Torneio das Legiões

8 8# - O sorriso de Saori.


8# — O sorriso de Saori.

De pé sobre a superfície, Arashi se sentia alegre só por poder sentir o sol esquentar a sua pele novamente, mas junto com esse sentimento, uma grande sensação de nostalgia preencheu o seu peito porque foi num dia como aquele, numa manhã tão bela quanto aquela, que seu pai o levou para acampar numa floresta. Ao olhar para o lado e ver Sanami, lembrou que a sua irmã mais nova também foi junto.

No geral seus pais e ela o descreveriam como um filho e irmão calmo, foi uma criança fácil de lidar, mas não naquele dia, porque naquele dia — até hoje ele não sabe porquê — agiu como um pestinha teimoso e implicante. Como a maioria dos garotos da idade que ele tinha na época, queria toda a atenção do pai para si e a disputaria com qualquer um, inclusive com a garota mais dócil e generosa da Terra.

Ele conseguiu o impossível: a irritou. Então os dois discutiram feio. Ele a magoou, ela quis voltar para casa na mesma hora, sozinha, correndo e como resultado, antes de enfim encontrá-la, a família viveu o que por muito chamou de as nove horas mais angustiantes de suas vidas. Talvez no seu íntimo ainda defina aquele como o pior dia de sua vida, nunca tenha se perdoado por tê-la tratado tão mal e talvez jamais vá, mesmo reconhecendo que era apenas um menino ciumento em busca da própria identidade, mas era grato por ter tido a chance de pedir perdão a ela e de sentir a sinceridade de seu sorriso quando ela disse que o desculpava.

Desde esse dia, focou toda a sua energia em ser o irmão mais velho que ela merecia e não parou de se esforçar nem um segundo antes de presenciar o último suspiro que ela deu naquela terra. A encorajou e aconselhou em cada um dos projetos que ela fez no curto espaço de tempo que teve de vida, foi o melhor amigo dela. Mas queria poder ter feito mais. Queria poder vê-la outra vez, conversar com ela de novo. Saber que não podia era o mais doloroso.

— O que foi? Captou alguma presença? — Sanami se aproximou. Ela não tinha muito orgulho de admitir, mas estava ansiosa para lutar. Era instintivo, o seu lado animalesco implorava por uma boa batalha.

Embora engenhoso, o plano de se esconder bem e esperar os mais fortes se destruírem era tedioso. Isso, nem Arashi negava.

Os flocos de neve invocados pelo guerreiro glacial caíam com ímpeto. Ele sorriu ao mais uma vez salientar as semelhanças que aquela garota tinha com a sua irmã mais nova, olhou para o céu e disse:

— Sim, eles... — De repente, a expressão em seu rosto mudou. Voltara a ficar sério. — Eles chegaram. Ken e Satoshi.

Os dois valentões que os confrontaram na sala de treinamento da espaço nave estavam, agora, a vinte metros de distância.

— Viu só, Ken? Foi como eu disse: aonde há neve, há Arashi.

O mais quieto estalou o pescoço, encarou o moreno e falou:

— Deixa ele comigo. Aquela coisinha linda ali é sua, se quiser. Só não me atrapalhe.

— Não precisava pedir, esse era o trato, não lembra? Só não o subestime, esse aí é do tipo que sempre cai de pé. Em compensação... — Sua atenção se voltou para Sanami, que levantou a guarda. — Acho que também terei muita diversão.

— Antes de começarmos, eu quero que me respondam uma coisa... — O guerreiro de olhos azuis deu um passo a frente, fazendo ambos erguerem suas guardas.

— Não está em posição de pedir nada, mas prossiga. Vou considerar este o seu último desejo. — Permitiu aquele que insistia em enfrentá-lo.

— Vocês contrataram os homens que tentaram me matar lá na Terra?

— Não sei do que está falando... — Respondeu Ken. Ele estava dizendo a mais pura verdade e isso estava estampado em sua face. — Vamos acabar logo com isso, você já adiou demais. Parece até que está com medo.

— De você? — Desdenhou dele, empunhando uma afiada estaca de gelo. — Se me escondi foi porque não tinha interesse em perder o meu tempo com lutas inúteis, mas já que você está aqui, faça valer a pena.

Satoshi investiu contra Sanami que reagiu à altura, defendendo-se.

— Ora, isso foi impressionante... É a primeira retalhadora aqui que bloqueia uma investida minha. O que acha de os deixarmos a sós? Eles têm uns assuntos pendentes e eu não acho muito legal ouvir a conversa dos outros...

— Boa ideia, mas — tentou chutar a cara dele, que com muita dificuldade se defendeu — vai se arrepender de ter sugerido isso.

Satoshi correu. Ela, entendendo que devia segui-lo, falou com Arashi:

— Tome cuidado.

— Você também. — Retrucou, antes de ela sumir diante de seus olhos.

Ken não queria saber de rodeios, já havia esperado demais; o atacou no minuto em que na arena ficou sozinho com ele, mas Arashi foi mais ágil e, com as mãos, segurou seu punho. Ken desferiu outros quatrocentos socos iguais ao primeiro, mas seu adversário, com alguma dificuldade, conseguiu desviar, um a um, todos eles. No fim, só depois de ter certeza de que não corria o risco de ser atingido, Arashi contra-atacou com uma joelhada, mas Ken protegeu-se.

Foi a vez de Arashi tentar acertá-lo, só que seus socos foram muito mais velozes e fortes que os dele, o que não mudou o resultado pois, assim como o guerreiro glacial, o careca desviou todos com as mãos, terminando ofegante, porém.

Sou superior a ele no combate corpo a corpo. Não muito, mas sou... — Arashi não demorou a perceber. — Tenho que dar um fim nessa luta antes que ele também se dê conta disso.

Ao recuperar o fôlego, Ken partiu pra cima dele e deu muito mais de si na chuva de socos que dessa vez fez cair, acertando, com muita perseverança, a primeira pancada do combate, um cruzado de direita na cara do jovem ariano. Ele, no entanto, não se intimidou, encheu o punho de força e deu o troco, mas levou mais um; assim os dois permaneceram pelos próximos segundos, até o rapaz mais inteligente da Terra de Áries encerrar com uma cotovelada que, no entanto, não vingou, só serviu para afastá-lo muito rapidamente, o que durou pouco porque Ken voltou lá e o atacou com afinco.

Não vou perder, não posso, a contragosto, o mais determinado dos dois ia notando que seu oponente estava bem mais calmo agora do que no início da luta e na distração de sua raiva, levou um soco na boca do estômago. Efetuou o contra-ataque, mas apanhou de novo, dessa vez levou um gancho na ponta do queixo, subiu dois metros e caiu sentado. Ao tentar levantar para continuar, deparou-se com a lâmina dele apontada para o seu pescoço.

Arashi lhe deu uma escolha:

— Renda-se agora se não quiser morrer.

Não conseguia acreditar. Se estava vivo, era por piedade. Perdeu para ele novamente. Ken abaixou a cabeça.

— Como ousa... Demonstrar compaixão para comigo. Um inimigo que te enfrentou com tanta garra... — Estapeou a espada, se reergueu e tentou socá-lo duas vezes, mas errou feio os dois golpes. Enfurecido, gritou com toda a força: — QUEM VOCÊ ACHA QUE É...?!

Arashi se agachou e escapou do primeiro cruzado, se agachou outra vez e driblou o segundo, deu um pisão no peitoral dele, enfiou uma estaca em seu ombro, construiu uma nova e o espetou outra vez, mas agora no estômago. A dor e a ausência de força fizeram Ken se prostrar aos pés dele, como o fiel na presença do deus que adora.

— Sua participação neste torneio se encerra aqui. Se você se levantar de novo, eu vou te matar. — Avisou.

— Maldição. Você me venceu de novo... — Estava incrédulo. Por anos se dedicou, treinou para superá-lo, mas de nada valeram os seus esforços. Estava como no início: prostrado diante dele.

— De novo? — Arashi não se lembrava de já tê-lo enfrentado.

— Você não se lembra mesmo, não é? Não se lembra do dia em que você me desgraçou, que me humilhou na presença do meu sensei? No torneio para o teste de ingresso ao grupo de elite da Terra de Áries, há um ano. — Os seus olhos emanaram um brilho muito forte, um que não tinha uma cor específica, mas várias, como num arco íris oscilante. Ele lentamente se pôs de pé, livrou-se das estacas que penetravam seu corpo e encheu as mãos de energia. — O que foi? Achou mesmo que eu deixaria aquilo se repetir? Eu já não sou mais o mesmo, isso não vai acabar comigo no chão. Se vou morrer, não vou sozinho!

A sua última frase antecedeu um disparo de luz linear do qual, por causa da distância e da velocidade, era impossível para qualquer um se esquivar. As sucessivas explosões envolveram o corpo do alvo, que no centro delas tornou-se uma vaga silhueta distorcida.

O brilho, o calor e o som das detonações chamaram a atenção de Sanami e Satoshi; ela se preocupou, ele sorriu.

Se chegou a este ponto, é porque Arashi o superou, então ou o Ken se explodiu para levar ele junto ou conseguiu atingi-lo. — Pensou, fitando o local de origem das explosões.

Arashi... — Sanami esperava que estivesse tudo bem.

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