Notas iniciais
Olá Cupcakes! Como prometido, titia voltou. Eu sei que a maioria se sentiu muito incomodada a respeito do tempo entre postagens, mas admito que prefiro um período mais regular. Ao menos vocês já têm à segurança de que retornarei. Os capítulos para essa fanfic são relativamente difíceis de escrever. Extremamente prazerosos, sem dúvidas, mas exigem uma atenção aos pequenos detalhes. Acredito que não há nada melhor do que uma boa história, aonde os detalhes são bem descritos e podemos visualizar cada cena. Portanto, peço a compreensão de vocês. Sem mais delongas, boa leitura.

— Bruxas? — Regina sorriu, fingindo incredulidade. As bochechas de Emma coraram levemente e ela assentiu.

— Existem muitas lendas sobre clãs de Bruxas. Algumas dessa região. — ela explicou.

— Ah claro, as lendas. — a morena deu de ombros. — Parecem-me apenas histórias de crianças, entende? Nada que deva ser levado a sério ao ponto de se escrever um romance sobre. — o desinteresse forçado fez com que a loira se surpreendesse, mas ignorou aquilo.

— Bom, eu realmente acho um assunto interessante e dificilmente é abordado de maneira fiel. — ela olhou um ponto ao fundo, pensando a respeito daquilo, antes de continuar. — Acho perfeito para um romance.

— Então você acredita nelas? — a pergunta pairou por alguns segundos, até que Regina decidiu ser mais específica. — Bruxas. Você acredita em Bruxas?

— Claro que não! — a loira gargalhou baixo, fazendo com que a bibliotecária soltasse o ar que nem ao menos sabia estar prendendo. — São extremamente interessantes, sem dúvidas. As lendas são bem detalhadas, mas é isso o que são: lendas! Nada além.

— Uma cética escrevendo sobre bruxaria? — ela sorriu, sentindo-se mais confortável, mas atentando-se a cada palavra dita. — Isso me parece muito interessante.

— Eu pensei que considerava Bruxas apenas algumas histórias de criança. — a loira a alfinetou, sorrindo com o canto dos lábios.

— Você acredita que são apenas lendas e isso não a impedirá de escrever sobre. — Regina manteve a feição séria. Seu tom fez com que Emma se recordasse do que havia conversado com o jovem garoto, minutos antes de entrar à biblioteca.

— Certo... — ela piscou algumas vezes e limpou a garganta. — Você pode me ajudar com esses livros? — entregou à morena um pequeno papel, onde alguns títulos estavam escritos. A caligrafia corrida fez com que Regina imaginasse que Emma pouco se atentou enquanto escrevia.

Zelena estava em um estoque do museu quando sentiu o arrepio lhe atravessar o corpo. Ela correu em direção a um dos banheiros e o trancou por dentro. Analisou a bancada de mármore branco e as pias douradas, pensando se aquela era realmente a forma mais rápida de fazer o que planejava. Por fim, ela abriu duas das torneiras e tampou o ralo, deixando que a água preenchesse o espaço até a borda. Encarou o espelho e respirou fundo, voltando-se para seu reflexo líquido. A ruiva ergueu as mãos espalmadas sobre a água, que movimentava-se calmamente. Suas palmas se esquentaram e ela aguardou até que o momento chegasse.

Revelarte. — ao final do comando, borbulhas se iniciaram e um redemoinho fez com que certa quantidade de água ultrapassasse a borda da pia. — O que aconteceu? — Zelena sussurrou para o reflexo de Regina.

— Emma Swan. — ela suspirou enquanto olhava para os lados e certificava-se de que ninguém estava por ali. — Ela é escritora. — a ruiva revirou os olhos.

— Eu sei, Regina. Eu vi isso.

— Você também viu que ela está aqui pesquisando sobre lendas? — a morena aproximou seu rosto. — Lendas sobre Bruxas, Zelena! — o choque tomou a face da ruiva, fazendo com que ela se afastasse um pouco e apoiasse suas mãos sobre o mármore branco.

— Vovó não falou nada sobre novas visões. — ela encarou um ponto qualquer, pensando no que faria a seguir. — Junte suas coisas, eu vou buscá-la. Nós precisamos ir para casa.

Ela moveu sua mão sobre a água e a imagem de Regina desapareceu. O ralo se abriu e permitiu que o líquido transparente escorresse, até que já não restassem vestígios do que fora feito ali. Zelena caminhou pelos longos corredores do museu. As batidas ritmadas de seus saltos contra o porcelanato denunciavam sua pressa em sair dali. Entregou seus papéis há um dos funcionários e orientou o que deveria ser feito ao longo do dia, deixando claro que não havia hora para voltar.

Não muito longe dali, Regina aguardava a chegada de Kathryn, que aceitara trocar de turno após a morena dizer que sua avó estava passando mal. O nome de Perpétua Mills possuía certo peso naquela cidade e ninguém ousaria impedir que uma de suas netas fosse até ela. Ajeitou alguns livros em suas mãos e olhou de relance por entre as longas estantes, encontrando os olhos verdes que mantinham-se fixos nela. Regina aprumou os ombros e desceu as escadas, pisando sobre a calçada no instante em que o carro de Zelena parou.

— Você acha que ela é uma ameaça? — a ruiva questionou quando a irmã se sentou ao seu lado.

— Humanos sempre são uma ameaça, Zelena. Você sabe disso. — ela levou as mãos até o cordão que circundava seu pescoço, tocando uma das pedras escurecidas.

— Eu sinto muito, Regina. Eu sei que vocês tem um passado. — Zelena suspirou enquanto entrava cada vez mais entre as árvores.

— Céus, Zelena. Há quinze anos ela me encontrou em uma rua escura. Eu era uma gata e ela era uma adolescente. Ambas éramos jovens e ela nem ao menos sabe quem eu sou. — a morena suspirou pesadamente. — Eu também não faço ideia de quem ela é. De qualquer forma, isso não representa um passado.

— Você sabe que eu posso ler sua mente, certo? Você teme a possibilidade de Emma ter visto algo atípico naquela noite. Esse é o passado a qual me refiro. Você tem medo de ser culpada por ela ter voltado e, mais ainda, teme que ela represente uma verdadeira ameaça para nós. — a ruiva tamborilou os dedos contra o volante, disparando verdades que jamais seriam proferidas por Regina. — Ah Regina! Não faça isso! — ela protestou ao se deparar com o bloqueio mental imposto pela irmã.

— Agora você não pode mais. — virou-se para a janela e contemplou as árvores, até que seus olhos capitaram algo que não a agradou. — Aquilo é um caçador? — Zelena freou o carro e seguiu o olhar da irmã, até encontrar o homem que estava no meio da floresta, empunhando uma espingarda.

— Nós vamos impedir? — ela sussurrou, com uma animação incontida em sua voz. Regina tencionou a aceitar a proposta. Sempre seria divertido fazer com que os caçadores se perdessem na floresta, mas hoje as prioridades eram outras.

— Não, vovó já deve estar cuidando disso. — a ruiva assentiu e deu partida, voltando à trilha que, pouco a pouco, era revelada pelas árvores.

Na Mansão Mills, Perpétua estava concentrada em seu jardim. Suas mãos estavam enterradas no solo e podia-se dizer que ela e a terra eram apenas uma. Um corpo, uma energia. Os seus olhos se mantinham fechados e, ainda que estivessem abertos, a imagem ao seu redor não seria enxergada. Ela via além, via por meio das árvores e das plantas. Os olhos dos animais eram os seus olhos. A natureza era a sua arma. Observou o caçador se aproximar. Os passos lentos do homem foram acompanhados por ela desde o segundo em que pisou em seu território. Aquele era o seu lar e nenhum animal seria ameaçado ali. Ela não permitiria. O homem abaixou-se, apontando sua mira em direção à uma raposa vermelha que dormia por ali. Perpétua agitou suas mãos e reconheceu o local exato em que estava. Perto dali um ninho de corruíras era construído. A Senhora sorriu ao encontrá-las. A espécie nativa do Brasil dificilmente estaria por ali se não fosse por ela. Os animais reconheceram o seu pedido e, em um voo único, seguiram em direção ao caçador, que debateu-se ao ser atacado pelos pássaros. O seu tiro atingiu uma árvore e a raposa despertou com o barulho, saindo dali logo em seguida. O ataque das aves cessou e quando o homem abriu os olhos, ele já não estava no mesmo lugar. A floresta havia se fechado, seu GPS não funcionava e ele não tinha ideia de onde estava. Dificilmente encontraria outro caminho, a não ser o que lhe devolveria para o movimento urbano.

Perpétua agradeceu silenciosamente as corruíras. As pequenas aves em muito agradavam a mais velha Mills. Existia uma antiga crença sobre corruíras rogarem pragas em pessoas que atrapalhavam seu sossego. Por isso foram as escolhidas. Aquele caçador jamais ousaria invadir a natureza e lhe fazer mal. Perpétua sabia que ele caçava por prazer, não por necessidade. Isso jamais seria admitido por ela. Independente do tempo, ou do espaço, o seu antigo laço com a terra iria perpetuar-se.

Ela libertou suas mãos do solo que as envolvia. Estavam limpas e claras, como se nem ao menos tivessem tocado à terra. Os seus olhos se fecharam mais uma vez e ela soube que um problema estava por vir. Seguiu em direção a casa, cruzando os diversos cômodos até que chegasse à porta da frente, no momento em que Regina e Zelena subiam as escadas.

— Quando ela chegou? — Perpétua perguntou e Regina soube que ela estava se referindo à Emma.

— Eu não sei, acredito que há pouco. Não a vejo na cidade há quinze anos. — a Senhora abriu passagem e suas netas entraram, beijando sua face. — Bença, vovó.

— Que a Deusa lhe abençoe, querida. — ela beijou a testa de Regina e, em seguida, a de Zelena. — Vamos até à sala.

As três mulheres caminharam em direção à sala de estar, que dificilmente era usada por elas, apenas quando assuntos de extrema importância precisavam ser discutidos, ou quando Perpétua decidia contar histórias às netas. Ela se acomodou em sua grande poltrona, enquanto as irmãs sentaram a sua frente, como faziam quando eram crianças e recebiam lições sobre o uso da magia que corria em suas veias.

— Vovó, você não teve nenhuma visão relacionada à chegada de Emma? — Zelena retirou seus saltos e cruzou as pernas sobre a poltrona.

— Não, nada. — ela fechou os olhos e se concentrou, mas era inútil. — A Deusa não me concedeu nenhuma visão sobre isso. Você conseguiu ler? — referiu-se à mente de Swan.

— Sim, mas já havia acontecido há alguns anos. No entanto, eu vi algo curioso, mas nada que falasse exatamente sobre nós. Apenas uma necessidade de informações e o desejo insaciável por respostas. — tentou se lembrar de mais alguma coisa que havia visto quando visitou a mente da mulher. — Eu também vi certo receio. Ela é cética?

— Ela é sim. — Regina respondeu. O desagrado estava estampado em sua face. — Mas está decidida a estudar as lendas e buscar por informações para escrever o seu novo romance. Talvez por isso você tenha visto o desejo por respostas. Ela precisa de informações para estruturar a história.

— Ainda assim ela é um risco. — a voz grave de Perpétua soou pela sala. — Qualquer cético seria convencido se encontrasse o caminho certo, o livro certo e a lenda certa. Nós precisamos tomar cuidado, pois vocês sabem o que acontece quando Bruxas não se cuidam.

— Elas queimam. — as irmãs Mills responderam em uníssono e Perpétua assentiu.

— Eu vou me concentrar em nossa visitante. Quero que vocês duas tomem cuidado e não deixem de usar os cristais. — Zelena preparou-se para revirar os olhos, mas interrompeu o gesto diante do olhar da avó. — Regina, acredito que será de grande ajuda você aproximar-se dela.

— A Senhora quer que eu manipule suas pesquisas? — a avó assentiu. — Certo, eu posso fazer isso. Na biblioteca não há nada que desperte grande dúvida, a maioria dos livros é bem vazio de conteúdo real. Eu sempre me certifico disso. No entanto, tentarei descobrir mais sobre as buscas que anda fazendo fora dali.

— Nós podemos invadir o quarto dela. — a ruiva propôs.

— Ela está hospedada na pensão de Granny? — Perpétua torceu o rosto em desgosto quando Zelena confirmou com a cabeça. — Aquela mulher sabe coisas demais sobre esse lugar. Ela é tão velha quanto às árvores anciãs. — Regina encarou Zelena e ambas seguraram-se para não rir diante da implicância que a avó mantinha com a outra senhora. — Não sei se é o certo a se fazer. Vocês podem correr considerável perigo. Ainda não conhecemos essa mulher. Ela pode ser uma fanática que irá colocá-las na fogueira à primeira oportunidade.

— Ela não é, vovó. Ou esconde muito bem, nas entranhas da mente. — a ruiva esclareceu, enquanto Regina se mantinha em silêncio. — Além disso, que outro lugar ela teria para esconder suas pesquisas? É uma ótima forma de sabermos em que nível de conhecimento ela está. — a Senhora pareceu pensar durante longos minutos, até que sua decisão foi tomada.

— Vocês irão essa noite, logo após o fim do ritual. Manteremos uma conexão constante e eu saberei se estão seguras, ou não. A Deusa sabe que eu seria capaz de pisar novamente naquela cidade caso algum ser humano se atrevesse a tocar em minhas netas. — ela declarou, levantando-se logo em seguida. — Creio que vocês não vão voltar para o serviço. O que acham de mexermos no jardim? Hoje é noite de Lua Cheia e será perfeito para algumas plantas. Além disso, eu preciso de algumas ervas para certas poções que estão em andamento e serão finalizadas hoje à noite.

As três mulheres seguiram até o jardim, que já sentia os efeitos do ritual feito ao amanhecer e que seria concluído durante a noite. As plantas carregavam um verde intenso e suas flores mantinham-se cada vez mais belas. O solo escuro exibia a nutrição que o tornava forte o bastante para qualquer tipo de cultivo. Uma borboleta de tonalidade azulada pairou entre as folhas do maracujá e seguiu até os cabelos de Regina, rodeando a mulher. Ela pairou a mão e aguardou que pousasse em seu dedo, erguendo-a contra a luz e admirando o brilho causado em suas longas asas. Ela girou os dedos e observou a borboleta caminhar sobre a sua pele, antes de abrir a palma e impulsioná-la para cima, permitindo que o voo da liberdade lhe ganhasse.

Durante a manhã, enquanto as netas estavam em seus trabalhos, Perpétua havia se dedicado ao cultivo de seus crisântemos. Ela tocou o solo em que estavam, certificando-se de que o mesmo estava úmido. Nem seco demais, nem molhado demais. Os crisântemos, que se davam tão bem com a luz do dia, não eram tão receptivos a luz direta do sol. Portanto, Perpétua certificou-se de que a claridade chegasse a eles e os preenchesse com as mais belas energias, mas não em excesso. Ela colheu algumas flores brancas, que já tinham seu destino decidido, e as colocou em uma grande cesta de palha.

Do outro lado do jardim, Zelena erguia sua mão sobre uma singela semente de dente de leão que estava caída sobre a terra. Ela fechou seus olhos e mentalizou a germinação da pequena semente. Em sua mente, Zelena via a terra engolir aquela que um dia viria a ser flor. A palma de sua mão esquentava-se aos poucos, mas ela não estava dando atenção a isso. Ela via o caule crescer aos poucos, livre de folhas. Na extremidade do escapo, o botão era formado e se abria aos poucos, libertando as pequenas pétalas amarelas direcionadas para cima. Em seguida, as pétalas se torvam curvilíneas e iam caindo pouco a pouco, até que deixassem para trás apenas as sementes brancas, presas ao botão central em um perfeito círculo. A ruiva abriu os olhos e encarou seu feito. Lá estava, o dente de leão. Ela o arrancou, pedindo licença para o feito, e segurou frente aos olhos. Admirou as sementes, que assemelhavam-se a pequenos guarda-chuvas, que serão dispersos por meio de anemocoria. Ela caminhou até a irmã e lhe abraçou os ombros, colocando a flor à sua frente.

— Faça um desejo. — Regina sorriu ao encarar à flor a sua frente.

Ela segurou a mão da irmã e repetiu o que faziam na infância. Abriu sua mente para Zelena e permitiu que a ruiva visitasse seus pensamentos. Ela viu a imagem de Emma perambulando pela mente da irmã. Regina tinha medo do que a loira poderia representar para elas. Ela tinha medo de precisarem partir para evitar uma maior ameaça, ela tinha medo de se ferir e, mais do que isso, que Zelena e Perpétua fossem feridas. Em seguida, a imagem de seu cordão surgiu. As seis pedras azuis brilhavam, mas a atenção estava exclusivamente voltada para a única pedra já escurecida. A morena temia a maldição que a rodeava. Em meio a tudo isso, ela desejou por proteção. Encarou os olhos de Zelena e a ruiva assentiu, repetindo em sua mente o pedido feito pela irmã. Ambas assopraram a flor e observaram as sementes se dispersando por meio do ar. Elas cairiam em outro solo, em outro lugar. Talvez perto dali, ou longe. Algumas iriam germinar e outras não. Elas jamais saberiam ao certo, mas carregavam a certeza de que a natureza teria o compromisso com a sua cria. A vida nada mais é do que um sopro, afinal.

— Regina. — a morena se virou para a irmã, a tempo de ver seu olhar marejado. — Você confia em mim quando digo que vou proteger você? — ela respirou fundo, buscando por controlar-se.

— É claro que eu confio. Eu sempre iriei confiar. — a mais nova puxou a irmã para os seus braços, abrigando-a em um abraço único. Um abraço de irmãs. Um abraço de almas antigas que estavam destinadas uma a outra, vida após vida.

Zelena deixou que as lágrimas lhe manchassem o rosto e apertou sua irmã contra si. Ela fechou os olhos, mas a primeira imagem que lhe tomou foi o cordão de Regina. Ela carregava o peso de ser responsável pela pedra escura e jamais esqueceria isso. A morena sabia a dor carregada por sua irmã, ainda que o perdão tenha vindo quase de imediato. A ruiva sorriu ao receber as imagens enviadas por Regina, por meio dos próprios pensamentos. Nelas a mais velha podia ver as risadas trocadas durante a infância, os segredos compartilhados e os laços que jamais seriam quebrados. Regina havia a perdoado, ela não carregava dúvidas a respeito disso. O seu problema, e esse era um grande problema, era saber que jamais poderia perdoar a si mesma.

— Nós estamos ligadas, lembra? Para sempre. — Regina sussurrou contra os cabelos ruivos e a irmã se afastou para encará-la.

— Sim, nós estamos! — a ruiva secou suas lágrimas e permitiu-se sorrir.

Regina juntou suas mãos, colocando-as entre elas. Os seus olhos se fecharam e ela se concentrou no que projetava em sua mente. A irmã a olhou curiosa, esperando para ver o que viria a seguir, mas manteve o silêncio. A morena caminhou até um espaço aberto entre as plantas, abaixando-se ali. Abriu suas mãos, ambas viradas em direção ao solo. Não tardou para que a grama bem aparada começasse a se mover, abrindo espaço para a semente que germinara em seu interior e que agora tornara-se broto. Ele cresceu. Um longo caule, com folhas compridas e finas. Pequenos botões foram emergindo, pouco a pouco. Até que abriram e deram origem a pétalas amarelas.

— Oh céus! — a voz da avó chamou a atenção das duas mulheres, que viraram-se a tempo de vê-la se aproximar com um sorriso nos lábios. — Antirrhinum majus. Há muito não vejo essa espécie.ela sussurrou, enquanto passava a ponta dos dedos pelas pétalas amareladas. — Uma boca-de-leão amarela! É uma boa escolha. Significa amizade e cumplicidade. — alternou o olhar entre as netas. — É o que vejo quando olho para vocês.

— Isso é porque nós somos super irmãs bruxas. — Zelena sorriu, abraçando os ombros da avó. — E você é a nossa conselheira, como nos filmes. — ela enrolou o dedo em uma mecha do cabelo grisalho.

— Quem dera as coisas fossem como nos filmes, querida. — a mais velha se virou para Regina, direcionando seu olhar ao colar que lhe rodeava o pescoço. — Todo dom vem com um preço.

— Não pense assim, vovó. — Regina se adiantou em mudar o curso da conversa. — Eu estava me lembrando de quando éramos crianças e a parreira de uvas costumava ficar cheia! Era maravilhoso! Será que podemos fazer aquilo acontecer?

— Oh Regina! Nós já conversamos sobre isso! — Perpétua fingiu seriedade, mas segurava o riso. A mais nova das netas sempre fora um pouco impaciente. — É claro que podemos fazer acontecer, mas não estamos na época de uvas e você sabe que elas são muito mais saborosas quando o ciclo da natureza precisa ser respeitado.

— Quem sabe as maçãs? — ela insistiu, abrindo um enorme sorriso, ainda que a avó lhe olhasse séria.

— Tem maçãs na cozinha. — Perpétua caminhou em direção a uma área mais aberta do quintal.

— Mas não é como colhê-las da árvore, vovó. A natureza não vai se importar, eu tenho certeza. Além disso, você não acha que uma macieira ficaria linda aqui? — ela apontou para o vazio.

— Você faz as honras, ou eu faço? — Zelena sussurrou para a avó, certa de que a irmã conseguiria o que queria.

— Você sempre foi a irmã mais insistente. — Perpétua deu de ombros e ofereceu suas mãos as netas. As três mulheres formaram um círculo.

Ergueram as mãos unidas em direção ao céu, pedindo por energias, para, em seguidas, direcioná-las ao solo. Zelena sentiu a energia vinda de sua avó e a vinda de sua irmã. Estavam conectadas. Uma luz emanava das mãos unidas e, pouco a pouco, ia se intensificando. Uma cantiga foi entoada pelas mulheres. Ela falava sobre frutos que vinham da terra, sobre o poder da mãe natureza e da beleza das plantas. Como se respondesse as palavras ditas, no interior da terra, raízes começaram a brotar, buscando por seus espaços entre os grãos que constituíam o solo. Um pequeno tronco emergiu na grama baixa e foi crescendo e crescendo, cada vez mais. Folhas medianas se abriram, em um verde exuberante. As mãos se soltaram e dirigiram-se a árvore, que tornara-se a mais nova integrante do jardim da Mansão Mills. Quando Regina abriu os olhos, ela não pode evitar o gargalhar satisfeito. Do lado esquerdo da macieira, as frutas apresentavam um vermelho intenso e, do lado direito, elas carregavam um verde incrível. Maçãs verdes e vermelhas se distribuíam pela árvore. As maçãs preferidas de Zelena e Regina.

— As maçãs vermelhas sempre serão melhores. — Regina provocou a irmã, enquanto colhia um dos frutos, que lhe parecia demasiadamente apetitoso.

— Iludir-se ainda é de graça, irmãzinha. — a ruiva empurrou o ombro da morena, enquanto dirigia-se a sua parte da árvore. — Regina, eu estava pensando, você podia fazer aquela deliciosa torta de maçã!

— Verdade! Agora nós temos maçãs de sobra! — ela se preparou para colher uma boa quantidade, a fim de fazer a torta pedida pela irmã, mas foi impedida pelo pigarrear da avó.

— Vocês não vão bagunçar a minha cozinha! — Perpétua declarou, mantendo o semblante sério.

— Vovó, nós vamos limpar tudo depois. — a ruiva argumentou.

— É sempre o que eu escuto. — a mais velha manteve-se impassível. — Nunca fica do jeito que eu gosto.

— Vai ficar, vovó. Eu prometo. Você sabe como Regina é. Ela tem TOC. É claro que deixará tudo limpo. — Zelena tentou esclarecer, mas acabou por receber um olhar irado da irmã.

— Eu não tenho TOC! — a morena esbravejou. — Você sempre diz isso. É absurdo, eu só gosto das coisas organizadas.

— Regina, você enlouquece se eu entrar no seu quarto e tirar uma coisinha do lugar. — a irmã insistiu. Sabia que aquele assunto irritava a morena e aproveitava-se disso.

— Mas é claro! Quem, em sã consciência, entra no quarto dos outros e tira coisas do lugar? — Regina ergueu as mãos, denotando sua irritação.

— Não é tirar do lugar, é só mudar um pouquinho. Você enlouquece, sabe que enlouquece. — a mais velha insistiu e a morena bufou.

— Zelena, não irrite a sua irmã. — a avó se virou e caminhou em direção a casa, tendo a certeza de que aquela discussão duraria por longos minutos.

— Eu não estou irritando-a, só estou falando a verdade. — a ruiva disse uma última vez, antes que Regina chegasse ao seu limite.

A morena aprumou os ombros e se abaixou, até que tudo o que deixou foi um bolo de roupas. A felina, que possuía pelos negros, saiu correndo pela grama, em direção a um espaço mais isolado. Ela pulou em uma árvore, prendendo suas unhas ao tronco e se acomodou em um galho distante. Zelena foi até lá e olhou para cima, sendo encarada pelos olhos amarelos, que escondiam o castanho dentro de si.

— Sério, Regina!? — ela não conteve o riso, mas tudo o que recebeu foi o desprezo da gata, que parecia ocupada demais lambendo sua pata.

— Você a irritou, não foi? — Perpétua falou quando viu a ruiva voltar sozinha para o interior da casa. — Zelena, às vezes me pergunto o quanto você e sua irmã realmente cresceram. — ela falou ao perceber que a mais velha das netas carregava as roupas da irmã, mas não pode conter o riso que lhe tomou. — Céus, ela ficará furiosa.

— Eu não tenho culpa. Regina sempre fez isso. Ela não pode aguentar uma boa provocação e levá-la até o fim. Precisa me deixar falando sozinha e sair balançando aquela calda peluda. Então, ela que volte nua. — a ruiva deu de ombros e subiu as escadas, deixando a avó sozinha na sala.

— Crianças. — Perpétua deu de ombros e sorriu, antes de voltar sua atenção as cartas que distribuía sobre a mesa

***

Zelena encarou o relógio. Já estava anoitecendo e a irmã ainda não retornara. Ela segurou o impulso de ir até aquela maldita árvore e puxar Regina pelo rabo. Sempre fora assim, desde a infância. Regina subia nos telhados, nas árvores e até mesmo nos guarda-roupas, dando qualquer discussão como encerrada. Na verdade, Zelena a irritava exatamente com esse propósito. A ruiva sorriu para si mesma ao recorda-se do semblante irritado da irmã. Sempre foi fácil irritar Regina. Seu temperamento difícil era ainda pior na infância. No entanto, nessa época ela ainda era mais facilmente domada. Afinal, Zelena era a irmã mais velha. Não que isso significasse muita coisa entre as duas. Consideravam-se gêmeas de nascimentos diferentes. Ao menos a respeito do ano, já que as duas nasceram no mesmo dia, do mesmo mês. A mais velha amava sua irmã com todo o coração e temia pela mesma. Por muitas vezes carregava a fama de rebelde, enquanto Regina sempre fora a mais centrada, mas isso não a impedia de preocupar-se com tudo o que as rodeava.

Ela desistiu de resistir e caminhou para fora da casa, com um roupão em seus braços. Buscou a árvore aonde a gata havia subido há algumas horas. Olhou pela extensão de todos os galhos e precisou forçar a visão para enxergar o bolo de pelos negros que dormia tranquilamente no alto. Zelena deu as costas, negando-se a fazer o que havia pensado. No entanto, já estava escurecendo e, no fim das contas, a culpa da impaciência de Regina era sua.

— Ah Regina, eu odeio você. — ela subiu a barra de seu vestido, antes de trepar no primeiro galho.

Esticou-se para pisar no segundo e olhou para cima, certa de que ainda teria um longo caminho até o lugar onde a gata dormia. Zelena estava se preparando para subir mais uma vez, quando deu-se conta do quão ridículo era o que estava fazendo. Revirou os olhos e sentou onde estava.

— Não acorde, não acorde... — ela sussurrou para si mesma, quando ergueu a mão e fez com que a gata levitasse.

Esticou seu pé e tocou no galho de baixo, mantendo sua atenção na felina, que parecia perdida em um sono profundo. Zelena tateou o vazio, em busca de um local para apoiar o seu corpo e descer, mas não o encontrou. Ela olhou para baixo, apenas por alguns segundos, mas o movimento feito fez com que sua mão se mexesse e a gata trombasse com um dos galhos. O que se ouviu a seguir foi o miado ensurdecedor de quem acordou sem nada em baixo de si.

— Oh não! — Zelena protestou quando viu o espasmo dado pela felina, que remexeu-se no ar e caiu em direção ao solo. — Oi irmãzinha! — a ruiva sorriu e acenou para Regina.

A morena, que transformou-se durante a queda e chegou ao solo já em sua forma humana, mantinha-se abaixada sobre a grama. Ela ergueu a cabeça, jogando os cabelos para o lado e encarou a irmã, que estava pendurada em um dos galhos da árvore. Colocou-se de pé, limpando as mãos uma na outra e balançando os ombros, a fim de ajustar seu corpo a atual forma.

— Sabe, da próxima vez você pode me acordar de uma maneira mais sutil. — ela ofereceu a mão à Zelena, que agradeceu aos céus pelo bom humor. Afinal, a noite não estava boa para ser assassinada.

— Eu pensei em colocá-la na sua cama e deixar que acordasse confortavelmente. — adiantou-se em explicar, mas recebeu um olhar incrédulo da irmã. — Eu disse que pensei em fazer isso, mas as coisas deram um pouquinho errado.

— Um pouquinho, Zelena? — Regina ergueu uma das sobrancelhas e sorriu com o canto dos lábios, mas a ruiva limitou-se a jogar o roupão em sua direção.

— Vista isso, vovó odeia quando você volta nua para casa. — a zombaria fez com que ambas as mulheres gargalhassem.

— Mas eu deixei minhas roupas aqui no jardim. — Regina argumentou, mas abriu a boca em choque diante do olhar da irmã. — Você ia me fazer voltar nua, não é?

— Talvez. — a mais velha deu de ombros. — Mas eu vim até aqui te acordar, não foi? Então, estou perdoada.

— Você sempre faz isso, Zelena! — ela empurrou o ombro da ruiva. — Eu vou contar à vovó.

— Vovó viu. — zombou. — Ela adora tudo isso, Regina. Você sabe que de todas nós, vovó é a pior. Ainda me lembro de quando ela resolveu pregar peças em nós duas.

— Céus! Aquele dia foi horrível. Foi ela que te ensinou a colocar água gelada no meu chuveiro!

— Não é mesmo? Eu adorei aquilo. — a ruiva gargalhou, mas recebeu um olhar furioso da irmã. — Eu juro que hoje de manhã foi a última vez.

— Você jurou no mês passado. — a morena negou com a cabeça, mas acabou por sorrir. Ela ergueu o olhar e encarou o céu, dando-se conta de que já estava escurecendo. — Já está quase na hora.

— Sim, — Zelena assentiu. — ela está vindo.

Notas finais
Espero que tenham gostado! Aguardo os comentários de vocês. O meu twitter é @evilquexr e está aberto à perguntas, ou o que seja. Nós nos vemos no dia 27!