Torre de Névoa

6 Lágrimas Ocultas.


Notas iniciais
Olá Cupcakes! Eu ainda estou viva, felizmente. Consegui dar um jeitinho de escrever e vim correndo atualizar a fanfic para vocês. Peço perdão pela demora. Sem mais delongas, boa leitura.

A manhã iniciou-se acinzentada e pouco pode ser visto dos raios solares. A brisa fria desbravava o espaço e causava tremores leves a todos que tocava. Até mesmo o canto dos pássaros parecia baixo e triste, como uma canção melancólica que pouco lembrava o ânimo com o qual costumavam cantar. Era certo que a natureza espalhava os sentimentos da senhora que, agora, passava o café, enquanto esforçava-se para aparentar naturalidade. Assou seus biscoitos, como planejara na noite anterior, e até mesmo um bolo de fubá foi preparado. Escolheu com cuidado as ervas que desejava para que um delicioso chá fosse feito e colheu belas flores, antes do alvorecer.

Perpétua sabia que seu discurso não convencera as duas netas. Esforçou-se ao dizer que nada demais havia acontecido e que seu grito se deu apenas por um sonho ruim. Não voltaria acontecer, ela afirmou com convicção, mesmo sem saber a veracidade do que dizia. Aliás, sabia que aquela visão era o início do que previra há anos. O começo daquilo que tentara evitar. Agora sabia que fora pura tolice tentar enganar o destino, pois aquela era a vontade da Deusa e seria feito, não importa quanto tempo se passasse. Entretanto, como ela poderia aceitar? Jamais. O seu sangue ferveria a cada vez que a profecia enviada se repetisse. Não verbalizaria. Não o verbalizou durante anos. As palavras têm poder, Perpétua sabia. Suas antepassadas lutaram contra aquilo e o ensinaram a ela. Ainda assim, sabia estar próximo o dia em que a terra se racharia e seus segredos, há tanto escondidos, pesariam sobre sua alma.

Sentia falta do tempo em que suas pequenas Bruxinhas eram, também, pequenas meninas, que descobriam o mundo a cada novo dia. Seus olhos assustados e admirados a cada novo feitiço ensinado e as primeiras manifestações de seus dons. Lembrava-se com perfeição da primeira mente lida por Zelena e do problema que causou ao verbalizar aquilo que somente os pensamentos contavam. Ah, Regina! Regina, que passou quase dois dias na forma felina, pois não sabia como voltar à forma humana. Perpétua precisou segurar-se para não rir quando Zelena veio até ela, carregando sua irmã peluda no colo, com os claros olhos marejados e balbuciando desculpas, pois acreditava ter amaldiçoado a menininha, já que Regina se transfigurara durante uma discussão delas. Ah, suas meninas, que agora eram mulheres tão maduras. Ela ainda podia enxergar os bebês que carregara no colo quando olhava para aqueles olhos. Suas netas, que também eram suas filhas. Daria a vida pelas duas, mas sabia que cada uma precisava passar por suas lições, ainda que fossem difíceis. A senhora sabia que a previsão do futuro era uma dádiva e uma maldição. Tudo o que se tem é o presente e somente ele pode ser alterado por nossas ações, o futuro é a consequência direta de nossas escolhas no agora. Agir a fim de mudar aquilo que ainda não chegou, muitas vezes, significa causar o que tememos. A sabedoria também pode ser uma condenação.

Acabou, também, visitando lembranças tão distantes, que guardavam fragmentos de sua adolescência. Lembranças que pareciam perdidas ao longo do tempo. Tantos anos passados, tantas coisas vividas... Ela quase não conseguia visualizar a jovem menina que já foi um dia. Pouco se recordava de seus longos cabelos negros, que eram trançados pelas mãos firmes de sua avó. Sua pele, que outrora fora clara e lisa, hoje, carregava as marcas do tempo e da vida. Perpétua não se arrependia de suas decisões, mas jamais poderia negar que algumas pesavam em seu peito. Por uma fração de segundo, o rosto de sua jovem filha brilhou em seus pensamentos. O inocente bebê que segurara em seus braços, ainda deslumbrada com o poder da vida. Não poderia pensar nisso. Tratou de limpar sua mente, pois, no mesmo instante, ouviu os passos que anteciparam a chegada de sua neta.

— Bom dia, vovó. — a ruiva beijou seu rosto. — Nós precisamos conversar. — Zelena adiantou em dizer, pois não estava em seus planos fazer rodeios sobre aquilo. A avó sabia disso, sabia que teria de lidar com as questões da noite passada. Pior do que a natureza direta de Zelena seriam os instintos aguçados de Regina.

— É certo que precisamos, querida, mas sente-se para tomar o café da manhã. — a mais velha tocou as costas da neta e direcionou-a até uma das cadeiras. — Onde está a sua irmã?

— Ela está se arrumando e prometeu que não iria demorar. Veja bem, eu precisei ameaçá-la. Era a terceira vez que se trocava e eu disse que bateria nela se ousasse fazê-lo mais uma vez. — esclareceu enquanto ocupava-se em provar os biscoitos. — Vovó, eles estão deliciosos. Céus.

— Fico feliz que tenha gostado. Zelena, nós já conversamos sobre essa sua mania de provocar Regina. Você sabe muito bem que sua irmã tem um temperamento difícil e que não é a mais paciente das pessoas, minha querida. — a avó se sentou ao lado da mulher, que gargalhava diante da repreensão.

— Eu sei, vovó! Mas é tão prazeroso quando ela perde a paciência e se transfigura.

— Eu não vejo nada de prazeroso nisso. Na verdade, é extremamente irritante. — a voz clara soou, informando a chegada da morena. — Bom dia, vovó. — ela, assim como Zelena fizera, beijou o rosto da avó e tratou de acomodar-se ao lado da irmã. — Acredito que Zelena já tenha falado com a senhora, nós precisamos conversar.

Perpétua assentiu, sem se incomodar com o tom sério de Regina. Sabia muito bem que sua menina não escondia aquilo que lhe incomodava. Sabia, também, que os instintos de Regina eram aguçados demais para terem acreditado em suas desculpas improvisadas. A senhora se arrependeu do feito, mas não poderia carregar grande culpa por aquilo. Afinal, estava assustada e em choque pelo o que vira. O seu coração se acelerou ao recordar-se da imagem que tomara sua visão. Ela ainda podia ver Regina queimar, bastava que olhasse para o rosto da morena. Ainda assim, não podia jogar uma informação como aquela diante das duas mulheres. Não, não desejava causar alarde. Sua experiência muito lhe ensinara e um desses ensinamentos estava entalhado em sua alma: o tempo conta mais do que qualquer visão. Portanto, somente o tempo lhe diria o que aquilo significava. Respirou fundo e, indo contra os próprios sentimentos, buscou a calma.

— Eu tive uma visão, na última noite. — sua voz se mostrou serena quando falou, revelando pouco do turbilhão de sentimentos que guardava em seu peito. — Não foi uma visão agradável e vocês já devem saber disso, mas eu não vou lhes contar nada do que vi e espero que entendam os meus motivos.

— Sua visão pode nos levar a tomar decisões impulsivas? — Regina questionou, lembrando-se do que há muito lhe foi ensinado.

— Certamente, querida. — a avó assentiu, segurando firme sua xícara de café.

— Nós respeitamos sua decisão, vovó. — a ruiva suspirou e Perpétua sabia o quanto era difícil para ela, pois aquela era a mais curiosa de suas netas. — Mas eu peço que me prometa uma coisa.

— O que estiver ao meu alcance. — esperou enquanto via, na expressão de Zelena, que ela buscava pelas palavras certas. Temia a promessa solicitada, mas estava certa de que faria, assim como disse, o que estivesse ao seu alcance. Há muito havia dito a si mesma que não mentiria para suas netas, mas que falaria somente aquilo que assegurasse a segurança das duas. Em meio a esse juramento pessoal, muito era omitido. — Se a senhora tiver que fazer algo, irá pedir nossa ajuda? Três Bruxas unidas são mais fortes do que uma Bruxa solitária.

— Três Bruxas unidas são mais fortes do que uma Bruxa solitária. — Perpétua repetiu o que dizia para elas desde que as duas eram pequenas. A avó sempre estimulara a união das irmãs e, principalmente, a união das três. Assim, a ruiva soube que a avó cumpriria com sua promessa.

Bastou que as duas netas saíssem a fim de cumprir suas atarefadas rotinas para que a mente da senhora iniciasse seu processo. A Lua Cheia ainda mantinha seu domínio em influência, mas a Minguante se aproximava e em muito já podia ser sentida. Chegava o tempo da Anciã, o tempo de Cailleach. Perpétua já estava decidida em aceitar o tempo e esperar que ele contasse sua própria versão do futuro, mas era certo que não ficaria de braços cruzados. Tomaria suas providências, cuidando para que elas não influenciassem de maneira alguma no que estava por vir.

Saiu para seu jardim, pois o toque da terra sempre lhe ajudava a pensar melhor. Além disso, precisava colher e cuidar das ervas que seriam usadas por Zelena e Regina na confecção dos chás, unguentos e óleos que entregariam àqueles que necessitavam. Zelena possuía um dom especial para lidar com as folhas. A mais velha de suas netas foi abençoada pela Deusa com o dom de manipular com extrema dedicação tudo o que envolvesse o verde, como se o seu sangue fosse a clorofila das plantas. Sabia a dose certa para cada poção e jamais errava um único detalhe. Desde muito nova, a menina dos cabelos de fogo se embrenhava em meio aos pergaminhos e livros, decorando com atenção cada característica que lhe parecia importante. Regina, por sua vez, ficara responsável pelo cultivo das espécies que seriam utilizadas pela irmã. Bastava que a mais nova tocasse à terra para que uma conexão se estabelecesse entre os dois seres. Perpétua as auxiliava e ensinava o que os livros não podiam contar, compartilhava aquilo que só a experiência havia gravado. Há muito, a senhora era responsável por ajudar os mais carentes, com remédios naturais e tudo aquilo que estava ao seu alcance.

Quando mais nova, corria logo cedo pelas ruas, antes mesmo que os primeiros raios de sol penetrassem às brumas da manhã. Sabia de cor o que cada um precisava e deixava em suas portas tudo aquilo que podia. Fez isso até o dia em que foi embora para desbravar mundos que não conhecia. Há se ela soubesse, naquela época, o quanto lhe custaria a descoberta, mas nem mesmo suas visões foram capazes de alertá-la. A sociedade se renovara por tantas vezes que ela já não possuía amigos da época de sua adolescente e infância. Ah, e como poderia? Essa era uma das maldições da imortalidade. Vivia-se para sempre com a certeza de ver o nascimento e a morte daqueles que um dia amou. Por anos ela se divertiu em observar a reencarnação dos espíritos e o reconhecimento do novo, que já lhes era conhecido, mas até isso se tornou cruel em certo ponto. Abraçou, então, a reclusão quando retornou à Storybrooke, séculos depois.

Perpétua, naquela época, pensou se seria seguro aventurar-se em meio à pequena cidade, alguém poderia vê-la por ali. Sua aparência jovem poderia lhe dar certa vantagem ao esconder-se, mas era difícil que passasse despercebida quando seus traços eram tão peculiares. Ela trazia a marca dos seres da floresta. Os longos cabelos negros eram trançados pela manhã, a pele amorenada era coberta por seu manto negro e os olhos esforçavam-se para manter uma única cor. Sua testa ainda trazia vívida a marca da crescente, que denunciava sua criação e treinamento naquela Ilha que se perdera entre as brumas, livre da ignorância humana. Ainda assim, continuou a ajudar a todos que podia, mesmo que eles jamais vissem o seu rosto. Lembrava-se dos boatos que corriam de boca em boca, uma fada estava morando no meio da floresta, esse era contado por aqueles que apreciavam em demasia o seu auxílio. Ela, com seu espírito ousado, arriscava-se ao observar de longe o sorriso das crianças famintas e o alívio dos pais ao se depararem com a cesta que fora deixada por ela. Naquele dia e por mais alguns, eles teriam leite, verduras e pão para comer. Mesmo não sendo conhecida por nenhum dos moradores, Perpétua os conhecia muito bem. Deixava pasta de aloe vera para os que sofriam com as queimaduras do sol causadas pelo tempo em que ficavam expostos durante o trabalho braçal, chá de Ruta graveolens para as mulheres que sofriam com o excesso de sangramento durante suas regras, xarope de Rorippa nasturtium-aquaticum para as pequenas crianças e para os mais velhos que sofriam com a doença do pulmão e Camellia Sinensis para as grávidas. Em meio há felicidade de alguns, existiam também aqueles que nutriam a crença de que ela era tocada pelo mal e que, por isso, sua ajuda deveria ser condenada. Em certa época, se tornou difícil ajudar àqueles que precisavam, pois sua exposição a colocava em risco e condenava, também, a natureza. Isso aconteceu antes dela ir embora pela segunda vez, mas sua partida não impediu de que, em outro lugar, caísse em mãos odiosas.

Conforme criava suas netas, ela se esforçou para ensiná-las de que qualquer dom só é válido quando serve para ajudar às outras pessoas. Seja ele qual for, deve ser compartilhado como se pode. O conhecimento era o mais importante poder que possuíam. Perpétua, ainda que mantivesse sua reclusão, escolheu ensinar suas netas a esconderem-se em meio à sociedade. Ela vinha de outro tempo, de um mundo distante e esquecido, mas suas jovens meninas precisavam aprender a viver no mundo de agora. Ao ver que Zelena se esforçava para ajudar àqueles que a procuravam e que Regina se mantinha atenta às necessidades que podiam ser atendidas, parte dela se aquecia com a ideia de missão cumprida, ao menos naquele aspecto.

Perpétua sabia que uma única pessoa naquela cidade, além de suas netas, conhecia o seu segredo, pois era, também, guardiã de conhecimentos esquecidos pelo tempo. Voltou para dentro de sua casa com uma decisão tomada, era hora de fazer uma visita.

***

Na biblioteca, Regina pensava seriamente sobre como iria se aproximar de Emma. Não que isso fosse um grande obstáculo para ela, de forma alguma, mas algo naquela mulher a incomodava e despertava um sentimento desconhecido dentro de si. Organizava a décima segunda prateleira, no terceiro corredor, quando sentiu a presença da jovem escritora. Caminhou em silêncio entre os livros, nem mesmo o seu salto contra a madeira emitia som. Ela viu quando Emma empilhou livros já escolhidos em seus braços e se sentou na mesma mesa do outro dia, não precisava de muito para perceber que ela gostava de rotinas. A morena, como uma boa felina, aproximou-se sem ser notada e pode ver o título dos livros que eram analisados pela jovem escritora. Acabou dando-se conta de que teria de recorrer a uma dose de sinceridade para iniciar aquele contato, nem mesmo que fosse mínima. Sabia que o seu maior perigo eram as perguntas, pois ela dificilmente conseguiria negar sua natureza e mentir para a mulher caso as palavras certas fossem usadas.

Regina e Zelena jamais mentiram sobre serem Bruxas. Na verdade, elas simplesmente viviam suas vidas e esforçavam-se para aparentar naturalidade, mas jamais mentiram sobre sua verdadeira origem. Afinal, ninguém jamais perguntara a verdade e essa era a vantagem de viver em um mundo cada vez mais cético. Transformam magia em banalidade, criam contos e se esquecem de que as histórias, muitas vezes, são a moradia das verdades sussurradas.

O susto de Emma ao se deparar com Regina sentada a sua frente chegou perto de fazer a morena sorrir, mas esta manteve o silêncio enquanto observava com atenção os traços firmes e, ao mesmo tempo, delicados do rosto da loira. Mantiveram-se em silêncio, como se disputassem em meio aos olhares. A escritora pensou em perguntar o que a outra fazia ali e o porquê de olhá-la daquela maneira, mas silenciou. Era difícil emitir qualquer palavra e o ar se tornou quase denso ao seu redor, ela abandonou um dos livros sobre a mesa e, com aquele pequeno gesto, mostrou à Regina que entraria em seu jogo.

— Eu menti para você. — a voz rouca pontuou a declaração de Regina, enquanto ela acomodava-se melhor na cadeira.

— Sobre o que? — a jovem escritora cruzou seus braços. Os olhos rápidos de Regina analisaram o seu rosto, sabendo que há muito roubara sua atenção.

— Sobre Bruxas. — ela sorriu fraco, tendo a certeza de que aquele pequeno gesto deixaria Emma mais tranquila e lhe daria mais chances de ler suas reações.

Ah que falta Zelena fazia ali! Embora Regina sempre dissesse à irmã o quão injusto era invadir a mente alheia, ela sabia que seria de grande ajuda se a ruiva pudesse dar uma espiadinha pela mente de Emma enquanto falavam sobre aquilo. Atentou-se a cada detalhe, assegurando-se de que seus instintos felinos poderiam fazer um bom trabalho ao ler Emma.

— Tudo bem, eu estou curiosa. Comece a falar. — a loira se permitiu sorrir, o que já era esperado pela bruxa.

— Bem, eu estudei, durante muitos anos, sobre os mitos que envolviam mulheres antigas. Também sei uma quantidade considerável de contos que talvez possam te interessar. — ela deu de ombros. — Além disso, minha avó é como uma biblioteca viva e eu fui criada em meio à natureza, com histórias sobre o passado dos seres mágicos. Eu posso te ajudar. — o rosto de Emma se iluminou por alguns segundos, mas uma ruga se formou em sua testa e Regina soube que certa resistência seria apresentada. Ela também pode perceber que Emma era curiosa e que não apresentava um risco aparente, mas era uma mulher desconfiada.

— Por que você mentiu antes? — voltou sua atenção para o livro que estava lendo antes que a bibliotecária chegasse, mas a morena sabia que o usava apenas como um disfarce. Os olhos de Regina a fascinavam na mesma medida em que a assustavam.

— Eu não tenho muita paciência para pessoas curiosas. — mais uma vez, a morena deu de ombros, como se aquilo não fosse de grande importância.

— E o que a fez mudar de ideia?

— Você revirou toda a biblioteca em menos de dois dias, provavelmente vai me dar mais dor de cabeça se continuar aqui do que se eu me esforçar para tolerar suas perguntas. — a loira sorriu com o canto dos lábios e Regina, sem perceber, acabou por espelhar o gesto.

— Não sei se eu acredito em você.

Regina odiava ser desafiada. Zelena teria gargalhado se estivesse ali, pois agora o jogo se tornara ainda mais interessante para a sua irmã. Não se deve correr diante de um felino, ele vai lhe alcançar rapidamente. O movimento rápido e a fuga, o instigam. A descrença de Emma provocava Regina, tocava sua verdade. Os olhos verdes eram céticos, diminuíam aquilo que, para a Bruxa, eram a realidade dos dias. Regina tomou o livro de sua mão, mesmo que não precisasse fazê-lo para saber o que era o objetivo da outra mulher, ou o que estava lendo e em qual página estava. Fingiu ler por breves segundos antes de fechá-lo, abandonando por ali. Essa história corria por suas veias, ela não precisava de auxílio para contá-la em todas as suas diferentes versões.

— O poder das mulheres incomodava aos homens. Sempre incomodou. Naquela época, os povos valorizavam a força, mas nem mesmo os músculos eram capazes de diminuir o sangue mágico das Bruxas. — ela respirou fundo, certa de que teria de tomar cuidado com as palavras usadas. Contar a história, omitir a verdade. — As mulheres que possuíam esses dons eram tocadas pela Deusa, não demorou até que isso incomodasse àqueles que serviam ao deus uno e que desejavam a prevalência dele. Não pela divindade em si, mas porque isso retirava o poder dos homens. Tenho certeza que aquele Deus pouco se importava com as mulheres que usavam de seus poderes para o bem, mas isso incomodava aos homens. Incomodou ainda mais quando as mulheres começaram a se unir e o poder feminino deu força à natureza, que alimentava a magia daquelas que serviam à ela. Foi quando as fogueiras começaram. Não totalmente pela religião, mas pelo desejo de dominância. Imagine só, eles realmente se incomodavam com o que chegavam até suas casas. De repente, suas mulheres, que por vezes apanhavam e eram diminuídas, descobriram que eram filhas de uma Mãe que as abraçava e cuidava, que possuíam irmãs de alma e que poderiam ser mais fortes do que qualquer homem crescido em batalha. Não, não podiam permitir isso. Não interessava a ninguém. — Regina contornou a capa do livro com seu indicador, apenas para distrair sua própria atenção e ignorar a dor que aquela história causava em seu Eu Feminino. — Em uma das versões desse conto, as fogueiras começaram a queimar com o propósito de desunir essas mulheres e destruir essas forças tão belas, mas seus poderes ainda ecoavam. Eles precisavam dar um nome àquela força, pois já não podiam negar sua existência. Deviam, então, modificar a visão passada por ela. Começaram a chamá-la de Grande Mal, Toque do Diabo, Força do Demônio, Feitiçaria... Bruxas. O poder que deslumbrava e encantava, passou a ser temido. As Mulheres de Força já não mais inspiravam, agora, elas eram o foco de crítica daquelas que se sentiam superiores por se submeterem ao masculino. Mulheres foram colocadas em conventos e levadas a negar sua sexualidade e seu corpo, foram doutrinadas com o pudor. A fogueira mascarou-se pela religião e deram-na a missão de curar o mundo daquilo que afastava a humanidade daquele deus. Até mesmo aqueles que viam o absurdo presente nisso eram julgados. Mataram milhares de mulheres, diminuíram a força da Deusa presente entre os humanos, disseram estar levando o mundo aos braços do Divino, mas é certo que aproximaram a humanidade daquilo que eles mesmos chamam de Inferno.

Os olhos verdes se mantinham atentos, como se absorvessem cada palavra dita. Um breve silêncio se manteve quando Regina findou a história. Sua máscara de indiferença abrigava seus sentimentos de fúria. Mesmo agora, ela desejava se levantar a caçar cada homem que queimou uma mulher na fogueira.

— Certo, eu li sobre isso em muitos livros, mas a sua interpretação tem um toque curioso. — a jovem escritora apoiou seus cotovelos à mesa e se aproximou do rosto de Regina. — Ainda assim, você contou algo que eu já sei. Surpreenda-me.

A mão de Regina que estava por baixo da mesa iniciou uma lenta mutação e suas unhas formaram garras. A descrença de Emma à irritava, mesmo sabendo que isso representava algo positivo para seus planos. Ela respirou fundo. Durante todo esse processo, seu rosto se manteve imutável, ela até mesmo sorriu em desdém ao jogo da outra mulher.

— Nem todas as mulheres eram queimadas, Swan... Segundo as histórias. A grande questão é que o poder, o genuíno poder, revolta, ao mesmo tempo em que atraí. Aqueles homens desejavam continuar com sua dominância, a Igreja desejava prevalecer com seu deus uno, mas aquelas mulheres tinham poder e eles sabiam disso. Nem mesmo eles, em toda a sua ignorância, podiam negar isso. O desejo de poder também corrompe. É certo que muitas mulheres e, também, homens, foram queimados enquanto aquela fogueira prometia limpar o mundo de todo o mal, mas muitos deles eram apenas humanos desafortunados. A Igreja sabia diferençar isso, é claro que sabia. Assim como a raça de Caçadores de Bruxas que nasceu naquela época. O que a maioria das histórias omite é que os Caçadores de Bruxa, alguns padres e curiosos nem de longe desejavam conservar o bem no mundo. Eles desejavam o poder nascido do Sagrado Feminino, das Filhas da Deusa. Aquelas que eram realmente poderosas dificilmente eram levadas à fogueira popular. Sua imortalidade não permitiria a morte. Marcavam suas costas com a cruz e as aprisionavam, neutralizavam seus poderes e as deixavam tão fracas quando insetos em uma tempestade. Só então a queimavam, em um lugar privado. Geralmente em lugares que consideravam ter solo sagrado. Suas cinzas eram guardadas e delas o poder era extraído... Então, era usado pelos mesmos homens que diziam querer tirá-lo do mundo. Não com tanta bondade, ao que parece.

— Nossa. — os olhos de Emma se arregalaram brevemente.

Regina sorriu da ingenuidade dela, aquela história era contada entre os povos, pois trazia muito da verdade, mas nem de longe a revelava por completo. Tudo aquilo havia acontecido, de fato, assim como muito mais. Há muito os contos foram amenizados, a fim de que não causasse revolta e mascarasse ainda mais o que já era omitido. A morena ainda se lembrava da primeira vez em que aquela história foi contada por sua avó e outras Bruxas Anciãs, em um Solstício de Inverno. Ela chorou durante noites, escondida em meio à floresta, sofrendo pelas dores daquelas que foram condenadas pelo ódio. Sua avó sempre a encontrava, protegia seus braços em uma manta quente e a trazia de volta para casa. Zelena se entristecia com aquilo, mas não tanto quanto a morena. Regina era tomada pela revolta e pelo desejo de vingança. Isso sempre fazia com que a avó a levasse para a sala e a envolvesse em longas horas de diálogos sobre as escolhas da Deusa. Depois de sua primeira morte, isso deixou de fazer o mesmo efeito.

— É uma escolha sua aceitar a minha ajuda, Swan, mas eu garanto que sou sua melhor opção. — ela se levantou, deixando para trás a curiosidade de Emma, que vestia seu rosto como uma máscara.

***

Na Mansão Mills, Perpétua se arrumava com atenção para a visita que faria no final daquela tarde. As netas pensariam que ela estava na floresta e era isso o que desejava, ao menos por hora. Prendeu seus cabelos em um coque simples, que mostrava boa parte de seus fios prateados. Ela ainda se lembrava de quando eram negros, mas não carregava arrependimentos por ter feito o ritual de seu envelhecimento quando se tornou responsável pelas netas. Aceitou a missão de ser a avó daquelas duas crianças tão belas e cheias de promessas, não havia arrependimento algum. Envelheceu sua aparência, mas sua imortalidade conservava cada traço que jamais fora perdido. Era avó, mas ainda carregava consigo a jovem que aventurava-se em ajudar aos outros e toda a experiência que ganhara ao longo dessa vida. Suas vivências estavam ali, em seu espírito. Quando virou-se para vestir a roupa que separara, o espelho antigo, que possuía moldura de madeira entalhada pelos antigos, refletiu a queimadura em forma de cruz que marcava sua pele e, de certa forma, sua alma.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Não planejo demorar tanto, mas tudo depende da boa vontade do meu notebook. Beijão! Twitter: @aloritsor