Topo do mundo
3 Padrinhos
— Então, eu quero te convidar formalmente para ser nosso padrinho...
— Eu? — Zoro ficou surpreso ao olhar o convite e mexer na gravata rosa chá. — Nossa, Robin. Obrigado.
— Eu que agradeço — ela sorriu.
— É uma honra. — Zoro deu um sorriso discreto.
Ele era um cara fechado, é claro. Robin já estava acostumada. Desde sempre, Zoro foi muito discreto com seus sentimentos, não era carinhoso ou expansivo, mas isso nunca a incomodou. Na verdade, sempre fez muito bem para o acordo que fizeram quando mais jovens. Hoje, Robin via que era mesmo o jeito dele. Não significava que tinha menos sentimentos por isso.
— Quem mais serão os padrinhos? Poderíamos combinar algo...
— Hum... — Robin pensou um pouco, mas, ele teria que saber uma hora. — Sim, são... Koala, Nojiko, Usopp e Kaya, você... e... ah, sim, o Sanji.
— Hum. — Fez ele. — E eu vou fazer par com quem?
— Com quem você quiser.
— Hum — fez de novo.
— Espero que isso não seja um problema, mas agora você já aceitou. Não pode voltar atrás.
— De forma alguma.
Em outro canto da cidade, a voz de Sanji ecoou:
— Vocês o quê?!
— Chamamos o Zoro para ser padrinho! — Nami se encolheu.
— Mas que merda, Nami! Eu não quero mais!
Sanji estava furioso. Nami sabia que devia ter contado para ele antes, mas não imaginava que a reação seria tão explosiva. Ou que ele ficaria tão irritado. No entanto, ela tinha que defender a noiva e, ainda, manter Sanji como padrinho.
— Eu nem sei direito por que vocês terminaram! A Robin é amiga do Zoro há anos, o que você esperava?!
— Nós terminamos porque ele é um cabeça de alga estúpido, grosso e desatento. — Sanji empurrou o prato para longe ao dizer isso.
Eles estavam no Baratie, Nami foi lá almoçar com ele. Pelo menos eles não estavam na área comum do restaurante.
— Por que você não fala sobre isso?
— Porque não quero. Não vejo sentido. Nós terminamos, foi péssimo, ponto final. Agora, eu serei obrigado a ser padrinho de vocês junto com ele. Que ótimo. Perfeito. Quer saber? Eu não vou deixar de ser padrinho. Não, mesmo. Vou ser o melhor padrinho que vocês já tiveram. E também o melhor cozinheiro. Enquanto isso, Zoro vai ser só uma celebridade azeda que vai posar para as fotos com vocês.
Nami mexeu as sobrancelhas, um pouco chocada com o entusiasmo de Sanji, ainda que fosse algo negativo. Ela só não queria que ele, por ficar furioso com a situação, deixasse de ir ao casamento, ou qualquer coisa do gênero, porque isso seria inaceitável. Nami devia muito a Sanji, por muitas coisas. A amizade que cultivava com ele era única. Não podia casar se ele não estivesse na cerimônia.
— Eu sinto muito, mas a Robin faz questão do Zoro ser padrinho. Não ligue muito para isso, Sanji. Garanto que não será constrangedor.
Sanji revirou os olhos.
Quando encontrou com Robin mais tarde, Nami só tinha uma coisa a dizer.
— Vai ser muito constrangedor.
— É. — Robin coçou a cabeça. — O Zoro reagiu bem, não demonstrou nada, mas isso não me deixou surpresa.
— O Sanji não gosta de falar sobre isso, só de xingar quando tem oportunidade. Mas bem que o Zoro mereceu. Ele disse algo para você?
— Não, e eu não perguntei.
— Claro que não perguntou. — Nami deu um beijinho em Robin e foi andando para o quarto. — Eu tenho que preparar minha roupa, amanhã cedo tenho que ir para o trabalho. Mas é o último dia! Depois, férias!
Robin deu um sorriso alegre.
— Vai faltar apenas algumas escolhas com a Hancock. Depois, é só esperar o grande dia.
Nami virou-se para Robin e, com um sorriso carinhoso, viu-se obrigada a caminhar de volta até ela para trocarem um abraço e um beijo.
— Nem acredito, Robin. Nós vamos nos casar.
— Vamos sim. — Robin sussurrou ao abraçá-la.
No dia seguinte, Sanji, em seu horário de trabalho mais atarefado, quando o restaurante estava cheio, revirou os olhos para o funcionário que dizia:
— Tem uma pessoa querendo falar com você.
— Se não for o presidente, pode mandar embora. — Sanji tentou ser divertido apesar do estresse. O funcionário não entendeu.
— Não é.
— Então mande embora.
Depois de um tempo, enquanto gratinava uma massa, Sanji revirou os olhos de novo:
— Ele está insistindo.
— Ele te disse o nome? Não estou entendendo seu jeito de dar recado.
— Ah, é. É Zoro o nome dele.
— Não estou disponível. — Sanji pôs o prato de lado e já aproveitou para mandar o funcionário levar para a mesa que fez o pedido. — Por favor, eu estou muito ocupado para conversar com o Zoro agora. Se ele quiser, pode esperar.
E esperou.
Quando Sanji encerrou as atividades do almoço, Zoro ainda estava lá. Na porta, parado, esperando. Foi a terceira revirada de olhos pelo mesmo motivo, e Sanji não podia acreditar que aquilo estava acontecendo. Ficou pensando se Nami falou algo para ele, mas ela jamais faria isso. Então, o que era? Terminou algumas coisas e decidiu que teria que enfrentá-lo; caso contrário, Zoro não sairia daquela porta tão cedo. Ele podia ser bem teimoso.
Sanji saiu porta afora do restaurante e acendeu um cigarro.
— Oi — tentou aparentar tranquilidade.
— Oi. Podemos conversar?
— Claro. Vamos lá atrás.
Sanji caminhou com Zoro para o beco lateral do restaurante. Eles costumavam conversar ali com frequência, especialmente quando Zoro aparecia de surpresa e Sanji queria um pouco de privacidade. Não era um lugar romântico, porque tinha imensos latões de lixo, mas era bem reservado. Pelo menos não era fedido.
Respirou fundo quando parou de frente para Zoro e mexeu as sobrancelhas, incentivando-o a falar.
— E então?
— Eu vim falar sobre o casamento. Sei que você também será padrinho, e quero que nós dois possamos sobreviver ao evento sem ninguém se machucar...
— Ok, espere um minuto. Não estou entendendo. Por que não sobreviveríamos? E mais importante, por que alguém se machucaria?
— Ora, Sanji, não seja cínico. — Zoro cruzou os braços. Suas feições estavam rígidas. Não era nada fora do costume, mas parecia especialmente aborrecido. Não de um jeito irritado, mas triste.
Mesmo assim, Sanji não estava pronto para baixar a guarda.
— Você que não seja cínico. — Ele assoprou a fumaça por cima da cabeça de Zoro, sabendo que ele não gostaria disso. — Eu não tenho nada contra você, então tudo vai ficar bem.
Zoro esfregou a testa.
Ele havia refletido bastante sobre ir ou não falar com Sanji a respeito daquilo. Não era de seu feitio, mas era um caso à parte: os dois não poderiam dar vexame no dia mais importante da vida de suas melhores amigas. Por isso, e sabendo que Sanji certamente não teria essa iniciativa, Zoro decidiu que faria isso pelo bem de Robin e Nami.
A verdade é que, por óbvio, não tinha nada contra Sanji. Pelo contrário. Aliás, quem terminou tudo foi o próprio Sanji. Se fosse pela escolha de Zoro, ainda estariam juntos.
— Eu também não tenho nada contra você. Na verdade, acho que só vim para me certificar de que poderia passar cinco minutos sem querer esmurrar sua cara. Já vi que consigo. Passar bem.
— O quê?! — Sanji ergueu a voz quando Zoro estava caminhando para longe.
Zoro quase riu. Aquele joguinho era excitante, e por isso mesmo que começou. Sabia que era uma forma de estimular Sanji a falar a verdade sobre o que estava pensando, embora não fosse a forma mais saudável.
— Tem que ter muita coragem para vir aqui mostrar sua cara e me falar isso! Eu é quem devia esmurrar a sua cara, Zoro!
Zoro virou-se para Sanji novamente e se aproximou. Sanji, do outro lado, deu um trago no cigarro e lançou-o no chão, do outro lado do beco.
Quando olhou para o loiro, enrubescido de raiva e rangendo os dentes, Zoro afrouxou os ombros. Suspirou. Eles não tinham mais idade para isso, e muito menos tempo.
— Olha... não vamos começar. — Ele enfiou as mãos nos bolsos e Sanji ficou visivelmente confuso. — A verdade é que eu vim para ficarmos numa boa no casamento. Estamos numa boa?
— Não estamos. Você não quis me assumir e eu chutei sua bunda. Eu te odeio, mas não vou brigar com você no casamento da Nami.
— Eu até postei uma foto nossa no Instagram! — Zoro se defendeu.
— Eu não vou falar as mesmas coisas de novo. Você não me apresentou como namorado para sua irmã. Não deu respostas às especulações. Só ficou me alimentando esperança, mas na hora de responder para o repórter, estava solteiro. Não quer assumir que é gay, ótimo, mas não vai ser por cima do meu emocional.
— Eu... ugh. Não tem nada a ver isso.
— Sei que ser jogador de hóquei bicha é problemático, mas isso não é problema meu. É seu.
Zoro estava pronto para falar para Sanji que queria começar de novo, conversar sobre o assunto e tentar ficar junto mais uma vez. Diante daquele comentário, porém, decidiu que não poderia dividir suas preocupações com Sanji e que encerrar o assunto seria o melhor a fazer.
— Sanji... ah. Vá à merda. Só não faça cara feia para mim no casamento.
— Pode deixar. Na minha cara só vai ter sorriso. — Sanji abriu a porta lateral do restaurante, entrou e bateu-a com força.
Zoro esfregou o rosto. Tudo deu errado naquela conversa, mas pelo menos o objetivo inicial foi alcançado.
À noite, Nami jogou os pés para cima no sofá de casa, comemorando o fim do expediente para o início das férias e os preparativos finais do casamento. Robin trouxe consigo duas taças e uma garrafa de vinho gelado. Elas bebericaram uns goles, trocaram beijinhos e conversaram sobre as flores e as toalhas de mesa do casamento. Hancock vinha cobrando algumas decisões delas, que estavam sendo adiadas por conta de Nami estar tão atarefada no trabalho.
Num dado momento, recebeu uma mensagem cheia de palavrões vinda de Sanji, que reclamou sobre o que aconteceu entre ele e Zoro durante a tarde.
— Sanji me disse que o Zoro foi vê-lo e eles discutiram. — Nami disse para Robin, enquanto pousava a taça na mesa de centro. — Vamos ter que colocá-los bem longe nas mesas.
— É, não vou poder colocar em ação algum plano para juntá-los. — Robin ficou pensativa.
— Você estava com algum plano e não me contou?!
— Eu não ia executá-lo sem você, é claro. — Robin deu um beijinho ruidoso na bochecha de Nami, que riu. — Mas o Zoro... eu acho que ele sente falta do Sanji. E eu queria ajudar, mas não sei como. Mas agora, acho que não devemos forçar a barra.
— Tem razão. Como eles vão ficar na mesa conosco, podem ficar um de cada lado.
— É uma pena — disse Robin. — Mas, quem sabe, o clima romântico do casamento não amolece os dois...
— Sei que eu já amoleci — Nami se embrenhou nos braços de Robin, emitindo ruídos de satisfação. Robin riu e a beijou na cabeça.
Robin ainda iria planejar algo, mas, naquele momento, decidiu que iria se concentrar em Nami, que já estava cansada do dia puxado e precisava de um pouco de atenção antes de irem dormir. Sempre fazia bem para as duas terem uma conversa divertida à noite.
Agora, a poucas semanas do casamento, a ansiedade aumentava e elas tinham que se controlar para não falar de outra coisa, mas... e precisava? O evento mais importante de suas vidas como casal estava chegando. Podiam tagarelar sobre isso o dia inteiro, agora. Robin com certeza não iria se importar.
Fale com o autor