Torre de Névoa
15 Sentir.
Notas iniciais
Todas as Bruxas, de todos os lugares em que o vento toca, compartilhavam a crença milenar.
A crença de que o mundo, o universo e cada estrela foram criados pela Deusa. A Deusa que era Jovem, Mulher e Anciã. A Virgem, Mãe e Senhora. A Deusa que era Tríplice e, ainda assim, Uma. Esta que sempre esteve além de qualquer conhecimento vago que podemos ter, mas que nossa ignorante incompreensão jamais nos impede de enxergar seus tão inúmeros feitos. Elas também acreditavam na existência de um Deus nascido da Deusa, pois é ela quem gera e alimenta e somente ela poderia dar vida a Outro. Sem metáforas sexistas a respeito de uma costela.
Era a Deusa o Útero de Toda a Criação.
Então a Deusa com sua energia geradora criou o Deus. Juntos, eles nos abençoaram com a fertilidade que por tantas vezes observamos ser representada pela natureza. Ao longo dos anos, a Deusa foi chamada de muitos nomes e recebeu muitas faces. Ela foi chamada de Morrigan, Badb, Cerridwen entre tantos outros. Em seu nome, acendiam enormes fogueiras e dançavam ao longo da noite. Contudo, após dar origem ao mundo, a Deusa deu sua Luz Sagrada a Três Filhas. Filhas que outrora seriam chamadas de Bruxas.
E a essas filhas, ela deu uma missão.
Mas talvez... Talvez isso seja história para outro momento.
Perpétua não sabia o que fazer. Recuara um momento, apenas por um instante, e a Deusa lhe enviara um recado claro de que aquilo era um erro. Um enorme erro. Afinal, que outra coisa poderia significar? Era verdade o que Cassandra disse. A natureza, a energia tão viva naquele lugar, poderia ter se sentido desafiada e por isso reagira a descrença de Emma, mas eram tantas as possibilidades e tantos os riscos que lhe parecia ingenuidade acreditar em algo tão simples. Não, nunca era simples quando era sobre Regina.
E aquilo, sem dúvidas, era sobre Regina. A Senhora poderia duvidar de muitas coisas, mas não voltaria a questionar aquilo. A ida de Emma Swan até Storybrooke não poderia mais ser vista como simples obra do acaso. Perpétua vivera demais para acreditar em coincidências. Ver a forma como os olhares eram trocados, como cada palavra dita carregava a responsabilidade de um coração descompassado a fizeram perceber que já era tarde demais para negar que as linhas do destino foram traçadas para que aquele encontro acontecesse. Em seu coração, desejava apenas permitir-se observar o desenrolar dos nós atados, mas Perpétua não poderia. Ainda que essa voz esperançosa lhe sussurrasse conselhos acolhedores, o medo por um futuro incerto gritava em seu coração para que protegesse a neta. Assim como ela jurou à Deusa que faria há trinta anos.
Há trinta anos, quando ela vislumbrou o rosto de sua filha pela última vez.
Recuar, recuar e recuar. Seu instinto clamava por proteção.
A voz, aquela que Perpétua ignorava, sussurrou-lhe que seria inútil. Ela não a ouviu.
— Regina. — a avó se aproximou, sentando-se ao lado da neta mais nova que, distraidamente, observava a floresta pela janela da sala.
— Sim, vovó? Tivemos um dia movimentado hoje. — ela sorriu. — Eu ainda tenho algumas perguntas, foi bom ter vindo até aqui. Eu já estava indo procurar por você. Mas... — o sorriso sumiu para, em um instante, aparecer novamente. — Mas eu queria agradecer por ter deixado que Emma viesse até aqui. Você nunca fez algo assim. Não que eu me lembre, pelo menos. Eu sinto que ela é especial, sinto que é diferente. Ela tem dúvidas e questionamentos, como qualquer humano, mas meus instintos não sentem que ela é perigosa e...
— Regina, querida. Por favor. — Perpétua segurou sua mão. A garganta ardendo em palavras contidas. — Eu preciso que se afaste. Preciso que pare de ajudar Emma. Nós vamos recuar. Se ela não representa perigo como sente, então não há motivo para observarmos de perto. Vamos, apenas, deixar que vá embora.
A Senhora procurou por maneiras de amenizar o precisava ser dito. Ela pediu aos céus e a Deusa que a neta compreendesse, implorou para que fosse simples. Ingenuidade, claro. Os olhos de sua neta queimaram em um amarelo vívido antes de se tornarem profundamente negros. Suas mãos foram retiradas abruptamente do conforto oferecido pela avó, como se um intenso choque elétrico a tivesse atingindo.
— Me diga o porquê. — ela suspirou, ainda sentada. O seu olhar clamava por sentido, clamava por qualquer razão lógica que lhe justificasse aquilo, mas ela não a encontrava. Enquanto seu coração ardia em uma inconformidade jamais sentida. O cordão eu seu pescoço queimou sua pele, mas ela o ignorou. — Me diga, vovó. Um motivo sequer que explique isso.
— Nós precisamos ter cuidado, querida. Você sabe disso.
— Sim, eu sei! — a voz aumentou em um tom, sem que ela esperasse por aquilo, mas já não poderia conter-se. — Eu sei! Foi sobre isso que ouvi durante toda a minha vida. Eu ouvi sobre ter cuidado, sobre desconfiar sempre, sobre ter medo de qualquer afeto oferecido. E eu fiz isso, vovó. Eu tive cuidado, eu desconfiei e... Tive medo. Eu tenho medo, até hoje! Eu não tenho coragem o bastante para ir atrás do que quero porque preciso ter medo o tempo todo. E céus! — o sorriso descrente que tomou seus lábios nem de longe representava graça. Os seus sentimentos já não faziam sentido. — É possível que a vida seja somente sobre isso? Bem, eu tenho sete delas. Na verdade, seis. Seis vidas que devem ser vividas com medo? Me diga, vovó! Me diga se é isso o que me espera até que todas elas acabem. Me diga se eu estou condenada a vagar pelo mundo como um rato quando tenho tanto poder.
Ela não esperou por uma resposta. Nem poderia. Não aguentaria mais uma negativa, não aguentaria outras desculpas que lhe soavam como respostas vagas que apenas serviriam a uma criança. No entanto, Regina Mills já não era mais uma criança. Ela já não temia os trovões da tempestade e nem mesmo a escuridão da noite. E talvez tenha sido esse o maior erro de Perpétua durante todos aqueles anos. Enquanto buscava por proteger, ela causou uma simples fagulha já aguardada no peito de sua neta, acendendo a chama da inconformidade. Uma chama que jamais iria se apagar.
— Você está fazendo uma bagunça enorme e irreparável. — Cassandra chamou a atenção da mãe, que ainda encarava o local onde, há segundos, Regina estava.
— Oh Cassandra, você não entende. Com certeza não entende. — ela se colocou de pé, pronta para sair da sala, mas foi impedida pela filha.
— Eu não entendo, mamãe? Tem certeza de que sou eu quem não entende? — a caneca de café que estava em sua mão foi deixada de lado. O nervosismo a fazia tremer, uma mania infantil que não perdera. — Eu consigo ver Cora nos olhos de Regina. A cada vez que você a trata como uma criança incapaz de compreender, ela está ali. Cora está modificando o coração de Regina sem nem mesmo estar aqui e é só você quem não vê isso. Não vê, porque está cega demais pelos seus próprios objetivos para enxergar que os anos passaram e que as coisas não estão seguindo o rumo que você esperava. — a morena ergueu os braços em indignação. Seu tom sério não deu brechas para que a mãe a interrompesse. Cassandra falava e a mágoa jamais esquecida fazia morada em cada palavra. — E o que você esperava, afinal de contas? Esperava viver um conto de fadas? Oh por favor, não me faça rir! Regina cresceu, mamãe. Ela cresceu e ela merece crescer. Ela merece, porque foi concebida para ser morta e cada dia de sua vida deveria ser celebrado sem ser rodeado pelo medo. O medo não vai impedir que as coisas mudem, que Cora venha até nós e que a profecia se realize. Mas vai impedir que Regina seja feliz enquanto pode.
— Você não sabe do que está falando, Cassandra. — sem se exaltar, declarou. Friamente, como quem repete uma máxima já dita por tantas vezes. — Acha que tenho medo de Cora? Sim, tenho. Temo por Regina. Temo por Zelena. Temo por você, também. Mas há outros males além dela. Coisas que você ouviu em histórias e vislumbrou em pesadelos, mas eu sei do que estou falando. Nós temos poderes, mas já fomos condenadas ao fogo por mais vezes do que pode imaginar. Nunca é seguro o bastante, pois a Deusa sabe que basta uma falha para que as fogueiras se acendam de novo. — a mais velha caminhou e, enquanto o vazia, os botões de sua blusa se abriram até que suas costas estivessem expostas. Ela virou-se, permitindo que a filha visse a marca que jamais mostrara a alguém. A cruz vermelha em suas costas ardeu mais uma vez. Já estava acostumada a dor conhecida.
— Mamãe... — Cassandra tentou se aproximar, mas a mão erguida pela mais velha a conteve.
— Esse é o preço da confiança em quem não conhecemos. E por mais cautelosos que sejam os nossos passos, nós nunca sabemos em quem confiar, apenas precisamos estar perto dos nossos. Emma Swan não é uma Bruxa, ela é humana. Até que se prove o contrário, todos os humanos são possíveis carrascos prontos para nós matar. — tão rápido quanto se revelou, ela voltou a esconder sua marca. Mas ao virar-se para Cassandra, não encontrou o que esperava.
Os olhos da filha queimavam em lágrimas quentes, mas seu rosto carregava a dor já conhecida. A dor que Cassandra calava dia após dia, mas que a acompanhava a cada passo dado. Anos poderiam se passar. Mil vezes o sol nasceria e mil vezes a lua brilharia ao céu, ainda assim, ela jamais esqueceria o que lhe foi feito.
— Eu sinto muito, mamãe. Sinto muito pelas dores que você já sentiu e a Deusa sabe que eu as tomaria todas para mim se pudesse, mas veja bem... — aproximou-se. — Não me diga que a confiança e a desconfiança são opostos necessários em nosso caminhar, pois eu jamais poderei aceitar tamanha mentira. Você me fala sobre humanos, sobre o perigo representado por eles, mas mesmo após anos ainda ignora que foi a sua filha, uma Bruxa, aquela que arquitetou a maior das traições. — sem fazer questões de delicadezas, a mais nova rasgou a blusa que vestia. Ao sussurrar um feitiço, conjurou todas as suas cicatrizes, até mesmo aquelas já amenizadas pelo tempo brilharam como se feitas recentemente. — A minha irmã. Minha irmã. Sangue do meu sangue. A pessoa com quem partilhei felicidades e tristezas. Aquela que você defendeu com unhas e dentes mesmo quando eu clamei por socorro. Foi ela quem me feriu. Foi ela quem arrancou de mim qualquer chance de ter uma família e de sonhar com um futuro diferente do que aquele ao qual me condenou. Você quer falar sobre marcas causadas por desconhecidos? Então olhe! Olhe, mamãe! Olhe para o que o seu sangue fez. Olhe bem e entenda que não há seguranças. Não há certezas. Você apenas vê um vislumbre do futuro possível. Nem sempre ele é certo. Nem sempre revela a você o que precisa ser visto. Se revelasse, você teria me deixado morrer dia após dia nas mãos dela? — secou seu rosto, inutilmente. — Por favor, não responda. Eu não suportaria saber a verdade.
Assim como Regina, Cassandra se retirou, decidida a deixar a casa por alguns instantes. Precisava do silêncio da mata. Precisava que seu coração fosse acalentado pelo canto dos pássaros ou ela não conseguiria se reerguer. Não quando feridas foram expostas a sangrar de novo.
— Cassandra... — a mãe chamou por seu nome, fazendo-a parar.
— Apenas pense, mamãe. — ela pediu, ainda sem se virar para encarar os olhos cinzentos. — Pense que você está privando Regina de viver e impondo a ela sua experiência secular. Ela não sabe como é ser queimada em uma fogueira, marcada por ferro em brasa ou ferida por alguém que deveria amá-la. Talvez nunca saiba, espero que a Deusa permita. Mas se souber, se um dia o coração de Regina for ferido, nós estaremos aqui. Se a profecia se realizar, nós encontraremos uma forma de trazê-la de volta. Se Cora vier, nós lutaremos por ela. Mas não podemos impedi-la de viver, porque... — sua voz sumiu diante da constatação dolorosa. — Porque se o pior acontecer e tudo acabar, ao menos sua vida terá valido a pena.
Alheia aos acontecimentos conturbados daquela tarde, Zelena dançava em seu escritório. A música alta demais para ouvidos frágeis era contida por um feitiço que a mantinha somente ali. Ela estava cansada de ouvir tudo o tempo todo. Quando mais nova, tentou um feitiço que a impedisse de ler a mente das outras pessoas e, surpreendentemente, conseguiu. Foi eficaz. Eficaz demais. Ao tentar desfazê-lo, não obteve tanto êxito. O pânico se instalou ao pensar que havia perdido seu dom. Aquele tão especial que lhe fora dado unicamente pela Deusa. Chorou escondida por longas horas até Regina encontra-la no meio da floresta. Ainda tinha as bochechas rosadas pelo pranto recém-controlado quando a irmã contou sua secreta peripécia à avó, alegando que fora ela quem lançara o feitiço em Zelena. As duas sabiam que Perpétua descobriria a verdade, mas, naquele momento, a ruiva foi extremamente grata à morena por ter tomado a culpa para si. Isso não a livrou de uma conversa sobre a missão de cada um nesse plano e sobre seus poderes serem especiais e importantes. Mas a ruiva não se importou. Ouviu tudo em silêncio e de bom grado, prometendo que jamais faria aquilo de novo. A música a ajudava. Remexia-se descontroladamente, como se soubesse os passos que dava. Não importava. Suas mãos lançavam ao ar singelas luzes brilhantes que rodeavam seu corpo antes de atingir o chão e desaparecer.
Os seus dedos tamborilaram o vazio e as luzes bruxuleantes vagaram até o grande espelho em sua parede. A moldura dourada brilhou por alguns segundos antes que todo o espelho vibrasse em uma luz intensa. Aos poucos, a imagem se tornou nítida, mostrando os movimentos delicados de quem desbravava o desconhecido. A pele clara do bebê foi acariciada pelos longos dedos da mãe. Ela beijou sua cabeça e os finos cabelos que apareciam pouco a pouco. Aninhou-o ao peito, dando passos incertos enquanto o fazia dormir. O sorriso em seus lábios atingiu em cheio a Bruxa que, secretamente, bisbilhotava aquela inteiração tão deliciosa. Não conseguia parar de pensar no que havia feito. Sentia-se culpada por ter quebrado a promessa feita à avó, mas aquela moça precisava de sua ajuda e ajudá-la trouxe uma satisfação inesperada. Vê-la ali, com seu filho nos braços enquanto, juntos, desfrutavam dos simples prazeres da vida era uma recompensa maior do que ela poderia imaginar. Olhou uma última vez os olhos radiantes da mulher que, por um segundo, pareceram enxergá-la através da magia.
O singelo momento de alegria foi roubado quando seu coração ardeu em um pranto conhecido. A música poderia abafar seus pensamentos e os pensamentos dos outros, mas não era poderosa o bastante para nublar a dor sentida por aquela com quem dividia seu coração. Regina precisava de sua ajuda. Ela sentiria aquele chamado ainda que estivessem a milhares de quilômetros. Em um movimento único, o som foi desligado e ela saiu às pressas para buscar pela irmã.
Regina estava deitada no centro de uma clareira. Não vestia nada, o que fez a ruiva pensar que ela se transformara antes de chegar até lá. Zelena não precisava ver o rosto da irmã para ter certeza de que não existiam lágrimas. Regina sempre teve dificuldade para chorar. No entanto, ao seu redor, espalhavam-se anêmonas, pontuando a intensa tristeza que residia em seu coração. Ela se sentia perdida. Seus pensamentos foram bloqueados no instante em que sentiu a presença que se aproximava para se deitar ao seu lado.
Não falaram nada. Nem precisavam. O silêncio as presenteava com o tempo necessário para que as ideias se organizassem. Zelena não sabia ao certo o que havia acontecido, mas, antes de ser cegada pelo bloqueio de Regina, ela vislumbrou sua avó e isso lhe direcionava para os possíveis acontecimentos. Já imaginava que aconteceria. Sabia que a avó e sua superproteção não deixariam o episódio de Emma passar em branco. Sabia, também, que o coração de Regina não aceitaria mais um não. A morena podia não admitir e nem mesmo precisava, pois a irmã sabia o que se passava em sua mente e, mais do que ninguém, compreendia seu coração e as dúvidas que o habitavam.
Levou um pequeno susto quando as barreiras impostas foram retiradas e ela pode enxergar tudo o que se passara na Mansão durante a sua ausência. Viu o rosto da avó pintado em genuína preocupação, assim como sentiu o peito da irmã retumbar em incertezas. Uma inquietação que a tomou no mesmo instante. Suspirou. Entendia ambos os lados. Entendia mais do que desejava e seu corpo ardeu pelo segredo que escondia de Regina. Já não aguentava mais. Não sabia até quando conseguiria guardar aquilo em seu peito. E de repente, os tumultos foram substituídos por uma paz curiosa. Girassóis brilharam diante de um pôr do sol conhecido e ela encontrou intensos olhos verdes que observavam com curiosidade. Regina poderia não compreender o sentimento que retumbava em seu coração, mas Zelena o conhecia. A paixão de um iniciante que desconhece os passos a serem dados. Não era sobre atração ou sexo... Bem, talvez não fosse só sobre isso, corrigiu-se ao ver alguns flashes rápidos dos lábios da loira. Era tão puro e singelo. Tão delicado e agradável que Zelena não podia não desejar aquilo. Ela não podia não desejar que desse mais do que certo.
— Está tudo bem, Regina. — ela acariciou os cabelos da irmã, como se acariciasse os pelos de um gato. — Eu estou aqui com você.
— Eu não sei porque disse todas aquelas coisas, Zel. Eu sinto... Sinto que não posso mais continuar dessa forma. Eu não posso viver abrindo mão de tudo por causa disso! — apontou para o cordão e suas pedras brilhantes. — Aliás, — ela se sentou e, em um movimento brusco, arranco-o de seu pescoço. — eu não quero mais usá-lo.
— Vovó vai ter um troço. — a ruiva suspirou. Seus dedos remexeram e ela fez com que todas as pedras estourassem em pequenas explosões. — Seremos cumplices nesse crime, então.
Regina não teve chances de agradecer à irmã. Ambas se levantaram ao sentir o aperto que as tomava o peito. Algo parecido com o que levou Zelena a Regina, porém era mais delicado. Quase tímido. Elas caminharam em silêncio. O chamado não exigia pressa. A ruiva fez questão de oferecer um manto cumprido à morena, apenas como forma de implicar com seus hábitos sobre a nudez.
Encontraram o corpo de Cassandra boiando na calmaria do lago. As águas calmas faziam com que ela se movesse lentamente. Os seus olhos estavam fechados e qualquer um desaviado acharia que ela estava morta. Mas as sobrinhas sabiam que ela estava viva. Bem viva. Viva demais para que a sua dor fosse ignorada. Parecia que aquele era o dia dos sentimentos intensos e Zelena se perguntou se a Deusa tinha tirado um momento para que todas as roupas sujas fossem lavadas. Bem, ela teria um longo trabalho.
— Eu disse que não precisava de roupa. — Regina protestou antes de largar o manto e entrar no lago.
Ela puxou Cassandra pelo pulso até que estivessem à margem. Só então a mais velha despertou do que parecia ser um cochilo. Todas sabiam que não era.
— Dia difícil? — Zelena questionou, sem rodeios.
— Bastante. Já tive piores. — a tia sorriu, dando de ombros. — Nada que uma boa água não limpe.
— Pelo menos você chora, — a sobrinha fingiu simplicidade. — se depender da Regina, vamos ter anêmonas até do outro lado do continente.
— Ei! — a morena protestou, empurrando-a pelo ombro. Só então encarou o olhar da tia, desejando reconfortá-la. — Você estava lá, não é? Você ouviu tudo. — ela arrumou alguns fios de cabelo, sem motivo. Apenas para não encarar Cassandra. — Eu provavelmente preciso pedir desculpas à vovó. Eu não sei o que aconteceu, honestamente. Eu só não consegui, titia. Eu...
— Regina, — a morena ergueu o olhar ao ouvir o chamado. — você não precisa se desculpar pelas coisas que sente. Não precisa se desculpar por ter raiva, medo, angústia. Nem por sentir felicidade ou amor... — Cassandra trocou um olhar rápido com Zelena, como se compartilhassem de um segredo ainda não descoberto por Regina. — O que acontece é que a avó de vocês passou por muitas coisas. A minha mãe, — corrigiu-se. — viveu durante séculos e vivenciou coisas que nós nem sequer imaginamos. Ela perdeu as irmãs, viu amigas serem mortas em fogueiras. Ela... Ela tem motivos para ter medo, mas você não. Você é tão jovem e tão cheia de vida. Você não deve se desculpar por sentir. Nem mesmo se impedir de seguir em frente.
— E com seguir em frente, ela quer dizer: quando chamará uma bela escritora para desbravar esse corpinho esculpido pela Deusa? — Zelena sorriu travessa, vendo Cassandra concordar.
— Eu ainda estou um pouco desatualizada sobre Emma, mas ela é tão linda. Divina Tríplice, que mulher! — a mais velha gargalhou, abanando-se teatralmente.
— Você pode imaginar como é ser segurada por aqueles braços? — a ruiva suspirou.
— Não exatamente, mas eu tenho pensado sobre isso com frequência. — Regina respondeu, sem pudores, surpreendendo as duas mulheres que tentavam deixá-la sem graça.
— Você é um saco, sabia? — a irmã resmungou.
— A Emma não acha. — Cassandra fez questão de declarar, colocando-se de pé.
Muitas lágrimas foram libertadas naquele dia que parecia longo demais. Até mesmo aquelas que transvestiam-se em flores belas. As três mulheres caminharam de volta para casa, ainda incertas sobre como seriam recepcionadas. Não desejavam mais confrontos, não tinham espaço para mais dor. E ainda haveria muita dor, Cassandra sabia. Quando cruzaram a porta de entrada, o cheiro de biscoito as atingiu em cheio. Ao chegar à cozinha, encontraram um enorme prato de biscoitos recém assados ao lado de um bule quente de café fresco. O som dos passos de Perpétua as fez erguer a cabeça e todos os olhares se encontraram. Não precisaram de palavras para entender que aquele era um pedido sincero de desculpas. A avó nem mesmo resistiu quando Regina pulou em seus braços, mesmo que tenha sussurrado um feitiço para secá-la antes de ser capturada pelo conforto afetuoso. Cassandra manteve-se distante, receosa. Mas ao encarar a mãe, um simples aceno foi o bastante para saberem que estava tudo bem.
***
A mente de Emma Swan estava uma completa bagunça. Ela se lembrava de ter ido até a casa e de boa parte da conversa com Regina, mas não tinha ideia de como acabara desmaiada no sofá da sala. Geralmente eram assim que acabavam as suas festas na faculdade. O seu coração ainda acelerava ao se lembrar da morena. Era diferente encontrá-la em sua casa. Parecia que as árvores e toda a natureza ao seu redor a faziam reluzir. Contudo, o seu coração ainda se remexia em um sentimento desconhecido. Emma estava apavorada, essa era a verdade. Não por Regina, ela não a temia, mas temia o que lhe causava. O simples olhar a desestabilizava e ela não sabia como agir. Perdia as palavras que geralmente manuseava com maestria. Não sabia o que falar, como falar ou quando falar. Só desejava que a morena não parasse de lhe contar as histórias, independente do que achava sobre elas. De olhos fechados, Emma sorriu sem motivo. Na verdade, existia um motivo. Um bem específico.
Retirou de seu bolso a semente de girassol que lhe foi dada e a apertou forte, como se pudesse voltar para aquele dia e reviver todos aqueles momentos. Como podia estar tão perdidamente enlouquecida por aquela mulher?
O toque de seu celular a tirou do transe. O nome de seu ex brilhava na tela e ela, mais uma vez, ignorou a chamada. O momento não poderia ser mais inoportuno. Todo o conforto foi roubado de seu peito e substituído pela angústia de lembranças enterradas em seu peito. Lembranças que guardavam palavras dolorosas e longos momentos de solidão a dois. Como pode se manter durante tantos anos naquela relação já fadada ao fracasso? Não sabia como responder. Talvez pelo medo da solidão já tão conhecida. A solidão não doía agora. Ela era bem vinda, como uma velha amiga. A loira sofrera por muito estando só mesmo quando acompanhada. Agora, ela agradecia pelo silêncio.
Buscou por seu caderno e rabiscou mais um desenho, acompanhado de um poema que falava sobre olhos castanhos amarelados. Ela nunca pensou que conheceria olhos assim. Olhos que penetravam em sua alma e a aprisionavam. Não, não aprisionavam. Aqueles olhos... Aqueles olhos libertavam a alma de Emma como ela nunca imaginou ser possível.
O sono a tomou antes que pudesse perceber, mas seus sonhos não foram tão tranquilos quanto esperava. O cheiro de fumaça queimava seus pulmões e ela mal podia respirar. Seu rosto ardia. Ela tentava gritar, mas não conseguia. Seus movimentos pareciam limitados e Emma não podia entender o motivo. Por que não se levantava e corria? Por que não saía dali? Ela permanecia parada, encarando o teto claro ser manchado pela fumaça negra. Até que não enxergava mais nada.
***
A manhã tomava a floresta aos poucos, despertando cada ser vivo que ali habitava. Para os Seres de Outro Mundo, as horas não funcionavam da mesma forma e eles, há tempos, já se moviam entre as árvores. Você poderia ver um duende correndo de um arbusto para outro se prestasse bastante atenção. Ouviria também o canto de uma Ninfa D’água se permitisse entender os sons da mata. Pouco a pouco, todos eles iniciavam o ciclo de um novo dia.
Zelena despertou cedo. A avó já estava acordada e lidava com alguns afazeres. Já estava perto do tempo de colher ervas importantes para remédios que a população mais pobre precisaria e que custavam caro demais nas farmácias locais. Perpétua os produzia há anos e os entregava em segredo. Ninguém perguntava de onde vinha a ajuda. Eles precisavam demais para que os questionamentos fossem feitos. Apenas agradeciam a Deus, mas a mais velha sabia que a Deusa recebia suas graças.
A ruiva encontrou uma tia furiosa na cozinha, pois não havia café o bastante para atender o seu mais novo vicio. Zelena não sabia ao certo quantos anos Cassandra tinha, mas achava engraçado que ela fora pega pelo café logo agora.
— Certo, eu vou te levar para conhecer pessoas. Acha que pode lidar com isso, ou prefere continuar vivendo em segredo, forasteira? — a ruiva cutucou as costelas da tia, ouvindo um grunhido em reprovação. Antes que a pergunta fosse feita, ela se adiantou em responder. — Sim, vai ter café.
— Então, acredito que posso lidar com isso. — a contragosto, ela se colocou de pé. — Mas eu não sei ao certo que roupa usar. — deu de ombros, revelando uma ingenuidade desconhecida.
A sombrinha, por pouco, não deu um grito em ansiedade.
— Tudo bem, eu posso fazer o enorme esforço de te ajudar com isso. Tenho certeza de que Regina tem algumas roupas que ficaram boas em você, mas nós vamos precisar comprar coisas novas logo se você vai continuar por aqui. Também podemos conseguir um emprego se você quiser sair mais da floresta. — Cassandra parou por um instante ao ouvir aquilo. Seu cérebro simplesmente não conseguia processar o resto das informações.
— Um emprego? — sem entender, Zelena assentiu. — Um emprego é como... Como realmente ficar aqui e criar raízes. — verbalizou a afirmação, não acreditando naquilo. Não acreditando na simples possibilidade. — Você quer que eu arrume um emprego?
— Se eu quero que você arrume um emprego e que crie raízes aqui? Claro, titia. — a ruiva a abraçou de lado, não dando atenção a como Cassandra ainda parecia se assustar com afeto. — Ou você acha que vai aparecer, fazer com que eu te ame e ir embora? Isso é inaceitável, não acha? Você parece ser a única pessoa sensata por aqui, além de mim, é óbvio. Eu não poderia lidar com os surtos de Regina e as manias de vovó sem você.
— Zelena, você... — os olhos claros brilharam com as lágrimas presas.
— Se eu disse que te amo? Sim, eu disse. O que há de errado? — Zelena, tão simples em demonstrar o que sentia, bombardeou o coração de Cassandra de uma maneira que jamais imaginou ser possível. Ao ver a tia recuar, ela se adiantou. — Quer dizer, eu leio a mente de tantas pessoas e vejo como elas escondem o que sentem, então, eu não faço isso. Eu digo logo.
— Você me ama. — confirmou, vendo a sobrinha assentir. — Eu? Tem certeza?
— Sim, você. — revirou os olhos, rindo diante da descrença. — Vamos logo, titia. Nós temos um longo dia pela frente. Você pode ir para o Museu comigo e vou te mostrar coisas incríveis que temos por lá. Claro que primeiro vamos tomar um belo café e, sim, você pode levar mais alguns. Não preciso ler sua mente pra saber que pediria por isso...
A ruiva continuou a falar. Não parou tão cedo e não pararia. Zelena não lidava bem com silêncios constrangedores, mas não se arrependia do que havia dito. Odiava esconder o que sentia. Vivia ouvindo segredos das pessoas e a maioria deles era sobre coisas não ditas que deveriam ser ditas. Coisas escondidas nos cafundós da mente por puro orgulho. Ela não tinha medo de dizer à tia que a amava. Não temia dizer que a amou mesmo quando se assustou com sua chegada. A cada dia, ela amava mais a presença de Cassandra e seu conforto. Amava saber que ela estava ali. Amava seu olhar preocupado e sempre tão receptivo. Amava a forma acuada como recebia os abraços e por isso jamais deixava de oferecê-los sempre. Os seus dias se tornaram melhores com sua presença e não queria perder o conforto de tê-la por perto.
Após longas horas para Zelena escolher uma roupa que julgou ser perfeita para Cassandra, elas saíram da Mansão acompanhadas por uma Regina ainda emburrada por ter sido acordada. Disseram à avó que tomariam café no Granny’s, mesmo ouvindo reprovações sobre como era absurdo elas tomarem café fora de casa quando se tinha tudo bem ali.
As três mulheres mal cruzaram a porta da lanchonete e encontraram uma confusão instalada. Um homem caído ao chão com o rosto já vermelho pelo sufocamento parecia já não ter chances de sobreviver.
— Oh! Ainda bem! — Regina reconheceu a voz de Emma. — Nós precisamos de um médico! Cassandra, você pode ajudar?
— Eu? — a morena questionou, sem entender.
— Sim! Você é médica. Precisa ser rápido, ele está sufocando! — o olhar apavorado da loira ainda esperava por uma resposta da mulher que permanecia estática.
— Eu sou médica? — Zelena arregalou os olhos, encarando a tia. Só então a mulher recordou-se dos recentes acontecimentos. — Eu sou médica! Claro que eu sou! Eu posso ajudar!
Correu desajeitada, equilibrando-se sobre as botas de salto que Zelena a obrigara a calçar. Com ambas as mãos sobre o peito nu do homem, ela não sabia o que fazer. Precisou de um segundo para se lembrar de que podia não ser uma médica, mas era uma Bruxa. Uma boa Bruxa, diga-se de passagem. Ela aliviou sua mente do murmúrio instalado pelo lugar e das perguntas sobre o que seria feito. Suas mãos caminharam pela pele, buscando pelo problema que o impedia de respirar. Bastou que seus dedos se posicionassem no lugar exato e que um feitiço fosse discretamente sussurrado para que o homem iniciasse uma série de tosses descontroladas que eram um ótimo sinal.
— Oh graças a Deus! — uma mulher a abraçou. — Obrigada! Muito obrigada!
— Você é um anjo! Muito obrigada! — os agradecimentos continuaram até que ela se levantou, recuperando a postura.
— É bom que ele passe no hospital para ver se está tudo bem. — aconselhou, imaginando que era o certo a se fazer, mas tendo certeza de que não havia nada de errado que não tivesse sido reparado pela magia.
— Vamos, doutora! — Regina a puxou pelo braço. — Temos café ali.
— Graças a Deusa, é o que eu digo. — a tia suspirou, ajeitando a jaqueta em seus braços. — Mais do que merecido depois de salvar uma vida com meus conhecimentos adquiridos após anos de estudos. Não acha? — ergueu as sobrancelhas, encarando a feição divertida de Zelena.
— O que eu poderia fazer? Não achei que ela se lembraria. — sussurrou, indicando uma Emma inquieta que fingia não olhar Regina a cada segundo.
— Nós vamos dizer que você está aposentada. — a morena aconselhou. — Você não pratica mais medicina e só.
— Podemos falar que você servia na guerra e que foi muito traumático...
— Ou que ela resolveu se afastar após operar um homem com uma barbie presa ao...
— Meninas! — a mais velha chamou a atenção delas, antes que a feliz garçonete se aproximasse.
— Bom dia! — a jovem sorriu, balançando os cabelos loiros. — Me mandaram entregar esse chocolate quente para Regina Mills! É você, certo?
— Sim. Muito obrigada. — a morena agradeceu, contida.
Junto à xícara, um pequeno envelope lhe foi entregue. Dentro dele, Regina encontrou um papel dobrado que guardava letras corridas de versos escritos com pressa. O ar lhe faltou aos pulmões, mas seus lábios pintados de vermelho ganharam um sorriso que poderia iluminar mil quarteirões.
Brotam de lábios teus
Ao mais singelo verbalizar
Gotas do precioso hidromel
Cuja filha poesia descende
Vermelho sangue de Kvasir
Em pouco compara-se ao vermelho
Sangra em cor de tua boca
Ao mover-se, despretensiosa
Eloquentemente, desnuda
Torna dúbia a pureza clara
Em tons escuros, malicia
Esconde nos olhos o mundo
Abriga galáxias
Do simples, o complexo.
A morena buscou pelos olhos de Emma, sabendo que somente ela poderia atingir seu coração da forma que o fez. Conseguindo ver sua simplicidade em cada verso que leu. Não a encontrou. Ainda assim, isso não tirou de seu rosto a felicidade cintilante. Nem mesmo o olhar curioso de Cassandra e o semblante ansioso de Zelena a fizeram abrir mão daquele momento curioso. O momento em que seus batimentos erraram o ritmo bem estabelecido e suas bochechas coraram. Não esperava por aquilo. Jamais podia esperar.
Regina não podia esperar para encontrar os olhos verdes.
E que a Deusa tivesse piedade de seu coração rendido.
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