Torneio das Legiões
5 5# - Uma investida das sombras!
5# — Uma investida das sombras!
Mesmo sendo agora inimigos dela, Sanami e Arashi não escondiam a sua preocupação com Kin. Ele a conhecia desde que tinha somente quatro anos de idade, sabia muito bem que estava sendo bobo, afinal ela era tão capaz quanto ele de cuidar da própria vida, porém conhecia seu gênio e justamente por isso estava temendo pela segurança dela. Ela era o tipo de garota que, às vezes, se deixava guiar pelo que estava sentindo no momento, não considerando tudo o que poderia vir depois como resultado de suas ações — isso, dependendo das circunstâncias, era uma louvável virtude, mas à custa de outras, um defeito. E um dos graves.
A casa em que estavam escondidos foi construída por ele, que no intuito de criar uma fortaleza segura, mas ao mesmo tempo oculta, fundou o casebre no interior da terra, fazendo da moradia um esconderijo subterrâneo. Não era a residência dos sonhos de alguém, na realidade não passava de uma caverna com um enorme espaço vazio onde eles deitavam os colchões que pegaram da nave e repousavam suas cabeças.
Só ela estava deitada, ele estava fritando os peixes que pegaram em um pequeno lago próximo das redondezas, usando o fogo que ascendeu riscando duas pedras. Como Sanami fez a maior parte do trabalho, disse a ela para ir se deitar que a serviria quando pronta a comida, mas a menina estava inquieta e, portanto, se sentou.
— Será que está tudo bem com ela? Sem ofensas, mas eu não consigo... parar de pensar que foi muita frieza da nossa parte deixá-la.
— Você não tá errada... — Atravessou o peixe frito com o espeto de gelo que concretizou e o entregou a ela. — Foi frieza, mas foi o melhor que nós dois poderíamos ter feito. Se conheço a Kin tão bem quanto acho que conheço, ela nos derrotaria no nosso primeiro descuido, não dá para confiar nela quando ela entra no "modo competitiva". Ela deve ter lutado o dia inteirinho, assassinado milhares de lutadores diferentes e não vai parar até desmaiar de exaustão, é aí que entra o Nari, que vai parar de se sentir inútil ao levá-la para descansar em um lugar seguro. Pode relaxar, ela está bem. — Espetou o segundo peixe e o mordeu com cuidado para não queimar a boca.
Sanami olhou em volta, lembrou que não dava para ver as horas porque estavam no subsolo e encostou a cabeça na parede, ao lado de onde pusera o seu colchão.
— Que horas devem ser?
Arashi tapou o olho direito com o dedo indicador, concentrou uma quantia moderada de energia na pálpebra, elevou a mão esquerda até mais alto que o seu rosto e, assim, foi capaz de ver o mundo exterior.
— Já anoiteceu, devem ser umas onze e pouca da noite. — Desativou sua técnica. — Kin, pare de lutar, seja sensata! Um guerreiro de verdade sabe que um dos princípios da sabedoria em combate é reconhecer e respeitar os limites do corpo... Recuar não é sinônimo de fraqueza.
...
Infelizmente, as previsões de Arashi sobre ela estavam todas certas, pois desde o segundo em que pisou naquela nova superfície planetária, Kin só lutou e nem ao menos cogitou uma pausa para descansar. Fria, cruel e imparável, ela parecia uma máquina de extermínio, alguém sem a mais vaga semelhança com o que chamavam de humano.
Muito embora não gostasse da ideia de matar seus compatriotas, ela não se segurava quando eles iam para cima e acabava dando a todos uma morte terrível, muito pior até do que a que teriam se lutassem contra o pertencente de outro planeta. O último indivíduo que perdeu a vida por suas mãos foi um rapaz que teve a garganta perfurada pela espada dela e a cabeça separada do corpo.
As suas roupas estavam sujas de sangue, mas de todas as gotas rubras que manchavam suas vestes, nenhuma saíra de suas veias. Sua lâmina deixou de ser reconhecível, seu olhar, entretanto, não mudou desde a primeira vítima que fez. Seu ar era o de um lutador imbatível. Aos seus olhos, em todo aquele mundo, não existia alguém que oferecesse riscos reais à sua vida — se tivesse a mais remota ideia do quão errada estava, sorriria.
— Podemos ir descansar? — Nari bocejou. Estava desmaiando de sono. Já a havia visto cometer tantas atrocidades que até parou de se espantar, todos, sem exceção, sofreram uma morte horrorosa ao tentar enfrentá-la: sua vitória estava garantida, a seu ver. — Eu vi uma caverna a cem metros daqui, lá atrás das montanhas.
— Eu disse que pararíamos pra descansar à meia noite, são onze e meia. Além disso, nem sei porque você está cansado, fui eu quem fez tudo!
— Estamos andando desde cedo! Não aguento mais...
— Aguenta, sim! Você é um retalhador! Deixa de ser... — A presença que encheu todo o espaço a cortou no meio da sentença e, por através da sombra de seu companheiro, um matador misterioso materializou-se e tocou a lâmina no pescoço dele sem exercer qualquer pressão.
Ele quer nos render, Kin não sabia quem ele era, o que queria ou do que ele era capaz, mas seu orgulho, obviamente, não permitiria que ela sujeitasse-se às condições dele e coordenou um ataque reflexivo, instantâneo e que, por sua vez, terminou por livrar Nari das mãos dele ao obrigar o oponente a soltá-lo e recuar para salvar a si mesmo da investida dela.
— Ela é louca...!! — O rapaz percebeu num instante o que o aliado dela, em três dias, não: Kin não dava a mínima para morrer ali. Bem, ou não dava a mínima ou, por alguma razão, sabia que morrer não era uma opção. Sorriu, se recompôs e se apresentou: — Meu nome é Kirakage. Ouvi falar muito de você, Kin Kaminari. Em menos de vinte e quatro horas já eliminou quase dois mil, é um número impressionante. Um recorde histórico. Perdendo ou vencendo, será lembrada. No entanto, aquele que te matar terá mais honrarias, será temido o resto de tempo que tivermos aqui... esse serei eu!
— É o que nós vamos ver. — Aprontou a espada de luz. — Nari, vá para a caverna que você disse ter encontrado a cem metros daqui, descanse. Cuidarei dele e irei para lá.
— Mas e se ele tiver um parceiro? Eu tenho que ficar aqui para te avisar!
— Acreditem ou não, eu matei o meu parceiro assim que descemos aqui. Me ofende acharem que preciso de ajuda para sobreviver nesse lugarzinho.
— Vá, Nari. Não se preocupe. Se eu não voltar em cinco segundos, saia o mais rápido possível de onde estiver.
— Cinco segundos? Não está exagerando...? — Kirakage detestava muita coisa, mas nenhuma tanto quanto ser subestimado.
— Tem razão. — Ela riu. — Se eu não voltar em três segundos, saia de lá porque se por um milagre esse aí for capaz de me derrotar, ele vai tirar minha pulseira e vai usá-la para te achar.
Assim, concordou em fugir dali. Em abandoná-la. De novo. Se gostava disso? Não, não gostava.
— Vai aprender a não fazer pouco dos seus adversários antes de ver seus poderes. — O garoto manifestou uma aura de energia negra que só fez tornar mais escuro o tom da noite. Kirakage tinha a altura de Kin, sua pele era clara e ele se vestia como um ninja, seu rosto era coberto, visíveis só seus olhos e seu nariz.
— Quero aprender isso desde que cheguei aqui. Não me decepcione.
...
Souta estava morrendo e, embora houvesse demorado para reconhecer, a ficha finalmente havia caído para a Akane, que visando tornar os seus últimos minutos mais confortáveis, deitou sua cabeça em um travesseiro de plumas e seu corpo, numa esteira improvisada composta de espessas camadas de folhas de bananeira.
Ela estava em prantos. Inconsolável. Seu irmão era tudo o que ela tinha.
— Foi culpa minha! — Lamentava-se a jovem. — Eu insisti que viéssemos pra cá, se eu não tivesse feito isso... você estaria bem. E estaríamos treinando com nossos amigos... como eu vou explicar isso pra Kana?
— Você não tem culpa nenhuma disso... — Sorriu para ela. — Eu vim pois achei que estava preparado... Não se... s-se preocupe em explicar pra Kana... Ela não liga t-tanto pra mim...
Akane enxugou as lágrimas.
— Está enganado. — O contradisse. — Lembra quando saímos de casa e ela me chamou? Ela confessou pra mim... que gosta de você. Me pediu pra não te dizer nada porque ela iria te dizer quando voltássemos... seria seu presente por vencer. Ela acredita em nós dois. Sei que você fez isso por ela, que queria deixá-la orgulhosa e achava que isso iria fazer ela te amar...
Souta pôs a mão no rosto dela e, antes de expressar seu último suspiro, admitiu:
— Não fiz isso por ela, f-fiz... por você... era você que eu queria orgulhar, irmã...
Em seguida, seus olhos se fecharam para sempre. Akane já não era mais capaz de chorar. Sua expressão não era de tristeza, era de raiva. Ódio. Outra coisa que não suportava era ser a sobrevivente. Queria lutar, fazer as pararem de morrer por ela. Queria reivindicar seu direito de morrer com honra e assim o faria.
Tomará uma atitude inédita: vingará a morte de seu ente querido. Kin, a assassina dele, pagará por aquilo com a própria vida.
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