Together

17 O que é certo, vem aos poucos


León

*

— Eu ainda não entendi como se calcula a tangente desse ângulo. – eu murmurei com os olhos grudados na explicação minimamente detalhada que ela havia feito em meu caderno.

— Como assim? Tá tudo aqui León. – ela disse to irritadinha estreitando seus olhos castanhos para mim. Acho que era a quinta vez que ela me explicava, mas não consigo, não adianta, não entra na minha cabeça.

— Você só está há meia hora comigo e já tá estressada? – perguntei largando o lápis e recostando na cadeira.

— Você é frustrante. – murmurou colocando uma mecha do cabelo atrás da orelha, agora que ele estava e solto e... Ela deveria usar o cabelo assim mais vezes.

— Eu? Frustrante? – ela assentiu prontamente. – Claro que não.

— Além de frustrante é um chato, céus, o que eu fiz pra merecer? – perguntou olhando fixamente para o teto, com o cotovelo apoiado na mesa.

— Sério que me acha assim? – perguntei com um meio sorriso, enquanto seus olhos voltavam a me encarar. Ela nada respondeu. – Meu pai às vezes diz isso. – ri da coincidência, porém ele me conhecia, já ela... Não tenho tanta certeza.

— Hm... Desculpa. – endireitou sua postura. – Não quis... É... Ofender. – ela pareceu pensar um pouco, e logo disparou. – Na verdade, eu quis sim. – ri.

Ela deu um pequeno sorriso. Não pude de reparar os traços do pai nela, mas ela parecia muito diferente da personalidade de Germán. Eu sempre vejo o pai dela e o meu, conversando sobre os negócios e ele é tão duro, profissionalmente, tão aberto para conversas, e parece que cada palavra que ele ou meu pai dizem, vira lei entre os outros empresários, me fascina o poder que eles têm sobre os outros.

O engraçado, é que a Violetta não parece ter nada haver com o pai dela, a não ser seus traços físicos, que também não são muitos, mas perceptíveis. Ela parece ser mais frágil? Indecisa? Não sei ao certo.

— O que você tanto olha em mim? – perguntou arqueando sua sobrancelha.

— Nada. – sorri. – Vamos voltar?

***

— Só isso? – perguntei quando ela acabou de me explicar o conteúdo, a mesma parecia cansada. – Acho que consigo um seis na prova. – ela fez uma cara feia para mim, como se passar quatro horas da sua tarde me explicando a matéria não valesse de nada, dei risada. – Brincadeira, brincadeira, eu aprendi.

— Sério? – assenti. – Sério mesmo?! – assenti de novo dando risada. – Obrigada Senhor! – ela disse juntando as mãos, como se rezasse, enquanto dava o seu maior sorriso, olhando para mim. Ela tem um sorriso lindo, pena que não a vejo sorrindo muitas vezes, o que é uma pena. – Não é tão difícil, quanto parece.

— Não mesmo. – murmurei.

— Estou exausta. – Violetta disse afundando a cabeça nos braços que estavam sobre a mesa. – Mas pelo menos você aprendeu. O meu esforço não foi em vão.

— Que horas são? – perguntei e ela me mostrou o pulso, onde estava seu relógio. Caraca... Cinco horas. – A gente podia tomar um suco.

— Olha, eu vou aceitar, porque não aguento mais ficar aqui.

Guardamos nossos materiais, e saímos da biblioteca, entre gargalhadas, porque ela é desastrada e tropeçou na cadeira, Melina, a mulher que tomava conta da biblioteca, deu risada também, e foi o que bastou para a Violetta ficar da cor de um pimentão, eu ri ainda mais.

Infelizmente, quando atravessamos o portão da escola, demos de cara com Ludmila e Natália sentadas em um dos bancos que ficavam próximos da escola. Revirei os olhos. Natália me deu seu olhar mais sombrio, antes de voltar a conversar com Ludmila, que estava de costas, e não nos viu.

— Isso é estranho. – Violetta resmungou quando chegamos a frente ao barzinho da Jú, para tomar um suco.

— Nem me fale. – murmurei, sabendo que ela se referia a Natália.

— Você não sente falta dela? – ela perguntou do nada, enquanto nos sentávamos, e eu olhei confuso, e ela corou novamente. – Desculpe, não é da minha conta. – colocou a mochila em outra cadeira.

— Não sinto falta dela. – respondi calmo.

Ela abriu a boca para dizer algo mais, mas a Jú, a dona do estabelecimento apareceu, perguntando o que queríamos.

— Eu quero um sorvete de morango. – ela disse travessa, parecendo criança.

— Pensei que tomaríamos suco. – falei confuso.

— Agora estou com vontade de tomar sorvete. Deveria tomar também, o de morango é maravilhoso e hoje o dia está quente.

— Sou alérgico. – respondi rindo.

— A sorvete? – ela perguntou fazendo uma careta.

— Não Violetta. – dei risada mais uma vez. – A morango.

— Ah... Que pena... – fez biquinho.

— Eu vou querer sorvete de chocolate Jú. – ela sorriu para nós e se retirou.

— Imagino como sua infância foi chata. – ela disse brincando com o guardanapo e eu não entendi. – Fala sério, imagina que triste uma criança não poder comer morango. – suspirou.

— Pela sua expressão, aposto que é sua fruta preferida.

— Não, é carambola, uma pena que na nossa cidade não vende muito. – murmurou. – Mas a minha diversão, quando eu criança, era comer morango com chocolate assistindo Cinderela, enquanto meu pai trabalhava no escritório e minha irmã brincava de tomar chá com as bonecas.

— Temos pontos em comum. Eu gosto de chocolate, e meu pai também vivia enfurnado no escritório quando eu era criança. – sorriu. – As únicas diferenças, é que eu assistia documentários de economia, e você Cinderela, e bom, não comia morangos.

— Que chato. – ela disse com um brilho nos olhos. – Pelo menos o chocolate te consolava.

— Pelo menos. – ri.

Nossos sorvetes chegaram, e começamos a comer em silêncio, mas não um silêncio desconfortável, pelo contrário, estávamos descontraídos. Ela parecia uma criança com aquele sorvete, em todos os sentidos. O jeito que ela comia, sendo a mesma desastrada, derrubando às vezes na própria blusa, me fazendo ri e ela corava de vergonha.

— Estava uma delícia. – ela disse lambendo os lábios, quando terminou, eu lhe ofereci um guardanapo para limpar as mãos que estavam sujas.

— Percebi. – ri.

Paguei os dois sorvetes, mesmo ela reclamando e dizendo que eu não preciso pagar nada pra ela, e que ela tinha dinheiro também e blá, blá, blá, mas quando eu falei que era uma questão de ser cavaleiro, ela ficou quieta, mas eu sabia que ainda estava toda irritadinha.

— Vai me ignorar mesmo? – perguntei enquanto andávamos em direção a algum lugar.

— Vou. Você é um machista. – acusou.

— Não me diga que você é feminista? – perguntei rindo.

— Claro que não, só não sou a favor dessa palhaçada de pagar as coisas para mim.

— E eu sou a favor de ser cavaleiro, e também sou apaixonado por literatura e seu tema romantismo, então me inspiro nos caras daquela época. E não. Não sou machista.

— Não me admira você ser tão bom em literatura. – resmungou desfazendo a cara de irritada, dando lugar a uma Violetta pensativa.

— Não sou só bom em literatura. – me gabei.

— Realmente não. É bom em história, geografia, química, e você acredita que a professora de física disse que você é muito bom também? – perguntou.

— Sério? – perguntei surpreso.

— Sim, ela me chamou pra ficar um pouco na sala, e disse que meus resultados tinham sido ótimos, assim como os seus. – sorriu de lado, mas logo ficou séria.

— Que foi?

— Por que você foi tão bem em física, e não sabia nada sobre trigonometria? Porque física é bem mais difícil do que matemática.

— Eu me preparei bastante nas provas de física, e me esqueci de matemática, então, eu não sabia nada, até você me explicar. – cocei a nuca, falando a verdade. – Mas porque a professora disse dos seus resultados e não me falou dos meus?

— Falei pra ela que isso aumentaria o seu ego. – ela disse como se fosse à coisa mais natural do mundo.

— Meu ego? – segurei o riso. – E por acaso isso também não aumenta o seu?

— O meu? – riu. – Com certeza não. Eu estudo, porque eu gosto, e também porque não tenho nada de melhor para fazer. – apertou as mãos. – O resultado vem fácil pra mim.

— Eu estudo porque preciso, e eu gosto também, mas acho que menos do que você. E bom, não aumenta o meu ego em nada, talvez o ego de meu pai, mas o meu não.

— Hm... – ela disse parecendo não acreditar, mas era verdade o que eu disse. – Porque está indo em direção a minha casa também?

— Estamos indo para sua casa? Pensei que estávamos andando sem rumo. – falei e ela riu.

— Bobo. – murmurou com um sorriso. – Minha casa está a cinco segundos daqui. – ela disse apontando para a grande casa na rua.

— Que pena. – falei sem pensar.

Chegamos em frente ao grande portão de madeira, e eu parei de frente para a Violetta.

— Gostei do dia. – ela disse com a voz baixa, ficando tímida novamente, e eu sorri.

— Digamos que eu também. – falei e ela encarou os meus olhos com mais segurança.

— Então é isso. – sorriu minimamente.

— É isso. – concordei.

Ela se aproximou para me dar um beijo na bochecha, mas recuou repentinamente, me olhando sem graça, e eu entendo, até ontem ela morria de raiva de mim, e hoje, bom, hoje foi hoje. Ainda quero entender o porquê dela ter ficado com raiva de mim, depois da festa, eu só pedi para ela esquecer a minha tentativa de beijá-la, para recomeçarmos, quem sabe como amigos?

Coloquei uma mecha do seu cabelo atrás da orelha, e me aproximei de seu rosto, beijando delicadamente a pele macia de sua bochecha, sua respiração falhou e eu me afastei, ela me olhou corada, e subitamente senti meu coração bater de forma estranha.

— Tchau León. – ela disse baixo, como se estivesse perdendo a voz.

— Tchau Violetta – minha voz saiu um pouco de nada, mais alta que a dela.

Ela me olhou pela última vez, e foi como se toda eletricidade do mundo passasse pelo o meu corpo, e tenho a sensação dela ter percebido isso. Sorri, mas ela fugiu, me dando as costas e fechando o grande portão de madeira rapidamente, enquanto eu continuava a sorrir, como um idiota, suponho.