Notas iniciais
Olá Cupcakes! Tudo bom? Eu quero agradecer pelos comentários. Fico muito feliz em saber que vocês estão gostando da história, de verdade. Além disso, é muito importante que deixem suas dúvidas, pois assim eu sei o que preciso esclarecer melhor e entendo se os caminhos da narrativa estão claros para vocês. Bem, o capítulo é delicado e eu espero que vocês entendam a importância dele. Haverá mais dúvidas do que respostas e objetivo é realmente esse. Espero que gostem. Perdoe-me qualquer erro que tenha passado despercebido. Sem mais delongas, boa leitura.

Emma teve um sonho estranho naquela noite. Dormiu no instante em que se deitou, mas nem mesmo o forte cansaço lhe garantiu uma noite tranquila. Não, pelo contrário. Há tempos ela não se lembrava de ter um sono tão conturbado. Revirou-se na cama, sabia disso. O lençol amassado, quase solto do colchão, não lhe deixava pensar diferente. Tentou se lembrar do sonho e juntar todos os detalhes possíveis, mas algumas partes simplesmente se transformaram em borrões. Com seus conectivos perdidos, a história contada por seu inconsciente acabou desaparecendo, pouco a pouco. Lá para o meio do dia, ela já não se lembraria de quase nada, exceto da noite mal dormida.

No entanto, há muito que se falar sobre esse sonho. Talvez por isso Emma tenha se esforçado tanto para tentar ligar os pontos, mesmo que em vão. Ele possuía um tom escuro, como se preso nas mais profundas trevas de sua mente. A loira era uma expectadora esquecida, que encarava um teto branco, enquanto ouvia gritos e um cheiro enjoativo de fumaça. Fechou seus olhos, tentando se recordar de mais detalhes, mas encarou o vazio de sua própria mente. Lembrava-se de olhos castanhos. Não sabia ao certo em que ponto o teto branco, os gritos e o cheiro de fumaça se transformaram em olhos castanhos, mas eles estavam lá e, é claro, ela sabiam a quem pertenciam.

A incoerência das imagens em seus pensamentos fez com que Emma resolvesse deixar a cama. Acabou se dando por vencida, pouco adiantaria pensar naquilo. Gostava quando seus sonhos lhe traziam inspiração para a escrita, mas pareceu certo que aquele era um caso perdido. Como esperado, ele logo iniciou sua fragmentação. Quando saiu do banho, já não se lembrava de muito, exceto dos olhos castanhos.

A história de Regina ainda ecoava em sua mente. Não era algo totalmente desconhecido, tinha certeza disso. Já havia lido narrativas bem semelhantes em livros, mas havia algo diferente nas palavras da bibliotecária. Algo que fazia o coração de Emma se acelerar ao fechar os olhos e imaginar as cenas de sua narrativa. Algo que a fazia desejar saber mais. Talvez fosse a vivacidade contida em cada frase, ou até mesmo as expressões no rosto de Regina. A loira não conseguiu uma explicação para isso, apenas desejou ter mais daquilo. Ter mais das histórias e da curiosa presença da morena.

O dia ainda estava longe de clarear, mas Emma já estava de pé. Tomara seu banho e, agora, dedicava-se a reler alguns pergaminhos antigos que colecionara em suas recentes pesquisas. Quando pensou em escrever um romance que abordasse o universo das bruxas, parte dela acreditou que aquilo seria uma enorme bobeira. Apenas mais um cliché não muito interessante. No entanto, quando mais buscava saber e quanto mais aprendia, algo dentro dela dizia que havia muito mais a ser contado. Não demorou a declarar seu posicionamento em relação ao que escreveria. Basta de bruxas solitárias em busca de um amor, basta de mulheres frígidas e mal lidas. Ela inventaria um novo enredo.

Embora as histórias batessem junto ao seu coração e lhe interessassem muito, Emma achava curiosa a maneira como algumas pessoas acreditavam naquilo. Sem dúvidas, ela admirava a realidade que podia ser arrancada da fantasia, como a ideia do sagrado feminino que ligava as mulheres e desestruturava a constante ideia de que todas devem ser inimigas, mas há um limite. O limite da escritora era, de fato, a linha clara entre o real e o fantástico. Acreditava em mulheres fortes e bem decididas, mas considerava hilária a crença em transmutações e poderes.

Em algum momento, a loira abandonou os pergaminhos e os livros. Encontrou um pedaço qualquer de papel, largado entre suas inúmeras anotações que, muitas vezes, nem mesmo ela era capaz de compreender. Correu o lápis pela superfície clara, sem se importar em respeitar simetrias, ou qualquer outra regra para desenhos. Apenas rabiscou aquilo que marcava presença em sua mente. Dois olhos castanhos. Atentos, sedutores e quase felinos. Encarou o feito por alguns segundos, rindo de si mesma. Ela estava ficando louca, logo declarou. Ainda assim, não amassou o desenho e nem sequer cogitou jogá-lo fora. Abriu seu pequeno bloquinho e o colocou ali, escondido entre versos perdidos de poemas jamais contados. Estava ficando louca, era certo. Assim como era certo que estava sendo enlouquecida.

Precisava se concentrar naquilo que era realmente importante, afinal de contas, ela não ficaria para sempre naquela cidade. Planejou ficar ali apenas por um mês. Aprenderia sobre todas as histórias e coletaria todos os dados necessários para começar a escrever. Então, iria embora. Era certo que com a ajuda de Regina as coisas ficariam mais fáceis. Desejava saber mais sobre Regina, mesmo não entendendo o porquê daquilo. Precisava, urgentemente, parar de pensar nos malditos olhos castanhos. Ela estava tendo dificuldades para traçar seus objetivos no novo enredo. Pensara em um romance e o considerou cliché logo quando começou seus primeiros estudos. Agora, estava perdida.

Cogitou desistir do projeto e pensar em algo diferente, mas não poderia. Não agora. Iria refletir sobre cada nova descoberta, cada mínimo detalhe aprendido, até que descobrisse novos caminhos a seguir. O seu sexto sentido de escritora lhe dizia que algo estava passando despercebido. Ela precisava daquele gatilho que dá origem há uma enxurrada de ideias e sensações. O gatilho que abre as portas para um novo mundo, que precisa ser verbalizado e ter sua passagem secreta contida em palavras. Havia uma história a ser contada, ela podia sentir isso.

Voltou para os pergaminhos, certa de que encontraria um norte, ou até mesmo novas dúvidas a serem respondidas. Procurou, em especial, um pergaminho que não lhe trazia boas lembranças, mas que foi responsável por levá-la até ali e incitar sua busca pelas lendas. Revirou sua mala, páginas de livros e gavetas, mas não o encontrou. Não era possível tê-lo perdido, não depois de tanto esforço para guardá-lo. Pensou durante alguns minutos, certa de que ele estava em sua bolsa quando a arrumou. Cogitou ir atrás de Granny e questionar se alguém entrara em seu quarto, para organizar qualquer coisa, embora ela tenha deixado claro que não era necessário esse tipo de preocupação. Emma era uma bagunça só e tinha consciência disso, mas ela se encontrava em sua própria desordem. Não ficou brava, ou qualquer coisa do tipo. Certamente deveria ter sido isso. Granny se esqueceu de seu pedido e resolveu limpar o quarto. Perguntaria sobre quando a manhã realmente chegasse.

Quando decidiu se deitar mais uma vez, um som no corredor lhe chamou a atenção. Era possível que Granny estivesse acordada àquela hora? Saiu pela porta, imaginando que aquela seria uma oportunidade de encontrar seu pergaminho perdido. Só então se deu conta de que poderia ser outro hospede, mas, ainda assim, ela prosseguiu. Desceu pelas escadas, sem se importar em fazer barulho.

— Granny? — chamou ao chegar à entrada da cozinha. Mais ao fundo, ela pode ver a senhora observando algo além da porta. — Granny, está tudo bem? — se aproximou, vendo um pequeno movimento ser feito ali, quase como se um vento mais forte balançasse as folhas.

— Emma! — a senhora se virou. Seu rosto estava levemente corado, mas ela não parecia surpresa com a presença da loira. — Oh sim, claro! Está tudo bem. Veja só, há um gato por aqui revirando minhas abóboras. Eu não deixarei gato algum revirá-las. Precisei me levantar da cama e vir até aqui tocá-lo.

— Bem, menos mal, eu acredito. — Emma acabou por sorrir ao perceber o jeito rápido como a mulher falava, denotando sua irritação. Ignorou qualquer suspeita em sua cabeça, levando em conta que Granny já tinha certa idade e, àquele ponto, algumas coisas realmente precisam ser relevadas. — Há alguns dias, um gatinho preto entrou em meu quarto. Na verdade, era uma fêmea.

— Uma gata preta? No seu quarto? — então, a surpresa tomou o rosto da outra mulher, isso não passou despercebido por Emma. Logo imaginou que Granny era uma daquelas senhoras supersticiosas, que duvidava da bondade dos felinos negros.

— Sim, ela estava lá e... — a loira pensou em continuar e contar sobre a visita curiosa de Zelena, a irmã de Regina e a dona da tal gata, mas escolheu manter o silêncio, mesmo não entendendo o porquê.

— Você a tocou? Jogou-a pela janela? — Granny sorriu. — O que aquela gata estava fazendo no seu quarto? — perguntou retoricamente.

— Eu não sei. Acordei e ela estava lá, sem motivo algum. Eu deixei a janela aberta, acho. — deu de ombros. — Não há problema quanto a isso. Na verdade, eu gostaria de perguntar uma coisa. — só então Granny pareceu acordar, olhando ao seu redor.

— Claro, Emma. Claro. Amanhã, certo? Já está tarde para uma senhora ficar acordada. Quem irá passar o café pela manhã se eu não dormir bem!? — riu de sua própria fala. As palavras de Emma mantiveram-se presas à garganta enquanto ela observava à senhora subir pelas escadas. — Feche a sua janela, querida. Sempre feche a sua janela. — alertou, parando apenas por alguns segundos para encarar o rosto de Emma por cima dos óculos grandes.

Emma voltou para o seu quarto, sem a resposta que buscava. Ainda assim, ela estava com um sorriso divertido nos lábios. Era curioso conviver com pessoas mais velhas e Granny lhe divertia com aquelas atitudes inesperadas. Desistiu de estudar. De repente, um curioso cansaço a tomara. Dirigiu-se à cama, mas, antes de deitar, algo lhe chamou a atenção. As cortinas balançavam, permitindo que a brisa gelada preenchesse o cômodo. Emma não acreditava em nada daquilo, nem mesmo temia a visita de um gato. Ainda assim, naquela noite, ela fechou a janela.

***

Perpétua hesitou antes de entrar na floresta e seguir o caminho que a levaria aonde era de seu desejo. Não hesitou por medo, ou dúvida, apenas por falta de costume. Há muito ela decidira abraçar o isolamento e se mantinha apenas na propriedade e seus entornos, mas, hoje, ela precisava sair. Precisava ir até o fundo daquele enorme furacão que prometia sua chegada. Precisava fazer isso, mas temia que suas decisões pudessem gerar consequências. Ainda assim, manteve-se em frente, afinal, não fazer nada também poderia acarretar em algo.

Sendo assim, ela seguiu por entre as árvores, sendo tocada pela natureza e abraçada pelas folhas. Foi recebida pelos seres da floresta, que já se retiravam para o aconchego, pois a noite pertencia à Minguante, que brilhava no céu. Alguns dias depois, viria o período negro que precede o início dos novos ciclos lunares. Nesse período, as visões sempre ficam mais difíceis. Perpétua não desejava ter de contar com ele para esclarecer suas questões. Convenceu-se de que não havia mal algum no que faria, ela apenas estava buscando conhecimento.

Cumprimentou as aves, que pousavam em seus ninhos bem armados. Tocou levemente um pequeno porco espinho, pedindo licença e lhe agradecendo por presenteá-la com sua beleza peculiar. Ela seguiu em silêncio. Seus passos não faziam barulho e nem sequer deixavam marcas sobre o solo úmido. A senhora observou com atenção todos os detalhes do microclima existente ali, apreciando em demasia as artes feitas pela natureza tocada por sua magia. Aquilo a satisfazia muito, pois apreciava a ação dos Deuses e admirava como os poderes se manifestavam no mundo. Perpétua não percorria aquele caminho há tanto tempo que quase poderia ter se esquecido dele e, é claro, ninguém realmente se assustaria se uma senhora como ela o fizesse. Não obstante, nem mesmo os mais longos anos seriam capazes de obliterar as claras lembranças que, agora, manifestavam-se em sua mente. Longos anos. Foi isso o que a separou não só da civilização, mas, também, das pessoas com as quais mantinha qualquer contato. Exceto nos Sabás¹, quando recebia seletos convidados para comemorar os pontos da roda do ano, ela não convivia com ninguém além da Deusa e as netas.

Atentou-se quando percebeu o limite marcado por ela mesma, há muitos anos, dividindo o seu mundo particular do mundo real. A partir daquela quase imperceptível linha, qualquer ser encontraria meios para viver na natureza. Até mesmo o mais peculiar animal conseguiria ser mantido pela magia que corria por baixo da terra e tocava o mundo. No entanto, depois daquela linha, não havia garantias. Depois daquela linha, Perpétua estava de volta àquilo que deixou para trás. Ela cruzou o limite, sem se importar em ser reconhecida. Seu rosto mudara muito após o ritual de envelhecimento. Poucos dos que a conheceram antes dele estavam vivos, poucos seriam capazes de realmente reconhecê-la. Exceto uma pessoa.

A senhora quase pôde rir quando deparou-se com os símbolos talhados à madeira da porta. Ela não poderia entrar ali, não sem uma autorização. Seu nome, escrito em símbolos antigos, mas que Perpétua reconhecia muito bem e, é claro, jamais se esqueceria. Ela ergueu sua mão, assobiando baixo, quase imperceptivelmente. Um pequeno Dacnis pousou em sua mão, leve como uma pluma. Suas asas azuis brilhavam belíssimas. Ele aproximou seu pequeno bico do rosto da senhora, como em um afago. Ela assobiou mais uma vez e o pássaro demorou apenas alguns segundos antes de libertar-se de sua mão, ganhando o voo que o levaria ao destino solicitado por Perpétua. Ela aguardou, sabendo que aquilo seria o bastante. A noite já dominava o céu àquele ponto, uma noite sem estrelas.

— Eu não posso acreditar no que os meus olhos estão vendo. — a voz chamou a atenção de Perpétua, que já esperava pela chegada daquela que abrira a porta.

Merch y Ddaear.² — a Bruxa fez uma pequena reverência em respeito à mulher. — Ou devo dizer Granny?

— O que você está fazendo aqui? — Granny ajeitou seus óculos, como se ainda não acreditasse em sua própria visão.

— Não basta à grosseria desses símbolos, você realmente irá reagir desta maneira à visita de uma velha amiga? — o tom de Perpétua se mantinha ameno, quase como se estivesse se divertindo com aquilo, mas o rosto de Granny estava avermelhado. A surpresa contida no assobio do pássaro nem de longe se comparava a de ver aquela mulher ali em sua porta.

Granny não respondeu. Voltou-se para dentro da cozinha, buscando por uma faca. Encarou Perpétua por longos segundos, como se ainda ponderasse o seu próximo ato, mas, por fim, ela empunhou a faca, passando seu dedo indicador pela ponta afiada e libertando uma gota de sangue. Tocou a testa de Perpétua, deixando uma marca avermelhada e forte. Então, a Bruxa deu um passo à frente e, pouco a pouco, os desenhos talhados à madeira da porta se retiraram. Fora ordenado que eles já não mais eram necessários.

Caminharam juntas pela casa até o terceiro andar, longe dos quartos. Ali ficava um pequeno sótão, desconhecido pela maioria das pessoas e, por isso, fora o local escolhido para aquela conversa atípica. Era naquele lugar aconchegante que a senhora guardava seus livros e toda prova física do conhecimento que não poderia cair em mãos errôneas. Poucas pessoas seriam permitidas ali, mas Perpétua sabia muito além do que os livros poderiam contar e isso anulava qualquer ameaça. Granny se acomodou em uma poltrona e indicou para que Perpétua fizesse o mesmo.

— Não vai mesmo me oferecer um chá? — a Bruxa questionou, divertindo-se com o olhar irritado da outra.

— Não. Não quero que você demore. — Granny declarou, sem cerimônias. — Então, é melhor que vá direto ao ponto.

— Antes, eu preciso dizer algo, Wenona. — ela se referiu à Granny com o antigo nome, aquele que era conhecido por poucos e que fora deixado para trás, assim como parte da sua história. Granny soube que o assunto era extremamente sério, pois ela não o faria caso contrário. — Sei que o tempo foi responsável por guardar muitas de nossas mágoas, mas eu preciso lhe contar que o meu desaparecimento se fez necessário. Estamos enfrentando um risco muito grande. — Perpétua aguardou. Suas palavras queimavam a garganta, pois ela sabia que a mágoa de Wenona era válida. A mágoa era a consequência de seus erros. — Eu preciso que me ajude.

— Ajudar você? — Granny gargalhou seco. — Eu não sei se você se lembra, mas da última vez que nos vimos a sua maldita filha estava destruindo o meu povo. Ela roubou a minha história, corrompeu o meu sangue e me transformou em nada. O pior é que não foi isso o que me deixou mais magoada, Perpétua Mills. — ela negou, olhando um ponto ao longe. — Você me salvou e desapareceu. Durante anos, eu me perguntei se você havia morrido nas mãos daquela mulher, pois é certo que ela a mataria se pudesse. Aquele demônio que você gerou em seu próprio útero...

— Basta! — Perpétua se colocou de pé, dando as costas à Wenona. — Eu não me orgulho disso, mas não vim reviver as cicatrizes do meu passado. Peço perdão por não ter vindo antes, mas eu lhe mandei sinais que nunca foram respondidos.

— Claro que eu não os respondi! — bradou. — Eu senti a sua magia no instante em que pisou neste solo. Neste para o qual você me mandou quando tudo fora destruído. A sua maldita filha acabou com a minha vida e, mesmo assim, eu vi as filhas dela crescerem por essas ruas.

— Wenona, você me conhece. Mais do que isso, você conhece a roda do destino e sabe que nem sempre as nossas decisões cabem às decisões dos outros. Eu gerei Cora, mas ela não é minha filha. Seja lá o que a Deusa colocou em seu caminho, Cora foi imprudente o bastante para ignorar as leis e trilhar sua própria vontade. Há algo mais importante agora. Algo que me faz vir até aqui e eu espero que você compreenda e coloque de lado as desavenças do passado, pois eu não fui a responsável pela destruição do seu povo, mas eu a salvei e salvei sua neta.

— Ruby? — os olhos de Granny se arregalaram. — Você sabe onde está Ruby?

— Ela se transfigurou na floresta há alguns anos, você sabe disso. Mataria toda a cidade se minha neta não tivesse a encontrado. Nós não precisávamos de uma nova versão do lobo mau. — a senhora assentiu. — Tempos depois, ela pediu a ajuda da natureza e rumou em busca de sua matilha. Não sei onde ela está, mas posso encontrá-la. — Perpétua se aproximou, só então encarando o rosto de Wenona Granny. — Eu não sou a inimiga.

— Faremos o que for necessário. — a senhora assentiu. — O que suas visões guardam?

— O fogo. — Perpétua se sentou, pois precisava de forças para prosseguir. — O fogo de Regina, Wenona. Ela é a criança amaldiçoada.

— Você deixou que nascesse!? — Granny espalmou ambas as mãos nos apoios da poltrona. — Por que deixou que nascesse, Perpétua? Por que não a matou quando ainda estava no útero de sua filha maldita?

— Eu não pude. — a Bruxa suspirou. — Ela já havia nascido quando a encontrei. De qualquer forma, eu jamais poderia matar Regina. Eu a protegerei até o fim, Granny. Eu queimarei em seu lugar se for necessário.

— Não seja ignorante. As coisas não acontecem assim, sabe disso. — a senhora negou com a cabeça, parecendo se perder em pensamentos por alguns segundos. — E o que a traz aqui?

— Emma está ligada à Regina. Emma Swan, sua nova hospede. Os seus destinos estão amarrados como trançados pelos Deuses. Há algo com essa menina e eu não estou vendo. Preciso que os seus olhos sejam os meus olhos, Wenona, pois nós não poderemos impedir o destino, mas algo deve ser feito. Se Regina queimar, ela irá renascer e há chances de...

— O legado das trevas se libertar. — Granny se colocou de pé, indo até a janela e encarando a face da Minguante. — Não há nada de suspeito em Emma. Ela é apenas uma menina.

— Nós precisamos nos certificar. Eu preciso do sangue.

— Não, Perpétua. Eu irei fazer isso, garanto a você. Proteja sua neta, pois algo está se aproximando e eu sei que você pode sentir. Tem chances de ser sua maldita filha?

— Não. Cora jamais encontrará Storybrooke, eu lhe asseguro.

— Como a maldição se manifestou? — Granny voltou ao seu lugar. A noite estava correndo.

— Ela não pode passar pelo ritual da imortalidade. Regina é, para todos os efeitos, mortal. Ela se transfigura em um felino negro e, tal como o animal, possuía sete vidas. — Perpétua revelou.

— Possuía? Então, ela vive a sexta vida agora. Como fez com que ela voltasse sem que sua alma fosse corrompida pela maldição?

— Não fui eu. — a Bruxa respirou fundo. — Foi Zelena. Desde que Regina renasceu, eu sei que essa vida é uma luta contra o mal que habita sua alma. Como você sabe... A vida que vive não pertence a ela.

Muitas coisas precisavam ser esclarecidas entre as duas, muitas histórias precisavam ser relembradas. Passaram algum tempo assim, narrando fatos marcados por cicatrizes na linha do tempo e logo Wenona entendia o que levara Perpétua ali. Não só entendia como se preocupava. As ligações inesperadas entre as duas mulheres aconteceram pela roda do destino e Perpétua não demorou a se sentir confortável ao lado daquela que já fora sua única amiga. Wenona sofrera muito e a Bruxa se sentia culpada por parte dessa dor, visto que Cora fora a responsável por roubar a magia do povo da mulher. Perpétua a enviou para Storybrooke após salvá-la do massacre causado por sua própria filha. Ali, ela se transformou em Granny. Uma senhora simples, dona de uma pensão e um restaurante, mas que guardava em suas veias o sangue do povo vermelho.

Mais uma vez, elas estavam à porta da cozinha. Era hora de Perpétua partir. O amanhecer não estava distante, ela sabia. Não desejava demorar tanto, mas fora confortável poder falar. Os símbolos já não marcavam mais a madeira e agora ela cruzava o portal sem preocupações. Sabia que Wenona havia feito aquilo por certa vingança, mas, principalmente, por receio. Não guardava ressentimentos, de qualquer forma.

— Não volte à minha casa sem um aviso, Bruxa. — Granny declarou, mas não havia mágoas. Na verdade, um tom divertido abrigava suas palavras.

— Veja bem, — Perpétua ergueu sua mão direita, passando o indicador esquerdo sobre a palma e causando um pequeno corte ali. Tomou o sangue em seus dedos e marcou a testa de Wenona, assim como ela marcara a sua. — você é bem vinda em minhas terras.

— Eu abandonei a floresta há muitos anos. Não há o que fazer por lá. — ela sorriu fraco, mas a Bruxa pôde notar uma nota de tristeza em sua voz.

— A floresta sempre irá abrigar seus filhos, Wenona. Além disso, eu não estava brincando quando disse que poderia encontrar sua neta. — Perpétua a reverenciou por um instante, afirmando seu juramento.

— Eu...

— Silêncio. — declarou. — Nós não estamos sozinhas.

Bastaram alguns segundos para que os passos se tornassem audíveis para Granny, assim como a voz da mulher. Emma se aproximava pelo pequeno corredor, chamando por seu nome. Uma brisa forte lhe tocou o rosto e, quando virou-se para frente, Perpétua já não estava ali.

***

Zelena e Regina sentiram falta da avó ao chegar à Mansão Mills, mas a ausência de Perpétua não as preocupou tanto. Imaginaram que estava pela floresta, enriquecendo-se com a energia da primeira noite sob o ciclo da Minguante. Sabiam que era tempo da Anciã e aquilo lhes pareceu perfeito. A semente plantada na Lua Nova, agora morria e dava espaço à Minguante. Não demoraram um longo tempo na casa, logo a deixaram e seguiram os caminhos da floresta. Aquela noite seria longa para as Bruxas. Caminharam até um belo lago, localizado entre as árvores. Sabiam que poucos chegaram até ali, pois se perdiam antes mesmo de tocar o centro da mata. No entanto, elas duas conheciam os caminhos como as linhas que desenhavam as palmas de suas mãos.

Nenhuma palavra fora trocada pelas irmãs. As duas possuíam uma união tão forte que o simples olhar bastava para que se comunicassem. Além disso, naquela noite, a mente de Regina estava totalmente aberta para a de Zelena. A ruiva podia ver com exatidão o momento em que a irmã decidiu se aproximar de Emma e o que usou para isso. Desejava falar sobre o assunto, expor suas dúvidas e opiniões, mas não agora. Agora, o silêncio somente era quebrado pelos sons da noite e dos seres da floresta.

Regina despiu-se de toda a sua roupa, tendo seu corpo iluminado pela fraca luz do luar. A Minguante possuía uma parte enegrecida e isso a diferenciava muito da enorme luz exposta durante a Cheia. Ainda assim, era o bastante. Zelena fez o mesmo, sentindo a brisa da natureza lhe abraçar a pele. Roupas não eram necessárias naquele momento. Não havia motivos para usá-las, afinal. As duas irmãs sabiam que o corpo nada mais era do que a pintura da própria Deusa. Admirá-lo era uma dádiva, jamais uma vergonha. Caminhavam nuas entre as árvores, pois assim foram enviadas à Gaia. Convenções sociais não penetravam à magia.

Zelena segurou a mão de Regina e, juntas, caminharam para dentro do lago, sem se importar com o toque gélido da água. Pouco a pouco, a natureza lavou suas inseguranças e incertezas. Foram banhadas pela água que nasce da terra, presenteadas pela magia elementar. Era tempo da Anciã, aquela que guarda os mistérios e nutre sua sabedoria. Naquela noite, as Bruxas pediam pelo conhecimento guardado pelas antigas almas. Solicitavam pela orientação da Deusa Tripla, pelo fim dos ciclos e pelo renascimento. Sim, pois sabiam, assim como as palavras dos sábios, que a morte é necessária para que o recomeço aconteça. Além disso, guardavam dentro de si a consciência de que a vida naquele plano era coberta de simbólicos fins.

— A vida é nutrida pela morte e a morte conduz à vida. — Regina verbalizou seu sentir. Sua mão mantinha-se unida a da irmã, tal como sua magia.

— Que o poder nos permita terminar e recomeçar, que a sabedoria da Anciã nos guie pelos caminhos desconhecidos. — Zelena completou, encarando a Lua acima de si. Àquele ponto, como de costume, os olhos de ambas as Bruxas estavam totalmente brancos. Suas visões voltavam-se para o interior, pois ele era o único que importava.

Uma forte luz se libertou das mãos das Bruxas, espalhando-se pela água do lago e, por alguns segundos, tornando-a tão clara quanto à luz da Lua. Regina ergueu sua mão, junto à de Zelena, espalmando-as em direção ao negro céu. As gotas d’água que brilhavam sobre sua pele refletiam à claridade que ganhara a mata. Em um vento forte, que agitava as folhas das árvores e alimentava os seres, a Deusa lhes respondeu. Deixaram que seus corpos caíssem para trás, sendo cobertos pela transparência das águas. A luz se ampliou e, logo em seguida, voltou à sua origem. Ergueram-se mais uma vez, com suas mentes lavadas e seus corpos energizados pelo toque da Anciã. Então, o mundo pareceu mais claro. Independente do que viria a seguir, elas poderiam respirar livres naquela noite.

Ab initio ad finem. — suas vozes quebraram o silêncio mais uma vez, confirmando suas responsabilidades com a Deusa.

Regina não saiu do lago após o fim do pequeno ritual. Sentia-se liberta ali, como se pertencesse àquele local. Na verdade, ela pertencia, pois era certo que mulher e natureza eram um ser só. Deixou que seu corpo flutuasse pela água, que agora já não possuía um toque tão gélido. Sua mente visitava pontos curiosos e, graças à energia trocada, ela os enxergava com mais certeza. Havia olhos verdes em sua mente. Olhos verdes que eram penetrantes e sedutores, assim como eram inocentes. Emma guardava uma parte intocada dentro de si e Regina sabia disso. Ela respirou fundo, tentando afastar esses pensamentos, pois sabia que Zelena os via.

Por outro lado, a ruiva não estava tão curiosa sobre aquilo. Sabia o que aconteceria. Era tão claro como a água que banhava seu corpo naquele momento. Assim como Regina, ela decidira aproveitar um pouco mais da noite. Zelena carregava o peso de saber muito mais do que deveria, sempre foi assim. Para ela, a limitação da fala de nada significava, pois os pensamentos contavam suas histórias. O seu maior peso era esconder da irmã aquilo que lhe parecia tão importante, mas jurara manter segredo. Jurara pela Luz da Deusa. Desde então, sua vida se resumira a cuidar de Regina e a zelar por suas decisões. Temia pela irmã, temia por seu futuro, temia pelo desconhecido. Há quanto tempo não vivia sua própria vida? Ela pouco se recordava. Não se importava com aquilo. Amava a irmã e passaria o resto de sua existência lhe protegendo se fosse necessário, mas desejava mais de seus dias. Trabalhar no museu era como tocar pedaços diferentes do mundo e isso lhe confortava. Ainda que parte dela desejasse tomar a mão de Regina e viajar, mas, bem, isso já deu errado uma vez. Assim como Regina, ela afastou seus pensamentos. Não havia o risco de a morena lhe ler a mente, mas Regina sabia ler seus olhos e desvendar sua alma sem precisar disso. Talvez os instintos aguçados da morena sobrepusessem os próprios dons de Zelena.

A ruiva decidiu deixar o lago e assim o fez. Vestiu somente a blusa de botões que trajava quando caminhou até ali e se sentou sobre a grama verde. Pensou em meditar e aproveitar um pouco mais daquele momento tão sublime. O silêncio que mascara a turbulência do mundo, que esconde os sussurros dados ao vento. Contudo, o sentir que lhe tocou o âmago fez com que seus olhos se arregalassem.

Silêncio. — a palavra brilhou em sua mente. Buscou pela figura da irmã ao longo do lago, mas a encontrou do outro lado, escondida pelas árvores. Era certo que Regina também sentira.

Colocou-se de pé, sem que barulho algum fosse causado pelo movimento. Abrigou-se na mata e, com isso, garantiu a invisibilidade dada pela floresta. Mais uma vez, o sentir lhe tocou. Alguém estava ali, alguém cruzara o limite.

Alguém invadira a floresta.

Zelena não precisou olhar de novo em direção à irmã. O impulso dentro de si fora alertado e ela correu. Correu, sem ser tocada por um galho e sem que uma marca de seus passos fosse deixada sobre o solo. O vento espalhava seus cabelos cor de fogo e secava as gotas que ainda estavam em sua pele. Ela sentia Regina do outro lado, alerta e seguindo o mesmo caminho. Buscavam, guiadas pela magia, o invasor.

Regina correu o máximo que pode, até que sua velocidade já não mais correspondesse aos seus impulsos. Ela se transfigurou e o felino negro nasceu dentro de si. Agora, ela avançava bravamente entre as folhas, correndo junto à natureza, tão rápido quanto o próprio ar. Sentia o impulso que a guiava pelos caminhos que seus próprios olhos nem sequer enxergavam. No entanto, eles se abriram quando contemplou o vislumbre rápido de seu visitante. Suas patas marcaram o solo úmido, apenas uma vez. As garras felinas prenderam-se à árvore que lhe deu a altura necessária para o que veio a seguir. Ela saltou, derrubando o corpo ao chão. Transfigurou-se quando sua presa tentara fugir e, ao encarar sua frente, encontrou os olhos verdes da irmã, que prendia o pescoço do indesejado visitante em uma de suas mãos.

A morena se ergueu, virando sua presa abaixo de si e dando-se conta de que era uma mulher. Uma mulher que sorria, mesmo diante da fúria estampada nos olhos das Bruxas. Zelena lhe puxou os cabelos, erguendo seu olhar. O sorriso aumentou.

— Bem, eu não estive em seu nascimento, mas acredito que isso valha para “vê-la como veio ao mundo”. — comentou, encarando a nudez de Regina. — Então é assim que vocês dão boas vindas à sua tia?

Notas finais
¹ - Sabás (ou Sabbats) são as oito festividades marcadas pela Roda do Ano, que representa um tipo de "calendário" para a Antiga Religião. ² - "Merch y Ddaear" significa "Filha da Terra" em Galês. Eu optei por modificar o nome de Granny, pois terá mais sentido junto ao enredo. Wenona, para algumas tribos indígenas, significa "Primeira Filha". Bom, eu espero que tenham gostado. Sei que algumas questões podem parecer mais complexas por agora, mas serão devidamente explicadas ao longo do desenvolvimento. Conto com a paciência de vocês, pois não é uma história simples, pelo contrário. O desenvolvimento é necessário e qualquer deslize pode comprometer os resultados finais. Qualquer dúvida, deixem aqui nos comentários, ou no meu twitter. @aloritsor Beijão.