Torneio das Legiões

1 1# - O torneio.


1# — O torneio.

O continente acamariano estava agitado. Era um dia especial para toda a Terra de Áries, o entusiasmo dos arianos era tão contagiante que contaminou à própria natureza, que em resposta fez luzir um enorme sol amarelado e limpou os céus das nuvens. O azul claro e o dourado do sol eram as duas únicas cores que a abóbada celeste emitia, mesmo os pássaros faziam questão de esboçar o seu respeito pelos tempos que residiam no porvir, os ventos se abrandaram, os mares descansavam.

Os cinquenta mil lutadores que se inscreveram no torneio anunciado pelo atual primeiro ministro do planeta, o venerável Hanzuki, reuniram-se na frente do palácio do planalto para ouvi-lo detalhar as diretrizes do processo adiante e enquanto ele falava, suas palavras transcendiam a atenção dos que estavam lá presentes porque não se prendiam ao público físico, mas também ao que ouvia de casa através da televisão.

Arashi e Kin, dois dos milhares de retalhadores inscritos, se enquadravam no primeiro grupo. O moreno de olhos azuis, pele azeitonada, corpo robusto e vestes simples acabava de chegar, demorou mais do que esperava porque, no trajeto, um imprevisto tentou impedi-lo de se fazer presente ali — na verdade três, se estavam contando.

A sua camiseta branca, sua calça jeans preta e suas botas estavam sujas, marcadas com o sangue dos assassinos contratados para não permitir que ele se reunisse com os demais. Os matadores de aluguel receberam a missão de retirar não apenas ele do páreo, mas também Kin. As informações dadas pela sua fonte mais confiável diziam que os dois estavam sempre juntos, o que não foi o caso, para a sorte do trio.

A loira alta de olhos castanhos escuros, cabelos encaracolados e de corpo esbelto virou pacientemente ao perceber que alguém parou ao seu lado, sabia que era Arashi antes de olhar, mas surpreendeu-se ao ver o estado em que as roupas dele se achavam.

— O que houve? — Ele não a preocupava, ela sabia da habilidade que sua dupla tinha para cuidar de si mesmo. Perguntou por curiosidade.

— Nada, só descobri que, aqui no nosso meio, há pessoas que têm medo da competição. Tentaram me matar. — Revirou os olhos em desaprovação. Não estava irritado, só decepcionado. Esperava mais de seus compatriotas. — E aí, perdi alguma coisa?

— Não, o senhor Hanzuki começou a falar agorinha.

Ouvir isso aumentou o seu desdém para com o responsável pelo que teve que fazer. Além de recorrer a um método tão antiético para se certificar de que ele não comparecesse no lugar marcado, não teve a decência de avaliar a real medida de sua força para contratar guerreiros que oferecessem algum desafio, pelo menos.

Que idiotas. — Debochou, mentalmente. Desrespeitar seus adversários não era de seu feitio mas além de, daquela vez, achar que mereceram, Arashi estava tendo uma semana muito ruim.

Quando o seu pai ainda estava vivo, os dois treinavam juntos para aquele evento. A sua participação, bem como uma performance honrável, era o sonho que eles compartilhavam. O seu triunfo, caso acontecesse, seria mero detalhe. O que mais lhe interessava era destacar-se, ver seu nome entre os melhores. Qualquer ambição maior ficava para depois.

Foi por ele que se inscreveu. Prometeu não ganhar, mas ser respeitado e temido ao redor de todo o globo, no final. Perdendo ou vencendo. Morrendo ou sobrevivendo. Essa era a meta, o maior vínculo que criou com ele, exatamente por isso, de uns tempos para cá, tem tido dezenas de pesadelos, acordado de mau humor e comido pouco.

Não, não havia pressão nenhuma sobre aquele campeonato. Seu pai era o primeiro a lhe dizer que o mais importante de tudo era não se pressionar, se controlar era o essencial. O problema, no final das contas, era o simbolismo da presente data ao seu coração. Nem parecia que ele havia morrido mesmo. Se fechasse os olhos, convenceria-se que não.

Fechando os olhos, podia imaginar-se adentrando sua casa, encontrando a mãe na cozinha, os irmãos no quintal e o pai afiando alguma lâmina contra o gosto da esposa, afinal a vida que ele teve não era a mesma que ela desejava a seus filhos, permitia os treinamentos com algumas concessões por parte dos dois e com supervisão.

— Arashi... Arashi...! Arashi. — Como ele parecia não estar lhe ouvindo, a loira o cutucou e sacudiu. Ao voltar do mundo da lua, olhou para ela, que disse para ele: — O anúncio acabou.

— O quê? — Olhou ao seu redor e viu todos irem embora, olhou pra cima e não viu mais o primeiro ministro sobre o púlpito. — Quanto... Quanto tempo passou?

— Desde que você chegou aqui? Meia hora. — Respondeu, assustando-o. Ele estava viajando. Por isso não respondeu suas perguntas durante o discurso do ancião.

— Caramba. — Ficou impressionado. Em todas as épocas de sua vida nas quais lembrava da infância que teve, refletia sobre o rumo que os seus passos poderiam ter tomado, o que o deixava avoado e por vezes retirava-o do ar por horas. — O que eu perdi?

— Que temos que fazer as nossas malas porque, às oito da noite, a nave Zaratustra vai deixar a Terra e que se quisermos saber quem será nossa dupla, devemos comparecer no congresso de Acamar às uma e meia da tarde. Lá, darão também mais detalhes sobre o endereço da espaçonave. O resto, eu te conto no caminho. Vamos. — Apertou a bunda dele.

— Para! — A repreendeu, envergonhado. Ter se acostumado ao assédio e as piadas de duplo sentido dela não o isentava de corar.

Kin e ele se conheciam desde que tinham cinco anos de idade, mas nem sempre foram amigos, a maior parte desse tempo ele foi, para ela, um rival, a criança com quem disputava a atenção de sua falecida mãe, que, solidária com uma amiga e à tragédia que lhe sobreveio, o acolheu e cuidou dele pelos anos seguintes.

Seu ponto de vista sobre ele mudou depois que Yume lhe contou sobre o ocorrido com a família Suzume. Passou a ser mais amistosa, mais carinhosa, a tratá-lo com generosidade, e depois que sua mãe morreu, foi a vez dele de ser solidário com ela, tomou para si o dever de cuidar dela e a ajudou a sobreviver à morte da ex primeira ministra, portanto foi questão de tempo até ela se apaixonar, pela primeira vez, por ele.

...

Após aprontar as malas, Arashi deitou a cabeça sobre um travesseiro e lá, pensativo, começou a reviver cada instante de sua vida. Os bons, os ruins, os tediosos. Tinha somente quinze anos, mas já vivera muito mais do que a maioria dos homens com o dobro, o triplo, o quádruplo e até o quíntuplo disso.

Que injusto, pensava, sem a intenção de reclamar. A vida é injusta e não há reclamação que mude isto. Com a mão direita à frente do rosto, protegeu a vista do brilho solar, calor que invadia seu quarto através da janela à direita de sua cama.

Seu quarto era pequeno, tudo o que tinha era a estante onde ele punha as roupas e os livros, a cama de um beliche e centenas de livros sobre os mais diversos assuntos espalhados pelo chão. Organização não era muito sua praia, nem o luxo ou a vaidade. Algumas peças de roupa, uma escova de dentes e os livros que mais prendiam a sua atenção seriam suficientes para entretê-lo na viagem.

Ouviu batidas na porta. Sentou-se. Ouviu mais batidas.

— Pode entrar, eu estou aqui no quarto. — Provavelmente era Kin.

Giraram a maçaneta e passearam na direção do cômodo em que ele disse estar. Se era mesmo ela, não veio desacompanhada.

— Tá vestido? Se não estiver, não se vista porque estamos entrando... — Agora tinha certeza de que era ela.

— Pode entrar. — Riu.

De fato, a loira não estava só. Uma garota branquinha, baixinha, de olhos claros como os dele e cabelos escuros como os dele a acompanhava. Ele ficou pasmo. Não pela beleza dela, mas pelas semelhanças físicas entre a menina e Saori, sua falecida irmã mais nova. Atônito, se levantou da cama.

Seu olhar era o de quem havia visto um fantasma. Tecnicamente ele não estava errado, ela o colocou em estado de transe. Quase podia vê-la de novo, as diferenças eram discutíveis, as semelhanças, inegáveis. Estalando os dedos frente à face dele, Kin o despertou.

— O que foi isso? Amor à primeira vista? — Disse ela, fazendo a menina corar.

— Desculpa, é que... você me lembra muito alguém.

— Tudo bem. — Sorriu desconcertada, ofereceu-lhe a mão e apresentou-se: — Me chamo Sanami.

— Sou Arashi. — Apertou a mão da morena.

— Vocês dois vão fazer dupla. Só vim aqui para trazê-la, mas já estou de saída, tenho que encontrar o meu novo parceiro. — Saiu, voltou e falou: — Divirtam-se, nos vemos na espaçonave. Não façam nada que eu faria. Foi um prazer conhecer você, Sanami.

Arashi balançou a cabeça. Essa Kin...

— Não liga pra ela, Kin é boba assim mesmo.

— Eu gostei dela, é legal. — Sorriu.

— Quer sair para tomar um sorvete?

Ela, retraída, disse que sim com a cabeça e concordou:

— Pode ser, assim conversamos e nos conhecemos melhor, já que vamos depender um do outro num planeta desabitado, temos que, pelo menos, poder conversar à vontade.

— Certo... — Geralmente ele não era tão inibido com garotas, o problema era que as semelhanças que aquela menina compartilhava com a Saori não paravam de aparecer e muito menos de chocá-lo. — Só vou tentar pensar em uma forma de encontrar a minha carteira no meio dessa bagunça toda, isso é, se for possível.

— Vou esperar lá na sala. — Sorriu.