Torneio das Legiões

4 4# - Estratégia vencedora: morte súbita!


4# — Estratégia vencedora: morte súbita!

A nave Zaratustra pairava a atmosfera do planeta ao qual se destinou há três dias e, de cinco em cinco minutos, enviava para dentro dele uma pequena cápsula de viagem que descia transportando uma dupla de participantes para o ponto cardeal deliberadamente escolhido pelos dois. Até o momento, mais de quinhentas delas atingiram a superfície e os seus passageiros se espalharam pela região.

Ansiosa, Sanami aguardava a sua vez dentro da sétima cápsula na linha de sucessão, a seu lado, obviamente, estava Arashi, que notou seu nervosismo e segurou a sua mão, atraindo o seu olhar. No segundo em que a escotilha se abriu, eles olharam para frente, fecharam os olhos e se desejaram sorte.

Com uma velocidade de descida de quinhentos metros por segundo, não precisaram de muito tempo para tocar o solo da região noroeste daquele local que, por dentro, possuía uma aparência muito selvagem. Eles aterrissaram na área mais desértica e calorosa do mundo inteiro, o objetivo do guerreiro glacial era confundir aqueles que tinham uma noção da natureza de seus poderes.

Uma pequena portilha foi aberta sobre o vidro blindado, através dela os dois saíram e se impressionaram com a vastidão do espaço que estava ao seu dispor. Como, provavelmente, os primeiros a chegar, podiam explorar os seus recursos naturais como bem entendessem, um privilégio do qual, quem viesse depois, estaria privado.

— O que faremos primeiro? — Sanami queria saber o que ele planejava para começar.

Arashi fechou os olhos, abaixou a cabeça, abriu as mãos e estendeu seus braços. A sua volta, o clima esfriou, o céu se acinzentou e uma tempestade de neve teve início, mas nem ele e nem ela estavam sujeitos aos malefícios disso, o que a fez estar certa de que foi obra dele.

— Agora sei onde cada um dos nossos inimigos está. Vamos evitá-los, os atacaremos sem permitir que saibam de onde vieram os ataques.

— Onde nos esconderemos? — Por ali não haviam cavernas e nem túneis subterrâneos, estavam num enorme espaço vazio, no meio do nada.

— Se ficarmos aqui vão nos achar rápido, eu emanei energia demais, nós temos que nos afastar daqui o máximo que pudermos. — Selecionou uma área qualquer, apontou para lá e chamou Sanami: — Vamos por ali.

— Entendido.

E então o casal seguiu correndo até a parte aleatoriamente escolhida pelo retalhador que criava e controlava gelo, onde esperavam encontrar um seguro e confortável abrigo.

...

Confiante quanto ao resultado daquele torneio, Kin passeava pela floresta arrastando pela cabeça os dois últimos lutadores que se atreveram a enfrentá-la. Eles não estavam mortos — ela achou que não valia a pena assassiná-los, o que contrariava o pensamento de Nari, que temia que os dois se levantassem e agissem traiçoeiramente.

Sempre sete passos atrás da loira, quando questionado ele se dizia o seu vigia, os olhos que ela não tinha na nuca, ela, contudo, sabia seus verdadeiros motivos, e na sua opinião, a covardia estava no cerne deles. Mas não ligava... iria vencer aquilo com ou sem ajuda. Como a guerreira arrogante e orgulhosa que era, já reconheceu aquele campeonato como indigno de sua participação e seus concorrentes, muito abaixo do seu nível. Todos eles, sem exceção.

De repente, parou de andar. Largou os derrotados que estava carregando como troféus e olhou para trás por cima dos ombros. Escutou algum barulho e a sua intuição lhe dizia que corria perigo, se aprendeu alguma coisa em todos os anos que tem trabalhado como retalhadora, foi a nunca ignorar a intuição.

— Eu ouvi algum barulho! — Avisou Nari. Ainda bem que não havia sido a única.

— Também ouvi.

Um disparo, uma flecha de energia azulada veio do alto das árvores, caiu sobre onde Kin estava e explodiu gerando um brilho que cobriu toda a floresta, deixando, onde ela estava, uma pequena cratera que se revelava conforme as nuvens de poeira se dissipavam. Ao não vê-la mais ali, Nari entrou em pânico.

O responsável pelo tiro — um rapaz de pele clara, camisa branca, colete a prova de balas, rosto coberto do nariz para baixo e cabelos negros — desceu até lá para ter certeza de que ela não estava viva. Desviar, achava ele, não era possível. Nada era mais rápido do que as suas flechas, nada e nem ninguém.

Que incrível, eu não consegui ver nada! — Nari estava em choque. Não sabia o que fazer. Recuou um passo tímido quando, com a intenção de deixá-lo com medo, o atirador, sem se virar totalmente, o encarou. — V-Você... você a matou...

— É, matei. — Virou-se para ele, construiu um arco de energia pura, uma flecha, apontou-a para Nari e falou: — E você será o próximo.

Mostrando que ainda estava viva, Kin voltou voando e socou, com toda a força, a cara do arqueiro, que arremessado pelo golpe, colidiu de costas para o tronco da árvore que nascera a quinze metros de seu ponto de partida e caiu sentado.

— Ainda está viva. — Nari começou a chorar. — Ainda está viva...!! — Ele tentou abraçá-la mas, pondo a mão na cara dele, Kin o manteve afastado.

— É claro que eu ainda estou viva, seu paspalhão. — Arrogantemente ela bradou.

Para o garoto mascarado, a ideia era absurda. Inconcebível.

— Como...? — O rapaz ainda estava tonto por causa da pancada, o que só foi ficando claro quando ele tentou se levantar mas caiu na mesma posição. — Como fez para... esquivar? Não existe nada mais rápido do que meus tiros, ninguém deveria ser capaz de escapar deles... Ainda mais a essa distância.

— Se te faz sentir melhor, eu não me esquivei, só usei minha técnica dos disparos de luz para anular o seu disparo e saí de lá bem rápido para te pegar desprevenido. — Explicou.

— Shh, não conta pra ele!

— Você cala a boca! Se eu não tivesse escapado, você teria morrido sem sequer errar um soco desde que pisou nesse planeta! Você pelo menos fez um exercício físico?!

— Não vá pensando que isso acabou, retalhadora de elite. — O arqueiro estava de pé novamente. — Eu não vim aqui para perder de uma forma tão humilhante. Se vou morrer, levarei você comigo! — Levantou o arco e esticou a flecha para lhe acertar, mas antes que seu dedo indicador fizesse o mais mínimo movimento, a loira esmurrou o seu estômago com o máximo de força e velocidade que foi capaz de reunir, impedindo-o de efetuar o disparo.

As dores estomacais decorrentes da porrada o levaram a achar refúgio na árvore e, em seguida, no chão, onde ele terminou sentado outra vez.

— Você levou não um, mas dois dos meus socos mais fortes e ainda está vivo, consciente. Além da minha mãe, só conheci um lutador capaz disso... — Estava pensando em Arashi. — Por isso, não posso deixar que viva. Você é um oponente perigoso. — E, a partir do nada, construiu uma espada dourada com a própria energia, ergueu-a e se preparou para executá-lo, mas quando estava pronta para fazê-lo, uma garota misteriosa apareceu e, pondo uma espada de coloração azul e forte brilho na frente, salvou a vida do arqueiro mascarado.

A fim de afastá-la, a menina girou e desferiu um chute diante do qual Kin não se deixou enfraquecer, mas embora tenha se defendido, foi repelida para a distância mais segura possível dos dois parceiros.

— Irmão! Você está bem? — Com isso, ela conquistou a misericórdia dos dois adversários que, mesmo tendo decidido não matá-los, não abaixaram sua guarda.

— E-Estou... — Respondeu, apoiando-se na moça para conseguir ficar de pé. — Vamos embora daqui. Pegamos eles depois...

Na hora, Kin, que já havia visto uma vítima dos seus socos agir daquele jeito antes, teve certeza de uma coisa:

— Ele não vai durar muito tempo. Vá com o seu irmão para um local bem isolado e se despeça. Existiram e ainda existem poucas pessoas nesse mundo capaz de resistir a um soco meu, não se envergonhe disso.

— Cale essa boca! Se está pensando que acabou aqui, que essa é... que é a última vez que nos vê, está muito enganada!

— Se insistir em me enfrentar, você vai morrer. Enquanto luto, não posso controlar a minha força, eu me deixo levar.

— É? — A guerreira se sentiu menosprezada. — Posso dizer o mesmo!

— Akane! — Seu irmão, apoiado nela, chamou sua atenção. — Vamos pra longe daqui, nos preocuparemos com ela depois.

— Mas irmão, ela está nos humilhando! Não vou deixar isso continuar!

— Nem se lutássemos juntos conseguiríamos vencê-la, e ainda tem esse parceiro dela cuja força e a essência são desconhecidas. No entanto, com uma aliança e uma boa estratégia, tiraremos ela do jogo. Por hora, devemos recuar. — Retrucou.

A contragosto, antes de sumir dali junto com ele, concordou:

— Certo.

Nari estava confuso.

— Você vai deixá-los ir?

— Vou. O garoto não vai passar dessa noite e a garota se ilude se pensa que alguma estratégia ou todo o exército que ela reunir vai ser páreo pra mim, mas vai ser divertido. Vamos andando. — Falou, recomeçando a caminhada.

— Mas... você não quer vencer isso? — A indagou, seguindo-a.

— Quero.

— Então por que não os tirou da competição? Facilitaria muito e nós dois poderíamos dormir a noite despreocupados!

— Porque eu não quero que seja fácil e não quero dormir despreocupada, não é assim que isso é para ser, é pra ser difícil, é para sentirmos medo. Mais alguma pergunta?

— Tenho. Podemos achar uma caverna, montar uma casa ou algo assim? Detesto a floresta, tenho nojo de insetos.

— Não. — Respondeu. — Ainda tá muito cedo, quero eliminar mais alguns do torneio para reduzir a concorrência.

— Quando procuraremos abrigo?

Ela respirou fundo. Já estava começando a se irritar com ele.

— Quando o sol começar a se pôr. Agora cala a boca.

— Por quê? Já sei, quer que nossos inimigos não saibam que nós estamos chegando!

— Não, é porque o som da sua voz me irrita.