Torneio das Legiões

7 7# - Punhos de ferro!


7# — Punhos de ferro!

Meu braço está quebrado, ela constatou depois de escapar de mais uma e sentir a sola dos pés tocar o chão. A dor dificultou o simples ato de pensar, e dificuldade para raciocinar era o pior mal que poderia lhe acometer na situação em que estava. Pôs a mão no ombro direito, uma tentativa desesperada de se acalmar e repelir a dor que estava vindo dali. Encarou o inimigo com seriedade e coragem, o que o fez sorrir.

— Quanta garra...!! — Alinhou as sombra-monstros. — Eu serei honesto com você. Não posso dizer que não gostei de matar todas aquelas pessoas de hoje cedo, porque gostei. Eles eram fracos e quando eu mato um ariano fraco, penso que estou fazendo um bem para a nação... uma limpeza. Mas você não é como os que eu matei hoje cedo, você é forte, é corajosa, é confiante, faz o que precisa fazer... — Deu aos monstros o comando mental de ficar em guarda e se preparar para o ataque. — Não vou gostar muito disso. Matar você terá sido um desperdício enorme.

Lá vem, pensou, abriu as asas e saiu da frente dos três punhos que, pela velocidade de locomoção, deram à Kin a absoluta certeza de que teria morrido se tivesse permanecido onde estava. Cinquenta metros acima do chão, fitou com temor a destruição causada pelos golpes e, sem retirar a mão de cima do braço machucado, abaixou a cabeça para desviar do corte com a espada que o Kirakage efetuou, esquivou de mais três cortes, voltou à terra e lá deu a ele o mais emocionante combate corpo a corpo de sua vida.

Recuando, esquivou de todos os cortes que ele desferiu contra seu rosto e pescoço. Ele a atacou com um direto de esquerda, ela esquivou, com um de direita, ela esquivou de novo, com mais quinze mil socos iguais em sequência, mas ela, com maestria, escapou de todos, inclusive dos dois últimos cruzados com os quais ele tentou nocauteá-la. Seu erro, entretanto, foi arriscar o contra ataque, porque quando ele bloqueou o seu cruzado, conseguiu cabeceá-la bem no nariz, arrancando sangue das suas narinas.

Depois ele esmurrou o estômago de Kin mas ela, comprovando que nem toda a dor do mundo era capaz de colocá-la de joelhos, socou o peitoral dele com muito mais força, o que não só lhe fez recuar como também o fez espirrar sangue e sofrer uma rápida parada cardíaca. Após se recuperar, ele errou um cruzado de direita, acertou um de esquerda e levou um gancho bem na ponta do queixo.

Kin se defendeu do chute com o qual ele tentou derrubá-la, se agachou e desviou de um direto, levantou, esquivou de um jab, de um direto, acertou a cara dele com um cruzado, girou e o chutou no rosto, arremessando-o de volta para o ponto de onde a observava antes de tentar o combate a curta distância.

C-Com um braço, e-ela... Ela está me vencendo com um braço! — Ele se recusava a acreditar. Enxugou o queixo ensanguentado, vagarosamente foi se pondo de pé e, a vinte metros de distância dela, a olhou nos olhos.

— Vai precisar de mais que isso se quiser me matar. — Construiu, com a energia, uma resplandecente espada dourada de luz, ficou em guarda e falou: — Me mostre o que pode fazer! — Mas Kin sabia que não podia arrastar aquele combate por muito mais tempo, que se quisesse vencer, teria que ser rápida, pois seu braço ferido estava ficando dormente e ela estava ciente de que isso não era bom sinal.

Ele se irritou, mas afim de esconder o sentimento, sorriu e disse:

— Como quiser. — Saltou para os ombros do seu monstro mais poderoso e de lá liderou os ataques seguintes, os quais, infelizmente para ele, viram-se infrutíferos, pois a agilidade da retalhadora era tanta que eles nem ao menos conseguiram raspar nela.

No entanto, só a loira sabia como estava sendo difícil sair ilesa de todos aqueles golpes poderosos em sequência. Seu braço, embora não doesse mais, levou embora metade de sua força e equilíbrio, ela agora não sabia se iria ser capaz de evitar os outros.

Hora de sair da defensiva, preparou a espada, se posicionou e atacou, de cara, o gigante sobre o qual seu inimigo repousava. Fazendo jus ao rumor de que nada sobrevivia a seu corte, sua lâmina dividiu o grandalhão ao meio, mas o brilho e não o corte em si, segundo a análise de Kin, foi o que fez com que o bicho sumisse.

Kirakage pulou para o ombro da criatura ao lado, comandou mentalmente o soco com o qual ela tentou matar a loira mas ela desviou de novo, aterrissou no ombro da sombra humanoide e tentou matá-lo com a espada em um astuto ataque frontal e direto. Ele, que não era nada lerdo, defendeu-se com sua própria espada, que só serviu para salvar a vida dele atrasando o ataque da guerreira de luz.

Kin se agachou, lhe passou uma rasteira mas não conseguiu finalizá-lo, a sombra à direita o salvou da morte certa ao atirar para bem longe a filha mais velha da fundadora da Terra de Áries com um soco. O inimigo não deu tempo a ela para reerguer-se e a atacou enquanto ela ainda estava caída, mas errou-a porque ela foi mais rápida, rolou para o lado oposto, ficou de pé e alcançou os céus num voo apressado, mas inteligente.

— Isso termina agora. — Afirmou, inflamando o chikara para brilhar como uma estrela. A luz fez os monstros desaparecerem e o cegou, o vulnerabilizou diante da joelhada que, a incríveis cinco mil quilômetros por hora, ela acertou no meio da testa dele.

Aparentemente derrotado, o corpo de Kirakage derrapou pelo chão até se encontrar com a árvore mais próxima e parar. Pretendia matá-lo, mas desistiu, achou que um talento como o dele com certeza seria útil para manter a ordem estabelecida por sua mãe e que já havia tirado vidas demais para um dia só.

Mas ele era teimoso. Teimoso e orgulhoso. Não admitiria a derrota e nem desistiria, só sairia dali morto. A misericórdia é um presente que só se dá aos fracos, mas se não consegue sair vivo de um combate por mérito próprio, para que continuar vivendo? Era assim que ele pensava, e com esse pensamento se pôs de pé, segurou a espada com firmeza e a atacou.

Ela, sem saída, se virou e transpassou-lhe o coração com a arma de luz, o matando na hora. Insatisfeita com o fim daquele embate, recuou para deixar o corpo dele cair e, com muito pesar, suspirou. Yume não iria gostar nem um pouco de tudo aquilo.

...

Nari estava preocupado. Kin disse que iria até ele assim que terminasse o combate, era a primeira vez que ela demorava tanto para derrotar alguém. Ele conhecia a fama do rapaz que ela estava enfrentando agora e, dada a demora, tinha motivos para se preocupar. Como pensou antes, se ela morresse, jamais se perdoaria, afinal a culpa seria toda sua porque, se ela tivesse se aliado a um retalhador de verdade, não só sobreviveria como venceria o torneio. Se ele não tivesse se matriculado no campeonato, a morte não seria um risco.

De repente, ouviu passos. Engoliu seco, ficou em guarda e se preparou, já estava considerando o pior. Esperava, é claro, que ela entrasse ali, mas se ele tivesse saído vitorioso da batalha, com toda a certeza não estaria no auge de suas forças e aí conseguiria vencê-lo, vingando Kin.

— Q-Quem está aí? — Sentiu as mãos tremerem, a espada que segurava quase caiu.

— Sou eu. — A imponente e feminina voz de sua aliada ecoou pelo local, alegrando o seu coração.

Ela conseguiu! — Sorriu. — Ela é a melhor...

— Quer ser útil? — Quando Kin finalmente entrou em seu campo de visão ele percebeu que ela não estava bem, pois estava caminhando com a ajuda da parede sobre a qual se encostava para não cair. — Me ajude a deitar e a cobrir o meu braço...

Ele correu até ela, lhe deu um ombro para se apoiar e a levou ao colchão mais próximo, onde a deitou. Com uma ideia em mente, disse:

— Vou lá fora procurar alguma coisa que sirva de gesso!

Antes que ele saísse da caverna, ela gritou:

— Tome cuidado!

Como resposta, ele ergueu o dedo polegar. Se estava destinado a provar a todos e a si mesmo que servia para alguma coisa, que era um retalhador, a sua hora de fazer isso havia chegado e outra chance igual não teria. Ainda que tenha que perder a vida, protegerá Kin e não permitirá que voltem a machucá-la.

...

Assim que o sol nasceu, Arashi estava de pé. Embora nas profundezas da terra, tinha uma visão panorâmica do mundo exterior graças à uma das suas mais características técnicas. A área estava limpa. Estimava que o campeonato agora contava com a metade dos participantes do dia anterior, no entanto que os mais fortes ainda estavam por aí.

Hora de sair e reduzir a concorrência, pensou, olhando para Sanami que, por insistência dele, repousara a cabeça sobre o mais cheio e confortável dos travesseiros que trouxeram. Ao contemplá-la, pôde vera sua irmã ali de novo.