Torneio das Legiões

2 2# - Espírito competitivo.


2# — Espírito competitivo.

Aparentemente, a conversa que Arashi e Sanami desenvolveram estava mais saborosa do que o sorvete que eles saíram para tomar, porque, ao chegar na nave, nenhum dos dois havia terminado o que pediu. Poucas horas foram o bastante para que eles começassem a se falar e a rir com o grau de intimidade de amigos de infância.

Era exatamente oito horas da noite quando os dois se uniram às legiões da nave A, ônibus que, de acordo com Kin, levaria os primeiros vinte e cinco mil guerreiros ao buraco de minhoca descoberto no extremo norte do planeta onde, tradicionalmente, o torneio seletivo era realizado.

A espaçonave foi estacionada em um enorme campo verde, pois possuía centenas de quilômetros de extensão, talvez milhares. Era branca, lotada de escotilhas e com muitas paredes transparentes, seus arquitetos tentaram não privar os tripulantes das belíssimas vistas que o cosmo prometia no percurso.

O moreno e a sua nova amiga marcharam juntos para dentro do foguete, acompanhados dos demais competidores. O falatório, como já era esperado, impediu-os de continuar a conversa, pois eles quase não podiam se ouvir. Para não se perder dela, segurou na sua mão, fazendo-a corar.

Logo estavam no salão principal, onde acharam outros poucos reunidos e, dentre estes, estavam Kin e o rapaz aleatoriamente eleito para ser a dupla da loira na disputa; seu nome era Nari, ele tinha a idade dela mas nenhum senso de moda, suas roupas e seus cabelos enrolados, despenteados, não eram nem um pouco agradáveis de se ver: ele trajava um macacão cor de abóbora, uma camisa branca listrada e chinelos de dedo.

Pior do que vê-lo, era ouvi-lo. Ele não parava de falar e, pelo que parecia, não passava de um covarde. Ou teve muito azar ou os organizadores quiseram sacaneá-la, enquanto Arashi faria par com uma garota meiga, cheirosa e muito bem vestida, seria forçada a conviver com um esquisitão que fedia a alho, que só falava abobrinha e que temia a própria sombra.

É castigo, revirava os olhos, fitando os dois mediadores que, do corredor do segundo andar, contabilizavam mentalmente o número de participantes presentes e anotavam a quantia em uma prancheta. Jogava neles toda a culpa pelo que seria forçada a suportar, mesmo achando que eles não deviam ser os responsáveis diretos.

Encostada na máquina de refrigerantes do canto superior da sala, Kin se concentrava na tarefa de não esganar seu único aliado que, desde que chegou, não parou de tagarelar.

— Nossa, eu nunca saí da Terra! E o espaço deve ser mesmo assustador, você não acha? Não acha? — A cutucou. — Não acha?

Sendo mais paciente do que jamais foi, a retalhadora respirou fundo.

— É, eu acho. — Sorriu, tentando ser gentil.

— Quando chegarmos lá, vamos ter que arranjar um abrigo. Passaremos meses lá, meses, meses, mas por mim está tudo bem se não acharmos, posso dormir até em uma cratera, você pode procurar uma casa pra você, mas tenho medo do escuro, se você achar uma casa e eu descansar numa cratera durante o dia, vamos ter que trocar de lugar a noite, eu-

— Pode calar a boquinha por um segundo? — Cansou de ser educada, se tivesse que ouvi-lo soltar mais dez frases em cinco segundos, transformaria-o em pó. Nunca fez o tipo calada antissocial, mas agora precisava de sossego, o som da voz dele estava ecoando em sua cabeça.

De um segundo para o outro o salão, grande o suficiente para acolher um número de pessoas até maior do que vinte e cinco mil, estava cheio de gente. Todos em silêncio, esperando pela palavra dos inspetores que os acompanharia naquela viagem. O máximo que se ouvia eram alguns cochichos.

Kin, ao avistar Arashi e Sanami, puxou seu parceiro pela mão e arrastou-o até eles, que estavam parados a pouco menos de seis metros de distância da máquina de refrigerantes.

— Pessoal. — Falou, sendo, enfim, vista pelos dois. — Quando chegaram?

— Agora mesmo. — Disse Arashi, examinando o ambiente e contando os competidores. — Todo mundo aqui. Não faltou um retalhador, impressionante. — Sentiu o sorvete, no qual mal tocou, gotejar na sua mão, decidindo oferecê-lo à Kin: — Quer?

Ela sorriu.

— Sabe que eu nunca dispenso um sorvete de morango. — Roubou-o das mãos dele, mas quando ia tomar, Nari esbarrou nela, fazendo-a derrubá-lo.

Uma pilha de nervos, abaixou a cabeça e fechou os olhos.

— Respira. Respira fundo! — Arashi tentava acalmá-la.

Contou até dez. Levantou o olhar, jogando os cabelos para trás.

— Esse é o Nari! — Os apresentou ao rapaz esquisito, que acenou com o sorriso de alguém que não fazia ideia do que acabara de fazer. A loira fechou a cara. — Ele vai ser minha dupla.

— É um prazer conhecer você, Nari. — Disse Sanami, numa das inúmeras vezes até ali que fez Arashi lembrar-se de sua irmã mais nova. Até seu tom de voz era parecido com o dela.

Voltou a olhá-la como quem via um fantasma.

— Arashi? Arashi. Ei. — Kin o estava chamando. Pelo visto, "dormiu" em pé de novo e ela teve que despertá-lo com mais dois estalos de dedo.

— Oi, eu... — Notou a mão cedida de Nari, que queria cumprimentá-lo, a apertou e se desculpou: — Sinto muito por isso, é muito bom te conhecer. Que cheiro é esse? — Usou o nariz para tentar identificar a origem do odor em um outro canto. — Parece alho.

— Ah, sou eu, eu adoro comer alho. — Confessou o garoto que apertava a sua mão por mais tempo que o necessário, ao largá-la, falou: — A propósito, sabiam que o alho é-

— Eu não tinha te mandado calar a boquinha? — Kin o interrompeu, ele a obedeceu. A Terra de Áries era o lar de cada figura...

— Kin. — Disse Arashi, em tom repreensivo. — Que grosseria.

— Se eu vou ter que aguentar ele, ele também vai ter que me aguentar. Nari, eu não sou uma garota gentil. Não sou nada gentil. Eu me irrito fácil, me entendeu? Se vai fazer suas esquisitices perto de mim, fique sabendo disso. — Olhou para Arashi. — A menos que você queira trocar de dupla comigo. Não? — Sem objeções, concluiu: — Sabia que não.

Assim que os portões do ônibus espacial se fecharam, luzes acenderam e as atenções se voltaram ao segundo andar, onde estava um homem de feição séria, uniforme bege e verde de um oficial do exército e caderno de notas nas mãos.

— Muito bem, peço o foco de todos vocês aqui em mim. As portas foram lacradas, o que significa que o tempo de desistência se esgotou. Elas já estão programadas para se abrir no planeta Koravag, o que quer dizer que ninguém mais sai e nem entra. Pelos próximos três dias, viveremos todos juntos aqui... Cada dupla terá seu quarto, mas dormirão em camas diferentes.

Só pode ser brincadeira, Kin não era a única descontente com o sistema, mas com certeza era a mais insatisfeita. O falatório voltou.

— Silêncio, por favor — O moderador até então calado pediu, conseguiu o que queria e sinalizou para o responsável pelas apresentações continuar.

— As regras serão as seguintes: se alguém morrer aqui, o assassino será imediatamente desclassificado. Se lutarem, todos os envolvidos também serão desqualificados. A ficha que vocês receberam hoje cedo contêm o endereço de seus quartos, lá, vocês encontrarão um par de pulseiras que devem pôr assim que aterrissarmos no planeta. Ao colocá-las, ficarão proibidos de se afastar um centímetro mais que quinhentos metros de seus parceiros.

Nari levantou a mão e fez uma pergunta que, segundo sua companheira, foi a coisa mais proveitosa que ele disse no dia:

— E se nos afastarmos da nossa dupla mais que o limite permitido?

— Na hora certa saberão das consequências... Para evitarmos conflitos e desqualificações desnecessárias, nos absteremos de responder essa pergunta. — Disseram-lhe. — Por hora, é tudo. Fora matar um ao outro e lutar, vocês são livres para fazer qualquer coisa. Podem treinar, mas apenas entre você mesmo e a pessoa que foi escolhida para fazer par com você.

Os mensageiros, após falarem tudo o que tinham para falar, se viraram e saíram. Em pouquíssimo tempo, o salão estava relativamente vazio. Só Arashi, Sanami, Kin e Nari ficaram onde estavam, tudo porque o moreno teve a ideia de, parado perto das escadas, analisar, um a um, todos os guerreiros que viam pela frente a fim de, baseando-se nas características físicas específicas de uma seleta classe de seres de essência, estabelecer um padrão de força, fazer uma aproximação do verdadeiro nível de habilidade de cada um deles.

Então, os quatro ficaram sozinhos no local. Ansiosa por uma resposta, Kin se aproximou do analista e falou:

— Alguém fora do normal?

Só você, ele pensou. Olhando rapidamente, dava para dizer que nenhum deles era páreo para ela, que já tinha a vantagem de ser muito mais forte que todos os presentes naquela nave — inclusive do que ele. Decidiu não partilhar essa informação com ela.

— Eu não confiaria em mim, se fosse você. — Foi sua resposta.

Ouvir aquilo dele a fez se sentir desafiada.

— É assim que vai ser, é?

Ele sorriu e retrucou:

— É.

— Então tá certo. Vem, Nari, vamos procurar o nosso quarto. — Subiu as escadas e deixou os outros dois a sós.

Curiosa, Sanami correu até ele e o indagou:

— Descobriu alguma coisa mesmo?

— Sim. — Pensou melhor na resposta que deu e a reformulou: — Mais ou menos. Não foi bem uma descoberta porque eu já esperava, eu diria que foi... uma constatação.

— O que você constatou? — A resposta dele só a encheu de dúvidas.

— Que, de todos os cinquenta mil, Kin é uma das mais fortes. Top cinco. Se é que ela não é a mais forte, não sei... para dizer isso com certeza eu terei que ver os outros vinte e cinco mil. Por isso, quando aterrissarmos no planeta, vamos ficar o mais longe que pudermos dela.

— Qual será o plano?

— Deixaremos ela fazer a limpa enquanto nos escondemos, esperaremos os mais fortes se destruírem e depois sairemos para acabar com todos os que ficarem. Enquanto aguardamos, derrotamos os que pensaram a mesma coisa.