncio naquele momento, precisava pensar. Sua filha não estava ali sem um motivo.
Desta vez, ela encarou a mulher que estava à sua frente. Há muito não via sua filha, mas o tempo não mudara nem sequer um traço em seu rosto. Cassandra optara por não envelhecer a carne, permanecia tão jovem quanto as próprias sobrinhas. Os longos cabelos castanhos estavam jogados para o lado, como sempre foram. O corpo magro e alto guardava sua elegância. Perpétua aproximou-se, colocando-se atrás dela. Os seus dedos se arrastaram pelas marcas expostas ali. Os traços negros que se espalhavam pela pele clara de Cassandra formavam longas asas por toda a extensão de suas costas. A senhora se sentou em frente a filha e observou seu rosto. Suas sobrancelhas naturalmente arqueadas em linhas diagonais, o nariz arrebitado e os lábios carnudos. Olhava a mulher, mas sua mente lhe trazia imagens da criança que segurou em seus braços.
Sua mente também lhe trouxe o rosto da menina, banhado por grossas lágrimas. A última vez em que viu a filha, três décadas atrás. Entregou Cassandra nos braços do sacrifício e a filha o suportou, mesmo sabendo que isso poderia lhe levar à morte. Zelena e Regina deviam suas vidas à Cassandra e nem ao menos sabiam disso. Incontáveis foram as vezes em que Perpétua pediu por imagens de sua filha em visões ou buscou por seu destino através das cartas, mas Cassandra nublara os caminhos e se protegera dos olhos atentos da mãe.
Agora, ela estava ali.
Cassandra, com seus olhos claros e sempre tão atentos. Perpétua ainda podia se lembrar de quando a menina corria para sua cama durante a noite, em uma realidade tão distante. Parecia ter sido em outra vida, em outra era.
— Você vai chorar? Porque, sinceramente, eu não vou saber reagir a algo assim, então me avise antes. — Cassandra chamou a atenção da mãe, encarando seu olhar acinzentado.
— Por que você está aqui, Cassandra? — Perpétua perguntou mais uma vez. Agora, sua voz possuía um tom calmo, quase ameno. Sabia que os poderes de Cassandra proviam das emoções e suas decisões eram ditadas por isso. De nada lhe adiantaria provocar a fúria de sua cria, pois ela não saberia como controlá-la.
— Você sabe porque eu estou aqui. A mudança dos ventos se tornou nítida nos últimos meses e, além disso, eu a senti. Cora estava perto de mim, muito perto de mim. Isso não poderia ser por acaso, é claro. — a morena se colocou de pé, caminhando até o pequeno bar posicionado em um dos cantos da sala. Serviu-se de um whisky e logo se voltou para a mãe. — Regina já morreu uma vez, mamãe. O que a impediu? Por que não foi tomada pelos braços de...
— Não pronuncie esse nome em minha casa. — Perpétua se sentou em sua poltrona, geralmente sentava-se ali para contar histórias às netas ou ensinar-lhes alguma lição. — Eu imaginei que você sentiria a primeira morte de Regina, pensei que viria até nós quando isso aconteceu. Não, não estou a julgando por não ter vindo, Cassandra. Acalme suas emoções, não iremos iniciar uma guerra hoje. — ela se adiantou em dizer ao ver o rubor tomar o rosto da filha. — Eu ainda não compreendo por completo o que aconteceu naquela noite, elas escolheram não me revelar todos os detalhes. Acredite, é difícil arrancar qualquer coisa daquelas duas quando elas se unem para escondê-las. O que eu sei é que Zelena estava lá. Zelena foi o motivo da morte de Regina e Regina voltou por ela.
— Então Zelena trouxe a irmã de volta? — Cassandra se sentou, tomando todo o conteúdo de seu copo em um único gole. — Essas irmãs. — ela sorriu. — Aconteceu como da primeira vez, acredito. Zelena também salvara Regina naquela noite, eu me lembro. Era apenas uma menininha, uma criança que mal sabia proferir qualquer som além do choro manhoso, mas ela protegeu sua irmã. Zelena sabe sobre a maldição, presumo.
— Ela sabe, em partes. Entenda, querida, eu não escondo a verdade delas por opção. Não me orgulho disso, não me agrada carregar segredos que pesam em minhas costas. Eu faço isso, pois temo o poder das palavras. Eu não quero que aconteça com Regina o que aconteceu com Cora. Imagino que, talvez, se eu não tivesse revelado a profecia a vocês, Cora jamais teria feito tudo o que fez.
— Não seja boba, mamãe. Por favor. — a morena revirou os olhos. — Cora só descobriu um meio de fazer o que sempre desejou e você sabe disso. Ela não nasceu com o mal dentro de si, mas o conheceu quando ainda era muito nova. Minha irmã fez todas as escolhas erradas e muitas delas foram acobertadas por você. Perdão, eu não irei fantasiar a verdade com sutilezas. — a Bruxa respirou fundo, controlando a si mesma, pois mais um trovão fora libertado pelos céus. — Você está correndo um risco muito grande ao esconder as verdades de Regina e Zelena, pois sabe que elas serão contadas em algum momento. O que existe, existe por um motivo, pois a Deusa não cria estradas sem fim. Cora está procurando por vocês, ela está procurando por Regina.
— Ela não irá nos encontrar. — declarou, sem dar espaços a qualquer objeção. Um raio forte se espalhou pelo negro céu, tornando-o tão claro como o próprio dia. — Não enquanto eu viver para impedir que aconteça. Mas é certo que precisamos nos atentar, pois sua presença aqui e sua necessidade em nos procurar é um alerta importante que não deve ser ignorado. Corvos costumam decidir batalhas, você sabe. Em uma noite chuvosa, eles nunca trazem boas notícias.
— Eu não sou um corvo. — Cassandra revirou os olhos e colocou-se de pé, buscando por mais do whisky. Desistiu do copo e voltou ao sofá com a garrafa em mãos.
— Você sabe do que eu estou falando, Cassandra.
Permaneceram em silêncio durante longos minutos. Os minutos se tornaram horas e, ainda assim, nenhuma palavra foi dita. A chuva continuava a tamborilar contra as folhas verdes e o céu ganhara um acinzentado melancólico. A garrafa de whisky estava vazia, mas os olhos de Cassandra se mantinham abertos e atentos. Perpétua encarava a parede, mas via além dali. Seus olhos estavam perdidos pelas ruas de seu passado, sua mente estava presa nas decisões erradas que tomara quando imaginava estar fazendo o certo. O silêncio era ensurdecedor naquele momento, pois dava espaço para o barulho de seus pensamentos. As consequências iniciaram sua libertação e não seriam freadas. Todas elas estavam expostas ao caos. Expostas aos desejos da roda do destino.
— Regina irá morrer, mamãe. — a declaração rompeu o longo vazio. — Eu não digo isso com desejo de que ocorra, pois você sabe o quanto eu lutei contra os feitos de Cora. Eu teria salvado Regina se pudesse, se... — as palavras se perderam no ar, mas Perpétua sabia o que ela iria dizer.
Cassandra teria salvado Regina se a mãe tivesse confiado em suas palavras.
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