Torre de Névoa
9 Cicatrizes.
Notas iniciais
Quando a manhã finalmente se estabeleceu na Mansão Mills, o céu, outrora tão azul, permanecia vestido em seu véu cinzento e melancólico. Aliás, manhãs acinzentadas estavam se tornando presentes demais nos últimos tempos. Os animais pareciam não sair de suas casas e isso não poderia ser, de forma alguma, um bom sinal. Se buscavam por refúgio, então o perigo estava próximo. O vazio deixado pela ausência dos cantos amistosos de pássaros amigos nem de longe era silencioso, ele era cada vez mais preenchido pelo murmúrio dos pensamentos de Perpétua.
Como se nada houvesse acontecido, a avó concentrava-se em sua massa bem batida. Se por fora Perpétua expressava sua infinita calma, por dentro os seus nervosos lutavam com informações vagas. Muitas visões se apresentaram a ela durante a longa noite. Visões ligeiras, que pouco diziam, mas que estavam ali e precisavam ser pensadas. Ela via o céu negro, o farfalhar das folhas revoltas pelo vento, um grito recebido pela imensidão da noite e lágrimas deixadas sobre um solo seco. Via muitas coisas e, ao mesmo tempo, não via nada. Ainda assim, como todos os dias, ela foi até sua cozinha e deu início a sua rotina bem planejada. Há muito Perpétua aprendera que os ponteiros do tempo não se permitem parar, mesmo quando nós o fazemos. As rotações continuam a acontecer, as translações seguem seu mesmo roteiro e nós nos tornamos reféns do desassossego. Ela não permitiria isso.
Ao se concentrar em seus temperos, seu forno e seus moldes, ela pensava. Está aí algo cujo fluxo é irremediável: os pensamentos. Basta que se negue pensar sobre um simples detalhe e, em menos de segundos, todos os seus pensamentos serão sobre ele. Ela não se negava a pensar sobre nada. Poderia ignorar as imagens corridas que lhe tomavam a mente, mas seria tolice, sabia disso. Cantarolava consigo mesma, rompia seu próprio silêncio, recitava poemas perdidos e assava seus biscoitos. O café da manhã estava pronto.
— Olá, vovó. — a voz da neta lhe chamou a atenção, mas não a surpreendeu. Perpétua sabia, desde muito cedo, que Regina passara a noite em claro, pronta para aquele momento.
— Onde está sua irmã? — ela se sentou ao lado da morena, servindo-se de uma dose generosa do café recém passado.
— Está dormindo. Por favor, não a acorde. — suspirou. — A noite não foi fácil para ela. Acredito que não tenha sido fácil para nenhum de nós, mas o bloqueio que a senhora colocou naquela sala ricocheteou contra a mente dela durante toda a noite. — a avó pode perceber que Regina tentava esconder a reprovação em seu olhar, mas falhava em sua missão. Na verdade, Perpétua acreditava que, em parte, ela desejava expressar seus reais sentimentos. — Aparentemente, o feitiço não só impedia que qualquer coisa fosse ouvida, como também atormentava a telepatia de quem tentasse fazê-lo.
— Bom, ela não deveria ter tentado.
— Como não, vovó? Perdoe-me se soarei rude, mas convenhamos que a preocupação de Zelena é justificável. Nós temos uma tia! Uma tia que jamais foi mencionada. Então, de repente, estamos rolando entre árvores e batalhando com uma igual, como se fosse um invasor qualquer. — respirou fundo, tentando recuperar a calma perdida de suas palavras. — Eu jamais questionei seus métodos e suas regras, não o farei agora, mas peço que seja sincera conosco.
— Regina. — a avó sorriu, encarando o rosto levemente ruborizado. — Eu possuo um passado longo demais. Nem mesmo infinitas tardes de histórias seriam capazes de contar tudo pelo o que eu passei, ou tudo a que fui submetida. A imortalidade cria, dentro de nós, cascas e mais cascas. Camadas de realidades compostas a cada nova vivência. Em parte, eu desejei esconder algumas camadas. Não somente de vocês, mas, também, de mim mesma. Cassandra é minha filha, ela é irmã de sua mãe, Cora. — ponderou, selecionando em suas memórias aquilo que cabia à verdade. — Eu garanto que você e Zelena são responsáveis por minha melhor versão. Vocês são as minhas meninas, as minhas netas e as minhas filhas. O que faço, faço para protegê-las. Então perdoe-me se por vezes eu erro em minhas escolhas.
— Está tudo bem, vovó. — a morena se permitiu um sorriso breve, atenuando a tensão existente ali. — Eu não vejo mal em Cassandra. Questionei meus instintos durante toda a noite, mas não vejo um grande perigo nela. Exceto por sua enorme indelicadeza. Isso não significa que eu confio naquela mulher.
— Cassandra foi ferida pelo destino, minha menina. Eu e ela temos nossas divergências e as manteremos durante um longo tempo, é verdade. — ela se colocou de pé, indo até o forno.
“Ela carrega tantas cicatrizes quanto eu”, respondeu para si mesma, enquanto fugia dos olhos atentos da neta.
— Bom dia, vovó. — Zelena esticou seus braços, espreguiçando-se.
— Eu pensei que você ficaria por mais algum tempo na cama, até mesmo pedi à vovó que não lhe acordasse. — Regina afagou os cabelos da irmã quando esta se sentou ao seu lado. — Como está se sentindo?
— Um pouco zonza. — confessou, esfregando os olhos.
— Nada que não possa ser resolvido, eu garanto. — a avó se aproximou, depositando um beijo na testa da ruiva e, no mesmo instante, expulsando os zumbidos e dores que tomavam a mente de sua neta.
— Obrigada. Eu já estava mesmo pensando em uma autodecapitação. — Zelena se serviu dos recém assados biscoitos, ignorando a etiqueta ao colocar um inteiro em sua boca. — Na verdade, eu gostaria de me desculpar por ter tentado ouvir alguma coisa. Eu fiquei um pouco preocupada e, além do mais, Regina insistiu tanto.
— Eu não insisti! — a morena bradou, batendo contra o ombro da irmã.
— Oh sim, claro. Você só pediu com pouca gentiliza.
— Está tudo bem, meninas. Eu deveria ter pensado em outro feitiço, principalmente sabendo sobre as netas que tenho. — Perpétua gargalhou brevemente. — Mas não há mal nisso. Peço perdão por sua dor de cabeça, Zelena.
— Ou você poderia ter nos deixado participar da conversa. — a ruiva sussurrou.
— Eu concordo com você. — Cassandra adentrou o cômodo. Seu corpo seminu estava coberto por um folgado kimono cardigan¹ e seus cabelos traziam consigo um peculiar desgrenhado. — Mas, como não foi possível, eu gostaria de me apresentar melhor agora. — ela se virou para a mesa, encarando as três Bruxas. — O meu nome é Cassandra e eu sou a titia de vocês duas. Perdoem-me pelas três décadas de sumiço, eu estava ocupada... Vocês sabem, resolvendo alguns assuntos.
— Eu gostaria... — a morena limpou sua garganta. — Gostaria de me desculpar por nosso primeiro contato.
— Oh querida, não se incomode, foi incrível. Adorei todo o drama da chegada. — sorriu. — Eu não esperava que mamãe me recebesse com beijos e abraços, mas, bem, foi melhor do que eu imaginei.
— Sente-se e sirva-se, Cassandra. Nossa conversa ainda não acabou. — Perpétua indicou a cadeira sua frente.
— Na verdade, eu gostaria de saber aonde está o whisky, ou qualquer outra coisa com álcool. Eu não sou exigente. — ela olhou ao redor, buscando entre as prateleiras.
— Cassandra, sente-se. — a voz de Perpétua se tornou um tom mais alta, mas longe de ser um grito ou algo do tipo. Diante daquilo, Cassandra se sentou.
— Café... Certo. — suspirou.
— Eu não confio em você. — Regina declarou, encarando os olhos claros de sua tia.
— Ótimo, eu também não confio em você. — Cassandra respondeu, sem desviar seu olhar.
— Por que sua mente é fechada? — Zelena questionou, esforçando-se para burlar as barreiras mentais que encontrava.
— Acredite, querida, você choraria sangue se eu permitisse sua entrada em minha mente.
Era bem verdade que a sinceridade contida nas palavras de Cassandra surpreendia às duas jovens Bruxas. Ela não era evasiva. Respondia, ainda que suas respostas não fossem das mais agradáveis. Naquele momento, Zelena decidiu que ela não era um perigo, apenas uma surpresa inesperada. Constatar algo do tipo fez com que novas dúvidas se formassem em sua mente. Se a tia era, de fato, uma surpresa, quais eram as consequências de sua chegada?
— Por que você está aqui? — a ruiva perguntou, após um longo silêncio. Não havia desafios em suas palavras. Era apenas uma pergunta que, convenhamos, precisava ser feita em algum momento.
— Eu tenho muitas respostas para essa pergunta, Zelena. — a Bruxa sorriu ao pronunciar aquele nome. — Inclusive, é a pergunta que me fiz antes de iniciar a viagem até aqui e, principalmente, antes de cruzar o limite da floresta. Além dos claros sinais de que algo está por vir e de que nós precisamos nos unir cada vez mais, eu estou aqui porque passei três décadas sozinha. — os seus olhos se viraram para Perpétua, mas apenas por uma fração de segundo. Passaria despercebido para qualquer um, menos para a mais velha, que sentira em seu peito o peso das palavras. — Quando eu decidi partir, pensei que muitas coisas mudariam e, é verdade, muitas coisas mudaram. Conheci muitas outras Bruxas, muitos portadores de magia ao redor do mundo e também conheci perigos inimagináveis, mas nada se compara a solidão que me abateu dia após dia. Vocês não têm a mínima ideia do quão precioso é estar aqui e ter tudo isso. Eu estava cansada, no fim das contas. Cansada de ser mais alguém no mundo, cansada de esconder meus poderes, cansada de não poder ser algo a mais do que uma lenda. Cansada da indiferença da morte. — ela riu seco. — O que, aliás, não faz sentido. A morte não é realmente o maior dos perigos. A indiferença é.
— Então seja bem-vinda. — Zelena ergueu sua xícara em uma breve saudação.
— Há roupas guardadas no sótão. Você também pode sair com Zelena e Regina para comprar mais algumas. — Perpétua chamou a atenção da filha. — Se vai ficar em minha casa, você seguirá as minhas regras.
— Oh céus. — Cassandra revirou os olhos, mas havia uma genuína alegria sendo escondida por seus lábios. — Eu realmente vou precisar daquele whisky.
— Tem uma adega. — Regina sussurrou para a tia ao certificar-se de que a avó havia deixado a cozinha, como uma criança compartilhando obscuros segredos.
— É isso o que eu chamo de parceria entre as filhas da Deusa. — ergueu os braços, como se comemorasse vitória.
Regina ainda não confiava em Cassandra. Na verdade, isso não poderia ser somente atribuído à Bruxa. Assim como um gato que desconfia do mais singelo movimento, a morena possuía suas dificuldades em aproximar-se das pessoas. Principalmente diante dos inúmeros segredos mantidos entre a mulher e a avó. Parte dela suspeitava de que a vinda de Cassandra poderia, em muito, estar ligada à chegada de Emma, mas logo tomava aquilo como uma enorme tolice. Acreditar em possibilidades demais pode ser perigoso, a ilusão é sempre uma enorme traiçoeira. A cada dia que se aproximava de Emma e compreendia um pouco mais dos propósitos da loira, certificava-se de que não havia nada demais naquilo. Nada além de uma escritora, fascinada por histórias e faminta por novas informações. Apenas isso. Isso e aqueles olhos verdes dúbios, cheios de segredos não relevados, mas tocados por uma genuína inocência. Perdida em visões só suas, a morena mal se deu conta de quando a irmã se aproximou de seu ouvido, chamando-a de volta a terra.
Zelena iria fazer algo que odiava. Odiava mentiras, odiava mais do que qualquer coisa. Odiava, principalmente, mentir para Regina. Acontece que o inusitado se tornou um detalhe em seu caminho quando, inesperadamente, a avó lhe beijou a testa naquela manhã. Ao fazer isso, Perpétua não somente lhe expulsou as dores de cabeça, como, também, deixou em sua mente um claro aviso. Zelena precisaria mentir para Regina por conta do que lhe fora relevado. Ao formular as frases que seriam ditas à irmã, ela respirou fundo algumas vezes e pediu que a Deusa lhe perdoasse por aquilo. Ainda assim, a ruiva sabia que tal pedido não seria feito se o assunto a se tratar não fosse sério e, partindo do que já sabia, ela entendia que a ausência de Regina e de qualquer desconfiança por parte da morena era, sem dúvidas, necessária.
— Regina. — ela sussurrou contra o ouvido da irmã. — Seus pensamentos estão, mais uma vez, perdidos em olhos verdes?
— Adiantará negar? — revirou os olhos.
— Aquela maldita adega só pode ser trancada com as correntes de Fenrir²! — Cassandra adentrou, novamente, à cozinha. Ela saíra a pouco para desbravar os desafios da adega de Perpétua, mas falhou assim como Zelena falhara em toda a sua adolescência.
— Ah, você vai precisar dessa mocinha aqui. — a ruiva apontou para a irmã. — Só Regina consegue abrir aquela maldita tranca. Sinceramente, eu não sei o que ela faz.
— Dizem que eu tenho mãos mágicas. — a morena deu de ombros.
— Conte isso para Emma. — a irmã provocou, recebendo um olhar de reprovação vindo da outra.
— Emma é a moça que chegou à cidade querendo descobrir sobre nossas lendas mal contadas? — a tia se sentou ao lado das duas mulheres, servindo-se de mais café. — Mamãe falou sobre ela durante a nossa conversa. Está tendo progresso em descobrir os segredos pecaminosos da tal escritora, ou ela já se apaixonou perdidamente por você?
— Mas como...
— É simples. — Cassandra se adiantou em explicar. — Os seus poderes são comandados pelos seus instintos. Você tem, assim como os felinos, a sedução contida em cada passo, cada gesto e cada olhar. Quantos apaixonados você deixou para trás, Regina Mills? — as sobrancelhas erguidas denotavam a malícia de sua pergunta. — Agora, você. — ela apontou para Zelena. — Seus poderes são racionais. Assim como a maioria dos telepatas, claro. Era você quem planejava as diversões perigosas na adolescência, não é? — piscou para a sobrinha. — Tudo bem, seu segredo está salvo comigo.
— E os seus poderes, de onde eles vêm? — a morena a observou com curiosidade.
— Do coração. — Cassandra contorceu seu rosto em uma expressão de desagrado. — Isso mesmo, lá dos sentimentos, das emoções. — as duas sobrinhas contiveram a risada ao ver o quanto aquilo parecia incomodar a mulher. — Quer dizer, eu não estou reclamando dos planos da Deusa. Obviamente, ela tem bons motivos para isso. Porém, veja só, é extremamente problemático quando você está desbravando seus poderes e mal tem controle dos seus sentimentos. Bastava que algo me magoasse para que algum acidente acontecesse. — a mulher se aproximou, como se fosse revelar um enorme segredo. — Agora, minha querida mamãe, ela é uma Bruxa completa. A avó de vocês pode manipular poderes de qualquer forma.
— Por que isso não me surpreende? — Regina provocou, mas sem sentimentos contidos. Todas ali sabiam que Perpétua era, sem dúvidas, extremamente poderosa. — Zelena, querida, você vai comigo? Já estamos mais do que atrasadas, na verdade.
— Eu irei deixá-la lá, mas não ficarei no museu. — a ruiva se atentou em suas palavras. Maldita mentira. — Preciso buscar alguns artefatos novos para a exposição. Eles são tão delicados que eu mesma me dispus a pegá-los. Não quero correr riscos.
— Você está bem? — Regina a olhou com mais atenção e Zelena pode jurar que seu coração saltaria pela boca. Ali mesmo, a culpa a esmagaria.
— Não muito. Acho que vovó vai precisar beijar minha cabeça inteira para curar essa dor. — pensou que, talvez, Perpétua realmente precisasse fazer isso se quisesse salvá-la do peso que estava carregando por omitir coisas de sua própria irmã. Ainda assim, não seria o bastante.
— Você vai ficar bem. — a morena se colocou de pé, dando-lhe um beijo. Aproximou-se da tia para uma despedida breve e foi surpreendida pelo abraço que recebeu.
— Vá pela luz da Deusa, querida. — Cassandra observou o rosto da sobrinha por alguns segundos. Segundos mais longos do que uma despedida necessitava. Em um desejo de interromper aquilo, ela se virou de costas, fingindo servir-se de mais café.
— Para quem não queria o café da vovó, você parece ter gostado. — Regina observou, sentindo-se cada vez mais confortável com a presença da mulher. — A propósito, bela tatuagem. — apontou para os desenhos negros dispostos nas costas da tia.
— Você gostou? Ela é tão antiga quanto o próprio tempo. — abaixou sua vestimenta, permitindo que as asas desenhadas sobre sua pele clara pudessem aparecer por completo.
— Eu as adorei. — a ruiva falou, chamando a atenção para si. — Vovó não enlouqueceu quando você fez isso? Ou já estavam separadas?
— Oh querida, você se surpreenderia se eu contasse. — Cassandra permitiu-se gargalhar.
A menção de sua tatuagem fez com que lembranças antigas atingissem à morena. Assim que suas duas sobrinhas saíram para enfrentar os desafios de um novo dia, a mulher seguiu para o jardim, sendo recebida pelo cantarolar da mãe antes mesmo que a imagem da senhora lhe ganhasse a visão. Permaneceu ao longe, observando com atenção enquanto novas mudas eram plantas. Cassandra sabia que sua presença era conhecida pela mãe, mas manteve-se ali. Não era de seu desejo se aproximar, nem mesmo iniciar um diálogo. Após trinta anos, ela estava a apenas alguns metros de distância daquela que lhe causou tantas dores, que foi cumplice em muitas de suas cicatrizes. Ela estava ali e tudo estava diferente.
Cassandra amava sua mãe.
Seria tolice dizer para si mesma que não sentiu falta de Perpétua ao longo dessas três décadas. Por vezes se viu procurando pelos costumes da senhora e vendo-a em detalhes aleatórios do dia-a-dia. Amava sua mãe e amá-la era sem dúvidas um peso a mais sobre as mágoas que carregava em seu peito. Poderia perdoá-la, mas não era capaz de fazê-lo. Não ainda. Olhar para Perpétua, encarar seus olhos, era como reviver toda a dor do passado. Era como desenterrar a descrença que quase lhe custou a vida. A descrença que condenou Regina. A descrença que lhe roubou parte de si.
Olhar para Perpétua também trazia certa esperança ao coração de Cassandra, mas ela lutava para silenciar esse outro lado da moeda. Não mentiu quando disse à Zelena que a solidão e a indiferença foram fantasmas que a perseguiram ao longo dos anos. Estava cansada de vagar solitária por caminhos que não a levariam a lugar nenhum. Seu novo destino poderia ser, em muitos aspectos, um retrocesso, mas a maior das verdades era que, após anos, Cassandra Mills finalmente se sentia em casa.
Foi munida dessa certeza que ela caminhou pelo jardim. Não trocou palavras com a mãe, não era necessário. Abandonou suas poucas roupas sobre a grama ainda curta e penetrou nua à floresta. Ao tocar à natureza, foi abraçada pela energia incomparável que habitava às arvores e a presenteava com a renovação. Os braços de Cassandra traziam marcas claras e levemente rosadas, assim como seus tornozelos. Suas cicatrizes não estavam apenas na alma. Poderia tê-las escondido com um simples feitiço, mas optou por não fazê-lo. Aquelas marcas contavam histórias das quais ela precisava se recordar. Suas cicatrizes eram a lembrança de que o mundo as vezes é cruel e de que as pessoas podem ferir, mas, principalmente, de que ela venceu todos os desafios que lhe foram dados. Carregava consigo rastros de sua sobrevivência e não desejava apagá-los.
Culpava-se pelas escolhas que fez, pelas consequências que carregava. Seu peito era a residência daquilo que não podia externar. Sua jura fora sincera, guardaria para sempre as palavras que pronunciou em uma noite de caos. Uma noite vívida há cerca de trinta anos.
Ela pensou em todos os rituais que poderia fazer, em todos os tipos de energização possíveis naquele momento, mas acabou optando pelo mais singelo dos gestos. Deitou-se, sentindo a umidade da chuva causada durante a noite lhe molhar a pele. A serapilheira que se mantinha ali abrigou seu corpo em um confortável colchão natural. A morena fechou os olhos e permitiu-se ouvir o som da mata. Cassandra se sentiu segura e abrigada, podia ter certeza de que seu corpo estava sendo protegido pelos braços da Grande Mãe. Após anos, ela não sentiu medo.
***
Regina teve certeza de que as emoções conflituosas vividas em sua casa estavam afetando toda a cidade quando, ao pararem em frente à biblioteca, ela precisou respirar uma ou duas vezes em busca de coragem para sair do carro. Não era bem verdade que ela tinha medo de água. Ela não tinha medo de água. Ao menos, não exatamente. Eventualmente, acabava tomando uma chuva ou outra, mas não era algo que lhe agradava e, quando possível, tentava, de todas as formas, evitar. Naquele dia, ela não estava disposta.
— Você só pode estar brincando comigo. — a ruiva revirou os olhos ao perceber os receios da irmã. — Caramba, Regina! Eu nunca sei quando esse seu medo vai aparecer. Ontem mesmo estava lá, toda serelepe, dentro de um lago enorme.
— O problema não é a água, o problema é a chuva! — bradou, cruzando seus braços.
— “O problema é a chuva.” — Zelena a imitou, contorcendo o rosto em uma careta. — Você e essas suas manias estranhas de gato.
Ela soltou seu cinto e saiu do carro, olhando ao redor. Caminhou até a banca de jornal que estava do outro lado da rua, roubando, discretamente, o guarda chuvas que estava encostado em uma das prateleiras. Correu rapidamente de volta, abrindo a porta para a irmã.
— Você roubou um guarda chuvas?
— O que eu não faço por você, não é? — a ruiva revirou os olhos.
— Espero que o dia seja tranquilo.
— Na verdade, eu acho que vai ser bem movimentado. — antes que Regina pudesse questionar os motivos que levaram Zelena a afirmar aquilo, a cabeleira loira ganhou sua visão.
— Emma! — a mais velha das irmãs sorriu, adiantando-se em cumprimentá-la. — Como você está?
— Estou bem. Um pouco encharcada, na verdade. — ela indicou a jaqueta repleta de gotas. — E a sua gatinha? Espero que não tenha voltado a fugir.
— Bem, é impossível controlar gatas malcriadas. — a ruiva sorriu, ignorando o olhar sério da irmã. — Mas você está gostando da cidade? Regina tem falado muito de você.
— Ah... — a loira sorriu. A timidez se apresentou no rubor que lhe tomou o rosto e coordenou suas piscadelas rápidas. — Mesmo? — encarou os olhos castanhos.
— Eu acho que é melhor entrarmos, ou todas nós acabaremos doentes por causa dessa bendita chuva. — adiantou-se em encontrar a chave certa, abrindo as grandes portas da biblioteca. O cheiro de livros as recebeu junto ao calor da sala seca.
Zelena, muito perspicaz em suas dúvidas, decidiu que aquela seria a melhor das oportunidades para conhecer um pouco mais das intenções de Emma. Com meios nada convencionais de fazer o seu papel de irmã mais velha, a Bruxa colocou-se a revirar os pensamentos da mulher, encontrando uma curiosa série de imagens. Dentre todas, a mais repetitiva e intensa guardava os olhos de sua irmã. Enquanto Regina ocupava-se em fingir não estar absurdamente afetada pela presença da escritora, Emma dedicava-se a observar cada mínimo gesto da morena. Enquanto isso, sua mente produzia uma série de pensamentos que eram muito bem lindos pela ruiva. Percebeu que Emma possuía dúvidas ingênuas e quase curiosas sobre Regina. Gostaria de saber mais sobre ela, mas nada que dissesse respeito à bruxaria, ou coisas do tipo. Zelena notou que Emma estava mais do que admirada pela inteligência de sua irmã. A morena, sem saber, a ganhara com sua eloquência e sensualidade. A distância de uma mente, a ruiva acabava por concordar com a loira. A Bruxa possuía mesmo o dom de chamar a atenção e valsar com belas palavras. A paixonite de Emma não surpreendia a ninguém.
Mas a de Regina surpreendia.
— Então, eu vou indo. Nós nos vemos mais tarde, mocinha. — a ruiva afagou o ombro da irmã. — Foi um prazer revê-la, Emma. Espero que aconteça mais vezes.
— Bem, — lá estava, o rubor. — eu também! Claro.
O silêncio se fez presente entre as duas mulheres. Regina ouvia com atenção enquanto a irmã dava partida em seu carro e seguia para casa. Não muito longe, Emma caminhava por entre as prateleiras, deixando que seus olhos corressem entre os diversos títulos bem organizados. A morena sabia que a escritora estava fazendo aquilo apenas para fingir ocupação. Afinal de contas, ela estava em pé em uma sessão de biorremediação e, convenhamos, isso não pareceu ser um assunto importante para seus estudos.
— Está preocupada em descontaminar algum ambiente? — a voz rouca e clara fez com que o coração da loira disparasse. Trocando seus pés e apertando, nervosamente, as próprias mãos, Emma a encarou.
— O que? — ela olhou ao seu redor, só então dando-se conta dos livros para os quais estava olhando há longos minutos. — Ah! Isso! Eu achei o nome bem curioso. Você conhece o assunto?
— Apenas aquilo que os livros contam. — a bibliotecária se aproximou, voltando-se para a estante.
— Quais deles você leu?
— Todos.
— Todos!? — os olhos verdes se arregalaram em espanto. — Todos os livros dessa estante!?
— Todos os livros da biblioteca, Swan. — o sorriso casto fez moradia no canto de seus lábios enquanto, intimamente, divertia-se com a surpresa estampada nas feições da outra mulher. — Venha até aqui, eu vou te dar uma toalha. Precisa se secar antes que acabe doente. Afinal de contas, por que diabos tomou tanta chuva?
— Eu... — as palavras fugiram de sua boca, chamando a atenção da morena, que aguardava pela resposta. Entre o abrir e fechar de seus lábios, o silêncio manteve-se. — Eu precisava vir até a biblioteca e... Veja bem, você se atrasou muito.
— Oh sim. — Regina encarou seus próprios pés. Não gostava de atrasos, era verdade. Tentava, ao máximo, não permitir que aquilo de coisa acontecesse. — Eu sinto muito por isso. Acabei tendo alguns problemas em casa.
— Está tudo bem. Atrasos acontecem. — a loira a tranquilizou. — Mesmo com aquele menino dizendo que você nunca se atrasa.
— Um menino? — a interrogação se estampou no rosto amorenado.
— Sim, um menino. Ele tem os cabelos bem cortados e olhos castanhos. Sempre está com um livro em mãos. Bem, ao menos estava em todas as duas vezes em que nos encontramos.
— E você sabe o nome dele? — a morena caminhou para dentro da biblioteca, cruzando as longas prateleiras até encontrar uma forte porta de madeira.
— Não. — uma ruga brotou na testa de Emma enquanto ela pensava sobre aquilo. — Nunca pensei em perguntar.
— Ao que me parece, você está falando do Henry. — Regina sorriu largamente enquanto indicava para que a loira entrasse. — Ele é um ótimo garoto.
— Ele parece mesmo. — ela olhou ao redor, encontrando um longo corredor. — Isso está me assustando um pouco. Por um acaso você planeja me prender e esquartejar o meu corpo?
— Não. — a morena revirou os olhos. — Eu prefiro métodos mais sutis de tortura.
— Não há perigo em deixarmos a biblioteca sozinha?
— Eu saberei se alguém entrar. — ela abriu uma porta, esperando que a loira passasse.
— Por que há tantas salas aqui nos fundos?
— Bem, alguns objetos do museu acabam ficando por aqui quando Zelena os considera delicados demais para ficarem por lá. Além disso, há livros preciosos e pergaminhos antigos que não podem ficar expostos no salão principal e acabam guardados aqui. — observou enquanto Emma girava em seus pés, admirando tudo aquilo que seus olhos alcançavam. — Aqui está a toalha.
Emma retirou sua jaqueta, colocando em uma cadeira próxima. A morena observou enquanto ela secava seus longos braços, expulsando a umidade de sua pele clara. Sem se dar conta de suas ações, Regina tomou outra toalha em mãos e se aproximou da loira, pondo-se a secar as longas madeixas douradas. Permitiu que seus dedos deslizassem pelos fios, sentido o vibrar do toque e o contato entre duas energias tão diferentes. Ela deixou que seus instintos — aqueles perigosos instintos — guiassem seus desejos. Seus dedos ágeis tocaram os ombros de Emma, ultrapassando a alça de sua regata branca, que foi afastada para que a toalha pudesse secar a pele.
Ela sabia que a respiração da loira fora interrompida no momento em que se aproximou. Deliciava-se com os efeitos que causava no corpo, tendo sua energia tocada pela luxuria da influencia, ela não se conteve. Ali, nos espaços dos segundos, enquanto sentia tão nitidamente a ligação entre elas, Regina se questionava como era possível que alguém não acreditasse em magia, pois aquilo, aquele momento, para ela, era a mais clara representação da Deusa. Duas mulheres, libertas a sua própria maneira, compartilhavam da mais singela ligação.
— Swan? — Regina chamou pelo nome da loira, enquanto percebia seus olhos perdidos.
— Eu acho que já é o bastante. Estou seca. — limpou a garganta, buscando por firmar suas palavras tão incertas. — Sabe, — ela pareceu buscar por algo em sua mente, enquanto a morena aguardava. — eu estive fazendo pesquisas sobre bruxas.
— Bruxas? — ergueu as sobrancelhas, contendo o retorcer desgostoso de seu rosto. Aquela simples palavra a lembrava de sua verdadeira missão ali. Afastava seus desejos e suas vontades. Em síntese simples, trazia Regina de volta para uma realidade da qual ela escapara há minutos.
— Claro. Eu estava assistindo A Feiticeira e...
— A Feiticeira, Swan? Você só pode estar brincando comigo. — o revirar de olhos fez com que a loira libertasse um riso incontido. Tomada por uma estranha sensação, Regina soube que gostaria de ouvir aquele adorável som por incontáveis vezes.
— O que eu posso dizer? Clichês são a base de todo escritor. — ela ergue os braços, defendendo-se dos julgamentos ainda não feitos. — Além disso, eu preciso saber de absolutamente tudo. O bom e o ruim, a verdade e a mentira. Quer dizer, a verdade na medida do imaginário.
— Claro, claro. — a morena assentiu enquanto retornavam ao grande salão da biblioteca, ela ouvia atentamente tudo o que lhe era dito.
— Mas eu não gosto muito desse filme. Não gosto da maioria, realmente. Acho engraçado como eles sempre tratam as pessoas como completas idiotas, isso é absurdo. — a indignação clara em suas palavras fez com que a morena precisasse esconder sua diversão. — É certo que nada disso é possível, mas, convenhamos, eu saberia se uma bruxa estivesse ao meu lado.
— É claro que você saberia. — Regina virou-se, encarando os peculiares olhos verdes.
Naquele momento, o silêncio se instalou entre as duas. Não era como um silêncio incômodo, na verdade, era um silêncio de reconhecimento. A morena investigou cada mínimo detalhe contido no rosto de Emma, gravando em sua mente, com a certeza de que aquela imagem visitaria seus sonhos, assim como vinha fazendo durante as últimas semanas. Perguntava-se o motivo daquele desejo intenso de se aproximar, mesmo quando sabia não poder. Lutava, no âmago de seu ser, contra a curiosa linha que parecia prendê-la à Emma, aos olhos verdes e o sorriso inocente.
— Eu sei que você chegou atrasada e que é extremamente compromissada com seus horários, mas eu gostaria de lhe fazer um convite. — a loira parecia ter selecionado cada uma de suas palavras e isso certamente fora um dos motivos que roubaram a atenção da Bruxa quando a frase se findara.
— Estou ouvindo.
— Eu não estou aqui há muito tempo, mas eu já vim há alguns anos e eu me lembro do incrível pôr do sol. Então, se você quiser e se a chuva permitir gostaria de ir vê-lo comigo? — a Bruxa conteve seu desejo de sorrir diante da adorável falta de jeito da mulher. Era como se Emma pudesse se fragmentar em estilhaços de timidez ali mesmo, a qualquer instante.
— Por que o pôr do sol lhe marcou tanto? — a curiosidade incontida se externou.
— Eu não sei. Não faz muito sentido, na verdade. — abaixou o rosto, como uma criança ao confessar segredos. — Eu nunca me senti tão completa como no momento em que vi aquele pôr do sol.
— Faz muito sentido, acredito. — a morena se acomodou em sua confortável cadeira, colocando-se a observar as fichas que estavam por ali.
— Isso não é verdade. — a loira revirou os olhos, prendendo-se a sua descrença tão forte. Aquilo parecia singular a sua própria maneira e chamava a atenção de Regina. A necessidade constante de comprovar sua falta de crença fazia com que a Bruxa pensasse se Emma, na realidade, tinha medo de acreditar.
— A verdade em muitas vezes é como o pôr do sol, Emma. Só há um sol, mas ao se por, ele será diferente em cada lugar. Todos reais, mas vistos de perspectivas diferentes. — as fichas foram colocadas de lado e a bibliotecária encarou as esmeraldas contidas no olhar surpreso. — Se a chuva nos permitir, eu adoraria ir com você.
Após a saída de Emma, Regina se permitiu o mais sincero dos sorrisos. Girou um lápis em sua mão, enquanto os olhos ainda estavam no arco da porta, como se a loira ainda estivesse por ali. Desafiando aqueles que eram os seus princípios, ela resolveu que um pequeno feito não teria enormes consequências. Afinal, a Deusa poderia compreender. Seguindo até uma das janelas mais escondidas, ela esticou sua mão, contraindo-se ao ser tocada pelas gotas geladas. O sussurrar de um feitiço bem decorado dançou entre as brisas e visitou os céus. No instante seguinte, não mais chovia.
***
Entre as árvores que formavam a mata fechada e que eram, naturalmente, guardiãs do místico, três Bruxas caminhavam. Com seus pés descalços, tocavam a terra ainda úmida e coberta pelas folhas, que se despediam dos galhos e davam espaços à nova vida. Enquanto a energia telúrica³ fluía pelas rochas encobertas e alimentava o corpo das mulheres, a natureza as abrigava.
Perpétua temia pelo o que fariam ali. Geralmente, a senhora optava por respeitar as leis naturais e aguardava pelas imagens selecionadas pelo destino, mas medidas deveriam ser tomadas naquele momento. Teria feito àquilo sozinha se pudesse, mas seriam necessários diferentes poderes e diferentes sentimentos para chegar ao mais fundo daquela questão. Ela invocaria uma visão.
Dispensando a necessidade das palavras, elas seguiam em silêncio. Formaram, lado a lado, um triângulo. Juntas, cada uma possuía diferentes representações no sagrado feminino. Zelena, como a Jovem, trazia consigo a marca da Crescente pintada em sua testa. Cassandra, como a Mulher, carregava consigo as influências da Cheia. Perpétua, como a Anciã, abrigava os conhecimentos da Minguante. Ao baterem seus pés contra o solo, os riscos desenhados formaram o círculo que as protegeria do externo. Naquele momento, o ritual se iniciara.
As mãos unidas fecharam o ciclo e conectaram as energias que as manteriam ligadas. Quando os pés giraram sobre o chão tomado pela natureza, os corpos se acenderam em uma ligação única. Eram a Deusa, eram a natureza, eram mulheres. Os olhos tomados pelas cores de suas almas carregavam o branco límpido e refletiam os poderes contidos em seus âmagos. Esticaram suas palmas esquerdas, tocando-as com o indicador direito. Um corte feito expôs o sangue, vermelho vívido. A magica brilhante refletiu a luz do sol inesperado, brindando o dia.
Perpétua girou sua mão, trazendo à superfície um singelo objeto, semelhante à pétala de uma flor, mas transparente em toda a sua extensão. Ofereceu-o à Zelena, que deixou uma gota de seu sangue manchar o hialino. Em seguida, Cassandra ergueu seu braço, deixando que uma gota corresse pela pele clara. Quando o seu sangue juntou-se ao de Zelena, um curioso brilho se espalhou, unido ambos em um único círculo. Perpétua observou aquilo com atenção, certa de que o assunto precisaria ser falado. O sinal deixado pela união entre as duas haveria de ser um aviso ao qual não poderia ignorar. Por fim, deixou que o seu sangue gotejasse junto ao das filhas.
— Manus igneus. — a senhora ordenou e sua mão queimou em uma chama única.
Zelena e Cassandra uniram suas mãos, deixando que Perpétua estivesse no meio — no centro de suas proteções. A senhora se colocou de joelhos, erguendo a pétala avermelhada pelo sangue e oferecendo-a aos céus. Seus olhos brancos se abriram ela deixou que a união dos três sangues, das três magias e dos três poderes caísse sobre o centro de sua testa, o seu terceiro olho. Espalhando-se pela pele clara, o sangue se uniu à Perpétua, tornando-se parte do que ela era, parte de seu ser e sua visão.
O som das folhas dançantes era o único que impedia o total silêncio. Quando Perpétua curvou seu corpo para frente, as duas Bruxas sabiam que a estava findado. Ergueram suas mãos, contemplando o céu com suas visões de alma. O vento invocado por suas mentes apagou o círculo que as fechava no ritual. Seus braços firmes ajudaram à senhora, colocando-a de pé.
— O que você viu? — Cassandra encarou o rosto da mãe, abrigando-o entre palmas cuidadosas.
— Nada. — o declarar seco de Perpétua fez com que os olhos de Zelena se atentassem em surpresa. — Nenhuma visão me foi dada.
— O que diabos isso significa? — a ruiva bradou, lutando para conter seu nervosismo.
— Receio, minha querida, que o futuro ainda é uma enorme mancha negra. Somos refém de decisões ainda não tomadas.
Ao retornarem à Mansão Mills, Cassandra e Perpétua dividiam seus silêncios. A morena se servira de uma enorme xícara de café e mantinha-a segura em suas mãos não tão firmes. Contemplava o vazio com sua mente cheia demais. Temia pelo o que viria a seguir, mas não conseguia deixar de sentir uma peculiar segurança. Talvez pela quebra de sua solidão, pela união que estabelecia ali em poucos instantes. Só poderia, inevitavelmente, contar com os planos da Deusa.
— Imagino se as coisas seriam diferentes se você tivesse dito a verdade a elas. — sua reprovação, sempre tão clara, fez com que Perpétua voltasse à realidade.
— É bom que tenha voltado a julgar meus segredos, Cassandra, pois, é claro que percebeu, o seu segredo também virá à tona, você sabe. — a mais velha se colocou de pé, sustentado os olhos da filha. — A questão é que eu estou pronta para lidar com as consequências das minhas escolhas. Você está pronta para lidar com as consequências da sua?
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