Topo do mundo

1 Fofoca fresquinha


— Sim, sim!

Foi a resposta entusiasmada de Nami quando Robin lhe pediu em casamento. O momento foi muito romântico, porém, nada exibicionista; elas estavam jantando sozinhas em casa. Depois de preparar o prato favorito de Nami: lasanha na manteiga com legumes refogados e filé na chapa, Robin serviu um vinho especial, encheu a mesa de velas coloridas, sentou-se juntinho da namorada e quando a oportunidade chegou, sacou do bolso do casaquinho a caixa com o anel.

Era um lindo anel de ouro rosê trançado com diamantes cravejados e um solitário na ponta. Nami beijou tanto Robin naquela noite que a morena até achou que ia ficar marca.

Elas já estavam morando juntas há algum tempo. Nami vinha passando por dificuldades na companhia de engenheiros onde trabalhava, talvez um reflexo de sua orientação sexual, ainda que morasse com uma pessoa importante da alta sociedade nova-iorquina. Era uma pressão velada, mas estava lá.

Robin não queria ofuscar as questões do trabalho de Nami, mas certamente sua atitude a alegrou muito. Nos dias subsequentes, ela só falava do casamento, das ideias mirabolantes que tinha para a cerimônia, incluindo algo típico no Marrocos, trocar de vestido, casamentos extravagantes... Nada que fizesse sentido para a personalidade da ruiva. Mesmo assim, Robin levava a conversa para frente, e logo Nami percebia que nada do que ela dizia era adequado, seja por apropriação cultural, seja por ausência completa de necessidade.

— Eu estive pesquisando — disse Robin numa certa ocasião. — E vi que há a possibilidade de realizar casamentos no topo de grandes prédios da cidade. Acho que seria muito legal para nós duas. Sabe, nós... criamos um laço com os terraços de Nova Iorque.

Nami deu um sorriso meigo.

— É uma ótima ideia.

Todo o tempo depois foi de planejamento intenso. Embora não houvesse pressa real para o casamento, tanto Nami quanto Robin ficaram muito animadas com a ideia de realizar uma cerimônia para tornar tudo oficial. As famílias já estavam envolvidas, em especial Bellemere, que mal podia esperar para levar sua filha ao altar. Ela chorou de orgulho ao receber a notícia, abraçou as duas, uma em cada braço, e as encheu de beijos. Robin ficou emotiva.

Nico Olvia e Kuzan também ficaram felizes, mas, por outro lado, não demonstraram um grande afeto físico. Ao contrário, abraçaram um ao outro, e lançaram um olhar de serenidade a Robin que a deixou mais feliz do que ela imaginava que ficaria. Sentiu medo de ser reprovada, por algum motivo. Poderiam dizer que ela era muito nova, ainda que já tivesse 27 anos; ou que seria problemático explicar à sociedade que aquela bela mulher ia casar... com outra mulher; ou qualquer outro motivo homofóbico que pudesse surgir, mesmo que não fosse da cabeça deles. Mas nada disso aconteceu.

— Minha querida, você merece toda a alegria do mundo — disse Kuzan em seu tom preguiçoso, fazendo Robin se esforçar para segurar as lágrimas.

Os planos corriam muito bem, até certa noite na qual, esparramada no sofá, Nami se um pouco e chamou o nome de Robin. Elas moravam numa cobertura no Upper West Side, a poucos minutos do Central Park. Robin precisava de espaço, por conta de seu trabalho, e Nami ocupava muito pouco.

Robin estava em seu escritório, lendo um artigo recente de um colega arqueólogo quando Nami se esgueirou na porta.

— Oi. — Disse a morena.

— Desculpe atrapalhar. Sei que não aguenta mais ouvir falar do casamento, mas...

— Não sei de onde você tirou isso. — Robin baixou a tampa do laptop e se levantou para ir em direção à noiva. — Eu só ando pensando no nosso casamento. Por isso estou... tentando dar atenção às outras coisas.

Nami deu um sorrisinho quando ela se aproximou o suficiente para ajeitar uma mecha ruiva que escapava do coque. Os cabelos de Nami estavam muito longos, mas ela só queria fazer algo com eles mais perto da data do casamento.

— O que tem em mente? — Robin tombou um pouco a cabeça.

— Nossa lista de convidados está tão... imensa. — Nami se encostou no batente da porta. — Embora eu adore a ideia de um casamento chique, de cair o queixo, eu fico pensando... será que não devemos ir com calma?

Robin suspirou e, gentilmente, convidou Nami para se acomodar com ela no sofá da sala. Após sentarem, pegou nas mãos dela.

— Nami, infelizmente, nosso casamento será um evento social. Sei que isso não é tão... romântico, mas eu devo isso aos meus pais.

Há alguns anos, Robin seria rebelde e diria que elas poderiam casar sozinhas numa cerimônia privativa, numa ilha paradisíaca, mas encarava a vida social dos nova iorquinos de forma diferente agora. Era um jogo social do qual, embora não fosse sua escolha, ela fazia parte. E quando Nami aceitou dividir a vida com ela, aceitou entrar nessa também.

— Mas vai ser como estar na escola de novo — Nami revirou os olhos. — Vão sair fotos na internet, notícias sobre como meu vestido estava feio, a comida ruim, ou sei lá o quê. Eu não tinha pensado nisso até agora, e confesso que a ideia não me anima.

— Por que o meu vestido não pode estar feio?

— Porque até um saco de estopa fica bom em você.

Robin deu um risinho e a trouxe para um beijo carinhoso.

— Não se preocupe, minha linda. Nosso casamento será incrível. Temos profissionais de confiança para cuidar do evento, incluindo Hancock, Sanji... eles nunca deixariam algo dar errado.

Hancock era a chefe do evento. Ela iria coordenar todo o casamento, estava organizando as etapas da festa, os lugares às mesas, contratando funcionários e auxiliando nas escolhas menos pessoais. Sanji, por outro lado, era o chef e estava preparando opções de cardápio para as meninas, além do bolo e os docinhos. Inclusive, no dia seguinte, elas tinham uma degustação marcada com ele.

— Eu acredito que vai ser incrível. O problema é que, não importa o quão lindo seja, alguém vai falar mal.

— A Gossip Girl não existe há tantos anos, não acredito que teremos esse problema.

— Não seja condescendente. Esses tempos você saiu com uma calça de moletom para ir ao mercadinho e publicaram sobre como “Nico Robin está decadente”... Ugh! Eu fiquei furiosa! E a calça era minha! Óbvio que não serviu bem em você. Eu te avisei que...

— Ei. — Robin interrompeu. — Por que está tão preocupada com isso? Achei que já tinha superado.

— Porque não. Não superei. — Nami se levantou, irritada. — Esqueça isso. Amanhã temos que acordar cedo. Vou me preparar para deitar.

Ela se afastou rapidamente e Robin permaneceu ainda sentada, confusa, por alguns minutos. Já há tempo que Nami não se preocupava com o que era publicado em tabloides na internet. Como dito anteriormente, ao aceitar dividir a vida com Robin, ela já estava ciente de que isso seria algo comum, já que Robin era membro da alta sociedade nova iorquina, filha de pessoas importantes, e uma digital influencer moderna que publicava fotos de roupas elegantes e fósseis recém-descobertos. Ela era realmente única no ramo.

No dia seguinte, elas se encontraram com Sanji no restaurante dele, o Baratie, em Hell’s Kitchen. Em verdade, era a primeira vez que ele estava organizando um evento, então, era uma experiência nova. Mesmo assim, Robin não achava que ele iria errar a mão. Pelo contrário, acreditava que iria abrir para ele um novo nicho de mercado.

Uma funcionária espalhava os pratos em ordem para as duas experimentarem enquanto Sanji descrevia, em detalhes, o que era cada um deles, quais as bebidas que combinavam, substitutos veganos, etc.

— Essa é uma salada de sete grãos, temperada com pepino, damasco e tomate à julienne...

Foi uma manhã longa para as duas. Nami mal entendia o que Sanji estava falando, mas amava tudo o que provava.

— Como eu vou decidir isso?! — Nami falou entre dentes, com a boca cheia. — Eu quero tudo!

Robin deu uma risadinha.

— Eu também.

— Não acho que servir tudo seja uma boa ideia... — Sanji falou num tom gentil.

— Claro que não é — Nami falou após engolir. — Nossos convidados vão acabar comendo tanto que não vão conseguir aproveitar a festa depois, porque vão morrer de sono.

— Por que não decide, Sanji? — Sugeriu Robin, afastando o prato.

— Eu?! — Ele riu, incrédulo. — Eu já estou tendo a honra de preparar as opções do casamento de vocês, agora... escolher? Vai que depois publicam que o cardápio foi um fracasso...

Robin suspirou, cansada daquela conversa. De novo?!

— Eu entendo sua preocupação — começou ela, no tom mais compreensivo que conseguiu. — Mas isso não vai acontecer. Tudo o que eu comi aqui está fabuloso. Não tem nada malcozido, com sabores conflitantes, nenhum vinho fora de harmonia. Está perfeito. Tudo o que você precisa fazer é selecionar os seus melhores pratos e criar o nosso cardápio.

Sanji ficou tão cheio de si que mal escondia. O peito até inflou.

— Robin, muito obrigado. Depois de ouvir isso, tenho o prazer de finalmente apresentar para vocês minha obra-prima...

Ele pediu à funcionária para trazer os bolos.

Nami e Robin ficaram admiradas com o cuidado no corte idêntico da fatia, com as perfeitas camadas de pão de ló, abacaxi fresco, coco e leite condensado com cobertura de chantilly. Era tão simples, mas ao colocar um pedaço daquele doce na boca, Nami achou que havia sido enviada para o céu.

— Que chantilly maravilhoso, Sanji.

— É minha especialidade — ele sorriu amoroso com a felicidade dela. — E eu sei que você gosta de abacaxi.

— É perfeito — Robin disse, ainda extasiada. — Eu amei.

— Obrigado, meninas. Se estiver aprovado, vou montá-lo com três andares e uma decoração que combine com as escolhas de vocês. Depois que organizarem tudo com a Boa, eu converso com ela.

— Está mais que aprovado! — Nami se levantou, entusiasmada, e partiu para um abraço. Sanji a recebeu, beijando-lhe o alto da cabeça. — Você é demais. Mas eu não quero que deixe de aproveitar a festa!

— Pode deixar. Eu sempre quis cuidar desse tipo de serviço de bufê para eventos, então é uma bela oportunidade para ver se não vou enlouquecer mais do que já enlouqueço dentro do restaurante. Mas depois que tudo estiver pronto, eu vou curtir a festa, sim.

— Até porque... — Nami olhou de soslaio para Robin, que procurou dentro da bolsa por um convite especial. — Se você aceitar mais um desafio, gostaríamos que fosse nosso padrinho.

— Quê?! — Sanji ficou chocado ao pegar o convite e abri-lo; dentro havia algumas garrafinhas de bebida, um convite formal e uma gravata de cor rosa chá. — É sério?

— Com certeza — Robin se levantou.

— Mas... nossa. — Ele abraçou o convite contra o peito. — Eu estou lisonjeado. Vou ser o padrinho de vocês. Já aceitei.

Nami o agarrou pelo pescoço a ponto de ele cambalear. Robin riu enquanto ele se ajeitava e retribuía o abraço animado. Sanji teria muitas tarefas no dia do casamento, talvez, mas isso não pareceu intimidá-lo; ele elogiou a cor da gravata, amou a escolha. Abraçou as duas, mais de uma vez. Sanji ficava facilmente emotivo com essas coisas, embora não gostasse de admitir. Mas para Nami, ele não tinha vergonha. Ela já o havia visto em seu pior e em seu melhor. E sempre esteve lá. Agora era a vez dele.

Robin tinha a intenção de chamar Zoro para ser padrinho, também. No início, ela queria convidá-los como casal, mas ficou sabendo, através de Nami, que Zoro e Sanji haviam tido um conflito grave e terminaram o namoro fazia algumas semanas. Não seria de bom tom convidá-los em conjunto, talvez até convidar os dois pudesse ser conflituoso, mas Robin não via mais ninguém além dele. Sempre foi um grande amigo. Eles teriam que... vencer as diferenças.

Quando se despediram, Sanji as convidou para tomarem um drinque mais tarde para comemorar. Robin não poderia comparecer, porque estava com trabalho atrasado, mas Nami estaria lá.

De noite, ao sentar-se diante de Sanji e aceitar a cerveja, após um brinde, Nami estava louca para conversar sobre suas preocupações recentes.

— Estou com medo do que vão falar do nosso casamento — confessou.

— Eu sei. — Sanji deixou a cerveja de lado. — Eu entendo. Eu também estou, mas é claro, por minhas próprias razões. Mas... e você? No que isso te incomoda?

Nami suspirou, cansada.

— Eu estou preocupada com meu trabalho. Faz pouco tempo que entrei, sou uma novata. Mesmo que elogiem meu talento e a qualidade dos meus projetos, ainda sou tratada como uma estagiária. E eu não quero virar fofoca na empresa por causa de um casamento luxuoso. Eu já sou motivo de fofoca por namorar com uma mulher da alta sociedade, quanto mais...

— Nami, você está ouvindo o que está dizendo? — Sanji franziu as sobrancelhas enroladinhas. — Está preocupada se vão fofocar de você na empresa? Primeiro, isso sempre vai acontecer, mesmo que fosse casar... sei lá, comigo. Segundo, quem liga? Não você.

— Aparentemente eu ligo — ela falou num tom amargurado.

— Isso não condiz com você, Nami. Tem algo errado. O que você não está me contando?

— Olha, não é mentira, ok? Eu estou preocupada mesmo com isso. Mas... acho que estou chateada, também, com o fato de esse dia ser mais um evento social do que de fato um dia especial para nós duas. Eu já conversei com a Robin sobre isso, e ela me garantiu que uma coisa não anula a outra.

— Bom, agora, como seu padrinho, tenho que te dizer: dane-se. Todo casamento é um evento social. Se não fosse, não fariam uma festa. Pare de se preocupar. Aliás, pare de fuçar na internet.

Nami grunhiu algum palavrão, sabendo que Sanji estava coberto de razão. Mesmo assim, toda vez que alguma notícia maldosa aparecia num tabloide, ela ficava injuriada. Não conversava com Robin sobre todas, porque senão, não falariam de outra coisa. Agora, no entanto, a preocupação estava exacerbada, porque o assunto era muito mais saboroso do que calças de moletom curtas. Inventariam todo tipo de fofocas esdrúxulas, e ela precisaria de nervos de aço para encará-las.

Era melhor ir se preparando.