Torneio das Legiões

3 3# - A história da minha vida.


3# — A história da minha vida.

Sanami estava tendo dificuldades para dormir. Cochilava, rolava na cama e acordava, mas nunca abria os olhos. Queria cair no sono, mas uma coisa não permitia: as últimas palavras que seu pai lhe dirigiu. Ela não parava de pensar nelas. Se adormecia, sonhava com elas; se não, as imaginava. Os seus lençóis estavam todos amarrotados.

Na Terra, seu pai era conhecido como capitão Desu, ele era o orgulhoso chefe da polícia de Orion e um dos dez retalhadores mais poderosos de Áries. A família era pequena; só ela, ele e uma garota chamada Evi, a sua irmã mais nova. Ele treinava as duas desde muito cedo, o que fez desenvolver entre elas uma saudável porém divertida rivalidade — uma das suas principais razões para estar ali.

Evi, um ano mais nova, era a irmã talentosa. A menina dos olhos do pai, a joia da família. A mais inteligente, a mais forte, a mais veloz, a que melhor se comportava. A caçula da família era tudo com o que o pai sonhava, o centro das atenções, a estrela. Não havia nada que ela não soubesse fazer, sobretudo melhor do que Sanami. Ser tudo o que Sanami não era — Evi parecia ter vindo ao mundo com este propósito.

Sua irmã representa o nosso sobrenome, ele lhe disse como justificativa para mandar Evi, não ela, ao Torneio das Legiões. Aquilo a magoou com uma intensidade inimaginável, fez com que se sentisse uma fracassada. Perdedora. Fez seus esforços parecerem nada. O seu sonho, uma besteira, um reles delírio inalcançável.

Contudo, estava determinada a provar o contrário, não somente para ele, mas também para si mesma, principalmente a si mesma. Sabia que a sua vida estaria em risco, mas morrer era o de menos e, se decepcionasse seu pai, pelo menos não estaria mais ali para sentir o peso disso.

Desisto, abriu os olhos e encarou o telhado. O quarto era pequeno, simples e tudo o que continha nele eram duas estantes de metal, duas camas lado a lado e uma pequena janela acima da estante que ficava à direita da cama onde ela dormia, que dava vista ao espetáculo visual protagonizado pelo espaço sideral.

Olhou para o lado procurando por Arashi, precisava falar com alguém, no entanto, não o encontrou na cama dele, que estava posicionada a dois metros da sua. Fitou o pequeno relógio que prendeu ao pulso antes de sair de casa, se surpreendendo com a hora. Para onde ele iria às três e meia da manhã? Ela se perguntava, será que também tem insônia, presumiu, pondo o pé esquerdo no chão.

Queria encontrá-lo, mas não sabia como. A pulseira, pensou, atando-a ao pulso para saber a localização do moreno, informação que não demorou para receber. Assim que soube onde ele estava, saiu do quarto e foi imediatamente até lá. No convés da espaçonave, debruçado sobre o corrimão, de frente para a maior parede transparente de todo o ônibus espacial.

— Também não consegue dormir? — Disse ela, puxando conversa.

— Sempre foi difícil pra mim, mas ultimamente tem sido muito mais. Vida complicada... — Confessou, contemplando as estrelas. — Como soube que eu estava aqui?

Do lado dele, ela exibiu a pulseira.

— Disseram que, fora matar uns aos outros e lutar, podíamos fazer o que quiséssemos. — Justificou. Devolveu-lhe a pulseira dele, o observou fixá-la ao braço e começou a admirar o universo. — E então, o que causa a sua insônia?

— Te conto a minha se você me contar a sua. — Pré-estabeleceu.

— Promete que não vai contar pra ninguém?

Mesmo sem saber o que era, sabia que podia confiar nela. De algum jeito sabia. O mesmo valia para ela. Mesmo tendo-o conhecido ontem, sabia que ele era de confiança.

— Prometo. — Afirmou.

— Bom, é pelo meu pai. Não paro de pensar na última coisa que ele disse pra mim antes de eu vir, ele... não me acha digna de representar o sobrenome da minha família nesse torneio, e aí mandou minha irmã, só que eu a derrubei e vim no lugar dela. Aqui estou registrada como Evi, olha. — Mostrou o pulso de novo. — Eu queria provar para ele que posso ser tão boa quanto ela e daí... fiz isso. Mas e você?

— Também é pelo meu pai, é que nós dois treinávamos juntos para isso. Ele queria muito que eu participasse e eu também queria muito participar, mas agora eu... fico tendo todos esses pesadelos. Não paro de lembrar dele, de tudo o que passamos pra eu conseguir atingir o nível dessa competição. — Riu, recordando-se de todos os momentos que tiveram juntos. — Antes não tinha pressão, mas agora tem e isso tá me matando.

— Tente relaxar. Você é muito inteligente, pelo que a Kin me falou, é um grande lutador. Sei que o seu pai ficará muito orgulhoso de você, só não posso dizer o mesmo sobre o meu.

Ele riu, olhou para baixo e assentiu. Então Kin não contou pra ela, soube na hora.

— Bom, se te faz sentir melhor, também não posso dizer o mesmo sobre o meu porque ele está morto. — Revelou, chocando-a. — Foi quando eu tinha uns quatro anos. Ele, minha mãe, minha irmã e meu irmão foram mortos por um assassino em série. O resto do vilarejo onde eu morava foi destruído num incêndio causado pelo mesmo homem, só... eu sobrevivi.

Mesmo tendo se passado uma década, ainda era difícil falar sobre aquilo. Ainda estava bem vivo, era uma ferida não cicatrizada. Doía, doía ainda mais a noite e, essa semana, quase tanto quanto naquela madrugada.

Sanami se sentiu insensível por tê-lo mencionado daquela forma, mesmo não fazendo ideia da tragédia que Arashi acabou de relatar. Algo lhe dizia para se retratar.

— Sinto muito. — E abraçou-o, novamente o lembrando Saori. — E... me desculpa por ter tocado no assunto daquele jeito, foi muita insensibilidade da minha parte. Meu pai diz que, às vezes, falo as coisas sem pensar, que esse é o meu defeito...

— Tá tudo bem, você não tinha ideia. — Alisou a mão dela. — Não foi sua culpa, eu devia ter te contado isso ontem cedo para evitar algo assim. Mas o que você disse não está totalmente errado, ainda posso orgulhá-lo honrando a memória dele. E você também pode orgulhar seu pai. Pode e vai, porque eu a ajudarei com isso.

— Então temos um trato. — Esticou o punho para ele tocar.

— Temos um trato. — Tocou seu punho no dela. — Agora vamos voltar ao quarto, temos que descansar para treinar amanhã.

— Treinar?

— É, conhecer as habilidades um do outro. Você não sabe qual é a minha essência e nem eu sei qual é a sua, isso tem que mudar. Se não conhecemos um ao outro, como vamos conhecer nossos inimigos?

Ela viu que ele tinha razão.

— Certo. Vamos.

...

Com as mãos no chão e questão de alguns segundos, Arashi trouxe a era do gelo para dentro da quadra onde os mentores do campeonato liberaram os treinamentos entre as duplas. Ao seu lado, sua aliada, uma garota estupefata, boquiaberta pelo que acabou de presenciar. Com apenas um toque, recolheu as camadas de gelo que encobriram o piso e as paredes e fez tudo retornar ao seu estado normal bem devagar.

— Essência Negativa. — Disse o nome da raiz de seus poderes, pondo-se de pé. — Posso criar esculturas de gelo e congelar tudo o que eu toco, quando eu quero. Além disso... — Seguindo o mover de sua mão esquerda, um boneco de neve com todos os seus traços físicos brotou da terra e se desmanchou. — Posso fazer isso para confundir meus oponentes. Vai ser muito útil quando nós estivermos lá. Ah, e a minha técnica mais mortal... — Bateu a ponta do pé na terra, transformando-a numa pista de patinação. — É a Pista de Gelo. Reduz a capacidade de locomoção dos meus adversários, tira o tempo de reação deles e me faz correr mais rápido, eu — deslizou para as costas dela em um piscar de olhos — deslizo aqui. E tenho total controle do campo. — Após absorver o gelo que tomou a superfície, falou: — Agora é a sua vez. Do que você é capaz?

— Eu? Eu... — Tocou o solo com o indicador da mão esquerda, fazendo ele sacudir violentamente e atrapalhando o seu único espectador, que quase perde o equilíbrio.

— Uou. — Equilibrou-se. — Abalos sísmicos?

— Não. — Fez a terra parar de balançar. — Eu posso dar vida a objetos e controlá-los como eu bem entender, eles fazem o que eu mandar.

Arashi teve uma ideia brilhante, e buscando expressar a sua felicidade de algum jeito, sorriu.

— Nós vamos vencer isso.

Ela estranhou a mudança de atitude dele.

— Por que ficou tão confiante de repente?

— Só confie no que eu digo, na hora você vai saber do que estou falando.

Juntos, dois rapazes desceram as escadas e pararam na porta de entrada da quadra, a vinte metros de onde estavam Arashi e sua companheira. O mais alto tinha pele escura, a cabeça raspada e era fisicamente forte, usava roupas simples: calça jeans, tênis e camisa preta. O outro tinha a pele um pouco mais clara, a cabeça raspada e tipo físico parecido, embora fosse mais carrancudo; os seus cabelos, na raiz, eram lisos, ele tinha uma tatuagem que começava na testa e percorria toda a sua bochecha, parando pouco acima da nuca. Os seus olhos, castanhos claro, não saíam de cima do moreno de olhos azuis.

— Se não é Arashi Suzume. — Disse o mais alto, caminhando até ele com um amigo no encalço. — É bom ver você e Kin aqui, agora sei que esse torneio não vai ser chato.

— Estava nos espionando? — Se aproximou para encará-lo. — Porque se estava, nos disseram que temos permissão para matá-los. Privacidade é nossa única regra aqui, Satoshi.

Ken teria atacado Arashi se Satoshi não o tivesse detido, pondo uma mão entre os dois.

— Fica frio, não estávamos espionando. Tem umas câmeras ali na porta, se acha que estávamos olhando, podem verificar. — Sanami roubou a atenção dele para si. — Quem é essa coisinha linda? Não me diga que é sua dupla.

— Eu até diria, mas não é da sua conta. Vamos, Sanami, o nosso tempo de permanência aqui acabou. — Dirigindo-se a saída com ela, antes de fechar a porta, falou: — Vamos deixar o treinamento para aqueles que precisam mais do que nós.

Ken, mais uma vez, quase o atacou, mas Satoshi o parou e disse:

— Deixa ele falar, nós cuidamos do nariz empinado dele no torneio.

— Eu quero matá-lo! — Grunhiu.

— Certo, certo, você cuida do nariz empinado dele. — Disse, lamentando mentalmente: — Droga, eu também odeio aquele idiota.