Notas iniciais
Oi gente! Fico feliz em dizer que eu não morri. Peço desculpas pela demora. Eu sei que foi um longo tempo, mas espero e tenho esperanças de que me perdoem. Agradeço a todos que me mandaram mensagens e não permitiram que eu desistisse. Vocês são incríveis. Eu dedico esse capítulo a Rafa e a Thais. Vocês praticamente seguraram minha mão e me levaram pelo caminho de volta à Torre de Névoa. Obrigada.

As mais macabras histórias são contadas na calada da noite. As mais belas também. Enquanto gatos caminham em silêncio e suas sombras dançam entre luzes, os seres do Outro Mundo saem para dar vida aos mitos. As fadas bailam em grutas que ecoam seus cantos, as ninfas mergulham em águas negras, as salamandras correm entre árvores e deixam para trás rastros de luz, os duendes invadem casas, tomando para si tudo que brilha como o ouro. As magnificas histórias nascem assim.

O dia mal havia amanhecido em Storybrooke. O sol, silenciosamente, permitia que seus raios cortassem os rastros noturnos, sem pressa alguma. Cada segundo armazenava a eternidade dentro de si. A natureza parecia despertar pouco a pouco, assim como os animais que adormeciam em abundantes copas. No centro da floresta, feixes luminosos tocavam o solo e convidavam ao novo ciclo da vida.

Não muito longe dali, em um singelo quarto da pensão de Granny, Emma Swan mantinha-se alheia à magia. Mesmo que o canto das filhas de terra e ar chegassem aos seus ouvidos, ela os entendia como simples sons da mata, negando qualquer dose do extraordinário. Os ouvia, mas não escutava. Mesmo se escutasse, pouco compreenderia. Ainda assim, a mente de Emma era perturbada pelo o que estava longe de seu entendimento. Buscava explicações lógicas para o que não poderia ser explicado e resistia em ver o além. Pouco sabia sobre aquele lugar, sobre as pessoas que viviam ali e, especificamente, sobre a mulher que, despretensiosa, lhe roubara atenção.

Os objetivos tão claramente traçados se perdiam conforme os dias passavam. Encarava a madeira escurecida que cobria o teto acima de sua cabeça e observava as sombras que eram formadas, sem lhes dar genuína atenção. No dia anterior, ela esperou pelo retorno de Kathryn e a ajudou enquanto fechavam as portas. Entregou as chaves, como Regina solicitara, ainda que seu coração clamasse por uma mentira. Desejava dizer que prometera entregar as chaves à Regina. Desejou tanto que as palavras se formaram prontas para serem ditas, mas ela as guardou para si. A saída repentina da mulher a perturbara tanto que uma noite em claro não foi capaz de amenizar a vontade de reencontrá-la. Mas como faria isso, afinal? Não poderia se permitir um ato tão imprudente. Regina fora clara em seu pedido, mesmo que tenha o feito enquanto parecia fugir de alguma coisa. A última conversa ecoava na mente de Emma. Não nutria crença a respeito do que fora dito por Regina, então, por que se sentia tão culpada? Por que não conseguia lidar com o peso das claras palavras que conflitavam contra tudo o que era real?

Enquanto isso, os planos para finalizar suas pesquisas e sair daquela cidade se escondiam entre paredes de novos questionamentos, tornando-se cada vez mais esquecidos.

Emma ainda se lembrava do que a levara ali?

A inquietude não permitiu que ela permanecesse deitada por mais tempo. Sem saber o que faria, Emma levantou-se em um pulo. Desceu as escadas em uma rapidez tão certeira que por pouco não derrubou a cesta de pão recém assados carregada por Granny. A senhora rodopiou em seus próprios pés, os óculos penderam na ponta do nariz e, ao constatar que tudo estava sob controle, suspirou em alívio.

— Emma Swan! — bravejou. — Você não é mais uma criança para correr pela casa! Onde já se viu tamanho descuido! — ajeitou os óculos, puxando-os pelo fio prateado preso ao pescoço.

— Oh Granny, eu não quis assustá-la. — as bochechas da mulher coraram no mesmo instante, como se ainda fosse, de fato, uma criança diante da repreensão. — Mas, na verdade, é ótimo que eu a tenha encontrado. Preciso que me ajude.

— Certo, certo. Diga logo. Espere um segundo, eu também preciso que me ajude com uma coisinha simples. Nada muito elaborado, claro. Aquelas prateleiras da cozinha estão me deixando louca e, bem criança, você sabe, eu já sou uma velha. Na minha idade, é prudente que se fuja de qualquer risco e uma escada acaba por ser nosso maior inimigo. Tenho certeza de que você não terá problemas para...

— Granny! — foi necessário um chamado que a fizesse acordar.

Emma já estava acostumada com aquela característica da senhora. Granny se esquecia de qualquer detalhe quando começava a falar e, a loira podia jurar, tinha a capacidade única de unir assuntos totalmente distintos como se fossem partes óbvias de uma única frase. Por mais que parecesse desinteressante, ela sempre se dispunha a ouvir tudo o que era dito. Sem nunca ter ido à igreja, sabia o nome de cada frequentadora da paroquia. Assim como sabia sobre as últimas fofocas a respeito do dono da banca de jornais, os defeitos do restaurante que era concorrente do Granny’s, os problemas na gestão do prefeito e até mesmo as preferências sexuais do delegado, mesmo a loira tendo jurado que morreria de vergonha no meio daquela conversa.

Mas havia uma família que jamais habitava os monólogos.

— Bem, menina, diga logo o que precisa. Você está tão pálida que provavelmente desmaiará antes de falar. — bufou. — Tenho certeza que não tomou café da manhã, vamos até a cozinha para eu resolver isso.

— O que a senhora realmente sabe sobre Regina? — a pergunta saiu em um suspiro e, diante dos olhos curiosos de Granny, Emma jurou ter falado rápido demais ao ponto das palavras terem se embolado em um desconexo incompreensível.

— Regina... Regina Mills? — a loira assentiu, já tendo ouvido aquela necessidade de confirmação outras vezes, aguardou enquanto a senhora parecia ter perdido as palavras. — Ela mora na floresta, você deve saber.

— Sim, eu sei, mas... — recuou, sem nem ao menos saber como continuar. Emma não sabia o que desejava saber, além de desejava qualquer coisa. — Ela tem me ajudado com algumas lendas. Tenho alguns livros aqui e...

— E já não é motivo o bastante para você ficar em casa, Emma? Onde estão aqueles cadernos que carrega para todos os lados? Não precisa fazer uma anotação ou rabiscar algum desenho? Caso precise de uma distração, eu tenho prateleiras na cozinha que precisam ser arrumadas e...

— Preciso dela, Granny. — declarou, sem brechas.

A senhora respirou fundo e saiu andando até a cozinha. Por um instante, Emma pensou ter sido deixada para trás e que aquela era a resposta final, mas ela logo retornou. Dessa vez, sem a cesta de pães.

— Regina cresceu aqui, junto com a sua irmã. Elas duas moram na floresta com a avó. Não há muito a dizer, Emma. É uma família muito antiga por aqui. Não se metem em problemas, não arrumam burocracias desnecessárias. É certo dizer, — ela sorriu, recordando-se de seu último encontro com Zelena. — mais ajudam do que atrapalham. — Granny pensou sobre o que mais poderia revelar. Não queria mentir para Emma e optou por não fazê-lo. — Acho que suas dúvidas são outras e a essas eu não posso responder.

A escritora viva dentro de Emma Swan sabia que existia mais. Sabia, assim como o sol nasce ao leste e se põe ao oeste, que alguma coisa não estava sendo dita. Independente do que fosse, não adiantaria pressionar Granny.

— Vamos lá, — levantou-se. — me fale sobre aquelas prateleiras.

Emma passou boa parte da manhã com as “poucas prateleiras” de Granny. Começou apenas modificando duas de lugar, mas logo apareceram mais três para serem colocadas e, bem, quem sabe se colocarmos outra ali só para temperos? Ela não soube negar. A senhora saltitava feliz enquanto planejava sua desorganizada organização e parecia uma criança quando ganha alguns minutos de atenção. Pela primeira vez, a loira perguntou-se sobre a família de Granny. Ela possuía a pensão e seu pequeno restaurante, mas o tempo todo estava só. Comentara uma ou duas vezes sobre sua neta, mas não aprofundava o assunto. Ela não aprofundava alguns assuntos e Emma já se atentara para isso.

Não quis voltar para o quarto e resolveu caminhar um pouco. Durante seu tempo na manutenção da cozinha, descobrira que a porta dava para um belo jardim que acabava em uma curiosa trilha ainda não vista. O dia estava agradável e ela tinha tempo, muito tempo. Decidiu que não estudaria ou se dedicaria ao livro. Talvez algumas horas de vazio pudessem abrir espaço para as ideias se organizarem.

Mas Emma não se deu conta de que seu caminhar penetrava trilhas escolhidas. Não percebeu que, pouco a pouco, as folhas da mata beijavam seu rosto. Nem mesmo se deu conta de que seus passos despreocupados a levaram para os braços de Perpétua.

***

No centro da floresta, protegida pelas paredes de carvalho em sua adega, Perpétua se certificava de que Cassandra não estava lhe roubando bebidas. Aproveitou a saída de sua filha e das netas para conferir se nada estava faltando. Não se importava, realmente, mas após presenciar o desespero de Cassandra ao visitar o mundo dos sonhos, temeu que estivesse recorrendo ao álcool para obter alguma paz. Felizmente, não estava. A Bruxa agradeceu mentalmente às netas, pois sabia que as duas mulheres estavam sendo de grande ajuda. Aos poucos, o amor ofertado por elas curava as feridas de Cassandra.

E a Deusa sabia, elas eram muitas.

A Senhora mal pode acreditar quando os passos vindos da fronteira fizeram com que um arrepio se espalhasse por seu corpo. Ela soube, naquele mesmo instante, que alguém cruzara seus limites. Quando uma folha soltou-se e, bailando em sua dança silenciosa, tocou o rosto da mulher, Perpétua soube de quem se tratava. Pensou por um instante, ponderando sobre o que deveria fazer. Articulara inúmeras maneiras de conhecer aquela mulher, de atentar-se sobre possíveis perigos ou entender a inexistência de dubiedades, mas não considerou estar tão perto. Há anos, Perpétua não se aproximava de um desconhecido. Vivia tão isolada entre árvores que a ideia jamais lhe passou pela cabeça. Mas talvez... Talvez aquele fosse um bom momento para se aproximar.

Deixou a adega a passos rápidos demais para uma senhora, mas não podia conter a curiosidade em observar. Abriu mão de seus sapatos, permitindo que os pés descalços tocassem o solo e, como de costume, tornou-se parte da terra, das árvores, das flores e dos animais. Sem que uma palavra fosse proferida, Perpétua modificou o que precisava ser modificado e revelou trilhas escondidas. Os passos ofertados seriam certeiros e esperados. A certa distância, um leopardo buscava por seu alimento do dia e, a ele, Perpétua indicou um novo caminho. Apenas seria visto o que era permitido por ela.

A Bruxa cruzou poucas árvores antes que seus olhos encontrassem a cabeleira loira e os olhos curiosos. Um tapete de flores de cerejeira se estendia pelo chão e Perpétua acompanhou com o olhar quando Emma se abaixou para senti-lo. Ela ajoelhou, sem hesitar. Encheu suas mãos com as flores caídas e inspirou fundo. Pareceu uma eternidade os instantes em que permaneceu ali, apenas admirando a cobertura rosada.

Perpétua moveu sua mão, cuidadosamente. Um longo galho espinhoso alongou-se em lentidão certeira, acomodando-se em seu lugar e esperando pelo momento de agir. Quando Emma preparou-se para levantar, seu braço foi tocado por um único espinho que lhe arrancou uma generosa gota de sangue. A mulher praguejou, pondo-se de pé em um pulo. A Bruxa quase sorriu. Enquanto seus dedos giravam em movimentos já conhecidos, um novo caminho se abriu, atraindo a escritora. A gota de sangue que pendia no espinho amarronzado foi capturada pelo dedo da Bruxa. Sem cerimônias, ela o levou a boca.

Os lábios tornaram-se brilhosos por um instante que passou rápido demais até mesmo para olhos atentos. Enquanto o sangue de Emma lhe penetrava o corpo, Perpétua a acompanhava. Soube pelo sangue que Emma era uma escritora dedicada e muito inteligente. Sentiu suas alegrias e seus medos, apenas os sentiu. Enquanto a mulher andava, Perpétua desfrutava das inúmeras sensações vivenciadas por ela. Surpresa, admiração, prazer... Até mesmo medo ao deparar-se com uma grande vespa presa ao tronco da árvore. Mas por algum motivo desconhecido, a loira parou. Acomodou-se em um troco caído e pareceu pensar. Seus longos dedos penetraram os cabelos e assim ficaram, buscando por conforto. Perpétua vislumbrou curiosidade, inquietação, luxuria... Paixão? Não, não exatamente. O desejo, acima de todos os outros sentimentos. Mas ao presenciar o desejo, a loira avançou para uma negra ânsia por fuga. A Bruxa soube que aquilo era fruto de uma dor conhecida, ainda que não pudesse enxergá-la. A força com que Emma sentia a fez recuar por um instante. Aquela mulher era humana, independente de qualquer informação oculta.

E Perpétua decidiu que como humana, não representava um perigo maior do que qualquer outro.

Como a floresta lhe avisara da chegada de Emma, ela também a avisou do retorno de suas filhas. Perpétua tomou uma decisão que jamais considerara. Mas talvez, somente talvez, fosse hora de repensar suas convicções.

Afastou-se, mas ordenou aos Seres da Floresta que levassem Emma até o local indicado.

Bastou alguns passos para que vislumbrasse as três mulheres que caminhavam em silêncio, mas com semblantes satisfeitos. Até mesmo Cassandra parecia guardar uma paz ainda não vista por ela. Esperou-as na porta.

— Regina, — chamou, ganhando a atenção da neta. — Não entre. Há uma visita para você, ela chegará logo.

***

Emma nunca foi uma criança muito ligada à natureza, mas ali, rodeada por tudo o que era verde e puro, ela desejou ter crescido em outro lugar. Pensou como seria correr descalça e sentir a terra. Ou plantar sua própria árvore e vê-la crescer. Ela jamais teve nada disso. Cresceu sem ter algo a que se apegar ou uma lembrança que pudesse contemplar em momentos difíceis. Ignorava essa sensação de abandono sempre que a tomava, mas ali, no silêncio esmagador, ela não pôde.

Permitiu-se sentar por um instante, pensando no que a levara até ali. Pensou em Regina e seu jeito tão misterioso. Quanto mais tempo passava ao lado da mulher, mais parecia desconhecê-la completamente. Nada era sólido. Nada era verdadeiramente seguro. Ao mesmo tempo, jamais se sentiu tão firme, tão rodeada pela certeza de que precisava continuar. Mas continuar o quê? Chegara ali com uma ideia pronta à mente sobre o que escreveria, sobre qual caminho seguir, mas perdera-se completamente. Lia livros, revirava lendas, estudava símbolos e ainda assim não parecia o bastante. Não parecia correto. Durante sua longa noite em claro, ela considerara desistir e ir embora, mas para onde voltaria? Para sua casa gélida? Seus móveis livres de usos? Sua metódica tão impessoal. E pensar que há poucos meses tudo seguiria por um rumo diferente. Emma expulsou aqueles pensamentos. Nem mesmo o silêncio esmagador a fez visitá-los. Ela não voltaria àquelas imagens. Não revisitaria a dor do desprendimento. Ainda que tenha sido o desprendimento o sentir mais libertador que vivenciou.

Levantou-se. Considerou voltar, pois já não sabia se seria capaz de encontrar a pensão. Nem ao menos se lembrava do quanto havia andado. Perdeu-se inteiramente na sedutora beleza da natureza.

Se permitisse a crença, saberia que fora o canto das ninfas que a seduzira.

E, sem dúvidas, a magia de uma velha Bruxa.

Não retornou. Sem saber o porquê, permitiu-se mais alguns passos livres. Ao erguer os olhos e contemplar a imensa mansão a sua frente, o seu coração descompassou. Quase parou por completo ao encontrar os olhos castanhos da mulher que a encarava, como se esperasse por sua chegada.

Mas isso não poderia ser possível, certo? Claro que não.

— Regina. — proferiu o nome com a descrença de quem desafia o inacreditável.

— Emma. — os lábios dançaram ao verbalizar e a pobre escritora conteve um suspiro.

O coração descompassado relembrava a longa noite que passou em claro, desejando estar mais uma vez ao lado daquela mulher. Desejando ter mais um segundo. Mas para quê? O que diria a Regina? Como explicaria a ela todas as questões que não conseguia explicar para si mesma. Em sua essência, o caos era a nova realidade de Emma Swan.

— Eu peço desculpas por estar aqui. — engoliu a seco. — Imagino que... Imagino que deva estar me achando louca ou um tipo de perseguidora, mas eu juro que não planejava chegar até a sua casa. — então, ousou olhar em volta. Admirou a faraônica construção a sua frente com todos os detalhes trabalhados, como se tivessem sido desenhados com intensa dedicação. Tudo reluzia. Absolutamente tudo. Desde a folha da mais alta árvore até os adornos das janelas. — É tudo tão lindo. — confessou, sem perceber. — É quase como...

— Magia? — a morena perguntou, já com um sorriso travesso em seus lábios.

— Como um sonho, eu diria. — Emma sorriu de volta, tentando suavizar qualquer grosseria que pudesse viver em sua resposta. As mãos foram unidas em um sinal claro de nervosismo. Os pés trocavam passos perdidos, tanto quanto as palavras que não encontravam rumo. Mas ela tentou. — Regina, eu...

— Emma, pode me acompanhar? — ela estendeu a mão. — Vamos nos sentar lá nos fundos. Acredito que seja mais confortável.

Enquanto as duas seguiam para o jardim e Regina sussurrava um simples feitiço, no segundo andar, Zelena e Cassandra praguejavam por não mais poder ouvir a conversa que as deixava tão curiosa.

A morena se acomodou em um longo banco de madeira, mais velho do que ela poderia se lembrar. Mas os olhos de Emma estavam perdidos enquanto contemplavam uma curiosa macieira. Tão única quanto tudo que a rondava.

— Vovó adora plantas, você deve ter notado. — Regina adiantou-se em explicar. — Essa macieira foi uma tentativa de enxerto que acabou dando certo e ela jura ter sido um acidente. — formulou rapidamente uma justificativa para a árvore que dava frutos vermelhos e verdes num mesmo galho.

— É incrível. — Emma esforçou-se para virar. Poderia admirar aquela árvore por longas horas tamanha a beleza, mas também poderia admirar Regina. A tarefa tornou-se fácil, portanto. — Regina, eu não planejava vir até aqui, mas é ótimo que tenha vindo. — pensou, sabendo que não encontraria um caminho fácil. Não havia simplicidades no confessar de todos aqueles sentimentos conflituosos. — Eu não consigo parar de pensar em você... Bem, não consigo parar de pensar em nossa última conversa e em todas as coisas que me falou.

— Emma, eu me arrependi de tudo no momento em que falei. Entramos tão profundamente nas histórias que embalaram minha infância. Eu só desejei provar meu ponto, mas isso não faz dele uma grande verdade. Não é? — a morena alisou a calça que vestia, desatenta, como se explicasse o óbvio a uma criança. — São apenas histórias, como você sempre diz. — a loira quase desistiu do que desejava falar diante daquilo, mas não poderia. Enxergava no rosto de Regina o desconforto que ela não conseguia esconder, tão claro quanto o céu que as iluminava.

— Bem, são sim apenas histórias, como eu sempre digo. Ainda assim, Regina. — ela tencionou a se sentar, mas não conseguiria. Seu nervosismo a fazia andar de um lado ao outro e gesticular incansavelmente. — Acontece que eu sai de casa e deixei tudo para trás. Terminei um longo relacionamento e decidi vir até aqui em busca de uma história que todos diziam ser loucura. Não em busca de uma história infantil, mas de uma história que roubasse o fôlego das pessoas. Um romance que as fizesse desejar amar. Eu pensei que a melhor forma de fazer isso era chegando o mais perto possível do real, mesmo acreditando que isso seria impossível por não existir o real nessa equação. Eu procurei por lendas, estudei antigos contos e... E eu conheci você, Regina. Você, que parece viver nessa linha entre o real e o imaginário. Mesmo buscando por isso, eu não pensei ser possível, mas aqui está você. Defendendo histórias como quem defende a própria realidade. Real demais. E isso me parece loucura. — Emma se sentou, pois suas pernas falharam com a constatação. — Eu acredito em tudo aquilo que posso ver. Eu acredito na ciência e em seus fatos. Acredito no que está frente aos meus olhos, porque isso é o que parece certo e somente isso pode ser certo. Não há como contestar fatos, não há como ir contra evidências sólidas. Mas quando você fala, quando defende e argumenta... Quando você conta histórias que eu já conheço, mas que se transformam em suas palavras... Regina, tente entender, eu sei o que é real e o que não é. — levantou-se de novo. Não contendo o impulso nervoso que a tomara. Não havia espaço para a quietude. Seu coração batia tão forte que não duvidaria se a morena pudesse ouvi-lo. —Isso me parece loucura, eu sei. Mas me parece ainda mais louco não acreditar.

Regina sabia que algo havia mudado no momento em que encontrou Emma em sua floresta, em sua casa. Sabia que algo havia mudado quando encarou seus olhos esmeralda ainda mais escuros e intensos. Quando leu suas expressões ansiosas e ouviu seu descompasso cardíaco. Ela não precisava do dom de Zelena para ler Emma, bastava que olhasse por um instante para aquele rosto que lhe era tão transparente. Engoliu a seco quando tentou retratar sua impulsividade, mas ainda que soubesse o quão errado era incentivar a crença, ela não podia conter o prazer que a tomava ao observar as pétalas do descobrimento. Emma ainda não via a verdade, ela sabia. Emma não conseguia olhar o obscuro de cada detalhe e enxergá-lo. No entanto, ao ouvir as palavras tremidas e incertas, seu coração pareceu apertar-se no peito sem que ela entendesse o porquê. Os seus olhos arderam por um segundo e ela suspirou.

Mas antes que a Bruxa pudesse responder.

Antes que Emma ousasse completar sua fala.

O doloroso gemido que rompeu dos lábios da loira fez com que a morena se levantasse em um salto a tempo de segurar o frágil corpo em seus braços.

No centro da floresta, em meio à mágica natureza, Emma Swan desmaiara.

***

Perpétua reconheceu o passarinho que voava até sua janela trazendo a notícia de que, talvez, Emma Swan cruzasse os limites de sua floresta. Granny estava atrasada. Ou talvez o pássaro se distraíra pelo caminho e acabara se esquecendo do recado que deveria levar. No entanto, não havia problemas naquilo. A segunda informação assobiada no ouvido de Perpétua lhe era mais valiosa e muito aguardada. Como prometido, Granny usara o sangue de Emma para um antigo e poderoso feitiço. Em tempo, agora Perpétua sabia que Emma já havia sido tocada pela magia. Ainda assim, isso pouco era proveitoso. Havia sim um rastro de magia em sua história, mas poderia ocorrer por inúmeras situações. Como por exemplo, ter segurado em seus braços uma gata Bruxa quando ainda era uma jovem garota ou estar convivendo com Regina. Nenhum humano está realmente livre de ser tocado pela magia, apenas não têm o poder de reconhecê-la. Ao que tudo indicava, Emma não o possuía. Por isso a Bruxa assustou-se ao ouvir o grito de Regina.

A neta caminhou para dentro da mansão como quem corre de uma alcateia de lobos famintos. Atrás, o corpo desacordado de Emma flutuava, sendo acomodado no aconchegante sofá da sala que quase nunca era usado.

— Eu sabia. — Zelena declarou. — Você a mataria mais cedo ou mais tarde.

— Zelena! — a avó reprovou, notando o olhar nervoso da neta mais nova. — Regina, como isso aconteceu?

— Bem, nós estávamos conversando e ela desmaiou. De repente, ela desmaiou. — a morena se acomodou na poltrona ao lado, sendo afagada pela tia.

— Mas o que ela dizia no momento em que desmaiou? — a avó tocou a testa de Emma, sentindo a frieza contra sua pele. Nenhum dano maior havia sido causado, aparentemente era apenas um desmaio.

— Ela me dizia... — Regina suspirou. — Ela me dizia que desejava acreditar em todas as lendas e todas as coisas sobre as quais conversamos. Ela desejava, mas não conseguia. Então foi como se uma corrente elétrica atravessasse seu corpo, durou apenas um segundo.

— Regina, ela não deve acreditar. É melhor para nós se ela não acreditar. — a avó buscou explicar, mas sabia o que viria a seguir. Ela sabia que os caminhos estavam se tornando cada vez mais certeiros e aquela era uma prova genuína do destino que Perpétua tanto tentara manipular.

— Mas o que há de errado se ela acreditar, vovó? — a morena colocou-se de pé. As mãos firmemente fechadas ao lado do corpo continham o nervosismo que suas palavras não abrigavam. — O que há de errado se ela crer? Mesmo que um pouco. Existem crenças mais puras em Bruxaria, crenças que não se aprofundam tanto. E mesmo que ela acredite em nós, mesmo que considere nossa existência, isso não significa que eu me tornarei um gato em sua frente ou que Zelena revelará seus mais profundos segredos. Mas seria tão ruim assim se ela pudesse considerar?

— Regina! — a avó bradou.

— Minha querida, — Cassandra se adiantou, calando a mãe. Ela conhecia aquele sentimento. Conhecia aquela fúria. Por um instante, olhar Regina foi como ver Cora a sua frente. Ela não poderia cometer o mesmo erro. — eu entendo seu desejo e confesso já tê-lo sentido algumas vezes. Honestamente, não há nada de ruim em Emma crer, mesmo que um pouco. Mas veja só, é bem claro o motivo de ela ter desmaiado, não acha? Ela veio até aqui. Ela não está mais na cidade, está no centro da magia. Aqui, onde as árvores mudam de forma e os bichos sobrevivem de maneiras inexplicáveis. Onde se pode invocar um incêndio com o simples pensamento. Há magia em cada canto, até mesmo no ar. Não é prudente que ela os desafie bem aqui. Se ela desejou acreditar, mesmo que por um instante, eles se sentiram na obrigação de provar a própria existência. Assim como você tem esse desejo agora. Só incomoda porque ela importa.

— Talvez ela importe demais, não acha? — a ruiva se aproximou, acolhendo a irmã em um abraço. — Nós podemos apagar a mente dela.

— Não acho que é a melhor escolha. — Perpétua declarou, encarando o rosto calmo de Emma. — Essa menina não irá embora tão cedo, há laços firmes demais aqui. Ela verá Regina todos os dias, não podemos arriscar que o feitiço se rompa e deixe um vazio duvidoso.

— Foi apenas um desmaio. Faremos com que seja apenas um desmaio. — a ruiva organizou a ideia que surgia em sua mente. Em um estalo, conjurou um estetoscópio. — Nós precisamos de um médico. É o que se faz quando alguém desmaia misteriosamente, mas não podemos trazer um até aqui. Então, titia, você acaba de ganhar um diploma. Acorde-a.

Emma Swan despertou com um estalo repentino em sua mente, como se um interruptor fosse ligado. Sentiu algo gelado tocar seu peito e, em reflexo, ergueu a mão para retirá-lo, mas foi contida.

— Olá, Emma. Consegue me responder? — contemplou um rosto já visto antes, mas que, por um segundo, lhe pareceu estranho. Demorou a reconhecer a tia de Regina. — Você desmaiou. Isso tem acontecido com frequência?

— O quê? — a loira tentou se sentar, sentindo uma leve pressão na cabeça. Com esforço, conseguiu acomodar-se melhor. — Não, não. Há muito tempo não acontecia. — seus olhos correram pelo cômodo, encontrando a silhueta de Regina que parecia observar algo pela janela.

— Bem, então como eu disse, foi apenas uma queda de pressão. Você pode ter ficado nervosa ou algo do tipo. — Cassandra declarou, com a certeza de quem diagnosticava com frequência.

— Ela me deixa nervosa. — a confissão saiu em um sussurro inesperado e Emma se arrependeu no mesmo instante, mas apenas Cassandra pareceu ouvir. Em um piscar discreto, a morena selou o acordo de fingir não ter escutado.

— Você está melhor? — a pergunta firme fez com que Emma se sentisse como uma criança indefesa diante dos olhos castanhos. Percebendo isso, Regina lhe ofereceu um sorriso apaziguador.

— Um pouco confusa, mas estou bem. Obrigada. — ela direcionou o agradecimento a Cassandra.

— Não há de quê. Bem, eu vou subir para avisar a mamãe de que ela está bem e não será necessário abrirmos o cérebro. — ela encontrou os olhos aflitos de Emma. — Calma, garota. É brincadeira.

A saída de Cassandra deixou um silêncio confortável entre as duas mulheres, que olhavam-se em busca de sinais desconhecidos. Emma abriu a boca para falar no mesmo instante que Regina o fizera. Nenhuma das duas falou. As mãos da loira se esfregaram em busca de calor, aquecendo-se com uma rapidez surpreendente. Não lembrava ao certo de onde parara sua conversa com Regina, mas sabia que havia falado muito. Talvez mais do que pretendera, mas não se arrependia. Encontrou o olhar curioso da morena. Sentiu-se analisada a cada instante, como se qualquer singelo movimento fosse armazenado em sua mente. Ah... Como Emma desejava desvendar um resquício sequer daquela mente que lhe parecia tão secreta. Mas toda vez que se aproximava de Regina, toda vez que um único passo era dado, uma densa bruma as levava ao desencontro. Novamente.

Mas Emma tinha tempo.

— Eu preciso ir. — declarou, colocando-se de pé. O movimento rápido lhe rendeu uma tontura, mas ela foi amparada pela Bruxa.

— Tem certeza? Você pode ficar mais um pouco. Eu não mordo, Emma.

A última frase pareceu ser dita em uma provocação genuína que fez um arrepio lhe tomar a espinha. Voltavam ao normal, afinal. Emma soube que após todos os acontecimentos, aquela era a mais confortável informação.

— Se me permite a ousadia, — ela sorriu. — eu duvido que não morda.

— Só se você me pedir. — a morena sorriu em clara satisfação.

Uma tosse forçada fez com que as duas mulheres fossem roubadas da pausa dada pelo tempo, apenas para que desfrutassem de costumes seus. Zelena vinha devagar, contendo um riso irônico de quem parecia ter ouvido tudo.

— Emma, eu vou à cidade. Posso te dar uma carona, o que acha? Vovó me deu algumas ervas para Grenny lhe fazer um chá. Já se sente melhor? — a ruiva apertou sua mão em um afago carinhoso, como se a conhecesse por muito tempo.

— Sim, eu me sinto bem. Agradeça a sua tia novamente, por favor. Eu não sabia que ela era médica. — a loira ajeitou suas roupas, mas não se afastou de Regina, que mantinha a mão gentilmente sobre seu braço como se temesse uma nova tontura.

— Nossa família tem muitos talentos. — Zelena sorriu, ignorando o deboche no rosto da irmã.

As duas mulheres deixaram a mansão no carro de Zelena. A loira olhava pela janela, admirando cada detalhe e lembrando-se do caminho que fizera até ali. Desejava entrar novamente na floresta e deitar-se sobre o tapete de folhas, tão acolhedor era o silêncio. Mas descartou a ideia ao recordar-se de que o silêncio era perfeito para o retorno de lembranças que ela escondia dentro de si. Afastou essas imagens o mais rápido que pôde. Não queria correr o risco de ser invadida por elas. Substituiu-as por olhos castanhos que, inexplicavelmente, tornavam-se amarelos em seus pensamentos para, em seguida, voltarem ao castanho conhecido. Precisou que Zelena a chamasse ao chegarem à pensão.

— Obrigada, Zelena. Agradeça a sua avó também, é uma pena que eu não a tenha conhecido — a escritora agradeceu ao sair do carro. Esforçava-se para conter a vermelhidão em suas bochechas por ter se perdido em pensamentos.

— Tenho certeza de que teremos outras oportunidades. — a ruiva a confortou. — E Emma? — a loira se virou, abaixando-se para olhar pela janela. — Você também a deixa nervosa.

Notas finais
Comentários são sempre muito bem vindos. Vocês também podem me encontrar no twitter, @aloritsor Obrigada, coisinhas lindas da titia.