Together

18 Um encontro?


Violetta

*

— Pai? – perguntei quando fechei a porta atrás de mim, congelando quando vi a imagem de meu pai, sentado no sofá da sala, mexendo em seu celular, enquanto a televisão estava ligada no canal em que passava o Jornal de Buenos Aires.

Ele olhou para mim e franziu a sobrancelha. Olhou seu relógio de pulso e me olhou confuso. Meu peito inflava sem parar, e minha respiração estava rápida e entrecortada, devido ao momento de segundos atrás. Parecia que eu tinha corrido uma maratona.

— Isso são horas de chegar em casa Violetta?! Pensei que estivesse em seu quarto, estudando. – ele disse com o maxilar travado, parecia com raiva.

— Eu estava estudando, pai. – falei baixo, eu me odiava quando não conseguia enfrentá-lo, e talvez seja isso que eu mais admiro na Ludmila, ela o enfrenta, mesmo não conseguindo o que quer, ela enfrenta.

— Até essa hora? – perguntou com os olhos vidrados em mim, sem piscar. Assenti com a cabeça. – Você sabe que não sabe mentir para mim, Violetta. – disse duramente. – Onde é que você estava?

— Na biblioteca. – respondi rapidamente, com as mãos tremulas, de raiva. – Com León.

— León? – ele parecia ainda mais confuso. – Vocês nunca foram próximos. – ele se levantou do sofá, tirando os óculos de leitura e me encarando. – O que você estava fazendo com o León? – perguntou cruzando os braços na altura do peito.

— Estudando. – respondi obviamente. – Amanhã temos prova. Trigonometria.

— Claro. – me olhou desconfiado, mas eu estava relaxada, contei a verdade. – Vá para o seu quarto, não adianta passar o dia estudando e não relaxar, dormir. – suspirou, e eu sorri brevemente, vendo que o tinha vencido.

— Pai. – o chamei e o mesmo balançou a cabeça para que eu prosseguisse. – Você não deveria estar viajando? – perguntei.

— Cancelamos. – disse pegando o celular e colocando no bolso. – Nada que te faça interesse. Agora vá para o seu quarto.

Balancei a cabeça. Ele era muito mandão, por isso não arranjava namorada nenhuma. Papai tem que entender que não estamos na época dos primatas. Nenhuma mulher hoje em dia gosta de ser mandada a fazer alguma coisa, bom, a maioria não gosta.

Com a mochila nas costas, subi para o meu quarto. Ludmila não havia chegado também, mas ele não perguntou nada dela. Engraçado, a implicância do meu pai era a apenas comigo. E ele sabia muito bem que a Ludmila não estava no quarto. Ela odiava ficar no quarto dela, presa.

Fechei a porta do quarto e me joguei na cama, me permitindo, enfim, abrir um enorme sorriso mais do que os meus lábios podiam aguentar. Ah. Eu estou tão feliz. Como nunca estive antes. Queria abrir a janela e gritar pra todo mundo o quanto eu estava completa, alegre. Hoje, eu finalmente me senti como uma garota normal. Senti-me real, e como eu queria compartilhar isso com a Fran. Ela ia ficar tão feliz, ainda mais sabendo que eu “socializei”. Ri ao pensar nisso.

Mas me contive. Ela iria achar estranha essa minha súbita vontade de me abrir com o mundo, porque até eu estou estranhando. Fechei os olhos querendo guardar esse dia com o León só comigo, compartilhado comigo e com meu coração. Ai que vontade enorme de gritar!

Eu nunca irei me esquecer de hoje.

***

Acordei escutando um som estranho. Olhei no meu relógio, meio atordoada, eram dez horas da noite ainda, e parecia que eu rinha dormido uma eternidade. Levantei-me percebendo que o barulho vinha da porta. Suspirei, meu dia foi maravilhoso, eu só queria descansar e esperar pelo dia de amanhã.

— Ludmila? – perguntei sonolenta, coçando os meus olhos.

Ela estava com os cabelos presos em um rabo de cavalo, vestindo sua camisola rosa Pink, com os baços cruzados, me olhando com a cara zangada. Ótimo. Vamos discutir? Eu tive um dia tão bom...

— Você é tão ridícula Violetta. – ela disse entrando no meu quarto, sem pedir. Quem ela pensa que é? – Feche a porta, não quero que o papai venha tentar me impedir de dizer tudo que eu quero falar pra você.

Meio relutante fechei a porta e cruzei meus braços, encostando-me à mesma, enquanto minha irmã andava para lá e pra cá, acho que pensando no que iria falar.

— Como você teve coragem?! Eu pensei que não fosse capaz de uma baixaria como esta! – vociferou. – Você tem ideia do quanto a Naty está ferida?! Você e o León são dois emprestáveis! Como puderam fazer isso com a pobre da Naty? Ela era louca por ele Violetta. Eu achava que os dois iriam se casar um dia.

— Se casar? – perguntei me pronunciando, e quis rir, mas me segurei. – Por favor, Ludmila. Olha a nossa idade! Temos dezesseis anos, não vinte e um. Quase nenhum romance sobrevive nessa idade.

— Se você não tivesse se intrometido, eles poderiam ser um dos casais adolescentes que se casam um dia.

— Você está delirando. – murmurei sacudindo a cabeça, não acreditando que ela viajava tanto. – Saia do meu quarto. Amanhã temos provas, papai disse que era melhor dormir cedo, para estar relaxada para amanhã.

— “Papai disse”, “papai mandou”, “vou fazer o que o papai falou” – Ludmila disse fazendo uma imitação ridícula da minha voz. – Essa é a segunda coisa que eu odeio em você! Caramba, tudo que esse cara chato manda a gente fazer, você obedece! Mesmo que ele seja um ogro, insensível, você obedece, como se fosse uma escrava. Tenha personalidade! – gritou comigo.

— Primeiramente – suspirei antes de continuar, tentando conter a minha vontade imensa de chorar. – Esse “cara chato” é o meu pai. – engoli o nó que se formava em minha garganta. – E mesmo eu não gostando das coisas que ele me manda fazer, me sinto na obrigação de obedecer, ele é a única pessoa que parece se importar comigo nessa vida.

Ela não disse nada, apenas me olhava, e parecia que iria me atacar a qualquer momento.

— Segundo, eu amo o meu pai. – minha voz vacilou. – Se você não lembra a minha mãe morreu, e desde então, ele é o único familiar que eu tenho, já que meus avôs não me visitam, porque odeiam o papai e o culpa pela morte da mamãe, mesmo ele não tendo nada haver. – tomei fôlego. – E por último, eu o respeito. Não sou como você, que tem uma mãe, um pai, e não dá um pingo de valor.

— Não se atreva a falar de mim! – gritou.

— Para de gritar comigo! – gritei também, e ela se calou, e eu acho que nunca gritei assim na minha vida. – Eu não sou qualquer uma para você vir até o meu quarto, invadir minha privacidade, e ainda ter a capacidade de me insultar, e falar alto comigo. – lágrimas começaram a escorrer pelas minhas bochechas. – Poxa, eu sou sua irmã. – me encolhi, sentindo-me mais vulnerável do que nunca.

— Você é mais sonsa do que qualquer um desse mundo. – seu rosto estava com uma expressão dura. – Vou sair antes que eu fale coisas que são consideradas baixas de mais.

Ela passou por mim, e eu nem me atrevi a olhar para trás. Suspirei, sentindo meu corpo pesar do nada e lágrimas doloridas saírem dos meus olhos, acompanhada de soluços inevitáveis. Mas me sentia leve, de alguma forma.

Senti algo tocando os meus ombros, e me afastei ainda abraçando o meu próprio corpo. Virei e dei de cara com o meu pai, seus olhos vermelhos, e ele estava sem seu terno de trabalho, apenas com uma camisa branca e calças de moletom, e sem querer ser superior, mas eu achava o meu pai um gato, pena que não encontrava a mulher certa nunca.

— Pai, desculpe, eu acho melhor você me deixar sozinha, tenho que dormir. – passei a mão pelos meus olhos, tentando desesperadamente secar os meus olhos.

— Então é por isso? – ele perguntou me olhando sereno, eu o olhei de volta, confusa. – É por isso que você e sua irmã estão em pé de guerra? Por causa do León?

— Pai...

— Você está se envolvendo com este garoto?

Entrei em pânico. Claro que eu não estava. Eu só gosto do León, gosto muito, mas ele não tem nem ideia. Como explicar isso ao meu pai? Fala sério, eu não falo sobre isso nem com amigos, imagina com o meu pai?

— Pela sua cara... – o interrompi.

— Não pai, eu não estou. – respondi rapidamente.

— Pela sua expressão, eu sei que está mentindo. – ele riu, e parecia tão relaxado quanto a isso. Estranhei. Ele sempre fora tão rígido com a Ludmila e os namorados dela. – Não me importaria se você saísse com o León. – ele me olhou com cuidado, e eu não me atrevi a dizer nada. – Acredita que a sua irmã e ele ficaram uma vez? – perguntou e eu arregalei os olhos, sério? Ludmila e León? Não dá pra acreditar. Meu estomago embrulhou repentinamente. – Ele é um bom rapaz, e eu preferia que ele tivesse ficado com ela, mas aí Natália se interessou, e ela quis ajudar à amiga. E bem... O León não sentia nada pela sua irmã.

— Por que está me dizendo isso? – funguei.

— Eu sinto que não te conheço, filha. – suspirou acariciando meu cabelo, como nunca fez. – Não estou querendo dizer nada, apenas quero que confie em você mesma. Se for a pessoa que você escolheu para namorar, fique a vontade, e seja você mesma.

— Pai... – meio tímida pensei no que dizer. – Eu... Hm... Não sei se... Se ele sente o mesmo, eu não sou boa o suficiente e...

— Você é maravilhosa filha. Mesmo que ele não goste, um dia ele perceberá o quão boa você é. Mas León é um cavalheiro, tenho certeza de que reconhecerá logo, logo o que sente. – ri de suas palavras.

— Reconhecer o que? Ele nem sente nada. – sorri. E por incrível que pareça eu não me sentia mal dizendo isso, o dia foi tão bom, que mesmo que o León não sentisse nada, absolutamente nada por mim, eu me contentaria com o dia de hoje.

— Nunca se subestime. – sorriu minimamente, e acho que eu nunca vi meu pai sorrir.

— Você não se importaria? – perguntei.

— Com o que?

— Se eu... Hm... E o León... – não consegui terminar a frase, e meu pai me olhou divertido.

— Não, acho que não. Você é minha filha, mas não posso querer que seja minha para sempre, certo?

— Tá, mas e essa mania que você tem de não deixar nem eu, nem a Ludmila sair de casa? Nós temos uma vida social, quer dizer, a Ludmila tem uma vida social, e não gosta de ficar presa.

— Mantenho vocês em casa, porque é mais seguro. – ele disse resmungando.

— Ok. – não iria entrar em uma discussão, estávamos indo bem, pela primeira vez, estou achando que tenho um pai de verdade.

— Fico feliz que você tenha discutido com a sua irmã, e tenha me defendido. – ele disse depois de uns segundos em silêncio.

— Não foi bem assim. – mordi o canto da bochecha. – Eu estava cansada de não conseguir enfrentá-la, e bom, ela falou de você, e eu queria ter um argumento forte para derrubá-la. Apenas falei o que sentia, não defendi ninguém.

— Você é boa demais e não percebe. – beijou minha testa, deixando minha cabeça em estado de confusão. Boa demais? Faça-me rir, papai. – Vou deixar você descansar, eu preciso conversar com a sua irmã ainda.

— Boa noite. – murmurei quando ele me deu as costas para sair de meu quarto, pensei que ele não fosse escutar, mas então ele se virou para mim.

— Boa noite, filha.

***

Acordei de manhã cedo antes do despertador. E por incrível que pareça, eu acordei sorridente, de bom humor, talvez devido ao dia de ontem, com o León, e as palavras do meu pai, ou talvez porque eu tive um sonho excelente com o garoto que eu gosto e... Como é bom sonhar com o León.

Troquei de roupa rapidamente e desci para tomar café. Ludmila estava sentada, com a cara emburrada, tomando café civilizadamente. Estranho, ela nunca tomava café, sempre saía rápido, para chegar à escola cedo e ficar de papo com a Natália.

— Bom dia. – papai disse me dando um sorriso. Ludmila me fuzilou com o olhar, e eu tratei de desviar.

— Bom dia. – murmurei dando um pequeno sorriso.

Meu pai ficou de levar eu e a Ludmila para escola, o que foi bom, pois a prova de matemática é na primeira aula. Ludmila não falou comigo e nem com o meu pai o trajeto todo, o que foi bom. A conversa dela com o papai não deve ter sido nem um pouco boa ontem, diferentemente da minha.

— Tchau. – falei abrindo a porta do carro, quando meu pai estacionou o carro em frente ao meu colégio. O mesmo sussurrou um: “boa prova”, que apenas eu escutei, porque a Ludmila saiu apressada para dentro do colégio.

Entrei na escola, e vi Francesca conversando com Tomás e Marco na porta do meu armário. Sorri, aquele era o triangulo amoroso mais louco que eu já vi. Mas pelo menos a Fran parecia estar agindo naturalmente sobre isso.

— Oi. – murmurei chegando de fininho até eles.

— E aí? – Marco beijou minha bochecha.

— Oi Vilu. – Tomás disse me dando um pequeno sorriso, e eu retribuí, gostava demais dele, como amigo, para deixar uma quedinha dele por mim, acabar com nossa amizade.

— Amiga! Onde você estava ontem? – Francesca perguntou, deixando seu lado exagerado falar mais alto, ri. – Liguei e você não me atendeu.

— Ah... É que eu passei à tarde na biblioteca... – sorri nervosamente, e ela estreitou os olhos para mim, como se não acreditasse.

— Sei, mas... – o sinal tocou e eu agradeci.

Fomos para sala de aula, onde Diego já estava. Ele lia o livro de matemática sem nem desviar o olhar, devia estar desesperado.

— Estudando muito? – perguntei baixinho.

— Sim. – disse num sussurro. – Qual é esse negócio de tangente? – perguntou e eu dei risada.

— Sério Diego? Agora? Devia ter ficado comigo na biblioteca, passei o dia... – o professor entrou na sala, me interrompendo.

— Todo mundo em seus lugares, a prova será aplica já. – ele disse estressadinho.

***

Dei um suspiro de alívio quando terminei a prova e o professor recolheu. Coitado do Diego, se estava difícil pra mim que estudei, imagina para ele. Mas eu me garanto, aposto que tirei uma nota descente e digna. Olhei para o León que estava no fundo da sala, e ele abriu um sorriso para mim, piscando um dos olhos em seguida. Sorri de volta. Ele quase não conseguiu fazer a prova, porque chegou atrasado.

Olhei para o lado e Francesca me encarava confusa, jogando um olhar para o León e em seguida para mim. Acho que as minhas bochechas ficaram vermelhas. Apenas neguei como se não quisesse falar do assunto e ela revirou os olhos, voltando seu olhar para o professor que disse que entregaria as provas no final das aulas.

***

— Sério, eu queria entender o que foi aquilo. – Francesca disse me abordando, na última aula, novamente, já que ela fez isso no intervalo.

— Não foi nada Fran. Você nunca olhou para alguém, e sorriu depois? – perguntei guardando os meus materiais. Faltavam menos de dez minutos para o sinal bater.

— Claro, mas sempre com alguém que eu falo todos os dias. Ah, e nunca recebi um sorriso com uma piscadinha no final. Você está me escondendo alguma coisa Violetta Castillo! E eu vou descobrir o que é.

Foi a minha vez de revirar os olhos. Ela é muito insistente, céus!

— Turma. – o professor de matemática invadiu a aula de biologia segurando as provas nas mãos. – Desculpa professora. – se desculpou com a professora de biologia, e a mesma assentiu com um sorrisinho sem graça. – Corrigi todos os testes, e quero dizer que fiquei decepcionado com alguns e extremamente contente com outros.

Ele falou mais um monte de abobrinhas que eu não fiz questão de entender. Diego começou a passar a mão no cabelo, estava nervoso, Francesca lixava as unhas sem dar a mínima importância.

O professor entregou as provas e eu não me surpreendi com o meu dez. Francesca tirou oito, mas não ligou, pra ela, tudo que era acima de sete, estava ótimo. Diego revirou os olhos quando recebeu aposto que foi vermelha.

Depois de todas as provas entregues, o professor saiu. Suspirei aliviada, sem provas até o próximo bimestre.

— Violetta. – escutei meu nome, e Francesca sorriu animada, olhei para trás, e vi León andar em minha direção. Ele sentou sobre a mesa da minha carteira, enquanto eu via alguns olhares horrorizados em minha direção. Talvez porque o popularzinho estava conversando com uma Zé ninguém.

— Oi. – murmurei, quase que a minha voz não sai.

— Obrigado, de verdade, sem você não teria conseguido uma nota boa. – sorriu mais uma vez para mim, e eu quase deu um curto circuito nos meus nervos.

— Espero que pelo menos tenha sido um dez. – sorri de lado.

— Um dez e um parabéns. Serve? – perguntou me mostrando a folha da prova, e eu sorri. Ele aprendeu mesmo.

— Serve. – falei como se fosse o suficiente e ele riu.

— Quer tomar um suco comigo depois? – perguntou. – Ou sorvete, se quiser. – falou com um sorriso sarcástico e eu mordi o meu lábio tentando evitar o meu sorriso.

— Vou adorar. – minha voz saiu num sussurro, não sei como ele ouviu.

— Ótimo. – beijou minha bochecha. – Até depois.

Ele saiu da minha mesa e eu soltei o ar que eu nem sabia que estava segurando. Olhei para o lado para voltar a minha atenção para Francesca e encontrei a mesma com os olhos arregalados, me olhando com um sorriso malicioso nos lábios. – Ah não. – já esperava o que viria.

— Amiga...

— Não.

— Sim!

— Não, não. – coloquei minha mochila nas costas, o sinal havia batido.

— Eu não acredito! Vocês vão se encontrar! Isso é o máximo! – gritou e eu quase cavei um buraco no chão, vendo que as pessoas nos olhavam sem entender.

— Para de ser assim. – pedi com a voz baixa.

— Eu to tão feliz. – me abraçou.

Tentar parar a Francesca é impossível.