Topo do mundo
5 O grande dia — parte 1
Robin não estava nem falando.
Só estava sendo preparada por mais de uma pessoa ao mesmo tempo. Havia um rapaz cuidando de seus longos cabelos negros; uma mulher na maquiagem, e outra deixando o vestido pronto para que ela entrasse. Vestido que foi objeto de controvérsia há alguns dias, graças à malquista Gossip Girl, mas agora, era objeto de pura afeição. O vestido nunca foi tão branco. Era perfeito.
— Olhe para cima — a maquiadora disse, e passou alguma coisa nos olhos de Robin. — Agora, para baixo.
Ela havia pedido uma maquiagem que destacasse bem os olhos, dando profundidade e formato, combinando com a pele acetinada e um batom suave, para não pesar demais no rosto.
O dia continuava lindo, como era o desejado. Estava um calorzinho gostoso, nada que provocasse suor ou desconforto. Era o dia perfeito.
Robin manteve o cabelo solto, porque embora a costa do vestido fosse belíssima, ela também achava que os cabelos eram. Foram feitas ondas suaves para dar movimento, embora o cabelo de Robin fosse tão liso que precisasse de muito spray para ficar no lugar. Depois de tudo isso, ainda tinha que entrar no vestido. Precisou de ajuda também, mais para que tudo ficasse no lugar, do que necessariamente porque não conseguiria pôr o vestido sozinha. Já havia colocado roupas piores por conta própria.
Quando subiu no salto alto, Robin arfou ao olhar o próprio reflexo. Seu coração bateu forte.
— Uau — fez Koala ao entrar no local. — Nossa, eu estou com inveja da Nami.
Robin deu uma risadinha. Koala também estava linda, é claro, e Robin não deixou de elogiá-la.
— Não sou eu a estrela da festa, Robin. — Koala falou humildemente. — Os convidados já chegaram quase todos. Olvia e Kuzan estão fazendo um ótimo trabalho na recepção, junto com a Bellemere e a Hina.
— Pobre Kuzan — Robin disse, mais para si mesma do que para Koala. Isso porque ela sabia que ele devia estar mortalmente entediado. Já não era um cara muito sociável, e com a preguiça que sentia, certamente ele estava achando tudo um saco. Mas, sacrifícios devem ser feitos.
— Robin! — Boa entrou de supetão na salinha. — Fique pronta, vou organizar os convidados para que se acomodem para a cerimônia.
— Já estou quase pronta.
— Ótimo, porque a Nami...
Robin ergueu as sobrancelhas, surpresa com a colocação. Nami era bem ágil para se arrumar, em regra. Talvez estivesse nervosa.
E estava.
— Devo usar essas luvas? — Ela perguntou a Kaya, que a acompanhava pacientemente. — Não acha muito conservador? Talvez eu devesse tirá-las.
— Por que conservador, Nami? São lindas.
— Mas meus braços também são.
— Verdade, são. Tire para vermos.
Nami tirou as luvas e segurou o buquê de lírios. Virou de um lado, do outro... pelo menos a curva de seu quadril naquele vestido ficava perfeita.
— As luvas são parte do vestido, Nami. Fique com elas, está tão linda.
Nami optou por uma maquiagem leve, em tons rosados, para deixar o rosto mais coradinho. Os longos cabelos estavam presos num coque com a grinalda feita de flores frescas, e o véu seria colocado antes de ela descer para o altar.
— E o cabelo? Ficou bom?
— Nami, você está perfeita! — Kaya falou com sinceridade. — Robin vai chorar ao te ver. Eu tenho certeza.
— Espero que chore, mesmo.
Kaya riu do tom que Nami usou, parecia estar falando sério.
Na recepção, as mães e pai das noivas recebiam os convidados, e os padrinhos estavam espalhados pelo lugar para conversar com algumas pessoas. Hina seria a cerimonial, portanto, também estava auxiliando na recepção.
Boa Hancock deixava tudo organizado e já estava preparando os convidados para que tomassem seus assentos para acompanhar a entrada das noivas. Luffy, o marido dela, também amigo das noivas, não parecia tão entusiasmado para ajudar, mas mais empolgado com o fato de Sanji ser o chef responsável pelo jantar.
Sanji estava correndo na função de chef, porque precisava ir logo trocar de roupa para estar ao lado de Nami no altar, como padrinho. O jantar estava praticamente pronto, ele só deu as últimas orientações para a equipe para montarem a salada do jeito adequado, a altura do fogo no réchaud e tudo o mais.
Quando tudo estava nos conformes, Hancock estava rezando para ninguém esquecer suas orientações. Ela ficou no início do corredor para ajudar. Estava tudo perfeito: o sol estava se pondo, o clima estava agradável, nenhum sinal de chuva ou vento intenso. As fotos ficariam incríveis. Assim, ela pôde fazer um sinal para o cortejo começar.
Primeiro, entraram Kuzan e Hina. Hina ficou no centro do altar, como cerimonial, e Kuzan foi se colocar do lado de onde estaria Robin.
Depois, entraram os padrinhos. Primeiro, foram Kaya e Usopp. Depois, Zoro e Koala e, por fim, Sanji e Nojiko. Hancock ficou orgulhosa dos belos vestidos rosa chá escolhidos pelas madrinhas, todas com a cor quase idêntica, e os padrinhos com suas gravatas.
Robin iria entrar em seguida, com Olvia. Os convidados se levantaram, animados, ao vê-la chegar. Robin sorria, exultante, enquanto Olvia mantinha no rosto um sorrisinho orgulhoso. Quando chegaram no altar, Olvia beijou o rosto da filha, que retribuiu com um abraço gentil. Robin estava muito feliz com a presença dela e de Kuzan no casamento. Teve um certo receio de qualquer imprevisto surgir, afastando-os desse dia especial. Ela fazia questão de que ambos estivessem presentes.
Então, uma pequena estrela entrou com as alianças: Hikari, a filha de Usopp e Kaya. A menina já tinha sete anos de idade, a pele branquinha da mãe, e os cabelos escuros e cacheados do pai. Ela tinha um belo sorriso nos lábios, e já sabia bem lidar com a multidão, pois não estava nem um pouco constrangida. Hikari acenava e sorria, andando no ritmo certo.
Por fim, entraria Nami com sua mãe, Bellemere.
— Está pronta, filha?
— Não — Nami brincou. — Mas nunca vou ficar.
— Você está pronta, sim. — Bellemere apertou os dedos na mão da filha.
— Se não estava, acabei de ficar.
Hancock fez um sinal para elas virem logo, e Bellemere apressou o passo.
Nami andou devagar com a mãe, porque o véu era espesso demais. Que ideia genial! Queria ver seu próprio casamento!
Nami queria ver Robin. Ela estava logo ali, mas parecia tão longe. O sorriso nos lábios dela se revelou logo, e Nami não se decepcionou ao ver os olhos dela se encherem de lágrimas.
Bellemere trocou um olhar significativo com a filha e entregou-a para Robin que sibilou você está linda, fazendo-a dar um sorriso envergonhado. No fundo, sabia que estava linda, mas tinha que jogar o jogo. Em vez de Bellemere, elas decidiram que Robin mesma iria levantar o véu de Nami, e foi o que fez antes de elas irem ao altar. Gentilmente, Robin ergueu o véu, posicionando-o para trás, deixando um sorriso suave erguer as bochechas.
Nami tinha um sorriso enorme no rosto, também. Já sentiu os olhos arderem. Robin estava linda, perfeita, mas tanto quanto estava quando Nami voltava tarde para casa, e Robin a esperava de pijama, deitada no sofá, com os cabelos presos num rabo de cavalo desengonçado.
Robin a levou para o altar e Hina começou seu discurso.
Ela foi breve, falou sobre a simbologia do casamento e a escolha de ficarem juntas, especialmente para duas jovens mulheres, perante uma sociedade que poderia ser cruel, mesmo diante de tanto amor. Mesmo que ali não houvesse nada além de respeito uma pela outra, e a vontade infindável de passar muitos e muitos dias juntas, como esposas, parceiras e amantes.
Nami ficou imediatamente feliz por terem escolhido Hina para ser a cerimonial, ela sabia usar muito bem as palavras. Ficou emotiva com a forma como ela ressaltou a coragem delas. Ainda que se identificasse, sabia que a mais corajosa ali era Robin, enfrentando a alta sociedade nova-iorquina para se casar com uma mulher. Mas ela tinha suporte de uma mãe maravilhosa e um padrasto orgulhoso.
Nami e Robin ficaram de mãos dadas o tempo todo.
— Agora, passo a palavras às noivas, para que digam seus votos.
Boa Hancock estava a postos para segurar um microfone perto delas e entregar o papel com os votos escritos. Robin esperou que ela fizesse um sinal para começar.
Robin não era boa com palavras; para demonstrar seus sentimentos, ela preferia fazê-lo através de atitudes. Quando soube que precisava escrever os votos de casamento, demorou muitos dias para decidir o que iria falar. Eram tantos assuntos que poderiam ser interessantes para os convidados ouvirem, e queria tomar cuidado para não ficar entediante. Depois de começar uma porção de vezes, percebeu que só precisava... falar a verdade. Não tinha que ir mais longe que isso. Não precisava fazer uma imensa declaração de amor, porque já havia se declarado de todas as formas possíveis, inclusive, pedindo-a em casamento. Aquele era o momento de falar sobre como Nami era a verdadeira causadora de grandes mudanças na vida de Robin.
Respirou fundo. Nami sorria, e isso lhe acalmou.
— Nami, tudo o que eu poderia dizer a você sobre nosso amor, você já sabe. Você sempre soube. O que eu quero te dizer hoje é sobre como o seu amor me ajudou a chegar a esse lugar. Ajudou-me a encontrar a pessoa que eu sou hoje. Você esteve lá quando eu não sabia quem eu queria ser. E esteve lá quando eu percebi que, quem eu era, talvez não fosse quem os outros queriam que eu fosse. E mesmo assim, você me amou. Nami, você é uma grande inspiração para mim. Uma mulher que lutou para chegar onde está, nunca teve vergonha de ser quem é, e me encorajou a perceber que a Robin de verdade é a única que deve ser mostrada ao mundo. É preciso muita coragem para ser quem você é, e Nami, você é a mulher mais corajosa que eu conheço. Tem coragem para enfrentar o mundo, e também coragem para abrir seu coração, sem medo de mostrar o que sente. E eu amo você por tudo isso. E o meu dia mais feliz do que quando você aceitou passar a vida comigo, é hoje. Nesse momento. Da celebração do nosso amor, e principalmente, de nós duas. Da nossa coragem, juntas.
Nami sorria docemente, emocionada com as palavras de Robin. Ela queria respondê-las, mas tinha um roteiro a seguir, e por isso precisaria continuar e ler seus próprios votos.
Esse era um momento no qual as pessoas que estavam na cerimônia acabavam por se aproximar um pouco mais de seus amantes, tocando-se quando possível e trocando um gesto de carinho. Usopp adoraria estar próximo de Kaya, mas cedeu o lugar dele a Sanji. Mesmo assim, pôde trocar um olhar com a esposa, que piscou para ele.
Nami também teve dificuldade para escrever os votos, mas um pouco mais porque queria falar muitas coisas, e tinha um tempo limitado para falar, pelas orientações de Hancock, é claro. Caso dependesse dela, ficaria pelo menos meia hora falando sobre como viver com Robin havia mudado tudo para ela. Porém, tinha que ser enxuta. Respirou fundo, para se acalmar, porque não podia falar com a voz embargada. Quer dizer, podia, mas não queria. Preferia ter calma e tranquilidade como Robin teve para falar.
Claro que isso não foi possível, mas ela fez o melhor que pôde.
Enquanto isso, Boa se reorientou para ficar com o microfone perto dela e entregar-lhe os papeis dos votos. Nami sorriu em agradecimento e voltou sua atenção para Robin.
— Quando nos conhecemos, estávamos perdidas. Eu e você. Eu em meu mundo confuso de aluna nova, ocupando um lugar que eu não conhecia, e você, mesmo com tantos detalhes para resolver em sua própria vida, se dispôs a me erguer. Dedicou seu tempo a me enaltecer. Robin, quando você olha para mim, eu me sinto a mulher mais especial do mundo, e como se eu também pudesse te fazer sentir assim. Espero que eu faça.
Robin deu um risinho, concordando. Claro que fazia. Nami sorriu.
— Desde que decidimos ficar juntas e encarar as consequências disso, tudo o que eu sempre quis foi te fazer feliz. Foi ter força para te fazer feliz. Eu, um mar revoltoso, com tantas emoções desorganizadas, e você, uma baía tranquila, que mesmo cheia de sentimentos, consegue deixá-los todos sob controle. Somos tão diferentes e, mesmo assim, conseguimos nutrir esse amor uma pela outra, que tomou as proporções que tem hoje. Que nos trouxe até aqui. Que me põe no topo do mundo toda vez que penso que tenho você na minha vida. Obrigada por compartilhar isso comigo.
Ao final das palavras de Nami, ela mesma estava emotiva, mas Robin sorria com calma, um brilho contente nos olhos, transferindo sua energia para acalmar o coração de Nami. Ela sentiu que precisava manter a calma para que Nami também fosse forte, principalmente com aquelas palavras. E deu certo. Nami respirou devagar, e sorriu, trocando um olhar cúmplice para agradecer.
Boa Hancock chamou Hikari para que entregasse as alianças para as noivas, e a menina foi, feliz, entregá-las. Era muito esperta. Robin se abaixou um pouco para pegar e deu um sorriso animado para ela, que mandou um beijinho e voltou rapidamente para seu lugar.
Hina as orientou a fazer seus juramentos de cuidar, respeitar, amar e proteger uma à outra enquanto trocavam as alianças.
Agora, Nami estava eufórica, louca para trocar um beijo com Robin para poder gritar: casamos! Mal podia conter a alegria no coração.
Hina uniu as mãos delas após colocarem as alianças, e sorriu antes de dizer:
— Noivas, podem beijar agora.
Nami dedilhou o pescoço de Robin antes de se aproximarem, e Robin, com seu olhar calmo, trouxe Nami para perto, para darem o beijo oficial como esposas. Os presentes da cerimônia não se contiveram com aplausos para o beijo final.
Com seus sorrisos exultantes, um sorriso que Olvia nunca viu no rosto de Robin, as recém-casadas saíram pelo corredor do cortejo da cerimônia, com Hikari ao encalço, as mães das noivas com Kuzan e, por fim, os padrinhos.
Hina convidou a todos para seguirem para o salão onde haveria o jantar, enquanto as noivas iam para uma área reservada se arrumar antes da festa.
Quando entraram no ambiente, Nami pulou nos braços de Robin, sendo recebida de imediato, sem surpresas, num abraço caloroso.
— Nós casamos. De verdade. — Nami disse ao ouvido da mulher.
— Eu não disse? — Robin brincou.
— Disse mesmo — Nami sorriu, fazendo um carinho no rosto de Robin.
As profissionais as receberam animadas para retocar a maquiagem e arrumar os cabelos antes de irem para a festa. Os demais chegaram na sequência. Hikari estava louca para tirar aquele enfeite do cabelo, que cutucava suas têmporas, a despeito dos protestos de Kaya. Bellemere queria arrumar a maquiagem do rosto, porque havia chorado demais. Nami brincou com ela, tirando um sarrinho, mas foi repreendida.
— Não é porque é casada agora que pode zoar sua mãe.
— Desculpa, mãe, mas nunca te vi assim.
Sanji se aproximou de Nami assim que conseguiu ter um pouco de espaço e, já que ela estava na cadeira da maquiadora, se abaixou para ficar na altura dela.
— Você estava tão linda, Nami. Essa sua alegria te deixa ainda mais bonita. Espero que continue assim sempre.
— Obrigada — ela disse com um sorriso. — Ainda bem que você estava lá. Todos vocês — ela se dirigiu aos padrinhos.
Usopp piscou para ela e foi ajudar Kaya com Hikari, que já estava elétrica, faminta, querendo brincar. Koala também precisava de retoque de maquiagem, já que havia chorado tanto. Não podia sair nas fotos com o rosto todo cheio de lágrimas! Só nas adequadas. Nojiko estava igual. Elas estavam se apoiando mutuamente naquele momento.
Zoro estava calado num canto, mas acenou para Nami em agradecimento à consideração. Sanji pediu licença para sair antes, porque precisava se certificar dos preparativos do jantar, e foi seguido pelo olhar de Zoro até sumir porta afora.
Hancock entrou na sala pouco depois.
— Meninas! Já sabem seus lugares, não se apressem, casamento tem que dar um gostinho de ansiedade nos convidados. Mas não os deixem com fome. Não esqueçam que temos que fazer o brinde antes, e se alguém quiser dizer alguma coisa nessa hora, já podem ir pensando.
Ela dirigiu a última parte aos padrinhos e mães das noivas.
— Tomem cuidado com o que vão dizer — Nami os alertou.
Usopp acabou rindo.
— Eu não iria querer te enfurecer no dia do seu casamento.
— Não mesmo! Nada de histórias constrangedoras! Especialmente você, Nojiko.
Nojiko fez um sinal com as mãos, prometendo que não faria nada do gênero, e a conversa seguiu naturalmente. Depois que as noivas já estavam prontas, bem como os demais, eles foram juntos para a festa. Nami decidiu tirar o véu e as luvas para ficar mais à vontade, e Robin pediu para que fizessem um penteado diferente no cabelo, prendendo uma parte dos fios para trás.
Boa os auxiliou a lembrar os lugares que tinham que sentar, e as noivas foram recebidas com palmas e gritos animados dos convidados. A festa iria começar.
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